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OITO VERSÕES DE UMA TORRE
Difícil imaginar os caminhos percorridos para chegar à última e definitiva versão do
Eldorado Business Tower |
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Croquis da 4ª versão |
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| É difícil que algum dos 8 mil futuros usuários que ocuparão nos próximos meses o Eldorado Business Tower imagine os caminhos percorridos para chegar ao desenho definitivo daquela edificação. Possivelmente, para eles o local é, de forma objetiva, um espaço de trabalho, com mais ou menos facilidades do que os outros, com mais ou menos tecnologia e com uma bela vista. Por trás desse projeto, contudo, há uma história de mais de 25 anos. Por exemplo: além de um estudo anterior, realizado por arquitetos norte-americanos, o escritório Aflalo & Gasperini desenvolveu outros sete, até chegar à configuração final. Com um dos arquivos abertos - no caso, o dos arquitetos -, conseguimos traçar uma versão dessa trajetória. Certamente, só do ponto de vista arquitetônico, existem muitas outras. (1) |
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A construção de um edifício de escritórios de grande porte pode parecer simples, mas não é. Além de toda a complexidade técnica envolvida em um prédio como o Eldorado Business Tower, há o histórico de sua viabilização, que pode, como neste caso, ter vários capítulos. Existem ainda os vários contextos de sua história, que incluem desde o equacionamento financeiro até as decisões familiares dos proprietários do terreno, sem contar, é claro, as oscilações do aquecimento e desaquecimento da economia e do setor.
Ao que consta, o grupo J. Alves Veríssimo - proprietário do shopping center Eldorado - tinha a idéia de construir escritórios junto ao centro de compras desde a inauguração deste, em 1981. Contudo, a mais antiga imagem registrada do prédio data de 1992, quando foi apresentada a primeira proposta. O parceiro do negócio era a Birmann - construtora de Rafael Birmann, que ficou conhecido nos anos 1990 por construir edifícios avançados do ponto de vista da tecnologia, adotando projetos de arquitetura contratados nos Estados Unidos. (2) Na época, o investimento previsto era de 50 milhões de dólares - a edificação ora finalizada custou cerca de 175 milhões de dólares. (3) A idéia era construir duas torres, a partir do desenho do desconhecido estúdio norteamericano Lewis Iglehart & Lydia Yoslow Design. No Brasil, a tropicalização (4) ficaria a cargo do escritório de Edison Musa.
Os empreendedores anunciavam que a conclusão estava prevista para dali a dois anos. Batizados na época de Eldorado Towers, os dois volumes idênticos seriam unificados por um grande lobby de vidro, semelhante aos átrios existentes nas duas extremidades da fachada principal do shopping. Tal como o prédio executado, o projeto previa a ocupação de uma porção triangular de 10 mil metros quadrados do terreno, equivalente a cerca de 15% dos 68 mil que ele totaliza. E mais: seria um “edifício inteligente”. A edição 154 da revista PROJETO (de julho de 1992) publicou texto sobre as torres no qual se afirma que “o sistema de ar condicionado, por exemplo, utilizará central de termoacumulação, que trabalha na produção de gelo durante a noite, quando a energia é mais barata, para suprir o sistema durante o dia”. Essa versão do início da década de 1990 teria ainda três subsolos de garagem, somando mil vagas (quase metade das 1,8 mil afinal implantadas). Por fim, o projeto dos norte-americanos teria “uma passarela climatizada [que] fará a interligação entre os edifícios e o shopping”. |
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| 1ª versão Em 1999, o escritório Lewis Iglehart & Lydia Yoslow Design propôs duas torres |
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| 2ª e 3ª versões Gian Carlo Gasperini desenhou as duas primeiras propostas para a Sandria: uma torre com o coroamento chanfrado e outra com lajes superiores maiores que as inferiores |
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4ª versão Roberto Aflalo Filho entra em cena: a porção triangular continua ocupada por um bloco baixo - já de garagens - e aparece um volume intermediário (entre a base e a torre), destinado ao centro de convenções. A cobertura do estacionamento continuou com ares
de praça elevada. A edificação passa a ter feições retangulares, alinhando-se o lado maior da planta com a rua Ofélia. Nos croquis seqüenciais, Aflalo dá início à lapidação do volume da torre, que até então era um prisma puro e começa a ganhar autonomia, passando
a apresentar personalidade e independência conforme recebe chanfros no coroamento |
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Fase intermediária
Nove anos depois da proposta de Birmann, e provavelmente após diversas tentativas de viabilizar o empreendimento, entrou em cena outra construtora, a Sandria. A concepção que eles apresentaram para os Veríssimos era mais ou menos semelhante: usar a área frontal do shopping center - de conformação triangular, junto à marginal do rio Pinheiros - para construir um edifício de escritórios. Além disso, estava previsto no início desse processo um centro de convenções anexo à torre. Pela parceria que desenvolvem há mais de 20 anos - desde o projeto dos prédios residenciais São Paulo I e São Paulo II e depois da série de edifícios comerciais Atrium, localizados no Itaim Bibi e na Vila Olímpia, respectivamente -, o escritório Aflalo & Gasperini foi chamado pela Sandria para desenvolver os estudos. Isso ocorreu nos primeiros meses de 1999. Em abril do mesmo ano foi apresentada a primeira proposta elaborada por Gian Carlo Gasperini.
