HAIFA YAZIGI SABBAG
A estrutura como
expressão da arquitetura
 
 
HAIFA YAZIGI SABBAG é jornalista especializada em arquitetura
 

Mercado Municipal de São Paulo:
inaugurado em janeiro de 1933

 
Reorganização interna mantém as colunas neoclássicas e clarabóias de vidro do mercado
 
Planta e corte do mercado
com o mezanino proposto
 
Edifício 5º Avenida, São Paulo, 1959,
projetado com Miguel Juliano
 
Edifício Portofino, Santos, SP, 1958
 
Esporte Clube Sírio, São Paulo, 1963;
com Miguel Juliano e Sami Bussab
 
Sede Club 15, Santos, SP, 1963;
com Francisco Petracco
 
Palácio da Justiça do estado de Santa Catarina, Florianópolis, 1968; com Francisco Petracco
 
Edifício Capitânia, São Paulo, 1973;
com Sérgio Ficher e Henrique Cambiaghi
 
Edifício Acal, São Paulo, 1974;
com Sérgio Ficher e Henrique Cambiaghi
 
Ponte Colombo Salles, ligação entre o continente e a ilha de Santa Catarina, Florianópolis, 1970/73; consórcio com Croce, Aflalo & Gasperini e Figueiredo Ferraz
 
Escola Superior de Administração Fazendária, Brasília, 1973; com Sérgio Ficher e equipe
 
Sede da Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo (Prodesp), Taboão da Serra, SP, 1975;
com Setsuo Kamada
 
Pavilhão brasileiro para a Feira Expo 92,
Sevilha, Espanha, 1991;
com Sidney Meleiros Rodrigues e equipe
 
Anteprojeto do edifício do Conselho Nacional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), Brasília, 1999; com Pedro de Melo Saraiva, Fernando Mendonça, Ricardo Kenai e Cláudio Reush
 

Pedro Paulo de Melo Saraiva tem um currículo invejável; em plena atividade profissional, vários edifícios projetados por ele já fazem parte da historiografia arquitetônica brasileira. Dentre seus trabalhos mais recentes está a revitalização do Mercado Municipal de São Paulo, inaugurado em 1933, uma das obras mais interessantes de Ramos de Azevedo, minuciosamente estudada pelo arquiteto para a proposta apresentada em 1987, mas que somente agora, após revisão e atualização, será implantada.

 

É notória a atração do arquiteto Pedro Paulo de Melo Saraiva pelas estruturas, cujo conhecimento e pesquisas vêm resultando em projetos notáveis pelas soluções obtidas - para ele, a estrutura é expressão da arquitetura. O interesse por esse componente que particulariza sua obra começou muito cedo.

Quando garoto, construía barcos, manejava ferramentas, gostava de observar as estruturas das pontes de sua cidade que traziam a marca Carneggie, famosa nos Estados Unidos. Mais tarde, a aptidão se consolidou por influência de clientes engenheiros ou companheiros de trabalho, como Figueiredo Ferraz e Mário Franco. Esse envolvimento transforma seus projetos em verdadeiras aulas de como e por que empregar determinadas estruturas, algumas de forma pioneira.

Com 46 anos de profissão, Pedro Paulo é autor de centenas de projetos construídos, muitos na área de planejamento e desenvolvimento urbanos, sendo o mais recente o plano de viabilidade para a implantação de estruturas náuticas em Bertioga, SP. É também um dos projetistas da ponte Colombo Salles, que liga a cidade de Florianópolis ao continente, projetada em 1970. Edifícios institucionais e administrativos, esportivos e de lazer, escolas públicas, bancos, terminais rodoviários, conjuntos habitacionais, residências e inúmeros prédios de apartamentos e escritórios pontuam seu currículo.

Natural de Florianópolis, Pedro Paulo se transferiu para São Paulo com a família, formando-se em 1955 pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie. Já no ano seguinte, participou do concurso para o Plano Piloto de Brasília.

Os concursos públicos e privados foram se sucedendo e as premiações também: em 1957, Assembléia Legislativa de Santa Catarina; Clube Atlético Paulistano, em São Paulo, também em 1957, com o segundo lugar; Estádio Municipal de Santo André, SP, 1958; Edifício 5ª Avenida, São Paulo, 1959; sede do Clube 15, Santos, SP, 1963; sede do Esporte Clube Sírio, São Paulo, 1966; Palácio da Justiça de Santa Catarina, Florianópolis, 1968; Escola Superior de Administração Fazendária, Brasília, 1973; prefeitura de Florianópolis, 1977. Participou ainda, com Sidney Meleiros Rodrigues, da equipe que foi uma das quatro classificadas em segundo lugar no polêmico concurso para o Pavilhão do Brasil na Exposição Universal de Sevilha, em 1991
(leia PROJETODESIGN 138 e 139, fevereiro e março de 1991, respectivamente), com projeto em que uma grande viga de concreto protendido, apoiada em dois pilares duplos, flutua sobre o terreno em balanços de 22,50 metros.

