Depois da última curva do trecho da serra voltado para o Vale do Paraíba, assustei-me com a imagem inesperada e agressiva: no meio da névoa, delineou-se um grande viaduto em construção. É o novo acesso em direção a Santo Antônio do Pinhal, que vai eliminar o perigoso cruzamento em nível. Antes dessa grande obra viária, a porção de serra da SP-123 só era cortada por dois pequenos viadutos da linha férrea que marcou o primeiro momento de Campos do Jordão - o ciclo dos sanatórios (1914/40). Iniciada em 1910 e concluída em 1914, a construção da Estrada de Ferro de Campos do Jordão (EFCJ), que a liga a Pindamonhangaba, facilitou o acesso de tuberculosos, viabilizando a estância climática, à qual só se chegava em burros, em viagens que demoravam até quatro dias. Com a ferrovia, a cidade passou a ter até 40 sanatórios, que receberam pacientes ilustres, como Nelson Rodrigues.
Percebo que na sinalização da SP-123 não existem mais as placas colocadas há 30 anos, quando a rodovia foi inaugurada, com os versos oficiais “Não corra, não mate, não morra”. A serra possui curvas confortáveis, sem comparação com a antiga rodovia, a sinuosa SP-50, que partia de São José dos Campos. “Nos anos 1940, a viagem demorava quatro a cinco horas, mas quando chovia podia chegar a um dia, com o carro movido a gasogênio”, lembra o arquiteto Roberto Bratke, que freqüentou Campos do Jordão em quase todos os invernos da década. Faltando menos de 20 quilômetros para chegar à cidade, a densa neblina ganha a companhia de uma fina garoa, que dava ao final da viagem uma leve tensão: os faróis dos carros em sentido contrário só os denunciavam a poucos metros de distância. Como um cavalo que dispara quando percebe a cocheira próxima, acelerei para acompanhar as curvas que faltavam. Direita, esquerda, direita. Longa subida, longa descida. Pronto, chegamos.
Campos do Jordão é formada basicamente por três bairros lineares - Abernéssia, Jaguaribe e Capivari -, que acompanham um fundo de vale por onde segue a linha férrea. A cidade é envolvida por uma paisagem deslumbrante, que atraiu uma série de pintores: Lasar Segall, por exemplo, apresenta uma fase, iniciada em 1935, dedicada à natureza da região. Para um dia de semana, a agitação no ar era atípica. Afinal, o feriado do dia seguinte - 1º de maio - marcaria o começo da temporada de inverno, quando centenas de milhares de turistas ocupam a cidade. Prevendo um inverno gelado - que potencializa essa onda -, os moradores se animavam com o frio: às 11 da manhã, o termômetro marcava 12 graus.
Se eu fosse um visitante bissexto, logo chamaria a minha atenção a arquitetura predominante, com os telhados inclinados lembrando paisagens distantes. Na entrada do município, junto aos últimos sanatórios restantes, observei, no alto de uma montanha, o Palácio Boa Vista. Em estilo eclético, a residência de inverno do governador do estado é uma das construções que marcam o segundo momento da cidade: o ciclo turístico (1938/77). Entre 1938 e 1941, o interventor federal em São Paulo, Adhemar de Barros, promoveu grandes mudanças, que prepararam Campos para sua nova vocação. Mesmo porque, com o uso da penicilina, a cura da tuberculose ficou mais fácil e a maior parte dos sanatórios fechou as portas. Além do palácio, Adhemar construiu o Grande Hotel e demarcou o horto florestal. Desde essa época, as casas de campo se concentravam em Capivari, distantes das casas de saúde (na maioria em Abernéssia). “Lembro que eu e outras crianças saíamos às ruas de Capivari com máscaras, pois nossas mães tinham medo de que pegássemos o bacilo da tuberculose, mesmo a quilômetros dos sanatórios!”, diverte-se Roberto.
