UM TRUQUE PARA ENGANAR O TEMPO
Como Niemeyer cria? Como é esse processo? Há um roteiro preestabelecido?
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  Depois do desenho inicial, Niemeyer passa a trabalhar, nas reuniões seguintes, com maquetes, “como se fosse um escultor”
 
Alguém, já no fim desta edição e a correr o mês de dezembro com o noticiário nos martelando o tema, ainda agüenta alguma informação sobre Niemeyer? O centenário dele nos proporcionou uma enxurrada de informações - na maioria dos casos, recorrendo ao lugar-comum ou às interpretações pretensamente iluminadas. Mas não vamos desanimar: ainda há muitos elementos a serem decifrados na fartura de seu legado. E não se trata da longevidade do projetista, assunto mais para as revistas de divulgação científica. Refiro-me à investigação sobre seu processo criativo e o relacionamento com os clientes, por exemplo. Algo não muito explorado, mas que merece nossa atenção. Afinal de contas, é daí que nasceu sua obra. Como Niemeyer cria? Será que há um roteiro preestabelecido para esse momento? Como é esse processo?

Devo alertar os incautos e afoitos pesquisadores: não é tarefa fácil esmiuçar esse viés. A Fundação Oscar Niemeyer, por exemplo, depositária de todo o acervo do profissional, há quatro anos não disponibiliza seus documentos a nenhum pesquisador. O motivo alegado é que o material ainda não está organizado a ponto de ser consultado. Seja como for, o fato é que não dá para contar com a via oficial. Para contornar essa situação, o jeito é buscar arquivos paralelos, de colaboradores e clientes.

Buscando um objeto para este artigo, meu faro me levou a um cliente que havia guardado grande parte da documentação do projeto de sua casa, criada há 20 anos e pouquíssimo conhecida, apesar de fazer parte da lista oficial de obras de Niemeyer. Por outro lado, sua pequena escala facilita entender o processo de criação, pois as variáveis são poucas. Trata-se da casa de praia de Marco Antônio Amaral Rezende, sócio-diretor de Cauduro Martino Arquitetos Associados, um dos maiores escritórios de design do país.

Rezende, que freqüentava Ilhabela havia muitos anos, na década de 1980 se apaixonou por uma gleba. Era o único terreno que ainda estava vazio junto à localidade conhecida como Campo de Aviação - o antigo aeroporto da ilha, atualmente uma grande esplanada livre utilizada para o lazer e rodeada de casas. Ao ver o lote, Rezende pensou: “É aqui que eu quero morrer”. Não sossegou até achar o dono e comprar a área.

Filho de um médico que conviveu com diversos arquitetos paulistas, entre os quais Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha, Rezende - com formação em planejamento ambiental - tinha um irmão arquiteto, seus sócios eram arquitetos e, na época, era casado com uma arquiteta. Por admirar imensamente a obra do projetista carioca, pensou em solicitar a ele o projeto da casa. “Todos acharam que eu estava louco”, relembra. “Você está pirado? Como vai discutir o projeto se está encomendando-o para Deus?”, teria dito Rogério Batagliesi. “Falei com Pedro Paulo [de Melo Saraiva] e com Paulo Mendes da Rocha e ambos me incentivaram”, recorda o futuro cliente.

 
Vista da varanda voltada para o mar, com paredes anguladas dos dormitórios
 
Vista interna, com a arandela de Niemeyer: sala aberta para os fundos e para o mar era fundamental
 
  A primeira maquete apresentada a Niemeyer, utilizada como instrumento de trabalho. Ele acrescentou a garagem e modificou as aberturas da fachada de acesso; na segunda maquete, aparece a abertura circular, mudam as angulações da varanda e diminuem o pé-direito e a altura do telhado
 

O encontro

Sem conhecer pessoalmente o profissional, Rezende criou coragem e ligou para o escritório de Niemeyer. Foi mais fácil do que pensava: imediatamente conseguiu marcar hora. Foi ao Rio com a mulher. Antes disso, teve a precaução de detalhar o programa por escrito. “Niemeyer trabalha de acordo com o programa que recebe. Assim, fiz questão de descrever todas as necessidades”, afirma. Deu as medidas do terreno, com a topografia, e relatou a situação do entorno. E fotos do local? “Não levei. Não há nenhuma situação diferenciada que fosse necessário indicar: o terreno é absolutamente plano e retangular”, explica.

Para sua surpresa, Niemeyer aceitou a encomenda de pronto. E mais: disse que não cobraria honorários pelo encargo. Meio sem jeito, Rezende tentou convencê-lo a aceitar pagamento, sem sucesso. Ficou acertado o seguinte: Niemeyer faria um plano inicial e o escritório de Rezende - que tinha (e ainda tem) arquitetos em seus quadros - desenvolveria o projeto, que, em todas as fases, passaria por aprovação do autor. E assim foi feito, num processo iniciado em 1985 e encerrado um ano depois.

