Fernando Serapião
Vanguarda verde?
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  Um bom princípio para estudar a sustentabilidade no Brasil é analisar exemplares clássicos da arquitetura moderna
 
A relação entre arquitetura e natureza não é propriamente uma novidade: ela existe desde o primeiro artefato arquitetônico, a cabana primitiva. No exato momento em que o homem tomou consciência e a construiu, ele transformou o meio em que vivia para melhor se abrigar: cortou galhos e cabos das árvores, demarcou um espaço, montou uma estrutura e fechou-a com couro e folhas. No final das contas, a natureza pura e simples não servia mais para as ambições humanas - ou, em outras palavras, “a natureza é uma droga, não serve para nada, é um trambolho”, como disse Paulo Mendes da Rocha.(1)

O abrigo primitivo inaugurou um ciclo de construções que, de acordo com a época, se aproxima ou se afasta da idealização do meio natural, conforme os pensamentos filosóficos então predominantes. Assim, capitéis coríntios podem representar folhas, galhos e flores, enquanto os mesmos elementos, no estilo dórico, possuem formas geométricas, de origem matemática. Voando no tempo e no espaço, podemos estabelecer um paralelo semelhante - de aproximação ou afastamento da natureza - usando dois baluartes do modernismo. Se, por um lado, Frank Lloyd Wright criava uma arquitetura orgânica - com materiais naturais, implantação cuidadosa etc. -, Mies van der Rohe, por outro, foi autor de uma produção abstrata, geométrica e pura. Mas, diante da nossa realidade, até que ponto o politicamente correto - que também atende pelo nome de arquitetura sustentável - pode ser enquadrado como parte da vanguarda arquitetônica?

 
Gráfico temperatura x tempo, de um apartamento do edifício Guararapes, no parque Guinle (1950), projetado pelos irmãos Roberto e objeto de estudo de Oscar Corbella e Simos Yannas
 
Desde o início da carreira, Richard Rogers procurava aliar a tecnologia e a natureza. No desenho, detalhe do projeto Pill Creek Retreat (1963), na Cornualha, Inglaterra
 
  Diagrama dos brises do Banco Sul-Americano (1962), de Rino Levi: para Corbella e Yannas, “a solução [dos brises] teria sido ótima se
o eixo principal fosse E-O”
 

A aventura humana tem se pautado por transformar a natureza para criar riqueza e conforto, em níveis que transcendem (e muito) a simples e elementar necessidade de sobrevivência da espécie. Riqueza e conforto que também não visam o bem-estar geral: destinam-se à minoria que domina os destinos do planeta. Mas a agressão chegou a tal dimensão que a luz amarela acendeu: afirma-se que o clima está mudando e, se nada for feito, o futuro é sombrio.

Porém, mesmo depois de tantos alertas de pesquisadores, cientistas e ativistas políticos, foi necessário Al Gore (em franca oposição aos republicanos da era Bush) se engajar na causa contra o aquecimento global para que a conscientização fosse mais ampla e rápida.(2) A partir de então, só se fala nisso: bancos e empresas acolheram o tema, numa onda politicamente correta sem precedentes. Mesmo descontando uma porcentagem de comissão para o “marketing verde”, o fato em si é positivo, pois leva a uma conscientização em relação à causa ecológica, que começou com os hippies nos anos de 1960, mas agora é uma bandeira do cidadão médio.

Para alguns autores, como Luis Fernández-Galiano,(3) o principal motivo de tanto alarde é a possível falta de energia para a produção industrial: o chamado mundo desenvolvido atravessa uma longa fase de prosperidade (ainda que, no atual momento, parcialmente freada pela crise no crédito imobiliário norteamericano). Para Galiano, “os arquitetos não estão falando hoje de sustentabilidade simplesmente porque, de forma solidária, se converteram ao credo verde; o fazem porque o petróleo está caro”. Trocando em miúdos, por trás do real objetivo da onda sustentável não está a cruzada por uma mudança de mentalidade séria e responsável: trata-se só de uma adequação temporária imposta aos agentes do mercado, para que o grande consumo de energia destinado a construção, uso e manutenção dos edifícios (cerca de 40% do gasto mundial) deixe de impactar a produção industrial.