Atravessei o primeiro dos três bairros, Abernéssia, o centro da cidade. Junto a construções ecléticas (catedral), típicas (estação de trem), protomodernas (Câmara Municipal, bancos etc.) e moderna de inspiração carioca (mercado municipal), a nota dissonante: uma jóia brutalista de Ruy Ohtake, a estação telefônica. Dois pilares de concreto apóiam uma cobertura arqueada em balanço; o piso principal, elevado em relação à via de mais movimento (ele acompanha a cota da rua superior), torna-se quase um belvedere. O projeto, de 1977, testemunha o início do terceiro momento de Campos do Jordão: o ciclo do turismo de massa. A ação partiu novamente de um mandatário biônico - o governador indicado Paulo Egydio Martins (gestão 1975/79) (2) -, que, para o bem ou para o mal, preparou a localidade para o seu estágio atual. Além de mudar o status de prefeitura sanitária para município, Martins construiu a SP-123, ainda hoje o principal meio de acesso à cidade. Ele implantou a sede do Festival de Inverno de Campos do Jordão (idealizado em 1970 pelo então secretário Luís Arrobas Martins), que se tornou o principal marco arquitetônico do período. O Auditório Cláudio Santoro, também com viés brutalista, possui emocionante estrutura de quatro pilares e foi desenvolvido por Croce, Aflalo & Gasperini. Um dos projetos preferidos de Gian Carlo Gasperini, o espaço segue subutilizado: uma escola de música de alto nível, implantada junto ao auditório, poderia ter uso permanente, com apresentações nos finais de semana.
Nos anos 1940, o Tênis Clube era o centro social “em que todo mundo se encontrava; era muito chique”, recorda Roberto Bratke
Rumo ao Embaixador
Mais à frente, cruzei Jaguaribe - o segundo bairro - e vi funcionários da prefeitura arrumando o canteiro central da via principal, preparando-o com flores para os afortunados turistas que aos poucos começavam a chegar. Em seguida, ultrapassei o Grande Hotel (que, recuado e em meio a um bosque, não é visível da avenida). Depois de um longo tempo fechado e hoje administrado pelo Senac, é considerado um dos melhores (e mais caros) hotéis da cidade. Em plena transição da sua obra do eclético para o moderno, (3) Oswaldo Bratke, aos 33 anos de idade, foi chamado por Adhemar para criar o hotel-cassino. O arquiteto foi apresentado ao governador por Oscar Americano (colega de Bratke no Mackenzie) e, na mesma época, atendeu a uma encomenda privada do político: a urbanização do Jardim Leonor, em São Paulo, nome que homenageava a primeira-dama Leonor Mendes de Barros.
A pedra fundamental do empreendimento, inicialmente chamado Grande Hotel de Campos do Jordão, data de 1940 e sua inauguração ocorreu em setembro de 1944. Na época, com quase 7 mil metros quadrados de área, era um dos maiores hotéis do país. Nesse período, Bratke era sócio do engenheiro Carlos Botti, que morreu em 1942. Na empresa de projeto e construção Bratke & Botti, o primeiro era responsável pelos desenhos e o segundo, pela execução. A morte do sócio marcou o início da atividade autônoma de Bratke como arquiteto - um dos pioneiros desse processo em São Paulo, junto com Rino Levi, Eduardo Kneese de Mello e Vilanova Artigas.
Poucos quilômetros à frente do hotel, seguindo ainda pelo eixo junto à linha do trem, cheguei a Capivari. Lá, o clima estava mais calmo, mas com todos os restaurantes e bares com as mesas a postos. Caminhões de bebida faziam as últimas entregas. Seguindo em direção ao horto florestal, ando mais dois quilômetros e meio para chegar ao Jardim do Embaixador.
O contato direto com o segundo momento de Campos do Jordão levou Bratke a perceber o potencial turístico do lugar. Em 1940 ele comprou, juntamente com Oscar Lang e Noé Ribeiro, uma gleba na região anteriormente conhecida como Homem Morto, nome do córrego que a atravessa. Assim como em São Paulo ele previu que a cidade cresceria na direção do Morumbi, na serra sua percepção indicou que o eixo da urbanização seria no sentido do horto florestal. Àquela altura já estava definido o traçado sinuoso da via que liga Capivari ao parque (criado em 1938) e corta o Jardim do Embaixador em dois pedaços. Assim, Bratke criou as ruas secundárias, todas com nomes de árvores, levando em conta as curvas de nível (tal como fez posteriormente nas áreas que urbanizou no Morumbi). O bairro possui esse nome em homenagem ao embaixador José Carlos Macedo Soares, ministro das Relações Exteriores do governo Vargas, entre 1934 e 37, que havia loteado parte de Capivari. A área foi subdividida em 169 lotes: variando entre 818 e 7.880 metros quadrados, eles possuíam em média 1,5 mil metros quadrados. (4)
Em 1940 Bratke comprou uma gleba na região anteriormente conhecida como Homem Morto, nome do córrego que a atravessa
Ruas Araucária, Sucupira, Nogueira...
