Rafael Moneo

"Resisto muitíssimo à ideia de entender o mundo apocalipticamente"

Antes mesmo de ser traduzido para o português, (1) o livro Inquietação teórica e estratégia projetual, de Rafael Moneo, era peça obrigatória para os estudiosos do assunto. No volume, Moneo analisa de forma simples e objetiva a produção de oito arquitetos (ou equipes) da contemporaneidade. O resultado é fruto das aulas que ele ministrou no início dos anos 1990 em Harvard. “Sempre acreditei que as escolas de arquitetura deveriam prestar atenção no cenário contemporâneo, nos arquitetos que ainda não passaram ao Olimpo dos manuais”, explica o espanhol na abertura. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, (2) Moneo afirmou que, se fizesse nova seleção, incluiria Kazuyo Sejima e Steven Holl. Sem querer contrariá-lo, na minha lista ele seria o nono. Utilizando seu método - primeiro apresentar o autor e depois analisar algumas obras mostrando imagens -, vamos brincar de ser Moneo, navegando por sua própria obra.

Dois aspectos fundamentais marcam o início da obra de Rafael Moneo: a influência de soluções consagradas pela arquitetura orgânica do norte da Europa e o debate intelectual dos italianos.

Quando ele estudou arquitetura em Madri, nos anos 1950, a cena espanhola estava em plena mudança: depois de décadas reprimida por razões políticas, a arquitetura moderna dava sinal de vida. Os principais protagonistas desse processo, entre outros, eram José Antonio Coderch, Miguel Finac, Alejandro de la Sota e Francisco Javier Sáenz de Oiza. Com mais ou menos intensidade, a influência que todos sofriam passava pela arquitetura orgânica do norte da Europa, que se potencializou no pós-guerra. Quando era estudante, de 1956 a 1961, Moneo trabalhou com Sáenz de Oiza, que nesse período realizou suas primeiras obras interessantes, tal como a Cidade Branca (1961/63), em Palma de Maiorca, que denota a ascendência de arquitetos nórdicos.

Para alimentar ainda mais o viés da linha orgânica, depois de formado Moneo viajou para a Escandinávia, onde se encontrou com Alvar Aalto e trabalhou por dois anos (1961/62) com JØrn Utzon. Este vivia período crítico: estava abandonando seu projeto mais importante, a Ópera de Sydney, por problemas no desenvolvimento e na tecnologia construtiva. Utzon tinha 43 anos, quase a metade da idade do espanhol.

Moneo alimentava o sonho de ser filósofo - que pode ser identificado até hoje na montagem intelectual que faz dos projetos. Foi seu pai, um engenheiro industrial que gostava de arquitetura, que o influenciou definitivamente na escolha profissional.

Após o período na Dinamarca, Moneo vai para a Itália, onde tem contato com o intenso debate intelectual. Com uma bolsa de estudos, mudou-se por dois anos para Roma. A verve crítica dos italianos fez da Itália um dos lugares de mais intensa discussão arquitetônica nos anos 1960. A análise da produção arquitetônica - que se reflete no livro recém-publicado no Brasil - está presente na obra de Moneo.

De volta a Madri, em 1965, Moneo recebe as primeiras encomendas como arquiteto e, ao mesmo tempo, regressa à universidade, agora como professor. Sua inquietude intelectual não o deixará nunca mais longe dos bancos escolares, com passagens pelo Institute for Architecture and Urban Studies e pela Cooper School, em Nova York, e por Princeton e Harvard. Entre o final dos anos 1960 e início dos 1970, Moneo ajudou a organizar pequenos congressos na faculdade, do qual participam arquitetos como Álvaro Siza, Aldo Rossi, Vittorio Gregotti e Peter Eisenman. Nesse período também começou a produzir textos, muitos deles publicados na Arquitectura Bis (1974/83), revista catalã que contestava a ditadura franquista e que ele ajudou a criar (juntamente com Oriol Bohigas e Ignasi de Solà-Morales).

