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| Convidado, no início dos anos 1960, a projetar a sede de uma tradicional instituição da sociedade civil, o carioca Marcello Fragelli, arquiteto recém-chegado à capital paulista, teria sua aguardada chance de conquistar um grande cliente e firmar-se na cidade como profissional liberal. Tudo estava perfeito, exceto por um senão: o cliente queria um estilo que “não passasse de moda” (1) - e este, na sua concepção, deveria ser o “greco-romano”. O arquiteto, fiel ao ideário moderno, imaginou que, naturalmente, aquela imposição não deveria ser acatada. Engano: a orientação deveria ser seguida, sim. A própria empresa contratante, conceituada no ramo da engenharia, tentara convencer o cliente do contrário, sem sucesso. |
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Argumentos postos e debatidos, Fragelli apresentou então, em carta à diretoria da empresa, suas condições para o trabalho. Do documento constavam diversas exigências de caráter mínimo para a elaboração do projeto, como a de que não se utilizassem na obra materiais como concreto, aço ou vidro, e até mesmo que não existissem instalações hidráulicas e elétricas.
Sua posição, no entanto, pode ser sintetizada no seguinte trecho: “Como só é considerada boa arquitetura aquela que se liga intimamente com a época e local de sua construção, tornando-se um reflexo do meio, imponho ainda, e como maior empenho, que se providencie para que num raio de quinhentas passadas em redor do prédio não permaneça nenhuma edificação de cultura ocidental ou moderna e também que nesse perímetro não seja permitida a existência ou mesmo o acesso de qualquer elemento geográfico, botânico, zoológico e principalmente humano diferente dos encontrados na Grécia do século 5 a. C.”. (2)
A atitude, que hoje pode ser considerada imatura ou antiempresarial, foi encarada na época como “documento que reflete a posição dos arquitetos brasileiros em geral” (3), e é uma síntese do modo de pensar e fazer arquitetura de Marcello Accioly Fragelli.
Formação no Rio
Nascido em 1928, Fragelli formou-se arquiteto em 1952 pela Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA), antiga Escola Nacional de Belas-Artes. Se na universidade não encontrou um ambiente dos mais fecundos, devido à famosa “liga de defesa da mediocridade”, (4) que impedia a existência, nos quadros da FNA, de arquitetos que projetassem segundo os cânones modernos, na vida profissional o quadro não poderia ser mais promissor. O jovem arquiteto entrou em contato, seja no trabalho direto (foi assistente dos irmãos Roberto), seja na convivência no IAB nacional (do qual foi diretor), com grandes nomes da arquitetura brasileira e deles recebeu lições que carregou por toda a sua trajetória profissional.
Atuando como autônomo, ao lado de Maurício Sued, colega da FNA, Fragelli realizou obras que se revelaram um sucesso tanto entre os clientes, quanto entre seus colegas mais experientes, como Affonso Eduardo Reidy e Oscar Niemeyer. São significativos os edifícios para a Caixa de Previdência do Banco do Brasil (1954/58), a residência Fragoso Pires (1960, menção na 8ª Bienal de São Paulo) e o posto de puericultura do Alto da Boa Vista (1958, menção na 6ª Bienal de São Paulo), onde a cuidadosa composição e a ambiência criaram um espaço acolhedor, reconfortante, muito apropriado a um programa da área da saúde.
Em 1961, diante do panorama econômico nada promissor no Rio de Janeiro pós-Brasília, Fragelli resolveu tentar a sorte em São Paulo. Seus primeiros trabalhos na capital paulista foram para a Rossi, então jovem incorporadora de edifícios residenciais, dentre os quais se destacam o Rossi-Leste e o Rossi-Penha (1961). Além de projetar uma série de residências, tornou-se professor na Universidade Mackenzie e prestou consultoria à Promon, empresa de alto nível em projetos de engenharia, que buscava se destacar da mesma forma com os de arquitetura.
Metrô em São Paulo
Em 1966, a prefeitura de São Paulo divulgou o resultado da concorrência internacional para a construção da primeira linha do metrô. O consórcio escolhido, o HMD, era formado pelas empresas Hochtief e Deconsult, ambas alemãs, e pela brasileira Montreal, que era a controladora da Promon. E é por indicação desta que o arquiteto entra no grupo de trabalho, composto em sua maioria por alemães.
