Fernando Serapião
Arquiteto, Assistente Editorial da PROJETODESIGN
O edifício invisível e a cidade inexistente
 
Interior de uma unidade do edifício Esther, 1935
 
Planta tipo do edifício Seguradoras, 1948
 
Planta-tipo do edifício Guaimbê, 1964
 
A construção de unidades residenciais agrupadas transforma as cidades, para o bem ou para o mal. As cidades européias e São Paulo tomam, nessas transformações, caminhos inversos. Em que medida os arquitetos, lá e cá, contribuíram (e contribuem) para isso e podem ser responsabilizados pelo estado atual das cidades?
 

A revisão dos conceitos de moradia na Europa, nos últimos 30 anos, deixou diversas cidades - como Amsterdã, Barcelona e Berlim - em situação invejável. As habitações sociais contemporâneas interagem com a paisagem urbana (os vizinhos ou a quadra, por exemplo), valorizando-a sem destruir o caráter individual do projeto. Enquanto isso, São Paulo, que pouco fez para resolver o problema habitacional das classes baixas, constrói, para as classes média e alta, edifícios com uma relação equivocada com a cidade: os projetos limitam-se ao próprio lote, como se fossem independentes, sem generosidade espacial. O livre mercado, que edifica o espaço privado, cria unidades residenciais repetidas, sem personalidade, onde o luxo de acabamentos é valorizado em detrimento da espacialidade. Embora tenham tomado, nesse caso, caminhos diferentes dos anos 70 para cá, há uma relação - na origem - entre Europa e São Paulo: em ambas, trata-se de derivações da "moradia mínima" (não confundir com as minúsculas áreas úteis dos dias de hoje), idéia que nasceu na arquitetura moderna como matriz da "nova cidade", formulada por mestres como Le Corbusier e Walter Gropius. Queria dizer racionalização do espaço doméstico e industrialização da construção. Bem antes da "interação urbana", os primeiros prédios de apartamentos para burguesia que seguiram o modelo moderno - edifícios autônomos, abstração formal, estrutura independente - foram construídos na década de 30 pela iniciativa privada na Europa: Le Corbusier em Genebra (1930); J. L. Sert em Barcelona (1930); G. Terragni e P. Lingeri em Milão (1933); B. Lubetken e Tecton em Londres (1933), entre outros.

Edifício Esther

Nesse contexto foi construído em São Paulo o edifício Esther, o primeiro prédio moderno do país (autônomo, com volume laminar, apartamentos não estratificados, fachadas abstratas). Desenhado em 1935 por Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho, o projeto, por uma divisão que criou uma rua interna, isolou parte do lote, onde se construiu um volume puro com as quatro faces livres. No outro pedaço foi construído um edifício de apoio, cujo desenho se amarra à cidade tradicional. O projeto é emblemático: a partir daí, as elites locais passaram a desejar morar em apartamentos e a iniciativa privada, com estímulo do poder público, foi atrás dessa demanda, construindo fragmentos da proposta moderna, mas no tecido tradicional.

Com o término da Segunda Guerra, os Estados europeus implantaram em larga escala os conceitos urbanísticos criados pela vanguarda no início do século. A industrialização e a repetição de modelos serviu perfeitamente ao esforço pela reconstrução de moradias. Em São Paulo, no mesmo período, a verticalização modernista buscava criar uma tipologia racionalista adequada ao mercado e à legislação. Dois edifícios, desenhados pelos melhores arquitetos locais, estabeleceram a tipologia paulistana. O Louveira (Vilanova Artigas, 1946) é formado por dois blocos laminares e paralelos em forma de I, com circulação vertical independente. Já o Seguradora Brasil (Rino Levi, 1948) possui planta em H, com a circulação vertical no centro. Os dois são primorosos como concepção.

Réplicas

Assim, na cidade que crescia velozmente nos anos 50 e 60, multiplicaram-se as réplicas - o hábito de residir em apartamentos já se instalara nas camadas mais abastadas da população. Nesse período foram construídos grandes conjuntos mistos - comerciais e residenciais - no centro e na Paulista: o Copan (1951), de Oscar Niemeyer; o Conjunto Nacional (1955), de David Libeskind; e o Nações Unidas (1956), de Abelardo de Souza, entre eles. O modelo de edifício moderno - em lâmina sobre pilotis cercado por jardim - espalhou-se, antevendo as superquadras de Brasília: o Paulicéia (1956), de J. Pillon e G. Gasperini; e o João Ramalho (1953), de S. Candia, P. Croce e R. Aflalo são exemplos.

No fim dos anos 50 (coincidindo com mudanças legais que diminuíram o coeficiente de aproveitamento dos lotes), surge o brutalismo paulista, movimento nativo que pretendia quebrar a hegemonia da escola carioca e a influência corbusieriana. Profissionais de vanguarda, muitos influenciados pelo marxismo e comprometidos com idéias sociais, decidiram afastar-se do mercado imobiliário. O brutalismo, que tinha na riqueza do espaço interno um de seus pontos fundamentais, desenvolveu-se basicamente em projetos de escolas e residências unifamiliares.

