Fernando Serapião
Parque del Este, Caracas
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- 23 de Outubro de 2008. Visitas: 29.106
No final de uma manhã de julho, apesar do feriado nacional, encontramos rapidamente uma vaga para estacionar o carro no bolsão pago dentro do parque, situado na extremidade sudeste. O outro local para estacionamento existente, que também tinha capacidade para cerca de 500 veículos, ficava no extremo oposto. Atualmente, está desativado e é utilizado para práticas desportivas. Bem-vindos à obra mais importante de Roberto Burle Marx fora do Brasil. Além do valor cultural em si, o parque del Este, com 77 hectares, também é popular e ocupa uma área nobre, fazendo as vezes de uma espécie de Ibirapuera de Caracas. “Esta era uma das estações do trem que iria circular dentro do parque, rente ao perímetro, interligando os dois estacionamentos ao restante do espaço”, anunciou o meu guia, ao referir-se à primeira construção que avistamos. Trata-se de um prédio de aço e tijolos, que cria uma espécie de pórtico de entrada. “Apesar da placa, nunca funcionou”, ele completa, apontando a comunicação visual.
Enrique Blanco, meu guia, é caraquenho. Ele conhece o parque como poucos: mesmo com formação em engenharia química, Blanco possui vida profissional intimamente ligada à paisagem. “Quando estava no início da faculdade, comecei a trabalhar como desenhista, pois precisava de um salário. Casualmente, o escritório era de paisagismo.” O tal escritório era chefiado pelo arquiteto chileno Fernando Tábora e pelo inglês John Stoddart, conhecidos paisagistas e colaboradores de Burle Marx no Brasil. Juntamente com os brasileiros Júlio Pessolani e Maurício Monte, eles participaram do desenho do parque del Este e de outros projetos na Venezuela. (2) Após o parque, Tábora e Stoddart (este o único ainda vivo, atualmente morando na capital do país) estabeleceram-se em Caracas. “Fui ficando. Especializei-me e fui convidado a ser sócio do escritório”, continua a relembrar Blanco. Hoje, ele dirige o Taller Integral del Paisaje, um dos maiores escritórios de paisagismo de seu país. “Praticamente todos os paisagistas na Venezuela são discípulos de Burle Marx”, afirma.
Quantos projetos?
Mas o parque del Este não foi o primeiro nem o único trabalho do brasileiro no país. A lista oficial de projetos de Burle Marx na nação vizinha chega ao incrível número de 33, realizados em apenas cinco anos, entre 1956 e 1961. (3) Esse é o motivo para que parte da equipe tenha se estabelecido ali. “O primeiro projeto de Burle Marx na Venezuela foi o Club Puerto Azul”, lembra a paisagista María Gabriela Ochoa, que compõe a equipe vencedora da proposta de reabilitação do espaço. Trata-se de um clube de praia privado, situado a cerca de 50 quilômetros de Caracas, criado em 1956. Para esse trabalho, Burle Marx foi contratado, graças a sua já crescente fama internacional, pelo investidor Daniel Camejo. Há cerca de dois anos, uma forte chuva inundou parte do clube, descaracterizando-o. Por isso, e para atualizar o uso (adequando-o a crianças, jovens e idosos), é que foi realizado o concurso de recuperação do espaço.
Burle Marx fez também diversos jardins privados. Dos 33 projetos venezuelanos, 14 são residências. “Eu conheço pelo menos seis casas”, afirma Blanco. Mas não faz parte da lista de trabalhos do brasileiro e de sua equipe o plano diretor de uma grande área de urbanização localizada na zona sudeste da capital federal. O tal bairro chama-se La Lagunita e é marcado por avenidas estruturais com generosas ilhas centrais e largas calçadas, tudo arborizado. “O projeto final não é de Burle Marx”, garantiu Blanco.
Outro projeto de Burle Marx em Caracas são os jardins do parque Central, que, ao contrário do que o nome parece indicar, não se refere a uma área verde. Trata-se de um conjunto de edificações que agrega prédios residenciais e comerciais com galerias de lojas no embasamento. “É quase Blade runner”, lembrou-me a arquiteta Elisa Silva, quando nos encontramos no Museu de Arte de Caracas, que também faz parte do complexo. Elisa dirige a Fundación Espacio, uma organização independente de pesquisa arquitetônica. Os marcantes jardins de Burle Marx estão entre as torres, nos pátios internos.
O jacaré
Continuando o tour pelo parque del Este, atravessamos e seguimos em direção a uma das áreas mais interessantes do projeto. Trata-se dos fossos de concreto aparente com desenhos curvilíneos - de traço típico de Burle Marx - que abrigam animais de porte diminuto, como, por exemplo, pequenos jacarés. Seguimos a rota estabelecida pelo paisagista-guia e percorremos toda a porção leste, com vegetação mais densa e caminhos sinuosos. Logo avistamos o viveiro de pássaros, construção de laje de concreto. Apesar da breve descrição, seria um exagero compará-la à marquise do Ibirapuera. Diferentemente do parque paulistano (no qual a proposta do paisagismo de Burle Marx nunca foi implantada), no de Caracas, apesar da equipe multidisciplinar que o realizou, o que impera é o paisagismo. As construções dos quiosques, restaurantes, sanitários etc. foram feitas pela equipe do paisagista e pelo arquiteto venezuelano Guinand Sandoz (4) (coordenador do projeto e autor do desenho do planetário). Contudo, são neutras, sem expressão arquitetônica forte.