O Jardim do Embaixador é considerado o primeiro loteamento sofisticado da cidade. Antes disso, pouco mais de uma centena de casas de campo ficavam em Capivari. No bairro, o Tênis Clube era o centro social “em que todo mundo se encontrava; era muito chique”, recorda Roberto. Além do desenho da urbanização, Bratke projetou o restaurante e uma série de residências. As únicas fotos (5) conhecidas do empreendimento são imagens do restaurante, que ocupava uma pequena quadra plana, de 3.950 metros quadrados, no centro do loteamento, e foi construído com o objetivo de promover a ocupação da região. “Ele era comandado por um alemão. Lembro que tinha boas compotas”, afirma Roberto.
O alemão era o médico Wolf Kolleritz. Depois que ele morreu, o espaço foi gerenciado por sua irmã, Ilde Kolleritz. “Era uma espécie de hotel-restaurante, uma vez que havia dois ou três quartos”, recorda José Maria Vicente de Azevedo, cuja família possui casa na região desde o início do bairro. De certa forma, o restaurante do Jardim do Embaixador foi precursor do circuito gastronômico na estrada do horto - o Vale dos Gourmets de Campos do Jordão, tal como o de Petrópolis, se estendermos a comparação entre as serras para além do campo da arquitetura. Já as casas ficavam ao redor do restaurante, muito próximas - na rua Araucária (a principal, que liga Capivari ao horto, neste trecho hoje chamada avenida Pedro Paulo) e nas ruas Sucupira, ao sul, e Nogueira, ao norte.
A historiografia arquitetônica não detalhou a história dessas construções residenciais, que, diferentemente do Grande Hotel, já possuíam feições modernas. Os pesquisadores só podem se alimentar dos desenhos publicados na revista Acrópole, todos de casas não executadas. Analisando essas imagens, Hugo Segawa observou que Bratke apresentava
“soluções formais coerentes: edificações de geometria nítida e de predominância horizontal, plano único de cobertura com grandes beirais, materiais deixados à vista (pedra e madeira, principalmente) e generosos panos de vidro - configurando a tênue separação interior/exterior, valorizando a belíssima paisagem campestre daquela estância turística”. (5)
Por falta de documentação (as casas executadas não apareceram em nenhuma publicação na época e Bratke não guardou a lista com os nomes dos proprietários ou mesmo quaisquer documentos), esses projetos foram tratados de forma genérica. No esboço de cronologia presente no livro de Segawa - uma síntese de informações colhidas pelo autor, por Mônica Junqueira de Camargo e Guilherme Mazza Dourado -, o ano de 1941 aponta “Diversos projetos residenciais em Campos do Jordão” e “Urbanização do Jardim do Embaixador, Campos do Jordão. Construção do bar/restaurante”. Atualmente, quase 70 anos depois, um turista apressado nem percebe a existência do bairro. Apenas uma discreta placa o sinaliza. O antigo distrito rural, imortalizado em uma pintura de Francisco Rebolo, (6) foi engolido pelo terceiro ciclo de Campos do Jordão. Somente algumas travessas ainda de terra conservam o clima dos anos 1940.
As casas desenhadas por Bratke ficavam muito próximas, ao redor do restaurante. As remanescentes se confundem com residências das décadas seguintes - que, possivelmente inspiradas no arquiteto, utilizaram materiais e cores semelhantes. O fato é que Bratke projetou, contando com a sua, sete casas na gleba do Embaixador. “Elas pertenciam a conhecidos de meu pai: ele levou todos para lá”, relembra Roberto. A primeira foi para uso do próprio Bratke, que marcava o início do loteamento. Por circunstâncias inexplicáveis, ela permanece de pé. No ano passado estava à venda, com corretores anunciando aos interessados a oportunidade de construir um hotel. No final daquela manhã do último dia de abril passado, um caseiro arrumava os jardins.