Num primeiro momento, foi avisado de que os projetos das estações ainda não estavam prontos e que na definição dos acabamentos e fachadas seria chamado. Inconformado com esse papel - ainda mais que a presença de um arquiteto brasileiro na equipe fora exigência do prefeito Faria Lima -, Fragelli argumentou que, apesar de nunca ter projetado um metrô antes, se lhe fornecessem os dados técnicos estaria pronto para tal empreitada. Recebeu então os projetos das estações elevadas, para que fosse familiarizando-se com o tema e propusesse uma bonita fachada ao volume já desenhado.
Certo de que fazer arquitetura não seria só pensar em escolhas estéticas, mas também na racionalização do uso, nos fluxos e percursos dos usuários, no esquema estrutural lógico e econômico, Fragelli analisou o projeto minuciosamente e encontrou graves problemas. Além da estrutura pesada e deselegante, a estação padrão apresentava situações como o acesso às plataformas, nove metros acima, sem escadas rolantes; as entradas duplicadas nas extremidades; o afloramento das escadas junto às bordas das plataformas, prejudicando o acesso aos trens, entre outras.
Fragelli apresentou outra proposta para a mesma estação. A idéia foi criar um volume que aflorasse naturalmente da linha, esta apoiada sempre no mesmo perfil de pilar, comum ao trecho todo. A seção padrão da estação se formaria por uma bateria de vigas que seriam linha do trem, plataforma, peitoril, beiral e apoio da cobertura. Cada uma teria sua forma de acesso diferenciado, mas a unidade do trecho elevado estaria garantida, inserindoo na trama urbana de maneira elegante.
Proposta aceita com entusiasmo, os alemães, em seguida, dão ao arquiteto a missão de adaptar seu projeto ao local de uma futura estação que, além de situar-se sobre o rio Tamanduateí, seria em curva. Surge desse desafio o trabalho favorito do arquiteto, a estação Ponte Pequena, hoje denominada Armênia, premiada pelo IAB/SP em 1968. Nesse caso, as vigas-seção foram agrupadas em três, descarregadas em somente quatro pontos de apoio, distantes entre si 40 metros, para vencer o vão sobre o rio. |
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| A proposta para a estação do metrô foi criar um volume que aflorasse naturalmente da linha, esta apoiada sempre no mesmo perfil de pilar |
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Passada mais essa etapa, Fragelli estava confiante de que lhe entregariam os projetos das estações subterrâneas. Qual não foi sua surpresa quando lhe afirmaram que no subsolo não havia arquitetura. Mais uma vez, instado a estudar um projeto já pronto - no caso, o da estação da Luz -, encontrou uma série de problemas de fluxo e de conceitos arquitetônicos antigos, de sistemas que visitara na Europa, como disfarçar com forros e paredes falsas o aspecto subterrâneo, e também longas e claustrofóbicas galerias de acesso. Ele apresentou então nova proposta, na qual, além de resolver os equívocos de funcionalidade, aproveitou a expressão do concreto aparente para, à semelhança de uma caverna, transmitir a tensão da contenção do subsolo envolvente.
Esse projeto minou em definitivo as resistências alemãs ao seu trabalho. Por solicitação do consórcio, montou uma equipe de jovens arquitetos brasileiros para reprojetar todas as estações da linha, no exíguo prazo de seis meses. Ao grupo inicial - Luiz Gonzaga Camargo, Flávio Marcondes, Vasco Melo e Tito Lívio Frascino - juntaram-se mais tarde Álvaro Macedo, Ernane Mercadante, Flávio Pastore, Gil Coelho, João Batista Corrêa, Jorge Utimura, Luiz Arnaldo Queirós, Rogério Garcia, Sílvio Heilbut, Sílvio Sawaya e Vallandro Keating.
Estabelecendo o conceito para toda a linha norte-sul e coordenando os trabalhos da equipe, Fragelli também projetou pessoalmente as versões definitivas do trecho elevado e das estações Jabaquara, Liberdade, Praça da Árvore e São Bento, esta última alterada sensivelmente quando o consórcio já havia se dissolvido. A estação Sé, a maior de todas, mais tarde foi reprojetada pela equipe de arquitetos da Companhia do Metropolitano.