Continuando nosso tour, passamos ao lado do planetário e seguimos serpenteando os caminhos burle-marxianos rumo ao norte, ou seja, em direção ao Átila - impressionante cadeia montanhosa que limita a cidade. “Como sempre fazia em seus projetos, Burle Marx pesquisou a mata nativa da Venezuela e colocou no projeto do parque diversas espécies que não tinham uso comercial”, afirma Blanco. Para que isso ocorresse, no decorrer do trabalho o brasileiro coordenou a criação de um viveiro de plantas a fim de implantar sua proposta, que foi por ele acompanhada. “Atualmente, é muito fácil encontrar várias dessas espécies à venda nos viveiros da cidade”, relata o paisagista. Uma curiosidade: a maior parte dos viveiros de Caracas é de propriedade de portugueses.
Pátios de vegetação
Uma das partes mais interessantes do parque é a extremidade noroeste. Ali se estabeleceu uma espécie de fronteira entre a cidade e a área verde. Isso porque, dentre os bairros vizinhos, naquele trecho está a urbanização mais densa, chamada Altamira. No norte, o parque é delimitado pela avenida Francisco de Miranda, uma importante via estrutural, onde também se localiza o acesso do metrô. Por isso, Burle Marx criou ali uma espécie de área de transição, idealizando um paisagismo edificado, com muros, platôs, escadas, jardineiras etc. que marcam o acesso principal de pedestres no parque. Impressionantes são os dois pátios, que criam dois enormes ambientes fechados através de quatro paredes com cerca de quatro metros de altura.
O primeiro deles é internamente revestido com cerâmica pintada e quedas d’água (atualmente desligadas), no mais eloqüente estilo Burle Marx. No outro, hoje denominado pátio dos Amantes - “mas que era chamado de pátio Vermelho”, lembra Blanco -, a alvenaria é pintada de vermelho-sangue. Esse é o momento em que o brasileiro talvez mais se aproxime do partido clássico de Luis Barragán, paisagista lendário da América Latina, conhecido por seus muros de cores vibrantes.
Feridas abertas
Deixando os pátios para trás, tomamos a direção sul, para fechar o percurso. Do ponto de vista da vegetação, uma das áreas mais interessantes é o jardim de cactos, restaurado há poucos anos por Blanco. “Não parece um desenho de Burle Marx?”, ele me perguntou.
O projeto do parque foi iniciado em 1961 e finalizado em 1964. Por problemas de crédito no desenho - ou seja, a famosa fogueira das vaidades que costuma cercar a autoria de projetos -, ocorreu uma ruptura entre o famoso criador e a equipe que inicialmente trabalhava no Rio de Janeiro e se estabeleceu em Caracas. “O nome de Burle Marx era proibido dentro do escritório”, confessa Blanco. Décadas depois, todos pensavam que as feridas estavam fechadas. O paisagista brasileiro foi convidado para uma homenagem em Caracas, numa espécie de reconhecimento geral ao seu talento e dedicação ao projeto do parque preferido entre os caraquenhos, que recebe, por semana, mais de 5 mil visitantes. Mesmo com idade já avançada, ele pegou um avião e compareceu à abertura da exposição. Quando o brasileiro entrou na mostra e viu seu nome ao lado dos antigos colaboradores, com o mesmo peso, fez um escândalo. Saiu do local e avisou em tom ameaçador: “Se não mudarem isso, eu não entro nesta sala”. Rapidamente os créditos foram alterados.
Antes de ser parque, a área era plana e ocupada por uma antiga fazenda de café. Na porção oeste, com grandes gramados, fica mais evidente que o projeto criou uma geografia artificial, nova, composta por morrotes. “Assim, a paisagem ganha outro interesse”, lembra Blanco.
Seguimos o traçado sinuoso, no limite oeste, que é utilizado para caminhadas e corridas. Enquanto andávamos e Blanco explicava um detalhe sobre uma espécie nativa, um esportista que corria com a mulher deu um grande encontrão no paisagista e disse: “Desculpe-me, desculpe-me”. Ao olharmos assustados, vimos o sorriso do suposto desastrado: era um arquiteto amigo de Blanco, que o reconhecera de longe. Blanco fez uma rápida apresentação e explicou que estava mostrando o projeto de Burle Marx para um brasileiro. O esportista amador seguiu pela pista, dizendo ao amigo: “Temos que cuidar disto; não podemos deixar que mudem essa maravilha!”. Ele se referia às recentes polêmicas em torno do parque.
