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Filho de imigrantes italianos, Rino Levi nasceu
em São Paulo, em 31 de dezembro de 1901, e cursou
o ensino primário e secundário em escolas
paulistanas de origem européia - Escola Alemã
e Colégio Dante Alighieri.
Em outubro de 1921, mudou-se para a Itália com
o objetivo de cursar arquitetura. Em Milão, ingressou
na Escola Preparatória e de Aplicação
para Arquitetos Civis. Em 1924, insatisfeito com o curso,
transferiu-se para a Escola Superior de Arquitetura
de Roma, e, da capital italiana, enviou ao jornal O
Estado de S. Paulo uma carta que, publicada em 1925,
é considerada uma das primeiras manifestações
da arquitetura moderna no país.
Na correspondência intitulada "Arquitetura
e estética das cidades", o futuro arquiteto
propõe a modernização da arquitetura
e do urbanismo brasileiros sem ruptura com a tradição
clássica, postura que se alinhava com aquela
até então adotada pelos representantes
do modernismo italiano. Ainda em Roma, Levi trabalhou
por curto período com o arquiteto Marcello Piacentini,
seu professor.
Levi retornou ao Brasil em 1926, ano em que se
formou, e logo foi contratado pela Companhia Construtora
de Santos, substituindo Gregori Warchavchik. Em 1927,
abriu escritório próprio em São
Paulo. Seus primeiros trabalhos profissionais foram
encomendados por clientela de origem italiana, radicada
em São Paulo: pequenos edifícios e conjuntos
de sobrados, nos quais muitas vezes o arquiteto foi
encarregado também da execução
das obras. Dessa fase, destacam-se as residências
para Dante Ramenzoni (1931/33), a residência Delfina
Ferrabino (1931) e os edifícios Gazeau (1929)
e Nicolau Schiesser (1933).
Seu primeiro trabalho de repercussão no
meio arquitetônico foi o edifício Columbus
(1934), considerado por historiadores o primeiro
prédio moderno da capital paulista. O Columbus,
porém, ainda continha elementos da primeira fase
do arquiteto como os balcões arredondados ou
detalhes que misturavam art déco e elementos
caros a Piacentini. Iniciou-se a partir daí uma
série de projetos de edifícios residenciais
em altura, ligados ao começo da verticalização
da cidade de São Paulo: Sarti (1935),
Higienópolis (1935), Guarani
(1936) e Porchat (1940). Essas obras continham
algumas preocupações que se tornaram constantes
na trajetória de Levi: a construção
do espaço urbano, a integração
com a paisagem e a setorização da planta.
Em 1936, ele fez seu primeiro projeto para um cinema,
o Ufa-Palácio. Com características
modernas e elaborado estudo de acústica, o projeto
foi um sucesso que resultou em uma série de encargos
com o mesmo programa, em alguns casos agrupados com
volumes destinados a outros usos. São eles o
Cine Universo (1936), o Cine Art-Palácio de Recife
(1937) o Cine Ipiranga (1941) e, ponto máximo
desta série, o Teatro Cultura Artística
(1942).
Rino Levi estudou os programas de necessidades, os componentes
e as condicionantes ao extremo, detalhando os projetos
exaustivamente. Isso transformou-o em exímio
projetista, um "especialista" em cinemas-teatros, casas
e hospitais, embora fosse contrário a qualquer
tipo de especialização. "A diferença
entre o arquiteto e um especialista são dois
meses" - a frase atribuída a ele mostra exemplarmente
sua opinião a respeito.
A década de 1940 foi fundamental para
a carreira do arquiteto, que, aos 40 anos, atingia também
a maturidade profissional. Nesse período surgem
as soluções em tornos de pátios,
a preocupação com a proteção
ambiental - brises e elementos de concreto -, a grelha
estrutural da fachada e a produção de
edifícios hospitalares e bancários.
O começo da década foi marcado por um
trabalho emblemático, o Instituto
Superior Sedes Sapientiae
(1940), que apresenta uma série de características
marcantes na obra de Rino Levi: o pátio, a grelha
da fachada e os elementos de concreto.
