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É notória a atração do
arquiteto Pedro Paulo de Melo Saraiva pelas estruturas,
cujo conhecimento e pesquisas vêm resultando em
projetos notáveis pelas soluções
obtidas - para ele, a estrutura é expressão
da arquitetura. O interesse por esse componente
que particulariza sua obra começou muito cedo.
Quando garoto, construía barcos, manejava
ferramentas, gostava de observar as estruturas
das pontes de sua cidade que traziam a marca
Carneggie, famosa nos Estados Unidos. Mais tarde, a
aptidão se consolidou por influência de
clientes engenheiros ou companheiros de trabalho, como
Figueiredo Ferraz e Mário Franco.
Esse envolvimento transforma seus projetos em
verdadeiras aulas de como e por que empregar determinadas
estruturas, algumas de forma pioneira.
Com 46 anos de profissão, Pedro Paulo
é autor de centenas de projetos construídos,
muitos na área de planejamento e desenvolvimento
urbanos, sendo o mais recente o plano de viabilidade
para a implantação de estruturas náuticas
em Bertioga, SP. É também um dos
projetistas da ponte Colombo Salles, que liga
a cidade de Florianópolis ao continente, projetada
em 1970. Edifícios institucionais e administrativos,
esportivos e de lazer, escolas públicas, bancos,
terminais rodoviários, conjuntos habitacionais,
residências e inúmeros prédios de
apartamentos e escritórios pontuam seu currículo.
Natural de Florianópolis, Pedro Paulo
se transferiu para São Paulo com a família,
formando-se em 1955 pela Faculdade de Arquitetura
da Universidade Mackenzie. Já no ano seguinte,
participou do concurso para o Plano Piloto de Brasília.
Os concursos públicos e privados foram se sucedendo
e as premiações também: em 1957,
Assembléia Legislativa de Santa Catarina;
Clube Atlético Paulistano, em São
Paulo, também em 1957, com o segundo lugar; Estádio
Municipal de Santo André, SP, 1958; Edifício
5ª Avenida, São Paulo, 1959; sede do
Clube 15, Santos, SP, 1963; sede do Esporte
Clube Sírio, São Paulo, 1966; Palácio
da Justiça de Santa Catarina, Florianópolis,
1968; Escola Superior de Administração
Fazendária, Brasília, 1973; prefeitura
de Florianópolis, 1977. Participou ainda,
com Sidney Meleiros Rodrigues, da equipe que foi uma
das quatro classificadas em segundo lugar no polêmico
concurso para o Pavilhão do Brasil na Exposição
Universal de Sevilha, em 1991
(leia PROJETODESIGN 138 e 139, fevereiro e março
de 1991, respectivamente), com projeto em que uma grande
viga de concreto protendido, apoiada em dois pilares
duplos, flutua sobre o terreno em balanços
de 22,50 metros.
Sobre a cobertura envidraçada do salão
de exposições, muxarabis de madeira
remetem às construções tradicionais
do sul da Espanha. Pedro Paulo também foi incumbido
de terminar o projeto da Universidade de Brasília,
cujo desenho inicial é de Niemeyer, substituindo
João Filgueiras Lima (Lelé). Ele
recebeu, em dezembro último, premiação
do IAB/SP 2002, com o anexo para a Assembléia
Legislativa de Santa Catarina, projetado em 2000.O porquê
da participação em tantos concursos?
Era a forma de “marcar uma posição
profissional”, procedimento comum entre arquitetos
contemporâneos do Mackenzie e da FAU/USP, explica
ele, lembrando que “a discussão de arquitetura
em escala urbana se fazia por meio dos concursos,
em número muito grande na época, na sua
maioria com temas de interesse público e coletivo”.
Observa ainda que eles representavam uma real abertura
para o mercado de trabalho.
Pedro Paulo deu aulas no Departamento de Projetos
na FAU/USP, de 1962 a 1975, onde foi assistente
de Artigas; na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
de Brasília (1968/69); na Universidade
Católica de Santos (1990/93) e, desde 1992,
na FAU/Mackenzie. Influências vieram através
de Niemeyer, Artigas, Le Corbusier e Mies van der Rohe.