O arquiteto também projetou o afloramento que surge entre as estações São Judas e Conceição, de modo que o passageiro pode desfrutar por alguns segundos, após muito tempo percorrendo o subsolo, de uma ampla vista para a cidade. Esse elevado (chamado inicialmente de Água Vermelha), se não fosse a interferência de Fragelli junto aos alemães, seria totalmente vedado. |
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| Fragelli aproveitou a expressão do concreto aparente para transmitir a tensão da contenção do subsolo envolvente |
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Para a ventilação do sistema, os técnicos solicitaram altas aberturas externas, a fim de evitar o ar de pior qualidade. Fragelli projetou então expressivas torres de concreto, todas variantes de um mesmo padrão escultórico. Apesar de a intenção ser justamente criar um elemento de rica plasticidade, para atenuar seu caráter meramente utilitário, essas intervenções lhe valeram críticas de colegas como Carlos Lemos, que lamentou que o metrô não se limitasse a aparecer na superfície apenas por meio dos acessos e estações elevadas. (5) Em 2006, essas torres foram objeto de uma intervenção urbana, criada pelos artistas finlandeses Tommi Grönlund e Petteri Nisunen para a 27ª Bienal de São Paulo. (6)
O resultado final desse trabalho, o mais importante da carreira de Fragelli, é utilizado diariamente por milhões de pessoas. Nas estações subterrâneas, o teto assume formas diferenciadas, que evidenciam o trabalho estrutural. Onde há praças, os pisos foram rebaixados, criando-se patamares intermediários e rasgos de luz, de forma a estabelecer-se uma fusão gradual entre a superfície e o subsolo. Os acessos das estações elevadas foram trabalhados de maneira plástica excepcional, mas sem nenhum sacrifício da lógica construtiva ou funcional; as aberturas nas empenas, além de proporcionar vistas inesperadas, assemelham-se a verdadeiros origamis de concreto. Muito além da funcionalidade e do conforto, as estações dessa linha (hoje chamada de Azul) proporcionam uma espacialidade sofisticada e sutil.
Atuação na Promon
Ao final dos trabalhos do metrô, Fragelli aceitou o convite para criar e coordenar o departamento de arquitetura da Promon, que funcionaria dentro de um conceito semelhante ao da atuação dos Bureaux d’Etudes Techniques (BET) franceses, onde diversas disciplinas trabalharam associadas, visando uma estreita relação entre projeto e construção.
No Brasil, esse modelo consegue ser implantado graças ao contexto do “milagre econômico” dos anos 1960/70, que demandou nova organização empresarial. Os arquitetos, que até então tinham como única condição profissional satisfatória estabelecerem-se em escritórios próprios, passaram a contar com a opção de trabalhar dentro dessas grandes estruturas.
A atuação de Marcello Fragelli (na Promon) e Rodrigo Lefèvre (na Hidroservice), entre outros, foi decisiva para que esses departamentos ganhassem destaque não só dentro de suas próprias mantenedoras, que ainda consideravam a arquitetura mais uma especialidade da engenharia, mas também no panorama arquitetônico da época, onde esses profissionais eram julgados de atuação menor, por serem assalariados. (7) De fato, grandes projetos - de hidrelétricas e indústrias, por exemplo - passaram a ter assessoria de arquitetos ou até mesmo a ser coordenados por eles.
Antes de aceitar o encargo, Fragelli travou longas discussões a respeito da questão do direito autoral, que, na sua visão, no caso da criação arquitetônica, seria do profissional, e não da companhia. Já dentro da empresa, assumiu posições de valorização da carreira técnica, evitando que profissionais especializados exercessem funções administrativas como única forma de ascensão na hierarquia. Além disso, defendeu a liberdade de criação e a posição do arquiteto como autor e detalhista do projeto.