Essa idéia inicial compreendia uma torre de escritórios com 40 andares, marcada por um chanfro no alto (seria uma referência ao desenho da fachada do shopping center?), e um volume baixo e independente, onde se implantaria um centro de convenções. No desenho da fachada desse bloco de menor altura, um grande logotipo do centro de compras leva a supor que ali também haveria a ampliação do Eldorado. “Não, nesse projeto nunca desenhamos áreas com lojas”, contrapõe Roberto Aflalo Filho.
A torre teria a fachada marcada por faixas verticais, uma conseqüência do ritmo da estrutura. Nesse estudo, o prédio seria construído na esquina da marginal do Pinheiros com a rua Ofélia, pois ainda não existia a estação de trem Hebraica-Rebouças, da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que desapropriou esse trecho (leia PROJETO DESIGN 248, outubro de 2001) - apesar de o projeto da estação ser de 1994. Mesmo com o terminal vizinho implantado, nos sete estudos realizados por Aflalo & Gasperini a edificação está disposta junto ao cateto menor do triângulo retângulo.
Além desse primeiro estudo, Aflalo & Gasperini elaborou outros cinco para a Sandria. Todos foram realizados no intervalo de um ano, entre abril de 1999 e abril de 2000, datas presentes no primeiro e no último caderno apresentado aos clientes. Os desenhos intermediários não são datados, mas menos de um mês depois da proposta inicial já havia outra, também desenvolvida por Gasperini. Nesse segundo estudo, a torre mudou completamente. O volume baixo, na porção triangular da gleba, foi mantido com o programa de convenções, mas perdeu massa construída. Aparece em cena um terceiro bloco - também triangular -, destinado a estacionamento e com uma praça na cobertura, semelhante à que foi construída. Contudo, a torre com planta quadrada ganha três partes bem definidas, resultado do aumento gradual das dimensões do pavimento-tipo, à semelhança de uma pirâmide invertida. “Estávamos começando a trabalhar no Rochaverá - que possui andares maiores em cima, de valor mais elevado -, e esse conceito também foi aproveitado naquele estudo”, relata Aflalo, que, depois da segunda proposta, ficou encarregado de desenvolver o projeto até o estágio final. (5)
No primeiro croqui de Aflalo, a porção triangular continua ocupada por uma edificação baixa - já de estacionamento - e aparece um volume intermediário (entre a base e a torre), destinado ao centro de convenções. A cobertura do estacionamento manteve os ares de praça elevada. O edifício mais alto, por outro lado, começa a ganhar contornos retangulares, alinhando-se o lado maior da planta com a rua Ofélia. Nos croquis seguintes, o arquiteto passa a lapidar a edificação principal, que até então era um prisma puro: primeiro, surge um volume de vidro circular na face voltada para o centro de convenções; depois, esse volume começa a ganhar autonomia, passando a apresentar personalidade e independência, conforme ganha chanfros no coroamento. |
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| O projeto do estúdio norte-americano tem em comum com a proposta de Aflalo & Gasperini a criação de uma passarela |
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Torre branca
Surge então no projeto, por determinação do cliente, um diferencial no programa: a torre, além dos escritórios, passa a abrigar um hotel de luxo. Assim, o volume ganha duas massas diferentes: na parte baixa engorda, com lajes maiores; em cima, no trecho para as instalações de hospedagem, fica mais esbelto. No primeiro desenho em que aparece a combinação escritórios/hotel, o edifício ainda possui coroamento chanfrado, que logo desaparece. Em seguida, a torre passa a apresentar uma face curva - no primeiro instante, até pontiaguda - e caracterizam-se claramente os trechos inferior e superior. Porém, não há diferenciação de tratamento externo entre os dois programas: somente um observador atento notará que no desenho a grelha tem uma pequena diferença, pois o pé-direito do hotel, localizado no topo da torre, é mais baixo.
