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Outro dia ganhei de um amigo um baralho. Apesar de ser do tipo mais usado no Brasil, de naipe francês - espadas, paus, copas e ouros -, não era um baralho comum: de origem austríaca, foi criado para amantes da arquitetura. Os naipes correspondem a alguns dos principais movimentos recentes: ouros é o prémodernismo; espadas, o modernismo; copas, o pós-modernismo; e paus, o desconstrutivismo. Enquanto as figuras - valetes, damas e reis - são destinadas aos personagens fundamentais de cada corrente, os números são compostos por prédios significativos. Exemplos? O rei de espadas é Corbusier, a dama de paus é Zaha Hadid, o valete de copas é Charles Jencks. Quem são os curingas? Derrida e o príncipe Charles. Nosso único representante, claro, é uma obra de Niemeyer: o Congresso Nacional é o cinco de espadas.
E como seria o equivalente nacional desse baralho? Vou dar uma sugestão. Para o período colonial, eu separaria o naipe de copas, que simboliza o clero - uma vez que as principais manifestações estavam então ligadas à Igreja e muitos dos arquitetos eram religiosos. Para o ecletismo, nada mais justo do que destinar ouros, por sua conexão com a burguesia financiadora de obras. E para o modernismo? Não dá para não separar a escola carioca da paulista. Os cariocas ficariam com espadas, que simboliza a nobreza, da origem aristocrática de Lucio Costa, Niemeyer e Affonso Reidy, e os paulistas com paus, dos camponeses, pensando em Artigas e seu Paraná.
Vou detalhar um pouco como seria a parte da escola fundamental, a carioca. O curinga seria, incontestavelmente, o enfant terrible Sérgio Bernardes. Acho que ninguém se oporia a ter como rei Lucio Costa, o articulador da arquitetura luso-brasileira com Corbusier. A única mulher nessa história, Carmen Portinho - na verdade uma engenheira - seria a rainha: sua atuação foi fundamental, à frente do Departamento de Urbanismo do Distrito Federal, que realizou, entre outros, o Pedregulho (de quebra, nas horas vagas, ela ainda construiu o prédio do MAM/RJ). Começando ou terminando o baralho, dependendo do jogo, o ás seria a capela de Pampulha (1942). Sem dúvida, Niemeyer é o ás da turma. Daí para a frente, eu daria prioridade à linha de Costa e deixaria de lado a vertente mais corbusieriana.
A carta nove eu destinaria à colônia de férias do Instituto de Resseguros (1943), dos irmãos Roberto, que tinham luz própria. O Pedregulho (1947), de Reidy, seria o oito, que estaria alinhado pelo edifício Ceppas (1952), de Jorge Moreira - o sete de espadas. A casa George Hime (1949), em Petrópolis, projeto de Henrique Mindlin, ficaria com o seis. O cinco iria para a residência Hélio Fraga (1951), de Carlos Leão; o quatro para o conjunto de Paquetá (1947), de Francisco Bolonha; o três para a casa em Botafogo (1940) de Alcides da Rocha Miranda. E, novamente próximo do ás, o dois de espadas seria a igreja metodista de Ouro Preto (década de 1940), de José de Souza Reis, o Reis, para os íntimos. “Que carteado estranho”, observariam especialistas. “Tudo bem, é uma escolha pessoal. Mas e esse Reis?” O espanto não seria sem motivo. Apesar de graciosa e delicada, a igreja nunca foi publicada nos periódicos da área, não consta dos manuais clássicos nem dos mais completos estudos sobre a arquitetura moderna brasileira. Reis é tido como figura secundária: nenhuma obra sua aparece no Brazil builds nem no livro de Mindlin; Yves Bruand não o cita e Segawa o faz só de raspão, como co-autor de algumas obras de infantes de Niemeyer. (2)
Fora da equipe
Um dos grevistas da Escola Nacional de Belas-Artes, que protestaram contra a saída de Lucio Costa da direção da instituição, Reis se formou na turma de 1932. Ele começou a vida profissional como estagiário do escritório de Costa e Carlos Leão, juntamente com Niemeyer, que, apesar de mais velho, graduou-se dois anos depois. Em 1936, por ocasião da visita de Le Corbusier ao Brasil, Costa dirigiu dois ateliês de projeto que o mestre franco-suíço assessorou: um destinado à Cidade Universitária, (3) outro ao Ministério da Educação e Saúde. (4) Por coincidência (ou não?), as figuras que posteriormente se destacaram como o primeiro escalão da escola carioca - Costa, Reidy, Moreira, Niemeyer e Leão - integravam as duas equipes. Quem esteve em apenas uma ficou em segundo plano: Ângelo Bruhns, Firmino Saldanha, José de Souza Reis e o engenheiro Paulo Fragoso no grupo da Cidade Universitária, Ernani Vasconcellos no do MES.