Sobre a cobertura envidraçada do salão de exposições, muxarabis de madeira remetem às construções tradicionais do sul da Espanha. Pedro Paulo também foi incumbido de terminar o projeto da Universidade de Brasília, cujo desenho inicial é de Niemeyer, substituindo João Filgueiras Lima (Lelé). Ele recebeu, em dezembro último, premiação do IAB/SP 2002, com o anexo para a Assembléia Legislativa de Santa Catarina, projetado em 2000.O porquê da participação em tantos concursos? Era a forma de “marcar uma posição profissional”, procedimento comum entre arquitetos contemporâneos do Mackenzie e da FAU/USP, explica ele, lembrando que “a discussão de arquitetura em escala urbana se fazia por meio dos concursos, em número muito grande na época, na sua maioria com temas de interesse público e coletivo”. Observa ainda que eles representavam uma real abertura para o mercado de trabalho.

Pedro Paulo deu aulas no Departamento de Projetos na FAU/USP, de 1962 a 1975, onde foi assistente de Artigas; na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Brasília (1968/69); na Universidade Católica de Santos (1990/93) e, desde 1992, na FAU/Mackenzie. Influências vieram através de Niemeyer, Artigas, Le Corbusier e Mies van der Rohe. Com Artigas, “verdadeiro construtor”, desenvolvia, no escritório do mestre, todas as etapas da obra, a começar pela planta topográfica. De Le Corbusier, porque foi o “arquiteto que melhor trabalhou o concreto, material que tem mais a ver com a prática adotada no Brasil”. De Mies, porque, embora utilizasse estruturas metálicas, seu conceito de planta limpa, asséptica, caracterizava a arquitetura brasileira. Nesse aspecto, Pedro Paulo aponta a simplicidade das plantas das nossas igrejas barrocas em contraponto ao barroco português, mais complexo e pesado.

Grande parte dos projetos de Pedro Paulo realizados nas décadas de 1960 e 1970 seguia a tendência da época: grandes vãos, estruturas atirantadas e aparentes, vigas em balanço. No início da carreira, ele projetou muitas obras em Santos, SP, participando de vários concursos com Mário Franco. O Clube 15, de 1963, marcado por grandes lâminas estruturais de concreto na fachada, era um dos ícones da cidade até o início de 2002, quando foi demolido.
O edifício Portofino, de 1958, uma estreita torre de 17 andares, executado com a colaboração do engenheiro calculista Roberto Zucollo, foi uma experiência pioneira até então. O terreno próximo ao mar e junto a um dos canais de Santos traria problemas de recalque nas fundações;
a solução de concentrar todas as instalações hidráulicas em uma das fachadas laterais diminuiu o peso da edificação, também pelo uso de materiais leves, permitindo fundações na cota -1,60.

Pesquisas com estruturas têm levado a diferentes soluções. Exagerar um vão e minimizar outros para distribuição de cargas, como no Clube 15, reaparece na Assembléia Legislativa de Santa Catarina, projetada com a colaboração de Francisco Petracco, e em vários edifícios de apartamentos. No Esporte Clube Sírio de São Paulo, projetado em 1963 com Miguel Juliano e Sami Bussab,
um elemento de contrapeso nos marcantes arcos da fachada permitiu o vão central de 40 metros. Em edificações lineares, os pilares são calculados apenas na periferia, liberando a área interna, caso da sede da Empresa de Processamento de Dados de São Paulo (Prodesp), de 1975 em Taboão da Serra, SP, projetada com Setsuo Kamada, entre outras.

Na Escola Superior de Administração Fazendária,
em Brasília, datada de 1973, com colaboração de Sérgio Ficher e Henrique Cambiaghi, todos os pavilhões são modulados e se articulam em um grande deambulatório - dez arcos com 30 metros de vão por 80 metros de largura -, um caminho coberto que unifica os blocos e dá expressão arquitetônica ao edifício. São 32 mil metros quadrados, entre salas de aulas, laboratórios, biblioteca, auditório, centro recreativo, alojamentos para alunos e funcionários, restaurantes e centro esportivo.

Na residência de praia do engenheiro Mário Franco,
de 1974, o arquiteto programou um conjunto misto de estruturas; com o piso atirantado, o concreto age como compressão e o aço como tração. A casa tem um balanço de nove metros, grandes panos de vidro e detalhes sofisticados, como a mesa de jantar que atravessa o painel de vidro e a escada dividida entre interior e exterior.
Para Pedro Paulo, pesquisas de um projeto não executado podem ser retomadas em situação similar. É o caso da proposta para o Centro Pompidou (1973). O programa complexo exigia biblioteca para 1 milhão de livros. A fim de abrigar esse acervo excepcional, o arquiteto idealizou uma única torre com três corpos independentes, um sobre o outro, sem o artifício de um core - única proposta vertical apresentada, nota ele. Essa idéia reaparece no projeto para o Grupo Fenícia, em terreno na marginal do rio Pinheiros: três edifícios independentes superpostos a fim de liberar espaço para estacionamento de carros.

