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A revisão dos conceitos de moradia na Europa, nos últimos
30 anos, deixou diversas cidades - como Amsterdã, Barcelona
e Berlim - em situação invejável. As habitações sociais
contemporâneas interagem com a paisagem urbana (os vizinhos
ou a quadra, por exemplo), valorizando-a sem destruir
o caráter individual do projeto. Enquanto isso, São
Paulo, que pouco fez para resolver o problema habitacional
das classes baixas, constrói, para as classes média
e alta, edifícios com uma relação equivocada com a cidade:
os projetos limitam-se ao próprio lote, como se fossem
independentes, sem generosidade espacial. O livre mercado,
que edifica o espaço privado, cria unidades residenciais
repetidas, sem personalidade, onde o luxo de acabamentos
é valorizado em detrimento da espacialidade. Embora
tenham tomado, nesse caso, caminhos diferentes dos anos
70 para cá, há uma relação - na origem - entre Europa
e São Paulo: em ambas, trata-se de derivações da "moradia
mínima" (não confundir com as minúsculas áreas úteis
dos dias de hoje), idéia que nasceu na arquitetura moderna
como matriz da "nova cidade", formulada por mestres
como Le Corbusier e Walter Gropius. Queria dizer racionalização
do espaço doméstico e industrialização da construção.
Bem antes da "interação urbana", os primeiros prédios
de apartamentos para burguesia que seguiram o modelo
moderno - edifícios autônomos, abstração formal, estrutura
independente - foram construídos na década de 30 pela
iniciativa privada na Europa: Le Corbusier em Genebra
(1930); J. L. Sert em Barcelona (1930); G. Terragni
e P. Lingeri em Milão (1933); B. Lubetken e Tecton em
Londres (1933), entre outros.
Edifício Esther
Nesse contexto foi construído em São Paulo o edifício
Esther, o primeiro prédio moderno do país (autônomo,
com volume laminar, apartamentos não estratificados,
fachadas abstratas). Desenhado em 1935 por Álvaro Vital
Brazil e Adhemar Marinho, o projeto, por uma divisão
que criou uma rua interna, isolou parte do lote, onde
se construiu um volume puro com as quatro faces livres.
No outro pedaço foi construído um edifício de apoio,
cujo desenho se amarra à cidade tradicional. O projeto
é emblemático: a partir daí, as elites locais passaram
a desejar morar em apartamentos e a iniciativa privada,
com estímulo do poder público, foi atrás dessa demanda,
construindo fragmentos da proposta moderna, mas no tecido
tradicional.
Com o término da Segunda Guerra, os Estados europeus
implantaram em larga escala os conceitos urbanísticos
criados pela vanguarda no início do século. A industrialização
e a repetição de modelos serviu perfeitamente ao esforço
pela reconstrução de moradias. Em São Paulo, no mesmo
período, a verticalização modernista buscava criar uma
tipologia racionalista adequada ao mercado e à legislação.
Dois edifícios, desenhados pelos melhores arquitetos
locais, estabeleceram a tipologia paulistana. O Louveira
(Vilanova Artigas, 1946) é formado por dois blocos laminares
e paralelos em forma de I, com circulação vertical independente.
Já o Seguradora Brasil (Rino Levi, 1948) possui planta
em H, com a circulação vertical no centro. Os dois são
primorosos como concepção.
Réplicas
Assim, na cidade que crescia velozmente nos anos 50
e 60, multiplicaram-se as réplicas - o hábito de residir
em apartamentos já se instalara nas camadas mais abastadas
da população. Nesse período foram construídos grandes
conjuntos mistos - comerciais e residenciais - no centro
e na Paulista: o Copan (1951), de Oscar Niemeyer; o
Conjunto Nacional (1955), de David Libeskind; e o Nações
Unidas (1956), de Abelardo de Souza, entre eles. O modelo
de edifício moderno - em lâmina sobre pilotis cercado
por jardim - espalhou-se, antevendo as superquadras
de Brasília: o Paulicéia (1956), de J. Pillon e G. Gasperini;
e o João Ramalho (1953), de S. Candia, P. Croce e R.
Aflalo são exemplos.
No fim dos anos 50 (coincidindo com mudanças legais
que diminuíram o coeficiente de aproveitamento dos lotes),
surge o brutalismo paulista, movimento nativo que pretendia
quebrar a hegemonia da escola carioca e a influência
corbusieriana. Profissionais de vanguarda, muitos influenciados
pelo marxismo e comprometidos com idéias sociais, decidiram
afastar-se do mercado imobiliário. O brutalismo, que
tinha na riqueza do espaço interno um de seus pontos
fundamentais, desenvolveu-se basicamente em projetos
de escolas e residências unifamiliares.