Com Artigas, “verdadeiro construtor”, desenvolvia,
no escritório do mestre, todas as etapas da obra,
a começar pela planta topográfica. De
Le Corbusier, porque foi o “arquiteto que melhor
trabalhou o concreto, material que tem mais a ver com
a prática adotada no Brasil”. De Mies,
porque, embora utilizasse estruturas metálicas,
seu conceito de planta limpa, asséptica, caracterizava
a arquitetura brasileira. Nesse aspecto, Pedro Paulo
aponta a simplicidade das plantas das nossas igrejas
barrocas em contraponto ao barroco português,
mais complexo e pesado.
Grande parte dos projetos de Pedro Paulo realizados
nas décadas de 1960 e 1970 seguia a tendência
da época: grandes vãos, estruturas
atirantadas e aparentes, vigas em balanço.
No início da carreira, ele projetou muitas obras
em Santos, SP, participando de vários
concursos com Mário Franco. O Clube 15,
de 1963, marcado por grandes lâminas estruturais
de concreto na fachada, era um dos ícones
da cidade até o início de 2002, quando
foi demolido.
O edifício Portofino, de 1958, uma estreita
torre de 17 andares, executado com a colaboração
do engenheiro calculista Roberto Zucollo, foi
uma experiência pioneira até então.
O terreno próximo ao mar e junto a um dos canais
de Santos traria problemas de recalque nas fundações;
a solução de concentrar todas as instalações
hidráulicas em uma das fachadas laterais diminuiu
o peso da edificação, também pelo
uso de materiais leves, permitindo fundações
na cota -1,60.
Pesquisas com estruturas têm levado a diferentes
soluções. Exagerar um vão e minimizar
outros para distribuição de cargas, como
no Clube 15, reaparece na Assembléia
Legislativa de Santa Catarina, projetada com a colaboração
de Francisco Petracco, e em vários edifícios
de apartamentos. No Esporte Clube Sírio de
São Paulo, projetado em 1963 com Miguel Juliano
e Sami Bussab,
um elemento de contrapeso nos marcantes arcos da fachada
permitiu o vão central de 40 metros. Em
edificações lineares, os pilares são
calculados apenas na periferia, liberando a área
interna, caso da sede da Empresa de Processamento de
Dados de São Paulo (Prodesp), de 1975
em Taboão da Serra, SP, projetada com Setsuo
Kamada, entre outras.
Na Escola Superior de Administração
Fazendária,
em Brasília, datada de 1973, com colaboração
de Sérgio Ficher e Henrique Cambiaghi,
todos os pavilhões são modulados e se
articulam em um grande deambulatório - dez arcos
com 30 metros de vão por 80 metros de largura
-, um caminho coberto que unifica os blocos e dá
expressão arquitetônica ao edifício.
São 32 mil metros quadrados, entre salas
de aulas, laboratórios, biblioteca, auditório,
centro recreativo, alojamentos para alunos e funcionários,
restaurantes e centro esportivo.
Na residência de praia do engenheiro Mário
Franco,
de 1974, o arquiteto programou um conjunto misto de
estruturas; com o piso atirantado, o concreto age como
compressão e o aço como tração.
A casa tem um balanço de nove metros,
grandes panos de vidro e detalhes sofisticados, como
a mesa de jantar que atravessa o painel de vidro e a
escada dividida entre interior e exterior.
Para Pedro Paulo, pesquisas de um projeto não
executado podem ser retomadas em situação
similar. É o caso da proposta para o Centro
Pompidou (1973). O programa complexo exigia biblioteca
para 1 milhão de livros. A fim de abrigar esse
acervo excepcional, o arquiteto idealizou uma única
torre com três corpos independentes, um sobre
o outro, sem o artifício de um core - única
proposta vertical apresentada, nota ele. Essa idéia
reaparece no projeto para o Grupo Fenícia,
em terreno na marginal do rio Pinheiros: três
edifícios independentes superpostos a fim de
liberar espaço para estacionamento de carros.