O projeto do edifício do Confea (1999), em Brasília, também mostra estrutura atirantada nas paredes-diafragmas que compõem a garagem - contrapeso do prédio - cujos tirantes funcionam como arcada. O prédio seria revestido de uma pele perfurada, afastada 4,5 metros da fachada de vidro, para proteção térmica. No edifício Acal, de 1974, situado em São Paulo, projetado com Sérgio Ficher e Henrique Cambiaghi, os balanços são absorvidos por tirantes e por grandes treliças em forma de cruz, que têm ainda função de brises, solução semelhante à empregada no edifício da Prodesp. Ainda em relação às estruturas, Pedro Paulo cita o ginásio para o Ipesp, realizado com a colaboração do calculista Zaven Kurkdjian, primeira escola em protendido, até então. Entre seus últimos trabalhos consta o Clube Atlético Paranaense, situado na Arena da Baixada, em Curitiba, construído de acordo com os padrões atuais da Fifa e concluído há pouco tempo.

Mercado Municipal de São Paulo

O arquiteto finalizou recentemente a revisão de seu estudo para a revitalização e modernização do Mercado Municipal de São Paulo, obra de grande importância para a cidade quando de sua inauguração, em janeiro de 1933, e reformado apenas em 1979, após inundação do vizinho rio Tamanduateí. Apresentado em 1987, o trabalho fazia parte da proposta de reurbanização do parque D. Pedro 2º, mas ficou engavetado. O projeto atual, que conta com a colaboração de especialistas das áreas de restauro, luminotécnica, instalações e sistema viário, passou por avaliação do DPH, da Emurb e de outros órgãos de preservação do patrimônio histórico e centraliza-se nas mudanças estruturais de organização. Deverá ser implantado aos poucos para evitar interrupção das atividades do mercado. Será executada uma doca, com um metro de altura.

A seguir, de acordo com novos padrões, serão feitas as instalações de infra-estrutura, até então anárquicas; foi programada vala técnica para passagem de redes de eletricidade, água, telefone, cabos de fibra ótica e saídas de esgoto e drenagem de água pluvial. Sobre ela será colocado piso removível, em placas de concreto.
Mantendo as circulações e todos os meios-fios das quadras existentes, o arquiteto fez nova paginação para o piso original que reveste as três ruas de cinco metros de largura, a longitudinal de sete metros e 14 vias de 2,8 metros; será usado piso industrial.

O elemento novo é um mezanino, uma varanda de alimentação com ampla vista para os cinco vitrais criados por Conrado Sorgenitch, hoje semi-encobertos, e para as bancas. Com linguagem contemporânea, “expressão diferente da histórica, mas não conflitante”, ele tem como finalidade organizar os bares e lanchonetes que estão espalhados pela área de vendas e transformar o mercado em centro gastronômico, como é usual nesse tipo de local em várias partes do mundo.

O mezanino permite, sem descaracterizar o edifício histórico, a ampliação do espaço interno em mais 2 mil metros quadrados de área, que vão se somar aos 12 600 existentes. Esse espaço de 20 metros de largura por cem de comprimento cobre o lado que abriga as docas de carga. As estruturas, totalmente independentes das fundações do mercado, são metálicas, leves, convencionais. Em aço do tipo córten, compõem-se de perfis de alma cheia, alguns perfurados para a passagem de instalações, e pilares de perfis duplo-T, que sustentam lajes steel deck, revestidas de pré-moldado de concreto.

Para modernização e conforto dos usuários, foram projetados novos sanitários, fraldário, enfermaria, postos telefônicos e instalações para redes de computadores. As torres que ladeiam a construção principal serão reformuladas para outros usos. A proposta inclui projeto urbanístico e viário para melhorar a acessibilidade ao mercado.

 
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 278 Abril de 2003
 
 
Residência Mário Franco,
Guarujá,
SP, 1974M
 
Anexo da Assembléia Legislativa
do Estado de Santa Catarina,
Florianópolis, 2000;
com Pedro de Melo Saraiva
e Fernando Mendonça
veja também
  Matheus Gorovitz - Sobre a qualificação estética do objeto, ou da graça e da dignidade
  Benedito Tadeu de Oliveira - É urgente uma ação conjunta para reverter a deterioração de Ouro Preto
  Issao Minami - O design do arquiteto, o arquiteto do design
  Roberto Segre - Santo Domingo e RJ: o resgate da cidade latino-americana
  Guggenheim Rio de Janeiro - Jean Nouvel no Rio: você é contra ou a favor?
  Marcelo Aflalo - Identidade e cultura em design
 
patrocínio   informe publicitário
     
Índice Notícias Agenda Fórum Envie por e-mail