Ele realizou durante esse período importantes projetos: o novo terminal rodoviário do Tietê (1969), não executado; a fazenda Levy, em Itatiba, SP (1970); as residências Ernesto D’Orsi (1972) e José Gregori (1974), em São Paulo; o núcleo residencial Praia Brava (1972), de Furnas, em Angra dos Reis, RJ, incluídos a capela e o centro comercial; a expansão da indústria Piraquê (1964/80), com o edifício Jerônimo Ometto (1974) premiado pelo IAB carioca; o centro administrativo do banco Comind (1976), em São Paulo, realizado em parceria com o escritório Rino Levi; o condomínio São Luiz (1976/84), onde fez dos brises elementos de grande expressividade e criou uma planta extremamente flexível; o edifício Macunaíma (1980), projeto que lhe foi encomendado por um grupo de clientes insatisfeitos com a arquitetura de edifícios residenciais à venda em São Paulo na época.
Novamente autônomo
Com a crise econômica dos anos 1980, as grandes empresas de engenharia passaram por um forte enxugamento dos quadros. Desligando-se da Promon, Fragelli retomou o trabalho como autônomo e as atividades didáticas, desta vez na FAU/USP.
Projetou residências com mais freqüência, como as de Humberto Rossi (1989) e de Geraldo Aguiar (1989). No restaurante da Sew Motors (1985), em Guarulhos, na Grande São Paulo, projetado em meio ao jardim existente de autoria do amigo Burle Marx, o uso mais intenso da cor o fez perceber que havia se libertado de alguns dogmas de sua formação modernista. Realizou ainda trabalhos para algumas indústrias, como a Alcan (1989/93). Em 1994, devido a complicações de saúde, encerrou suas atividades profissionais.
Fragelli percorreu um caminho singular na arquitetura brasileira. Formado no Rio, foi em São Paulo que seu trabalho amadureceu e ganhou corpo na conceituação. Se antes as linhas racionais e elegantes da escola carioca predominavam na busca de uma ambiência arquitetônica mais humana, depois passou a valorizar mais a espacialidade do que a forma, para chegar a uma arquitetura sutil, lírica, resultado de uma cuidadosa composição entre volume, luz e vegetação, feita para o homem real, não o ideal. Essa arquitetura se desenvolveu sob concepções estruturais claras e lógicas. E se a troca da pedra pelo tijolo, da madeira pelo concreto, das formas leves pelas pesadas levou sua arquitetura a ser chamada, no aspecto formal, de brutalista, na sua essência se revela um verdadeiro organicismo.
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| Da adaptação do projeto ao local de uma futura estação surge o trabalho favorito de Fragelli, a estação Armênia |
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| Arquiteto, professor, amante da música erudita e do alpinismo, Marcello Fragelli lutou constantemente por suas idéias e pela liberdade de criação. Se realizou uma arquitetura sem formalismos gratuitos, nunca deixou de lado a poesia e a beleza. Foi, antes de tudo, um homem apaixonado pela arquitetura como forma de valorização e expressão da existência humana no universo. |
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* Márcio Bariani é formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP)
Notas:
1 - Marcello Fragelli, em texto inédito.
2 - Arquitetura 16, outubro de 1963, p. 20-1.
3 - Idem.
4 - Marcello Fragelli, em Arquitetura brasileira após-Brasília/Depoimentos, v.3, IAB/RJ, Rio de Janeiro, p. 304-36.
5 - Marcello Fragelli, em texto inédito.
6 - Em 27ª Bienal de São Paulo Guia, Fundação Bienal de São Paulo, São Paulo, 2006.
7 - Sobre esse tema, ler Rodrigo Lefèvre, “O arquiteto assalariado”, em Módulo 66, setembro de 1981, p. 68-71. |
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Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 333 Novembro de 2007 |
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| Posto de puericultura, Rio de Janeiro, 1958 |
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| Torre da estação Liberdade, São Paulo, 1968 |
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| Estação Tietê do metrô, São Paulo, 1968 |
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| Elevado Água Vermelha, São Paulo, 1968 |
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| Residência D’Orsi, São Paulo, 1972 |
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| Edifício Jerônimo Ometto, Rio de Janeiro, 1974 |
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| Condomínio São Luiz, São Paulo, 1976/84 |
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| Edifício Macunaíma, São Paulo, 1980 |
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| Residência Geraldo Aguiar, Alphaville, 1989 |
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