O partido arquitetônico em torno de pátios
tornou-se uma constante nos projetos de residências
unifamiliares urbanas, entre elas a do próprio
arquiteto (1944), a de Milton Guper (1951) e a de Castor
Delgado Perez (1958), cujos espaços introspectivos
influenciaram o que foi chamado posteriormente de "a
casa paulista". Outra característica do Sedes
Sapientiae, o tratamento da fachada com grelha ortogonal
tornou evidente a separação entre estrutura
e fechamento, presente também nos edifícios
Stig (1942) e Nicolau Barros (1942). Os elementos de
concreto utilizados como caixilhos, também presentes
no Sede Sapientiae, foram empregados em diversos projetos,
até em edifícios residenciais, como o
Trussardi (1941).
Em 1944, Levi desenhou dois importantes projetos:
o edifício residencial Prudência e a Maternidade
da Universidade de São Paulo. No Prudência,
que marcou o início da colaboração
de Roberto Cerqueira César no escritório,
o destaque é a planta livre, utilizada pelo arquiteto
em edifícios comerciais desde o não executado
projeto para o IAPI (1939). Já a proposta para
a maternidade, vencedora de concurso mas não
construída, marcou a aproximação
do arquiteto com o tema hospitalar, desenvolvido em
trabalhos posteriores, como os hospitais do Câncer
(1947), da Cruzada Pró-Infância (1948),
Albert Einstein (1958) e Instituto de Gastroenterologia
(1959). Uma experiência que culminou com a coordenação
de projetos hospitalares para o governo da Venezuela,
em 1959/60.
Em 1946, o arquiteto começou uma série
de projetos para agências bancárias, sobretudo
para o Banco
Sul-Americano do Brasil, cujo ponto alto foi
a sede da instituição, em 1960, na avenida
Paulista. No mesmo ano, a equipe de Rino Levi venceu,
junto com outras duas, o concurso para a sede do
IAB-SP. Além de desenhar a sede da entidade,
Levi participou ativamente da composição
de um estatuto para os arquitetos, lutando para que,
entre outros aspectos, o profissional fosse responsável
somente pelo projeto.
Presidiu por duas vezes seguidas o IAB-SP (de
1952 até 57), apoiou o zoneamento como forma
de planejamento urbano, foi defensor dos concursos públicos
de arquitetura e participou de inúmeros congressos
internacionais do setor como representante do Brasil.
Os anos 1940 marcam também a preocupação
com o condicionamento térmico dos edifícios.
Esse tópico apareceu no Art-Palácio de
Recife, mas só se materializou no projeto da
Cia. Jardim de Café (1943), em São Paulo.
Com o desenvolvimento dos projetos, o brise vai se separando
da fachada, tornando-se um elemento independente, e
feito com diversos materiais, como concreto, pedra ou
cerâmica. Já no final da década,
a residência Olivo
Gomes (1949) dá início a uma série
de projetos em São José dos Campos, interior
de São Paulo. Entre eles estão o conjunto
residencial para operários (1953), o galpão
e posto de gasolina (1953) e a Usina de Leite Parahyba
(1963). Alguns desses trabalhos, realizados para a família
Gomes, possuíam escala urbana.
Outros projetos envolveram o urbanismo, como o Centro
Cívico (1962) e o conjunto residêncial
estudantil da USP (1962), o concurso de Brasília
(1957, classificado em terceiro lugar) e o Centro
Cívico de Santo André (1965) -
destes, somente o último foi construído.
O arquiteto participou também da criação
do Museu de Arte Moderna de São Paulo
e integrou a comissão que estudou e propôs
a reforma de ensino para a FAU-USP (1957/59).
Rino Levi morreu em 1965, enquanto procurava
bromélias no interior da Bahia, em companhia
de Roberto Burle Marx, parceiro de inúmeros
projetos. A chave para o entendimento de sua obra talvez
esteja no embate entre os jardins e os brises,
no encontro entre a natureza exuberante e a técnica
para o controle da entrada da luz.
A vegetação está presente nas casas,
escritórios, fábricas, escolas e até
nos apartamentos que desenhou.
E o controle da luz, por sua vez, demonstra a
tecnologia do homem que calcula, faz gráficos
e conclui:
"Sim, eu posso viver aqui, tenho tecnologia para suportar
esta temperatura". Ou seja, como conseguir viver de
maneira contemporânea frente ao calor dos trópicos.
O embate entre a técnica, racionalista, e a flora
brasileira. Ou, então, o encontro do racionalismo
com o Brasil.
Ao morrer, o racionalista dos trópicos, representante
da técnica, estava, de fato, buscando as bromélias
que gostaria de ver recheando seus pátios.
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