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Desde a faculdade, frisa Laura, os projetistas precisam despertar para a consciência ambiental, projetar de maneira mais sustentável em termos de iluminação e ventilação, levar em conta as condições e os recursos locais, o clima, preocupar-se com a escolha dos materiais e dos fornecedores, e ver quem tem certificações de produtos e produções mais amigáveis. Gerenciar os resíduos, reutilizar a água servida, aproveitar as águas da chuva, criar cisternas e melhorar a permeabilidade do solo, em vez de cobri-lo com cimento, são outras possibilidades sustentáveis.
Agência verde
Na mesma oficina, foi mostrado o projeto da agência de Cotia do Banco Real/ABN Amro, onde foi implantado projeto de sustentabilidade pela empresa Sustentax.
A agência é o primeiro prédio, na América do Sul, a receber o selo Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), que faz parte do Green Building Council (US GBC), conselho americano de construção sustentável. Para receber esse selo, o empreendimento deve se enquadrar em critérios que envolvem tipo de terreno, economia de água, eficiência energética, qualidade do ar interno, reciclagem e inovação do projeto. O diferencial da agência está nos recursos empregados. Tijolos reciclados e assoalho e móveis de madeira certificada são alguns dos insumos usados pela equipe de arquitetos e engenheiros. O cimento contém resíduos de altos-fornos siderúrgicos e as britas são recicladas. Painéis divisórios são em fibrocimento, sem amianto. As tintas e a massa corrida não têm solventes. A tubulação de água pluvial é fabricada com a reciclagem de garrafas PET. O entulho gerado foi reaproveitado ou reciclado. Maria Inês Caliari, coordenadora de projetos do banco, disse que a instituição já vinha trabalhando o conceito de sustentabilidade em algumas áreas e que a experiência em Cotia serviu para testar novas técnicas e materiais.
Em vez de impermeabilização, a cobertura do edifício, projetado pelo escritório Pierre & Perrone, ganhou vegetação sobre a laje. A estação de tratamento de esgotos permite reutilização da água na irrigação dos jardins; água coletada das chuvas é reutilizadas nas descargas dos banheiros. Na área de atendimento gerencial, cujas atividades envolvem mais diálogo do que digitação e leitura, a arquitetura promoveu algumas aberturas, inclusive zenitais, possibilitando que se trabalhe com luz natural.
Novas propostas
Em países europeus há excelentes exemplos de projetos que resultaram em megaedifícios com soluções direcionadas para a redução do impacto ambiental das construções. A sede da Telenor em Oslo, Noruega (leia Finestra 39), é um conjunto de edificações com 158 mil metros quadrados que utiliza fachadas e coberturas de vidro - para tirar proveito de iluminação e ventilação naturais - e água do mar nos sistemas de calefação e refrigeração. Entre seus sofisticados dispositivos está um sistema de movimentação de brises que calcula a posição do sol, enviando informações para uma unidade de controle, que fornece diagrama anual de sombreamento.
Em Londres, o edifício da Swiss Re, projeto do escritório Norman Foster (leia Finestra 40), tem sofisticado sistema de fachada dupla ventilada e átrios que percorrem em espiral o interior da torre. Exemplar da arquitetura do século 21, o prédio resulta da qualidade projetual apoiada em informações tecnológicas e pesquisa ambiental, para criar uma torre compatível com os tempos de crise energética.
Há exemplos recentes no Brasil, ainda em implantação, como a obra do centro de pesquisas da Petrobrás no Rio de Janeiro (leia Finestra 47). As condicionantes do concurso, que escolheu o projeto de Siegbert Zanettini e José Wagner Garcia (co-autor), exigiam propostas que resultassem em eficiência energética, implantação ecologicamente correta e métodos construtivos que reduzissem o desperdício de materiais. É o que está sendo feito.