Prova disso é que as certificações visam somente a eficiência, sem discutir o modelo de ocupação que existe nas nossas cidades e o padrão de conforto adquirido. Creio que mais importante (ou, pelo menos, tão importante quanto) que a eficiência de edifícios isolados é a forma como eles se relacionam entre si. E mais: deve-se levar em conta o aproveitamento de áreas edificadas e subutilizadas, para tornar mais eficiente o uso da infra-estrutura existente. A construção isolada, certificada como “edifício verde”, é um pequeno detalhe de todo o processo.

Edifício verde

Por incrível que pareça, Nova York é apontada como uma das cidades mais sustentáveis dos Estados Unidos. Qual a explicação? Tirando o problema crônico da escassez de água que ela enfrenta, a região (principalmente Manhattan) possui alta densidade, o que é benéfico para a vida de uma metrópole: além da eficiência da infra-estrutura (transporte, água, luz, coleta de lixo etc.), o alto custo do metro quadrado e a legislação praticamente impossibilitam a construção de garagens, o que dificulta a utilização de veículos particulares. Mas, cá para nós, se não fossem os números e os dados de eficiência, ficaria bastante difícil transmitir o conceito de cidade verde para a conformação espacial daquela urbe (mesmo sem esquecer o Central Park).

Quando se fala em edifício verde, certamente o cidadão comum pode, com razão, especular sobre um novo tipo de construção, que se preocupa, no final das contas, com a qualidade de vida. Quem é que não quer viver melhor? E não será decepcionante se esses prédios comprometidos com a sustentabilidade se parecerem com os velhos edifícios que conhecemos? Isso porque grande parte do que se considera benéfico sob esse aspecto está oculto nas edificações. Diz respeito, por exemplo, ao reúso de água e à utilização de energia solar como fonte alternativa. Algumas são tecnologias novas, outras velhas, mas parte delas muito simples e mais relacionada com instalações e projetos complementares do que com o desenho da arquitetura em si. Por isso, materializadas em cisternas, uma rede de encanamentos setorizados e placas fotovoltaicas, não podem ser caracterizadas como elementos arquitetônicos. No campo da arquitetura estão as especificações em geral, a implantação, os fechamentos, as aberturas etc.

Mas, se fizermos um retrospecto, certamente chegaremos à conclusão de que, independentemente da época, a boa arquitetura tendeu ao sustentável: não se pode valorizar uma arquitetura que não esteja adequada ao local em que se insere. No Brasil, por exemplo, as construções luso-brasileiras utilizavam materiais disponíveis, técnicas acessíveis e construções adaptadas ao nosso clima. Se assim não fosse, não existia construção. O problema começou a ocorrer quando passou a existir uma arquitetura dominante, que é replicada em outros lugares. Essa idéia começou com o classicismo, continuou com o ecletismo, passou pelo modernismo e vem nos encontrar nos dias atuais.

 
As aberturas para ventilação cruzada na Universidade do Amazonas perdem função por causa da densa mata no entorno
 

A globalização da arquitetura tem mais de 200 anos. Mas não dá para imaginar que um mesmo tipo de edifício possa ser construído na Finlândia e no Amazonas. Por outro lado, alguns elementos característicos do movimento moderno são bem-vindos sob os olhos da sustentabilidade, como, por exemplo, o teto-jardim, os brises e os pilotis. Não podemos esquecer também que grande parte do moderno brasileiro fez uma adequação do racionalismo ao nosso clima e à cultura, como vemos em Lucio Costa,(4) irmãos Roberto e Rino Levi, por exemplo.

Nesse sentido, um bom princípio para o estudo da sustentabilidade arquitetônica no Brasil é (e tem sido) analisar os exemplares clássicos da moderna arquitetura brasileira para aferir a real qualidade de espaços que se tornaram mitológicos. Nesse sentido, vale observar a publicação assinada por Oscar Corbella e Simos Yannas,(5) que avalia alguns desses edifícios. Entre as obras de que fazem estudos de caso, está um apartamento no edifício Guararapes, desenhado pelos irmãos Roberto, no parque Guinle, Rio de Janeiro, em 1950. Para os autores, a implantação E-O é boa, tendo em vista as “trajetórias solares”, a circulação cruzada é eficiente e há “um bom nível médio de iluminação natural”.