Internamente, o hotel teria prumada de elevadores independentes, com um átrio central. O volume baixo, sempre no mesmo local, continuava destinado a convenções. No desenho final dessa fase, o conjunto já está caracterizado por revestimento branco (com vidros verdes transparentes), mesmo não se sabendo ainda que tipo de material seria utilizado na fachada. De fato, o branco contrasta com o prédio negro de Salvador Candia, situado no quarteirão ao lado (leia PROJETO 10, que circulou junto com a edição 324 de PROJETO DESIGN). Na montagem aérea, apesar de ainda não existir a estação ferroviária, o espaço que foi desapropriado já está livre.
Fase final
Na última etapa do processo, o complexo volta a adquirir feições retangulares e retornam também os chanfros no coroamento. Os dois itens do programa da torre - escritório e hotel - ganham certa independência e possibilitam essa leitura para o observador externo. Além da mudança na grelha (conseqüência da já citada diferença do pé-direito), há um andar intermediário vazio - ou ao menos com caixilhos recuados - entre os dois programas, que acaba descolando um do outro. O hotel não mais possui átrio. O conjunto ocupa uma área maior do que aquela que se concretizou.
No estudo final realizado para a Sandria, o sexto de Aflalo & Gasperini, a torre fica mais enxuta (a planta-tipo do escritório perde área e a do hotel ganha, com o acréscimo do átrio) e os dois programas passam a ocupar o mesmo volume, com pequenas saliências na porção baixa, a dos escritórios. As fachadas maiores recebem pequenas curvas - como Aflalo tinha proposto em seu primeiro estudo. A torre se desloca, e a fachada maior é posicionada paralela à marginal. Apesar de ainda conter um programa diferente (hotel e convenções no corpo baixo), o projeto assume, enfim, o aspecto definitivo. Em comparação com o volume recém-inaugurado, a diferença mais visível são as janelas do hotel, um pouco menores do que as do escritório. O estudo com essas características data de abril de 2000.
No momento econômico que corresponde ao final desse estudo, a Sandria não conseguiu viabilizar o empreendimento. Dois anos depois, e após a crise no setor resultante do 11 de setembro, entrou em cena o personagem final: a Gafisa, que nunca havia desenvolvido um projeto com Aflalo & Gasperini. (6) No início dessa última fase, logo foi descartada a construção do hotel, concentrando- se as fichas somente no edifício do escritórios. O centro de convenções, por sua vez, tornou-se um edifício-garagem. Daí para a frente, não menos complexo, ocorreu o desenvolvimento do projeto definitivo, que tem entre seus maiores méritos a aplicação de tecnologia e o uso inovadores de materiais. |
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Notas:
1 - O Unibanco, por exemplo, fez diversas tentativas de ampliar sua sede vizinha por meio de concursos fechados, alguns dos quais envolvendo a área do Eldorado.
2 - Para conhecer exemplos desses edifícios, leia PROJETO DESIGN 181, dezembro de 1994, e 205, fevereiro de 1997, além do livro Aflalo & Gasperini: edifícios corporativos, de Paulo Olivato, publicado pela Ateliê Editorial.
3 - Equivalente a 300 milhões de reais.
4 - Tropicalização era o termo (que, diga-se de passagem, sempre irritou os arquitetos) para designar o processo, do qual se incumbia o parceiro brasileiro, de adaptação do projeto à legislação e às normas construtivas locais.
5 - Apesar de os sócios assinarem como autores todos os projetos, normalmente é um dos três titulares que cria e acompanha o desenvolvimento do desenho.
6 - Um projeto de Aflalo & Gasperini, o Capital Flat (leia PROJETO DESIGN 234, agosto de 1999), foi construído pela Gafisa, mas não desenvolvido para ela. |
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Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 338 Abril de 2008 |
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| 5ª versão A torre passa a apresentar uma face curva - no primeiro instante até pontiaguda - e caracterizam-se claramente as partes alta e baixa. |
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5ª versão Não há distinção no tratamento externo dos dois programas: somente um observador atento notaria que a grelha tem
uma pequena diferença, pois o pé-direito do hotel, localizado no topo da torre, é mais baixo |
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| 6ª versão Na fase final do processo, a torre volta a adquirir feições retangulares e retornam também os chanfros no coroamento. |
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6ª versão Os dois itens do programa da torre - escritório e hotel - ganham certa independência e possibilitam essa leitura para o observador externo. As fachadas maiores adquirem pequenas curvas - como Aflalo tinha proposto em seu primeiro estudo |
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7ª e 8ª versões A torre se desloca, e a fachada maior é posicionada paralela à marginal. Apesar de ainda conter um programa diferente, o projeto ganha, enfim, as feições definitivas. Em comparação com o volume recém-inaugurado, a diferença mais visível são as janelas do hotel, um pouco menores do que as do escritório. A maquete é do estudo final, já para a Gafisa |
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