Claro que os integrantes do MES foram favorecidos, não só pelo aprendizado no desenvolvimento do projeto, mas também pelo sucesso do prédio. O caso de Reis, que ficou de fora da equipe do MES, é cruel: ele tinha, em tese, as mesmas condições que são sempre atribuídas como justificativas para a entrada de Niemeyer no grupo. Era estagiário de Costa e tinha realizado com Niemeyer o projeto moderno que ficou com o segundo lugar no concurso do Ministério da Fazenda (vencido por Enéas Silva). Foi com Niemeyer - amigo fraternal de toda a vida - que idealizou seus primeiros projetos conhecidos: além da já citada proposta para o Ministério da Fazenda (1936), com participação de Jorge Machado Moreira, o Instituto Nacional de Puericultura (1937), com Olavo Redig de Campos. (5)
Não se sabe bem como, mas Reis e Redig de Campos, depois de atuarem aparentemente em parceria direta com Niemeyer, são lembrados como colaboradores (ou seja, em plano secundário) na Obra do Berço (1937), considerada o primeiro projeto construído do famoso arquiteto. No final do mesmo ano, Reis foi convocado por Costa, juntamente com Paulo Barreto e Carlos Leão, para compor o elenco inicial de colaboradores do órgão de patrimônio, na época denominado Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), hoje Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Meses mais tarde, entraram na equipe Niemeyer, Renato Soeiro e Alcides da Rocha Miranda.
Pequena joia
Nesse ínterim, o governo de Minas Gerais solicita ao patrimônio o projeto de um hotel em Ouro Preto, e Carlos Leão é escolhido para fazer o desenho. No livro Moderno e brasileiro: a história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60), (6) Lauro Cavalcanti detalha o episódio, marcante para a definição da postura da equipe frente à intervenção em sítios históricos. Num primeiro momento, o trabalho parece agradar Rodrigo de Melo Franco, diretor do Sphan. Mas, aparentemente por uns cinco meses, há celeuma na equipe. Lucio Costa, que estava em Nova York com Niemeyer fazendo o projeto do pavilhão brasileiro para a feira de 1929, apresentou objeções à proposta do antigo sócio. Ele “transmite, em carta ao diretor, suas apreensões e, coincidência ou não, Niemeyer retorna ao Brasil e é encarregado, por Rodrigo, de realizar novos estudos para o hotel (depoimento de José de Souza Reis; arquivo Iphan, s/d)”, escreve Cavalcanti.
Niemeyer propõe o hotel semelhante ao que conhecemos, só que coberto por laje e grama. Em outro trecho do depoimento de Reis arquivado no Iphan e destacado por Cavalcanti, Costa “reprovava, entretanto, a solução do terraço-jardim e recomendava, expressamente, a adoção da cobertura de telhas, que deveria, a seu ver, atingir a área dos pequenos terraços dos apartamentos, com treliças de madeira na fachada”. O grupo de arquitetos do Sphan se divide, mas prevalece a solução de Niemeyer, que em seguida, por desdobramento desse processo, foi convidado pelo prefeito de Belo Horizonte para criar Pampulha e deixou de ser funcionário do patrimônio.