As outras seis cabanas foram realizadas para Guilherme Corazza, Oscar Americano, Armando Ciampoligni, Firmino Whitaker, Pascoal Scavone e Teixeira de Barros. Americano e Corazza eram colegas de Mackenzie e de ofício; Ciampoligni era irmão de Helena, mulher de Bratke. Whitaker, Scavone e Teixeira de Barros eram amigos. Bratke, Corazza e Americano eram vizinhos nos lotes 47 a 50, nessa ordem, com a morada de Americano já na esquina da rua Sucupira. Os três foram empreendedores do edifício ABC, na rua Major Sertório, desenhado em 1949. “Este foi outro jardim comum que mantivemos com os Americanos”, afirma Roberto, referindo-se à posterior vizinhança entre as duas famílias no Morumbi. O cunhado do arquiteto ocupava a esquina oposta à de Americano. Sua casa é a que aparece na foto do restaurante, ao fundo. Whitaker, por sua vez, estava no lado oposto à via principal, em frente do restaurante; os lotes de Scavone e Teixeira de Barros ficavam na rua Nogueira, também do outro lado da via principal.

Atualmente, quase 70 anos após a criação do bairro, um turista apressado nem percebe sua existência. Apenas uma placa o sinaliza
Lucio Costa x Oswaldo Bratke
As propostas de arquitetura moderna na serra fluminense adotaram - grosso modo - a lógica da escola carioca, juntando aspectos corbusierianos à arquitetura luso-brasileira. Do primeiro vinham a planta livre, os pilotis, os volumes prismáticos, a ligação interior/exterior etc.; da segunda, os telhados de barro, as cores, os volumes brancos. A divulgação dessa arquitetura - até mesmo no ambiente paulista - foi reforçada pela publicação do catálogo da exposição Brazil Builds, no Moma de Nova York, em 1943, ou seja, durante a transição para o moderno na obra de Oswaldo Bratke e depois do Jardim do Embaixador. Apesar de a exposição e o catálogo incluírem profissionais que atuavam em São Paulo, como Rino Levi e Gregori Warchavchik, neles não constava nenhuma obra de Bratke.
Contudo, essa variante rural, com lógica moderna e materiais mais naturais, francamente inspirados na casa chilena de Le Corbusier - como o Park Hotel São Clemente, de Costa -, ainda não estava consolidada por ocasião da seleção das Paraíobras do Brazil Builds. Ali, a única que esboça esse ideário é a Fazenda São Luís, na região dos Lagos, criada por Aldary Toledo. Contudo, desse projeto datado de 1942 só há desenhos. Bratke não poderia ter se inspirado em nenhum contemporâneo carioca. Assim, apesar de assemelhadas, a produção de Bratke e a de seus colegas cariocas em cidades serranas são independentes.
Mesmo assim, vale fazer uma aproximação, para evidenciar eventuais pontos comuns e opostos. Comparando a obra remanescente do Jardim do Embaixador com o hotel de Lucio Costa, há mais elementos para avançar na descrição realizada por Segawa. Em comum, respondendo à necessidade do abrigo moderno na montanha, ambos utilizaram materiais naturais, como madeira e pedra, panos de vidro e telhados inclinados. No entanto, o primeiro ponto que chama a atenção é justamente o telhado. Enquanto o grupo carioca usa telhas de barro, Bratke adota fibrocimento. E o contraste entre materiais artesanal e industrializado diz muito. Bratke o fazia por facilidade? Economia? Ou porque não havia olarias na região? Na época, a maioria das construções da cidade utilizava telha de barro (do tipo francesa), provenientes do Vale do Paraíba. Por outro lado, a telha de fibrocimento também não é local. Não podemos esquecer que estávamos em plena Segunda Guerra Mundial e o transporte de materiais deveria enfrentar dificuldades.
A maior parte dos telhados era de uma água, mas Bratke adotou ainda o telhado borboleta, no restaurante e na casa Ciampoligni
Mas acredito que nos dois casos as opções foram estilísticas. Se Costa reforça a aproximação com construções luso-brasileiras, Bratke liga-se à industrialização dos componentes construtivos, influenciado por norte-americanos da costa oeste. Isso reforça a tese de que os arquitetos paulistas - de forma geral - aproximaramse nesse momento da produção dos EUA. Não só pelo grupo wrightiano - reforçado pelas viagem de Miguel Forte e Jacob Ruscht, em 1947 -, mas também por Artigas, que vai aos Estados Unidos entre 1946 e 1947 com uma bolsa de estudos. No plano de pesquisa em que solicita a bolsa, Artigas compara a arquitetura do Rio de Janeiro e de São Paulo, afirmando que os vizinhos foram influenciados por Le Corbusier. Em seguida, ele observa: “Já em São Paulo, a minha cidade, as coisas têm se passado de maneira bem diferente. Condições locais têm dificultado maiores raízes para a arquitetura moderna. O que nos tem faltado, pretendo trazer da América”. (7) Contudo, a produção de Bratke na montanha, nos primeiros anos da década de 1940, é a precursora da influência californiana em São Paulo.