Condomínios ecológicos
Assim como vem acontecendo na Europa e nos Estados Unidos, começam a surgir no Brasil os condomínios
ecológicos, concebidos, construídos e mantidos de forma a gerar o menor impacto possível sobre os recursos naturais. Criado em 2004, o Grupo Esfera afirma ser pioneiro em construções sustentáveis residenciais no país e anuncia cinco lançamentos a partir de outubro deste ano - três na cidade de São Paulo, um em Campinas, interior paulista, e outro no Rio de Janeiro.
Projetados pelo arquiteto Manoel Rubio, do escritório Rubio & Monteiro Arquitetura, os prédios, batizados de Ecolife, têm como público-alvo a classe média. Sistematicamente, as obras são iniciadas 12 meses após o lançamento e entregues 12 meses após o início da construção. Feitas em série, com a mesma planta, as unidades só mudam em relação à metragem: os apartamentos com três dormitórios possuem cerca de 77 metros quadrados, enquanto os de quatro chegam a cem metros quadrados de área. Os modelos mais baixos de edifício têm oito andares, e as torres mais altas contam com 17 pavimentos.
Uso racional
Nessas construções, informa Luiz Fernando Lucho do Valle, presidente do Grupo Esfera, os diferenciais vão desde a concepção do projeto, que analisa cuidadosamente as faces do terreno, evitando, assim, interferências climáticas que aumentem o uso de energia e de recursos naturais.
São utilizados vasos sanitários equipados com dois acionadores, um com dois litros e outro com seis, para descarga, respectivamente, de líquidos e sólidos. Segundo Valle, as torneiras com temporizador e chuveiros com redutor também diminuem a quantidade de água sem prejudicar a qualidade do banho.
O empreendimento conta, ainda, com uma caixa para coleta de água pluvial, armazenando-a para posterior uso nos vasos sanitários e para irrigação do pomar e jardim. Da mesma forma, as construtoras parceiras do Ecolife são incentivadas a utilizar a água racionalmente, assim como os idealizadores do empreendimento procuram conscientizar os operários da construção, os fornecedores de materiais e os futuros moradores.
Todos os chuveiros e até as churrasqueiras são a gás. Nas áreas comuns do condomínio existem sensores de presença e lâmpadas econômicas PL, que proporcionam 35% menos gasto e maior vida útil. Há, também, placas de captação de energia solar, armazenada em baterias para utilização nas áreas comuns. “A economia de água e energia elétrica se reflete na redução de até 30% da taxa de condomínio”, assegura Valle. O Ecolife também destina espaço para a separação do lixo, permitindo a geração de receita adicional para o condomínio.
As janelas possuem persianas que permitem 100% do vão-luz e são amplas - nos dormitórios, têm abertura de 1,20 metro. Na sala de estar são usadas portas-balcão integradas com a varanda, sempre com o objetivo de melhor uso da luz natural. A alvenaria estrutural, que substitui os tijolos de cerâmica pelos de cimento, dispensa o uso de ferros em vigas e lajes. Além disso, o empreendimento é modulado para evitar cortes em tijolos e cerâmicas.
Selo verde
O Ecolife só utiliza madeira nos acabamentos se ela for oriunda de reflorestamento. Em vez de andaimes de madeira, são usadas gruas para levantar lajes e outros itens mais pesados. Todos os terrenos adquiridos para a construção dos condomínios têm as árvores reflorestadas dentro do próprio empreendimento, informa o presidente do Grupo Esfera. O conceito procura construir coberturas verdes nos prédios, além de jardins em algumas áreas, para melhor isolamento térmico. “O Ecolife será o primeiro empreendimento residencial com diferenciais ecológicos a serem certificados com o selo Green Building”, conclui Valle.
Congresso
Idealizado e organizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), o 2º Congresso Ibero-Americano sobre Desenvolvimento Sustentável atraiu 3,3 mil participantes e aproximadamente 20 mil visitantes para a exposição montada na marquise do Ibirapuera. Participaram 70 palestrantes do Brasil e de países como Estados Unidos, Inglaterra, França, África do Sul, Portugal, Holanda, Costa Rica e Bolívia.
Texto resumido a partir de reportagem
de Jaime Silva
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 50 Setembro de 2007
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