Mesmo com influências formais e de elementos, Moneo não aceita a ideia de tipos defendida por Rossi. Talvez por isso, como acredita Alan Colquhoun, (3) a obra de Moneo se identifica mais pelos elementos do que pela forma global. Sua formação intelectual faz com que ele se remeta, a todo momento, à história da arquitetura, recente ou antiga. Na contramão dos arquitetos contemporâneos, Moneo diz estar “menos inclinado a empréstimos de outras disciplinas”. O tempo de maturação foi longo, mas valeu a pena: quando ele estava preparado, a Espanha foi redemocratizada e, em seguida, entrou para a Comunidade Europeia. A fase áurea do arquiteto corresponde a esse período, nas décadas de 1980 e 1990. O país cresceu e patrocinou um boom arquitetônico, no qual uma das maiores estrelas é Rafael Moneo.

1. Depois de projetar alguns edifícios pouco difundidos, (4) o primeiro destaque na obra de Moneo, criado quando ele tinha 35 anos, foi o Bankinter (1972/77). (5) O prédio possui co-autoria de Ramón Bescós. A chave do projeto - edifício administrativo de uma instituição bancária - foi a manutenção, proposta pelos autores, de um casarão eclético na porção frontal do terreno, voltada para o paseo de La Castellana, o principal eixo financeiro de Madri. A legislação da época previa que se apresentasse um plano volumétrico da quadra com a proposta inserida. Isso foi fundamental para o entendimento de Moneo acerca do entorno e a consequente adaptação da nova torre, que se submete à condição de coadjuvante, criando uma ligação entre os edifícios altos vizinhos e o casarão isolado, “contribuindo assim para consolidar o construído e se colocar como pano de ‘fundo’ do palacete”, como escreveu Moneo. As diagonais que aparecem no projeto, de viés pós-moderno, existem para que a vista dos vizinhos seja mantida. Polêmica levantada na época pôs em xeque a influência norte-americana (entre outras coisas, por Bescós ter estudado nos EUA, pela relação da volumetria com a escola de Chicago, pelas diagonais). Os pormenores lembram Aalto e o desenho dentado da janela evidencia a espessura dos tijolos.

2. Após o banco em Madri, Moneo voltou a utilizar a estratégia de criar um pano de fundo no projeto do Edifício de Previsión Española de Seguros (1982/88), em Sevilha, Espanha, defronte à Torre del Oro, uma construção histórica. Mas a relação com o passado não ficou somente no diálogo fundo-figura: o arquiteto trabalhou também com a sobreposição no Museu de Arte Romana (1980/86), em Mérida - uma de suas obras-primas. Mérida deu fama internacional a Moneo, que começou o desenho aos 43 anos. Situado em frente do anfiteatro romano da cidade, o museu foi construído sobre ruínas. Durante as escavações para a construção, foram encontrados traçados de vias e fragmentos de casas. O arquiteto mudou parte do projeto e criou um subsolo onde é possível observar os achados arqueológicos. Por outro lado, a própria composição do prédio possui elementos arquitetônicos e materiais recorrentes aos romanos, como arcos e tijolos. A edificação organiza-se por uma sequência de paredes paralelas que formam diversos ambientes - um enfilade. Contudo, o monumental espaço central e os diversos pisos deixam claro que não se trata de um edifício antigo.

O tempo de maturação de Moneo foi longo, mas ele deu sorte: quando estava preparado, a Espanha foi redemocratizada.

3. O passado voltou à baila na ampliação da estação ferroviária Atocha (1984/92), em Madri. Trata-se de uma antiga gare, de 1851, desenhada por Alberto del Palacio, um colaborador de Gustave Eiffel. Para ampliar a capacidade, Moneo foi convocado para criar uma nova estação, conectada ao metrô e com grande área de estacionamento. O projeto é marcado por novos volumes, que vão do puro caráter tectônico (a gare, sobretudo) até elementos tipológicos que dialogam com a construção do século 19 (o volume cilíndrico de acesso ao metrô, por exemplo). O interior do antigo terminal foi transformado em um grande jardim coberto. A construção histórica ganhou também uma nova torre de relógio e uma praça de acesso, rebaixada e protegida do movimentado nó viário. Mas Moneo não trabalha com o entorno, como se fosse “uma estrutura superior que não permite ser autossuficiente”. Em seus projetos, ele não pretende criar apenas uma continuação do existente, mas uma ideia que pode dialogar com a situação existente: “A intuição atua com liberdade”.