Cerca de dois ou três meses após o primeiro encontro, a secretária de Niemeyer entrou em contato com Rezende, agendando, para a mesma semana, local e data da nova reunião. Era a apresentação do projeto. Na hora e local marcados, lá estava o casal Rezende. Com anunciados problemas na ponte aérea (vejam que isso não é nenhuma novidade...), Rezende não teve dúvida: pegou um ônibus de noite e pela manhã já estava na avenida Atlântica. No nono andar do edifício Ypiranga, a casa estava na mesa de trabalho de Niemeyer - uma prancheta pequena e alta. Quando viu o primeiro desenho, de caráter conceitual, Rezende confessa que fraquejou na empreitada a que se propusera pela primeira e última vez. “E agora? Com esse desenho vai ser impossível fazer alguma coisa”, pensou.

Mas, seguindo a apresentação, Niemeyer tirou o desenho de cima, e embaixo havia a concepção completa: uma folha de papel manteiga, desenhada com caneta hidrocor, nas cores preta e verde, planta e perspectiva. “Foi a apresentação mais bonita que já vi”, recorda o cliente, que depois se tornou colaborador, ao fazer com sua equipe os projetos de sinalização do Memorial da América Latina. A única diferença significativa - comprovável apenas pela memória de Rezende - é a posição da varanda, uma vez que não há indicação de implantação. Por sugestão de Maria Cristina Silva Leme, que integra a comissão de pós-graduação da FAU/USP e na época mulher do proprietário, a planta foi invertida: o que era frente virou fundo e vice-versa.

Telhado ou laje?

Como de costume, um texto acompanhava o desenho. Logo no início dele, há uma revelação surpreendente: “A casa é toda em alvenaria, na cobertura laje ou telha”. Ou seja, Niemeyer deixou em aberto um ponto-chave do projeto. A decisão entre laje ou telhado muda completamente a volumetria e o conceito da proposta. Segundo recorda Rezende, o arquiteto insistiu para que o cliente fizesse a escolha. “Lógico que me recusei e disse que essa era uma decisão dele. Mas, durante a conversa, comentei que na Ilhabela chovia bastante, era muito úmido, e talvez o telhado fosse mais apropriado. ‘Então está decidido: é telhado’, disse Niemeyer. Esse exemplo é uma prova contrária ao senso comum de que ele impõe os projetos que faz”, afirma.

 
Depois do desenho inicial, Niemeyer passa a trabalhar, nas reuniões seguintes, com maquetes, “como se fosse um escultor”
 

A primeira parte do memorial refere-se a alguns acabamentos, como “paredes brancas caiadas” e piso de concreto com junta de alumínio, além de dimensionar tamanhos e quantidades de caixilhos. A segunda parte, mais lírica, explica o conceito do projeto. “A conveniência de abrir todas as peças para o mar justifica a solução longitudinal, paralela à avenida. O quarto do casal tem a privacidade desejada e a solução da varanda dá à casa aspecto mais original. Nunca vi varanda como esta”, escreveu Niemeyer, referindo-se a uma varanda de 20 metros de extensão, marcada por paredes anguladas e sem pilares aparentes.

“Fazer a sala abrir para o lado do mar e os fundos do terreno parece-me fundamental”, continua. De fato, a casa praticamente divide o lote em duas partes, frente e fundo. “Tudo isso excluiria a idéia de uma solução mais recortada, inclusive a simplicidade da construção reclamada”, continua o manuscrito. Nesse ponto, a solução de uma morada simples, feita pelo cliente, foi seguida à risca: com planta retangular, ela é de uma pureza quase franciscana. Por fim, Niemeyer conclui que a cor da casa é um item a resolver, deixando em aberto também a coloração da alvenaria, apesar de mencionar o branco no início do texto.

Maquetes de trabalho

A partir daí, a bola passou para o escritório Cauduro Martino. O responsável por colocar aquela idéia preliminar em anteprojeto foi Marcos Pimenta Rezende Filho, irmão de Marco Antônio, que na época trabalhava no escritório. “Depois do desenho inicial, Niemeyer trabalha como um escultor”, revela o cliente. Para as reuniões seguintes, o projetista pediu que, além dos desenhos em escala 1:50, o projeto fosse acompanhado por maquetes, também confeccionadas por Marcos. Foram dois modelos físicos, que correspondem a duas reuniões seqüenciais (Rezende se recorda de um terceiro modelo, o preliminar, que não foi mostrado a Niemeyer), ambos com divisões internas.