O projeto do edifício do Confea (1999),
em Brasília, também mostra estrutura atirantada
nas paredes-diafragmas que compõem a garagem
- contrapeso do prédio - cujos tirantes funcionam
como arcada. O prédio seria revestido de uma
pele perfurada, afastada 4,5 metros da fachada de vidro,
para proteção térmica. No edifício
Acal, de 1974, situado em São Paulo, projetado
com Sérgio Ficher e Henrique Cambiaghi, os balanços
são absorvidos por tirantes e por grandes treliças
em forma de cruz, que têm ainda função
de brises, solução semelhante à
empregada no edifício da Prodesp. Ainda em relação
às estruturas, Pedro Paulo cita o ginásio
para o Ipesp, realizado com a colaboração
do calculista Zaven Kurkdjian, primeira escola
em protendido, até então. Entre seus últimos
trabalhos consta o Clube Atlético Paranaense,
situado na Arena da Baixada, em Curitiba, construído
de acordo com os padrões atuais da Fifa e concluído
há pouco tempo.
Mercado Municipal de São Paulo
O arquiteto finalizou recentemente a revisão
de seu estudo para a revitalização e modernização
do Mercado Municipal de São Paulo, obra
de grande importância para a cidade quando de
sua inauguração, em janeiro de 1933,
e reformado apenas em 1979, após inundação
do vizinho rio Tamanduateí. Apresentado em 1987,
o trabalho fazia parte da proposta de reurbanização
do parque D. Pedro 2º, mas ficou engavetado.
O projeto atual, que conta com a colaboração
de especialistas das áreas de restauro,
luminotécnica, instalações
e sistema viário, passou por avaliação
do DPH, da Emurb e de outros órgãos
de preservação do patrimônio histórico
e centraliza-se nas mudanças estruturais de organização.
Deverá ser implantado aos poucos para evitar
interrupção das atividades do mercado.
Será executada uma doca, com um metro
de altura.
A seguir, de acordo com novos padrões,
serão feitas as instalações de
infra-estrutura, até então anárquicas;
foi programada vala técnica para passagem
de redes de eletricidade, água, telefone, cabos
de fibra ótica e saídas de esgoto e drenagem
de água pluvial. Sobre ela será colocado
piso removível, em placas de concreto.
Mantendo as circulações e todos os meios-fios
das quadras existentes, o arquiteto fez nova paginação
para o piso original que reveste as três ruas
de cinco metros de largura, a longitudinal de sete metros
e 14 vias de 2,8 metros; será usado piso industrial.
O elemento novo é um mezanino,
uma varanda de alimentação com
ampla vista para os cinco vitrais criados por Conrado
Sorgenitch, hoje semi-encobertos, e para as bancas.
Com linguagem contemporânea, “expressão
diferente da histórica, mas não conflitante”,
ele tem como finalidade organizar os bares e lanchonetes
que estão espalhados pela área de vendas
e transformar o mercado em centro gastronômico,
como é usual nesse tipo de local em várias
partes do mundo.
O mezanino permite, sem descaracterizar o edifício
histórico, a ampliação do espaço
interno em mais 2 mil metros quadrados de área,
que vão se somar aos 12 600 existentes. Esse
espaço de 20 metros de largura por cem de comprimento
cobre o lado que abriga as docas de carga. As estruturas,
totalmente independentes das fundações
do mercado, são metálicas, leves,
convencionais. Em aço do tipo córten,
compõem-se de perfis de alma cheia, alguns
perfurados para a passagem de instalações,
e pilares de perfis duplo-T, que sustentam lajes steel
deck, revestidas de pré-moldado de concreto.
Para modernização e conforto dos usuários,
foram projetados novos sanitários, fraldário,
enfermaria, postos telefônicos e
instalações para redes de computadores.
As torres que ladeiam a construção principal
serão reformuladas para outros usos. A proposta
inclui projeto urbanístico e viário
para melhorar a acessibilidade ao mercado.
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