Os poucos exemplares de edifícios residenciais construídos
transferiram "as virtudes das casas" para suas unidades,
fugindo do modelo em série. O edifício Guaimbé, projetado
em 1964 por Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de
Gennaro, foi o primeiro prédio de apartamentos construído
com características brutalistas. O desnível interno
e as curvas conferem às unidades uma interessante espacialidade.
No mesmo ano, Rino Levi projetou o Gravatá, que possui
em cada unidade um jardim interno, uma constante nas
célebres casas projetadas pelo autor.
"Edifícios invisíveis"
Entre o final dos anos 60 e o início dos 70, os conceitos
racionalistas começam a ser contestados na Europa, onde
se passou a considerar desastroso o modelo dos conjuntos
residenciais, vigente desde o fim da guerra. A partir
daí, alguns arquitetos voltam a atenção para a cidade
tradicional, projetando edifícios que se integram à
paisagem urbana: são os chamados "edifícios invisíveis",
responsáveis pelo renascimento das cidades européias.
É o fim dos projetos em série. Foi então que o Brasil
se distanciou da Europa. Com o "milagre econômico" despontando,
surgem FGTS e BNH, as construtoras se profissionalizam,
incorpora-se a classe média. Mais uma vez, o modelo
moderno serviu aqui como uma luva, aproveitando a eficiência
das tipologias paulistanas em I e H.
Do ponto de vista arquitetônico poucos foram os projetos
bem-sucedidos. Entre estes estão alguns que racionalizam
ao máximo a construção: estrutura de concreto armado
aparente com fechamentos em blocos de concreto. Em 1971,
Abrahão Sanovicz projeta uma série de edifícios com
esse caráter. Outras boas propostas residenciais do
período foram criadas por Eduardo de Almeida, Sami Bussab,
Benno Perelmutter, Botti-Rubin e Ruy Ohtake. Este último
desenvolveu, nos últimos 25 anos, uma contínua produção
de edifícios de apartamentos que adotam a espacialidade
própria de suas casas - neles, a plástica da curva é
o diferencial. A maioria das construções, porém, utilizou
sem o menor pudor as plantas em I e H, vulgarizando
as tipologias (mal a que todo modelo está sujeito) e
caricaturando a planta moderna, com balaústres na varanda
e caixilhos coloniais (vendia-se o estilo da moda).
Entre o final da década de 70 e o ínicio de 80, os
edifícios passam por uma sofisticação de equipamentos:
piscinas, área de lazer, salão de festas entulham-se
na área outrora destinada ao pilotis. Forma-se um "kit
classe média". Já os edifícios para as classes mais
elevadas se personificam: são os condomínios seguros,
com equipamentos para lazer e serviços, apartamentos
compartimentados e de variada composição dos espaços
internos. Continua-se a construir propostas modernas
no tecido tradicional, sem que os projetos adotem a
cidade de maneira explícita.
Para que serve um arquiteto?
O afastamento da vanguarda abriu espaço à especialização.
Uma nova categoria profissional, os chamados "arquitetos
do mercado", é responsável por uma parceria perversa
para a cidade e a profissão: aprovando dezenas de projetos
num mesmo ano, pasteurizam a massa urbana com trabalhos
sem qualidade arquitetônica. O segmento adquire características
próprias: é o reino dos 45 graus. Todos os apartamentos
têm seus espaços chanfrados nessa angulação, criando
uma aparente dinâmica que de fato rouba espaço e atrapalha
qualquer layout. Os tamanhos diminuem drasticamente:
apartamentos de três dormitórios com área semelhante
aos de um dormitório dos anos 50. Quando projetos são
repetidos e se descuidam de aspectos primários, como
a insolação, fica a pergunta: para que serve um arquiteto?
Não pode ser somente para escolher o modelo do arco
da fachada ou as cores da moda para os acabamentos dos
sanitários.
A Constituição de 1988 criou possibilidades para a
política urbana, mas o cenário real ainda não mostra
mudanças: projetos interessantes nascem, ao acaso, ou
de grandes complexos residenciais ou do particular encontro
entre clientes diferenciados e bons arquitetos. A elite
dos arquitetos paulistanos menospreza o mercado e deixou
de participar da construção privada da cidade justamente
no momento em que ela mais cresceu. Prefere ficar em
seus ateliês esperando "clientes esclarecidos" a agir
na construção do espaço urbano. E São Paulo precisa
impor e espalhar um padrão profissional que tenha lucidez
sobre a concepção da cidade, mas que também atue junto
ao mercado imobiliário.
A falta de articulação dos arquitetos com a sociedade
provocou um estrago urbano irreparável a curto prazo.
Enquanto isso a Europa brinda - longa vida às cidades.
Estamos diante de duas situações: o edifício invisível,
europeu, integrado à massa da cidade. E a cidade inexistente:
São Paulo, odiada por seus habitantes e negada por seus
edifícios. Como escreveu o historiador Kevin Linch,
"a paisagem urbana é algo a ser visto e lembrado, um
conjunto de elementos do qual esperamos que nos dê prazer".
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