Esses estudos volumétricos simples, feitos com papel duplex e guardados por Rezende há mais de 20 anos, revelam o processo de trabalho do centenário arquiteto. À primeira maquete, Niemeyer acrescentou um volume na frente, destinado à garagem. É um plano de concreto inclinado e ligado à casa por uma pérgula do mesmo material. Esse elemento novo, juntamente com outras alterações - como as angulações da varanda -, também é assinalado na cópia heliográfica, com a mesma caneta preta de sempre.

Na segunda maquete, o plano da garagem ganha mais inclinação, assemelhando-se ao que foi realmente executado. As modificações feitas por Niemeyer na maquete eram colocadas em seguida no papel por Marcos. Outro detalhe da primeira maquete modificado por Niemeyer é a fachada frontal: dentro do modelo, percebem-se as aberturas regulares, substituídas por grande caixilho circular no centro da construção. Niemeyer desenhou em um papel colado sobre a maquete as indicações das aberturas. No modelo seguinte, os vãos e formatos assinalados estão representados tal como na obra construída.

A respeito dessa abertura, devo abrir espaço para um comentário. Vendo fotografias da casa, a abertura me pareceu estranha, artificial. Mudei de idéia com a visita ao local, que me revelou a precisão do projeto. A casa, um pavilhão no sentido transversal, praticamente divide o lote em duas partes iguais. A abertura circular é voltada para a porção da entrada. Ali, há um clima quase rural, nada que lembre uma edificação na praia: a construção é mais fechada do que aberta, de alvenaria clara e com telhas de barro. Parece uma “casa de fazenda na praia”, como a define Rezende. Os únicos elementos mais contundentes são justamente a abertura circular e o volume de concreto da garagem. E, já da rua, quando observamos a casa, aquela abertura se faz emocionante, pois identificamos de cara a transparência da construção - um elemento moderno - sem que o todo seja revelado.

O beiral e a construção

Niemeyer também colou sobre o modelo - e desenhou em cima - uma folha azul-clara, que já indicaria a cor desejada para aquela fachada. Pedaços do mesmo papel e da mesma cor foram colados a algumas das paredes anguladas da varanda do fundo. Percebo outra modificação comparando os dois modelos: o pé-direito e a altura do telhado diminuíram.

 
A abertura circular, voltada para a entrada, mostra a transparência da construção - um elemento moderno - sem que o todo seja revelado
 

Rezende se recorda de um fato interessante. Quando se decidiu pelo telhado, Niemeyer havia dito que não queria beiral. Por causa do clima de Ilhabela, o cliente, por sua conta e risco, achou melhor fazer a maquete com um pequeno beiral, de uns 20 centímetros. Foi o único momento em que Niemeyer ficou furioso. “Quem colocou este beiral?”, teria dito, irritado, assim que viu o modelo. “E olha que na escala 1:50 um beiral de 20 centímetros significa quatro milímetros!”, diverte-se Rezende. Na época, ele disse ao arquiteto que era um erro e não teve coragem de assumiu a paternidade da idéia.

Por sugestão de Niemeyer, a casa é elevada 50 centímetros do solo e tem uma laje de piso, para conter a umidade. Mas a materialização dessa idéia parece imperceptível: o desnível foi resolvido com um leve morrote (nada de soluções de platôs visíveis, como em Mies van der Rohe).

Rezende conta que a quantidade de concreto necessária - além do piso, há as vigas invertidas da laje de cobertura, que transformam a laje numa espécie de forro - foi um complicador, pois na ilha não há usina de concreto e também não há como trazer de balsa os caminhões-betoneira. Ou seja, a estrutura da Casa da Ilha foi concretada por pequenas betoneiras. “No dia da concretagem da laje, havia umas 300 pessoas trabalhando”, exagera um pouco Rezende.

Há um detalhe curioso, imaginado por Niemeyer: um dente na espessura da laje junto à varanda, para que ela pareça mais fina do que realmente é. Somente dois aspectos do projeto não foram seguidos, por decisão do cliente. Primeiro, as portas e janelas, que deveriam ser pintadas de branco, são de madeira natural. “O rapaz caprichou tanto, que fiquei com dó de pintá-las”, confessa Rezende. Em segundo lugar, a cozinha, cujos armários possuem portas com cores primárias, “inspiradas em Mondrian”, que foram idealizadas pelo dono da casa. Na sala, Niemeyer criou uma grande arandela.

Há mais um aspecto curioso sobre a casa: foi a última obra que Niemeyer e Burle Marx fizeram juntos. Rezende, sem saber da briga histórica entre os dois, convidou Burle Marx para criar o paisagismo. “Eles foram muito elegantes, e nada comentaram a respeito. Cada um fez sua parte, sem nenhuma reunião para isso”, relembra. Nada mal: uma casa pé-na-areia, com desenho de Niemeyer e Burle Marx. Realmente, um bom lugar para esperar a morte. Diante desse cenário privilegiado, quem sabe o temido homem de capuz e com a foice na mão não se distrai?