Para Cavalcanti, o episódio leva Leão ao ostracismo, enquanto crescem os que apoiaram o projeto de Niemeyer. Em particular, Reis foi designado pelo órgão para dois projetos em Ouro Preto. O primeiro, e mais famoso, são as instalações do Museu da Inconfidência na antiga Casa de Câmara e Cadeia, para Cavalcanti “o mais destacado prédio civil de Ouro Preto”. O museu, segundo Lucio Costa, “esconde uma obra-prima arquitetônica concebida por José de Souza Reis, que soube, com um mínimo de meios e extrema sensibilidade e apuro, transformar uma simples sala num sóbrio ‘antimausoléu’, digno da memória dos inconfidentes”. (7)
O segundo projeto é a igreja metodista, o nosso dois de espadas. Situada em área próxima do museu, a diminuta construção fica junto ao alinhamento, mas, ao contrário do casario vizinho e suas águas inclinadas para a rua, adota o telhado borboleta, consagrado no desenho da casa chilena de Corbusier. As aberturas estão escondidas por treliça de madeira, situadas acima da linha da porta, que divide a porção inferior da fachada com um grande painel de alvenaria pintada de branco. Indubitavelmente, seja pela escala, por materiais ou cores, trata-se de uma pequena joia de inserção no tecido histórico, que, no entanto, faz-se reconhecer de imediato como uma obra moderna. A aplicação do telhado corbusieriano - comum em obras isoladas - foi feita com maestria.
Reis e Rocha
Pouco depois, Reis firma parceria temporária com Alcides da Rocha Miranda, que - ao lado de Niemeyer nos anos 1930 - foi seu mais frequente colaborador em encargos. Rocha Miranda é mais conhecido e sua obra já foi estudada. (8)
Colegas de faculdade e no patrimônio, Reis e Rocha Miranda fizeram ao menos três projetos juntos na segunda metade dos anos 1940. O primeiro foi para o concurso nacional para a sede do Jockey Club (1946) no Rio de Janeiro, conquistando o segundo lugar (posteriormente, o prédio do clube foi construído em outro local segundo proposta de Lucio Costa). “É sensível a influência do prédio do Ministério da Educação e de Le Corbusier”, escreveu Rocha Miranda sobre o trabalho. No ano seguinte, a dupla realizou o desenho do Centro Educativo de Arte Teatral (1947), em Salvador, a convite de Diógenes Rebouças, arquiteto-chefe do plano urbanístico da cidade. O programa foi elaborado por Anísio Teixeira, responsável pelo Projeto de Educação para Arte, que se procurava implantar na capital baiana. “A forma curva está ligada ao imaginário da Bahia”, afirmou Rocha Miranda, referindo-se à cobertura em casca. Nenhum dos dois foi construído.
O terceiro projeto testemunha o trabalho em dupla. Trata-se de um prédio em São Paulo, também um tanto quanto esquecido: é o antigo Instituto do Professor Primário (IPP), de 1951, implantado na entrada do campus da Universidade de São Paulo. (9) O programa também fazia parte do ideário de Anísio Teixeira: buscava-se colocar em prática o sistema Platoon, que mesclava o ensino de disciplinas tradicionais com atividades paralelas. O IPP, de certa forma, estabelece um contato - Teixeira é a ponte - com os edifícios para o ensino público realizados pelo Convênio Escolar. Tais projetos, chefiados por Hélio Duarte (antigo colaborador de Teixeira na Bahia), elevam a dinâmica do desenvolvimento do espaço escolar, que culmina nas propostas de Artigas e no movimento arquitetônico paulista. Contudo, perdeu-se o possível ponto de contato que a edificação poderia estabelecer entre as escolas paulista e carioca, potencializado pela presença de Rocha Miranda como professor da FAU/USP. O IPP, que também tinha cobertura em casca, foi parcialmente construído e, no início da década de 1980, parcialmente demolido. O que resta do conjunto é hoje ocupado pela Faculdade de Educação (Feusp).
No mesmo ano do projeto, Lucio Costa escreveu o célebre texto “Muita construção, alguma arquitetura e um milagre”. (10) Em trecho que relembra os pioneiros, ele incluiu Reis no fim da turma que fazia “alguma arquitetura”. Diz Costa, ao nomear os arquitetos modernos do Rio, que “ainda a primeira fornada dos projetos do autor deste escorço, de Carlos Leão, Jorge Moreira, José Reis, Firmino Saldanha, seguidos da iniciação de Oscar Niemeyer, Alcides da Rocha Miranda, Milton Roberto, Aldary Toledo, Ernani Vasconcellos, Fernando Brito, Hélio Uchoa, Hermínio Silva e todos os demais”.