“Como criar uma cara?”, ele se perguntou em Murcia. A resposta: “O edifício será espectador, sem ser protagonista”.

4. No desenho da Fundação Pilar e Juan Miró (1987/92), em Palma de Maiorca, Espanha, Moneo se expressou de forma mais livre. O projeto contrapõe dois volumes principais. De um lado, fica um pavilhão ortogonal, implantado na cota mais alta e com cobertura em duas águas com calha central. Nesse espaço estão o centro de estudos e os serviços. O acesso se dá por ali, criando um percurso em direção ao ateliê que Miró usou, desenhado nos anos 1950 por Josep Lluís Sert. O diálogo não é com o passado longínquo, mas com a arquitetura moderna. Mais uma vez, a construção de um muro, em planos perfurados, surge na obra do espanhol. Para William Curtis, na fundação Moneo utiliza o mesmo artifício de Mérida, com “percurso organizado segundo uma rota que combina contrações e expansões repentinas”. (6) Do outro lado, o prédio da fundação é completado por uma construção irregular formada por 16 segmentos de reta - um “volume estrelado”, na palavras do autor. É ali que fica a galeria de exposições. A irregularidade do pavilhão e seu delicado acerto com a topografia não são, contudo, atribuídos por Moneo à influência da arquitetura do norte da Europa, mas “ao espírito de Miró - fragmentado, incompreensível”.

5. O passado penetra na obra de Moneo novamente no projeto da prefeitura de Murcia (1991/98). A construção divide espaço na praça central da cidade espanhola com a catedral e o palácio do cardeal, duas construções de valor histórico. Ciente de que não poderia encomendar um edifício qualquer, a prefeitura realizou um concurso, vencido por Alberto Noguerol. Após polêmicas, a obra foi paralisada e Moneo convocado para concluí-la. Havia um espaço entre o volume construído e a praça, justamente a interface necessária para criar uma nova fachada. Moneo de início se perguntou: “Como criar essa cara?”. E ele mesmo responde: “Entendemos que a praça deve manter o espírito celebrado do barroco e por isso nossa proposta se encaminha para desenhar um edifício que queira ser um espectador, sem adquirir a condição de protagonista que a catedral e o palácio do cardeal possuem. Mas não se trata de um espectador qualquer. Ele representará o poder civil”. Sem abrir uma porta para a praça - “o edifício está nela” -, Moneo criou uma fachada hipnotizante, que rejeita a simetria, para não competir com as ordens clássicas.

6. Se Moneo se coloca contra a adoção de soluções tipológicas - ele afirma não se preocupar com a criação de uma linguagem ou método de trabalho, mas com o desenvolvimento de ideias capazes de resolver os problemas específicos de cada projeto -, podemos identificar, com certa facilidade, o uso de um tipo de cobertura que permite a entrada de luz em vários trabalhos. Refiro-me à cobertura baseada em telhados de quatro águas e lanternim, presente, por exemplo, no Museum of Fine Arts (1992/2000), Houston, EUA. Mas, sem dúvida, foi em seu primeiro projeto nos países escandinavos - o Museu de Arte Moderna (1991/98), em Estocolmo - que a solução foi aplicada com maior interesse. O projeto foi escolhido em um concurso. A cobertura contribui para a leitura do espaço fragmentado, refletindo a compartimentação labiríntica interna, uma metáfora da conformação urbana da capital sueca. O edifício, segundo o arquiteto, não cai na tentação da monumentalidade e dialoga com as construções da ilha de Skeppsholmen. Mais uma vez, Moneo olha para os lados antes de iniciar o projeto.