Polêmicas ao sul
Terminando o giro pelo parque del Este, na última parte do trajeto avistamos alguns lagos que estão próximos da divisa sul, definida por uma via expressa que interliga as zonas oriental e ocidental de Caracas. E é justamente ali que estão as duas polêmicas propostas que envolvem o parque. A primeira diz respeito à réplica de um barco. A história é curiosa. Sem fazer parte do projeto original, desde a década de 1970 havia no local um modelo da caravela do descobridor da América, Cristóvão Colombo, que virou atração turística. Podia-se entrar na nau, que era um pequeno museu. Abandonada com o tempo, a embarcação está em péssimo estado de conservação. Por isso, alguém resolveu tirá-la de lá e colocar em seu lugar o barco Leander, de Francisco de Miranda, que encabeçou a primeira insurreição visando a independência da Venezuela.
Traduzindo em questões históricas e ideológicas, sairia de cena o conquistador e entraria o herói nacional. Para nós, seria o mesmo que trocar Pedro Álvares Cabral por Tiradentes. Para a construção da nova réplica, um trecho do parque e do estacionamento foram fechados com cerca aramada, a fim de criar espaço para o canteiro de obra. Com isso, o trajeto da pista de cooper foi interrompido. No início de julho, não se sabe se por questões ideológicas ou esportivas, os freqüentadores do parque arrebentaram os portões para que fosse mantido o trajeto original. Agora, há uma negociação entre o poder público e a sociedade civil.
A outra Carlota
Contudo, ainda mais polêmico do que a disputa entre os barcos de Colombo e Miranda é o destino de La Carlota. Não, nada a ver com Carlota de Macedo Soares, a idealizadora do aterro do Flamengo. La Carlota é um aeroporto militar, vizinho ao parque, onde fica ainda uma das residências oficiais do presidente da República, atualmente não utilizada (a localização da casa presidencial é estratégica: a proximidade com a pista é muito adequada para fugas, tal como ocorreu com o último ditador do país, que escapou com uma mala cheia de dinheiro). Situado do outro lado da via expressa que limita o parque del Este, o aeroporto é usado por pequenas aeronaves militares. Até pouco tempo atrás, ele também servia para pousos e decolagens de jatos particulares de milionários. Essa prática foi proibida pelo governo de Hugo Chávez.
Ocorre que, desde os anos 1950, discute-se a mudança de uso de La Carlota. Antes mesmo da construção do parque, em 1954, a área chegou a ser cogitada para abrigar a Exposição Internacional de Caracas (Expo Caracas), cujo plano geral era de Alejandro Pietri. (5) Nesse projeto, Pietri também desenharia o parque, que seria interligado a La Carlota através de passarelas sobre a autopista. Três anos mais tarde, a região foi palco de uma proposta de Vila Olímpica, criada por Gustavo Wallis. Depois disso, fora os trabalhos acadêmicos, estão contabilizadas dez propostas oficiais para o local, com usos o mais diversos possível, de viveiro a centro tecnológico. Atualmente, um novo grupo de profissionais foi encarregado de apresentar uma proposta para o local. “Na realidade, o principal ponto da polêmica é que todo arquiteto de Caracas tem um projeto para a área”, garantiu-me um integrante da equipe.
Contudo, a comunidade arquitetônica de Caracas está preocupada com a questão ideológica, pois o projeto foi entregue à diretora da faculdade de arquitetura, que possui ligações com o governo. A proposta está sendo desenvolvida pela Texne Consultores de Arquitetura, uma empresa universitária ligada à Escola de Arquitetura Carlos Raúl Villanueva e à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Central da Venezuela. “Mas a maior parte dos profissionais que estão realizando o trabalho não é chavista. Das 21 pessoas, apenas quatro têm ligações governamentais”, garantiu-me uma fonte ligada à equipe. “O aspecto técnico está em primeiro plano; não há questões ideológicas camufladas”, concluiu. “A cidade esperou 50 anos por isso: não podemos fazer qualquer coisa”, desabafa Bianco, que esperava ver no local uma ampliação do espaço de uso público.
Terminando o giro pelo parque, chegamos ao estacionamento. Antes de ser engolido pelo olho do furacão, que envolve política, ideologia e arquitetura, entro no carro e partimos. Afinal de contas, eu não tenho nada com isso. Ou será que tenho?
1 - Roberto Burle Marx, Arte & paisagem. Studio Nobel, São Paulo, 2004.
2 - Ana Rosa Oliveira, Bourlemarx ou Burle Marx?. Site Vitruvius: Arqtextos, junho de 2001.
3 - Flávio Motta, Roberto Burle Marx e a nova visão da paisagem. Nobel, São Paulo, 1984.
4 - José Luis Colmenares, Carlos Guinand Sandoz. Claderca, Caracas, 1989.
5 - Veja as propostas para La Carlota em www.planlacarlota.com
Edição 343 Setembro de 2008
conjunto à la Blade runner