 
Um bom princípio para estudar a sustentabilidade no Brasil é analisar exemplares clássicos da arquitetura moderna
 

No capítulo 4 da publicação, batizado de “Outros casos”, os autores examinam diversas obras, sem a mesma profundidade. Uma delas é a sede do Banco Sul-Americano, desenhada pela equipe de Rino Levi em 1962. Entre os edifícios da avenida Paulista, este foi apontado, em uma análise do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT), como o que melhor se adaptava ao clima da cidade, com os menores intervalos térmicos ao longo do dia. Mas Corbella e Yannas fazem algumas ressalvas: “A solução [dos brises] teria sido ótima se o eixo principal fosse E-O. Sendo NESO, a proteção não resulta muito efetiva, porque se torna necessário movimentar muito os brises para bloquear a luz solar, o que limita a iluminação natural e a vista da janela”. Hoje, devido a exigências do cliente, o prédio possui ar-condicionado.

Ventilação x mata

Severiano Porto também costuma ser associado à sustentabilidade. Para o argentino Rubén Pesci, estudioso do tema desde a década de 1970, ele “é o grande arquiteto brasileiro”.(6) Contudo, a maior parte da obra de Porto é empírica, sem estudos científicos que lhe dêem suporte. Recentemente, Letícia de Oliveira Neves fez um trabalho que teve como foco a produção de Severiano Porto.(7) A obra que ela estudou foi a Universidade do Amazonas, em Manaus (leia PROJETO 83, janeiro de 1986), criada em 1973. Na abertura da reportagem publicada na revista está escrito: “As diretrizes iniciais partiram do estudo de toda a área do campus, à procura de um local que pudesse propiciar a construção de um tipo de arquitetura adequada ao clima e ao emprego de pouco equipamento de ar condicionado”.

O corte típico demonstra que as salas de aulas possuem aberturas em duas paredes opostas, permitindo ventilação cruzada. No centro do forro, uma abertura proporciona o efeito chaminé. Para decepção da pesquisadora, quando ela chegou ao campus, em todas as salas havia ar-condicionado. Por causa disso, as aberturas do forro estavam fechadas e as janelas permaneciam cerradas. Por sorte, havia uma única sala em que o equipamento estava quebrado, e, portanto, não havia aula. Foi essa sala que Letícia usou para aferir a qualidade da ventilação cruzada. A conclusão a que ela chegou é que a densa mata que envolve as construções impossibilita a ocorrência desse processo.

É claro que essa avaliação não desmerece a qualidade da arquitetura de Severiano Porto. Muito pelo contrário, coloca-o como um pioneiro brasileiro nessa área. Mas o ponto central de uma análise como essa é desmistificar a lenda recente de que alguns arquitetos brasileiros já nasceram sustentáveis. Prova também que não podemos desprezar o avanço das ferramentas (softwares) de aferição, não só na pós-ocupação, mas também no momento do desenho. Essa é a grande questão dos projetos sustentáveis: por trás deles, existe uma técnica e um saber que não podemos desprezar.

Diversos caminhos

Mas, por outro lado, alguns arquitetos que sempre adotaram uma postura ética invejável em relação ao meio natural estão tendo que enfrentar, vez ou outra, situações constrangedoras com essa história de edifício verde. Veja-se o caso de Renzo Piano, por exemplo. Ele iniciou a carreira com um feito e tanto: junto com o inglês Richard Rogers venceu, aos 34 anos, um dos concursos mais disputados do século 20 - o do Centro Georges Pompidou (Beaubourg), em Paris. Desde então, ele e Rogers, cada um a seu modo, são os arquitetos mais identificados com a sustentabilidade, antes mesmo de ela existir com esse nome. Um dos hábitos de Rogers, por exemplo, é locomover-se de bicicleta. Morando em Londres, ele vai à Câmara dos Lordes, da qual é um dos membros, usando a magrela. Sua preocupação com o futuro do planeta foi um dos motivos alegados para recebesse o Pritzker este ano (escolhido por um júri no qual estava seu amigo Piano). Mas, voltando ao italiano, ele acaba de concluir um importante edifício, a sede do jornal The New York Times, em Nova York. Devido aos elevados custos da construção na cidade, Piano não conseguiu certificar seu edifício através do Leed. Ironia, não?