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 334 Dezembro de 2007

 
A casa de Niemeyer e o jardim do Burle Marx: será que esse cenário enganará a morte?
 
Croquis feitos por Niemeyer dão detalhes
sobre os caixilhos
 
Na planta heliográfica da segunda reunião (apresentada junto com a primeira maquete), o volume da garagem é acrescentado. As angulações das paredes da varanda também sofrem modificações
 
O primeiro documento: o estudo preliminar, com planta, perspectiva e memorial descritivo
 
 
A Casa da Ilha

A Casa da Ilha revelou-me características do trabalho de Niemeyer. A primeira é geral, uma surpresa para quem o conhece pelos desenhos e não notou que seus novos projetos são sempre apresentados em maquetes.

Se o trabalho estético da arquitetura opera com volumes, o pensamento projetual também exige mais que o desenho bidimensional. É certo que a casa surgiu de desenho, o estudo preliminar que ilustra este artigo. Um desenho livre com medidas corretas. Aplicando-se uma escala, ele continha todas as medidas, em rigorosa exatidão. A partir dessa primeira representação, Niemeyer pediu-me uma maquete. Seria com ela que refletiria sobre a forma final.

A Niemeyer não bastava a tradicional trinca planta/corte/vista. Ele pensa volumes.

Da pré-forma original ao projeto final foi uma seqüência de maquetes, interagindo com modificações nos desenhos. Com elas, Niemeyer operava em “fazimento”, na expressão de Darcy Ribeiro. Foram três maquetes (a primeira, infelizmente, consumida pelo tempo), todas “massacradas” pelo pensamento do arquiteto.

 

Niemeyer usou o desenho como meio de comunicação, como sua inscrição e instrução à forma. Talvez por isso seu desenho é mínimo, quase insuficiente. Porém, note-se, jamais foram descuidados. Niemeyer é muito atencioso aos detalhes. Pela seqüência de maquetes, a forma arquitetônica foi sendo “encarnada”, “corporificada”, “objetivada”, usando as clássicas expressões de Marx.

A segunda conclusão já nasce no memorial: uma “casa de fazenda”. Arquétipo de todas as casas e palácios de Niemeyer, a Casa da Ilha dialoga com as outras casas de fazenda, afirmando sua unicidade. Suas diferenças é que exprimem a identidade da criação arquitetônica e constroem a diferença estética final, que a transformam em uma obra única, signo-símbolo da criação arquitetônica.

Com essas diferenças, em diálogo com as casas similares, se afirma o valor simbólico que faz a casa única em si e, ao mesmo tempo, expressão essencial do que é uma casa. A Casa da Ilha é valor de uso, valor de troca e valor simbólico, em união imediata - três instâncias, muito além do obsoleto par forma-função.

O terraço da Casa da Ilha não possui colunas, eliminando a distinção entre exteriores e interiores. O mar e o jardim convivem com o interior da casa. Na verdade, não existe a transição exterior/interior - não se passa de um espaço a outro. Vive-se em um espaço.

A casa em geral, enquanto objeto útil, exige o fechamento ou a possibilidade de ser fechada. Na Casa da Ilha, a relação exterior-interior é oposta: recusa o fechamento, se afirma como abertura permanente, quase total, como continuidade entre o dentro e o fora. Isto, mesmo nos quartos, funciona como um momento de indisciplina.

Na sala, em sua janela circular, surge o tema do olho, que Niemeyer desenvolveria no museu de Curitiba. A Casa da Ilha olha para fora, vendo a natureza das montanhas. Afirma, assim, a verdadeira frente da casa: o pico do Baepi. O olho enxerga a encosta. A Casa da Ilha não tem frente e atrás, nem fora e dentro. É uma casa-praia, muito mais que uma casa de praia. Ao contrário de uma concha, exige-se como forma aberta. (Por Marco Antônio Amaral Rezende, diretor de Cauduro Martino, autor de romances, poesia e crítica de pintura; ele está terminando Arte da marca e Os Sertões: Teatro Oficina [fotografias], para publicação em 2008)

veja também
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  FÊNIX SOCIALISTA - Roberto Segre faz um breve histórico sobre a evolução da arquitetura modernista russa a partir da revolução de 1917
  A CORTE NIEMEYER - O homem, o escritório, a fundação e as pessoas do cotidiano de Oscar Niemeyer
  POESIA SEM FORMALISMO - Uma rápida e saborosa biografia de Marcelo Fragelli por Márcio Bariani
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