Case Study House na Mantiqueira
A revista Arts & Architecture (que circulou entre 1911 e 1967) teve seu período áureo sob a direção de John D. Entenza, a partir de 1938. Partiu de Entenza a idéia das Case Study Houses (iniciadas em 1945), da qual Bratke participou com a casa da rua Avanhandava, de 1947. Mas, certamente, as residências na serra da Mantiqueira eram mais interessantes do que a paulistana, por serem mais experimentais, estarem implantadas em terrenos maiores, com topografia mais acidentada e cercadas de mata exuberante.
Nas casas de Campos do Jordão, os fechamentos eram sempre de madeira, algumas - como as casas de Bratke e de Whitaker - com pranchas na diagonal. Não há alvenaria, somente alguns muros e pilares de pedra. Em terrenos acidentados, os volumes eram elevados do solo. A maior parte dos telhados era de uma água, mas Bratke adotou ainda o telhado borboleta, no restaurante e na casa Ciampoligni. Outra diferença em relação a Costa são os planos inclinados que apoiam beirais, como no restaurante e nos chalés Bratke e Teixeira de Barros. Outro ponto que chama a atenção são as cores. Enquanto Costa usava tons presentes nas construções luso-brasileiras (branco, azul e verde), Bratke adota cores fortes - principalmente vermelho, azul, amarelo e preto -, na maioria das vezes pintando a madeira, e não deixando-a na forma natural, como fazia Costa. Ao que tudo indica, o Jardim do Embaixador foi um campo de experimentação notável para Bratke.
A casa do arquiteto, (8) vista por fora, parece conservar o ar original. Possivelmente, a área em pilotis foi ocupada posteriormente. A de Corazza, apesar de manter o volume original, foi completamente modificada. Já a de Oscar Americano e a de Ciampoligni ganharam acréscimos. A de Scavone foi demolida e a casa Teixeira de Barros, apesar de ostentar as cores de Bratke, foi murada e reformada. A mais conservada - por dentro e por fora - parece ser a residência Whitaker. Dez anos depois de ficar pronta, ou seja, no início da década de 1950, ela foi vendida por Firmino para a família de sua irmã - Maria da Penha Whitaker Vicente de Azevedo -, que mantém a casa até hoje. Nessa época, o chalé foi ampliado, passando de dois para quatro quartos, em reforma orquestrada por Paulo Krause. (9) Foi mantida parte das características originais, sobretudo na fachada frontal, mas fecharam-se os pilotis e foram acrescentadas as janelas nos dormitórios novos, que contrastam com o restante.
Na concepção original, a casa, que ocupa um declive, não encostava no solo: além dos pilotis livres no piso inferior, o térreo, mais ou menos na cota da rua, é elevado cerca de 20 centímetros. A cabana parece flutuar. O acesso, um pouco recuado em relação ao alinhamento da face principal, ocorre por um deque, igualmente suspenso. A fachada é marcada por interessante solução em brises (duplicados por Krause) que se movimentam dentro de uma retícula quadrada. Enquanto os fechamentos de madeira foram pintados de marrom-escuro, os brises são amarelos. Internamente, a lareira ocupava o centro do espaço (em relação ao limite original da casa); os quartos eram interligados à sala com grandes painéis de correr, e quando abertos havia integração total dos ambientes. Na fachada posterior, as aberturas em retículas quadradas lembram, curiosamente, as que Lucio Costa adotou na área social de seu hotel. Uma escada interligava a cozinha e a área de serviço (no piso inferior), e o fechamento desse volume dava a tônica da face posterior.
A proposta de Costa na montanha buscou exprimir a alma brasileira com sotaque corbusieriano; Bratke fez na serra suas primeiras experiências modernas inspirado pela arquitetura californiana, que o ajudaram, no decorrer de sua carreira, a definir sua própria gramática arquitetônica. Se a relevância das obras jordanenses foi subestimada pelo próprio autor, isso não quer dizer que os pesquisadores devam endossar o erro: estas casas têm importância singular na arquitetura paulista, principalmente quando consideramos a pertinência da influência norte-americana (10) nos campos de Piratininga. Elas deveriam ser estudadas (11) e preservadas. Deixando o bairro de Bratke para trás, para não cruzar com os turistas que chegavam para o feriado, peguei outro rumo, busquei outras paradas. Afinal, o caminho se faz caminhando. |