Por ora, a arquitetura sustentável brasileira ainda carece de uma imagem, se é que quer ser reconhecida como tal. Existem diversos caminhos, como o de Piano e Rogers, que usam a tecnologia para definir a sustentabilidade. “Nossos primeiros edifícios eram retangulares, básicos, tectônicos, que é a forma racional de construir. Mas um cubo não é a forma mais sustentável. Agora construímos levando em conta a incidência da luz solar, o efeito do vento, a economia energética, e tudo isso abre a caixa. Isso é tecnologia do meio ambiente, e claro que deve aparecer”,(8) diz Rogers.

Existem ainda aqueles que acham que a arquitetura verde necessita de uma imagem literal, com plantas brotando por todos os lados, como nos projetos de Emílio Ambasz. Meio folclórico, não? Mas em outros lugares, mais pobres e com outro clima, como no nosso caso, certamente as opções serão outras. Semelhantes a Costa, Porto ou Levi? Não sei. De qualquer forma, nessa altura do campeonato, estabelecer uma vanguarda arquitetônica a partir de um conceito politicamente correto, como é a sustentabilidade, não é lá grande coisa. Aliás, nunca foi, apesar de, por serem extremamente datadas, essas pseudovanguardas servirem como ótimos balizadores de períodos para quem conta a história da arquitetura. O papel de uma vanguarda é outro, como contestar, abrir novas perpectivas etc., e não ser pragmática. Se fosse um movimento dos anos 1960, ou pelo menos iniciado nessa época, como acontece com as preocupações de Foster, Rogers, Piano e cia., ainda vá lá. Mas agora dificilmente alguém escapará de ser tachado de oportunista por embarcar na bola da vez (para ilustrar, devo dizer que dia sim, dia também, recebo releases com sugestões de pauta, oferecendo matérias que têm como tema “green building”, “casas sustentáveis” ou até mesmo o “quarto do bebê sustentável”!).

 
Há aqueles que acham que a arquitetura verde necessita de uma imagem literal, com plantas brotando por todos os lados
 
Mesmo porque, como diz Galiano, (3) se um arquiteto quiser de fato se comprometer com a sustentabilidade, com o futuro do planeta e com a ecologia, ele terá que desistir da profissão: “Em última instância, a única arquitetura ecológica é a que não se constrói, e o único arquiteto verde é aquele que renuncia a incrementar a entropia do planeta”. Ou, como diria o sábio Bartleby, o escrivão,(9) “prefiro não fazê-lo”.
Notas:
1 - Entrevista à revista Caros Amigos 61, abril de 2002.

2 - Uma verdade inconveniente, documentário de longametragem apresentado por Al Gore, vencedor do Oscar 2007 na sua categoria.

3 -
“Es la economía ecologistas!”, de Luis Fernández-Galiano, texto publicado no suplemento Babelia do jornal espanho El País, edição de 13 de maio de 2006. Em português, o artigo foi traduzido pelo site Vivercidades.

4 -
“A sustentabilidade cultural de Lucio Costa”, texto de Abílio Guerra, em Iniciativa Solvin 2005: arquitetura sustentável, São Paulo, Romano Guerra Editora, 2005.

5 -
Oscar Corbella e Simos Yannas fazem diversos estudos de caso com exemplares da arquitetura brasileira (como o MES, MAM/RJ e Hospital Sarah Kubitschek) no livro Em busca de uma arquitetura sustentável para os trópicos: conforto ambiental, Rio de Janeiro, Revan, 2003.

6 -
Leia minientrevista com Pesci em PROJETO DESIGN 292, junho de 2004.

7 -
Trabalho apresentado no 11º Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (Entac), realizado em agosto de 2006, em Florianópolis.

8 -
Entrevista publicada em El País, edição de 31 de maio de 2007.

9 -
Na novela Bartleby, o escrivão, de Herman Melville, o personagem-título assume uma atitude de completa inação perante tudo, e quando solicitado a agir, sob qualquer aspecto, responde monocordicamente com o mote “Prefiro não fazê-lo”.

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 332 Outubro de 2007

 
Croqui do 112 Leadenhall, novo prédio londrino de Richard Rogers na City
 
Pormenor da sede do jornal The New York Times, de Renzo Piano: sustentável ma no troppo
 
Community Health (2005), Zeidler Partnership, Canadá: arquitetura verde precisa ter cara de verde?
 
Universidade do Amazonas (1971), de Severiano Porto, em Manaus. Em estudo realizado recentemente, a ventilação cruzada se mostrou ineficiente. Hoje, as salas de aulas têm janelas cerradas e contam com equipamentos de ar condicionado
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