7. Do ponto de vista formal, o mais expressivo projeto de Moneo é o Auditório Kursaal (1990/99), em San Sebastián, no litoral da Espanha. Situado em frente da praia e junto à foz de um rio, o terreno fica isolado da cidade-quarteirão. Por isso, o arquiteto propôs duas caixas de vidro inclinadas, dois objetos autônomos que se colocam como transição entre a massa construída e o imenso vazio da paisagem marítima. Ambos têm como suporte uma plataforma, ou seja, funcionam como peças isoladas, contendo auditórios de tamanhos diferentes. Pensando na relação plataforma/volumes isolados, é inevitável a lembrança da Ópera de Sydney: os volumes de Utzon, também diante da água e destinados a salas de espetáculos, organizam-se através do volume de embasamento. O projeto é, além de uma resposta ao entorno, a proposta contida e inteligente de Moneo diante da arquiteturaespetáculo. Para ele, “a arquitetura não deve impor sua presença ansiosamente”. Mesmo criando uma obra protagonista, o arquiteto insiste na coadjuvação: “A desembocadura do rio deve continuar visível, a cidade não deve fazê-lo desaparecer”.

8. No ano em que começou a desenvolver o projeto da Catedral de Los Angeles (1996/2002), (7) Moneo ganhou o Pritzker. Implantada no centro da cidade, junto de arranha-céus e ao lado de uma via expressa, a igreja substitui a construção histórica, comprometida pelo terremoto de 1994. Como Moneo se saiu dessa? Sua resposta, principalmente quando comparada com o vizinho Disney Hall, de Frank Gehry, é muito clara. Se este, fruto de Los Angeles, propõe um edifício atemporal, sem conexões com a história da arquitetura ou com o entorno (poderia estar em Beirute, São Paulo ou Tóquio), Moneo continua se reportando à história e à urbe. Primeiro, trabalha a imagem metropolitana, a percepção do prédio visto em alta velocidade; depois, estuda a escala de aproximação nas ruas vizinhas, em velocidade mais baixa; por fim, cria uma praça interna, refazendo as relações entre a arquitetura e o pedestre, perdidas em uma grande cidade.

Na Catedral de Los Angeles, Moneo trabalhou na cidade americana, com lote junto à via expressa e altos edifícios.
9. O mais complicado edifício projetado pelo espanhol foi a ampliação do Museu do Prado (1996/2007), em Madri. Resultado de um concurso, a proposta se alongou por uma década, cheia de polêmicas e embates entre o governo, a sociedade civil, a direção do museu e o arquiteto. O anexo, que se coloca, mais uma vez, como coadjuvante da cena, está implantado ao lado do Claustro dos Jerônimos e se conecta ao prédio principal pelo subsolo. A paciência e a persistência com que Moneo se portou no processo demostram um de seus traços como projetista: o respeito ao cliente e à comunidade. Para ele, é importante dotar o projeto de “capacidade de sobrevivência”, e sem o cliente é impossível que isso aconteça. “É o cliente que garantirá a durabilidade da obra, seu êxito e permanência”, diz. Moneo é um técnico sensível à história da arquitetura, autor de uma obra amparada pelo mundo democrático. “Resisto muitíssimo à ideia de entender o mundo apocalipticamente”, vive dizendo.

Notas:

1 - Edição da CosacNaify, São Paulo, 2009.

2 - Entrevista ao jornalista Mario Gioia, publicada em 9 de fevereiro de 2009.

3 - Alan Colquhoun, “Entre el tipo y el contexto”. A&V 36, p. 8-11, 1992.

4 - A obra de Moneo carece de livros abrangentes. Até o momento, apesar do Pritzker, ela foi difundida em revistas monográficas editadas na Espanha, tais como A&V (36, Rafael Moneo: 1986-1992) e El Croquis (20, 1967/89; 64, 1990/94; e 98, 1995/2000). El Croquis compilou os três volumes em uma única edição, que ainda está disponível.

5 - Sobre o Bankinter, leia Enrique Granell (ed.), Bankinter, 1972-1977 - Ramón Bescós, Rafael Moneo. Almeria, Colégio de Arquitetos de Almeria, 1994.

6 - William Curtis, “Rafael Moneo: Pedazos de ciudad, memorias de ruinas”. El Croquis 64, 1997.

7 - Sobre a história da construção da nova catedral, leia Francis Weber, Cathedral of Our Lady of Angels. Saint Francis Historical Society, Los Angeles, 2004.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 355 Setembro de 2009
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