Ainda na década de 1950, Reisparticipou do concurso do Monumento Nacional aos Mortos na Segunda Guerra Mundial (1956), vencido por Marcos Konder Netto e Hélio Ribas Maninho.
Modelo para Brasília
Como desdobramento dos contatos com Teixeira e Niemeyer, Reis foi chamado para criar a escola-parque SQS 308 (na Entrequadra Sul 307/308), em 1958. O edifício possui grande valor simbólico, pois, juntamente com a escola classe (de Niemeyer) e o jardim de infância (de Stélio Seabra), na mesma quadra, foi construído como modelo para as demais superquadras. Na nova capital federal, Reis desenhou ainda o colégio Elefante Branco (1959) e o observatório meteorológico (1961).
Reis integrou o comitê de redação do primeiro período da revista Módulo (do número 1 ao 39, em 1955/65). É nessa publicação e na revista do Sphan que aparecem mais referências sobre sua obra. A última de que se tem notícia é a ampliação do Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro (1980), um ambicioso edifício sobre o existente. “Isto parece-nos possível com a construção de uma grande estrutura metálica, de modo a obter-se, apesar de uma presença ostensiva, a necessária harmonia com o edifício existente”, ele escreveu sobre o desenho, que também não saiu do papel.
Reis morreu pouco depois, em 1986. Niemeyer, que inúmeras vezes se refere a ele com apreço e lealdade, escreveu um necrológio no Jornal do Brasil. Antes que ele entre para a história apenas como “o amigo de Niemeyer”, seria interessante estudar profundamente seus trabalhos. As cartas estão na mesa.
1 - É assim que se refere a ele o pesquisador Ricardo Rocha no trabalho “José de Souza Reis e o Sphan: da inconfidência à glória”, Anais do 7° Seminário do Docomomo Brasil, Porto Alegre, outubro de 2007.
2 - Goodwin, Philip. Brazil builds: architecture new and old 1652-1942. Nova York, Moma, 1942; Mindlin, Henrique. Modern architecture in Brazil. Nova York, Reinhold, 1956; Bruand, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo, Perspectiva, 1981; Segawa, Hugo. Arquiteturas no Brasil 1900-1990. São Paulo, Edusp, 1997.
3 - A equipe do projeto da Cidade Universitária, liderada por Lucio Costa, era formada por Affonso Reidy, Ângelo Bruhns, Firmino Saldanha, Jorge Moreira, José de Souza Reis, Oscar Niemeyer, Paulo Fragoso e Carlos Leão.
4 - A equipe do Ministério da Educação e Saúde, também liderada por Costa, era composta por Reidy, Moreira, Niemeyer, Leão e Ernani Vasconcellos.
5 - Segre, Roberto e Barki, José. “Niemeyer jovem: o amor à linha reta”, PROJETO DESIGN 354, novembro de 2008.
6 - Cavalcanti, Lauro. Moderno e brasileiro: a história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2006.
7 - Costa, Lucio. Prefácio do livro Rodrigo e seus tempos. Rio de Janeiro, Fundação Nacional Pró-Memória, 1986.
8 - Sobre a obra de Alcides da Rocha Miranda, leia: Frota, Lélia Coelho. Alcides da Rocha Miranda: caminhos de um arquiteto. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 1993; Nobre, Ana Luíza. “O passado pela frente: a modernidade de Alcides da Rocha Miranda”, dissertação de mestrado na PUC/RJ, Rio de Janeiro, 1997.
9 - Herbst, H. “O Instituto do Professor Primário”, em Tirelli, Regina. O restauro de um mural moderno na USP: o afresco de Carlos Magano. São Paulo, CPC-PRCEU-USP, 2001.
10 - Costa, Lucio. Registro de uma vivência. São Paulo, Empresa das Artes, 1995.