Os poucos exemplares de edifícios residenciais construídos transferiram "as virtudes das casas" para suas unidades, fugindo do modelo em série. O edifício Guaimbé, projetado em 1964 por Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de Gennaro, foi o primeiro prédio de apartamentos construído com características brutalistas. O desnível interno e as curvas conferem às unidades uma interessante espacialidade. No mesmo ano, Rino Levi projetou o Gravatá, que possui em cada unidade um jardim interno, uma constante nas célebres casas projetadas pelo autor.

"Edifícios invisíveis"

Entre o final dos anos 60 e o início dos 70, os conceitos racionalistas começam a ser contestados na Europa, onde se passou a considerar desastroso o modelo dos conjuntos residenciais, vigente desde o fim da guerra. A partir daí, alguns arquitetos voltam a atenção para a cidade tradicional, projetando edifícios que se integram à paisagem urbana: são os chamados "edifícios invisíveis", responsáveis pelo renascimento das cidades européias. É o fim dos projetos em série. Foi então que o Brasil se distanciou da Europa. Com o "milagre econômico" despontando, surgem FGTS e BNH, as construtoras se profissionalizam, incorpora-se a classe média. Mais uma vez, o modelo moderno serviu aqui como uma luva, aproveitando a eficiência das tipologias paulistanas em I e H.

Do ponto de vista arquitetônico poucos foram os projetos bem-sucedidos. Entre estes estão alguns que racionalizam ao máximo a construção: estrutura de concreto armado aparente com fechamentos em blocos de concreto. Em 1971, Abrahão Sanovicz projeta uma série de edifícios com esse caráter. Outras boas propostas residenciais do período foram criadas por Eduardo de Almeida, Sami Bussab, Benno Perelmutter, Botti-Rubin e Ruy Ohtake. Este último desenvolveu, nos últimos 25 anos, uma contínua produção de edifícios de apartamentos que adotam a espacialidade própria de suas casas - neles, a plástica da curva é o diferencial. A maioria das construções, porém, utilizou sem o menor pudor as plantas em I e H, vulgarizando as tipologias (mal a que todo modelo está sujeito) e caricaturando a planta moderna, com balaústres na varanda e caixilhos coloniais (vendia-se o estilo da moda).

Entre o final da década de 70 e o ínicio de 80, os edifícios passam por uma sofisticação de equipamentos: piscinas, área de lazer, salão de festas entulham-se na área outrora destinada ao pilotis. Forma-se um "kit classe média". Já os edifícios para as classes mais elevadas se personificam: são os condomínios seguros, com equipamentos para lazer e serviços, apartamentos compartimentados e de variada composição dos espaços internos. Continua-se a construir propostas modernas no tecido tradicional, sem que os projetos adotem a cidade de maneira explícita.

Para que serve um arquiteto?

O afastamento da vanguarda abriu espaço à especialização. Uma nova categoria profissional, os chamados "arquitetos do mercado", é responsável por uma parceria perversa para a cidade e a profissão: aprovando dezenas de projetos num mesmo ano, pasteurizam a massa urbana com trabalhos sem qualidade arquitetônica. O segmento adquire características próprias: é o reino dos 45 graus. Todos os apartamentos têm seus espaços chanfrados nessa angulação, criando uma aparente dinâmica que de fato rouba espaço e atrapalha qualquer layout. Os tamanhos diminuem drasticamente: apartamentos de três dormitórios com área semelhante aos de um dormitório dos anos 50. Quando projetos são repetidos e se descuidam de aspectos primários, como a insolação, fica a pergunta: para que serve um arquiteto? Não pode ser somente para escolher o modelo do arco da fachada ou as cores da moda para os acabamentos dos sanitários.

A Constituição de 1988 criou possibilidades para a política urbana, mas o cenário real ainda não mostra mudanças: projetos interessantes nascem, ao acaso, ou de grandes complexos residenciais ou do particular encontro entre clientes diferenciados e bons arquitetos. A elite dos arquitetos paulistanos menospreza o mercado e deixou de participar da construção privada da cidade justamente no momento em que ela mais cresceu. Prefere ficar em seus ateliês esperando "clientes esclarecidos" a agir na construção do espaço urbano. E São Paulo precisa impor e espalhar um padrão profissional que tenha lucidez sobre a concepção da cidade, mas que também atue junto ao mercado imobiliário.

A falta de articulação dos arquitetos com a sociedade provocou um estrago urbano irreparável a curto prazo.

Enquanto isso a Europa brinda - longa vida às cidades. Estamos diante de duas situações: o edifício invisível, europeu, integrado à massa da cidade. E a cidade inexistente: São Paulo, odiada por seus habitantes e negada por seus edifícios. Como escreveu o historiador Kevin Linch, "a paisagem urbana é algo a ser visto e lembrado, um conjunto de elementos do qual esperamos que nos dê prazer".

 
(Edição 241 - março 2000)
 
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