Chico Homem de Mello
Interesses privados e
políticos condicionam
design público de São Paulo
 
 
 
Na praça da Sé, a rosa-dos-ventos destaca e qualifica o marco zero da cidade.
Projeto realizado pela Emurb, de autoria de José Eduardo Lefèvre, na década de 1970
     

São Paulo é uma cidade repleta de sinais. Ao completar 450 anos, mergulhada nessa “babel sinalética”, cabe a indagação: quantos desses sinais são de interesse público? Em que medida os designers têm se dedicado a intervenções na paisagem urbana que prestem serviço ao cidadão e nas quais esteja envolvido o poder público? Projetos de qualidade existem, mas o balanço geral não é animador.

 

Comecemos lembrando três intervenções visuais públicas que ocupam lugar de destaque na paisagem e pertencem a uma categoria que poderíamos denominar “cegos de tanto vê-las”: os sinais de trânsito, os de identificação de logradouros e o revestimento de pisos.

A informação relacionada ao trânsito de veículos é assunto que mereceria exame detalhado. Ela é onipresente, baliza nosso deslocamento pela cidade, quer estejamos usando transporte coletivo ou individual, quer estejamos a pé. Se pensarmos na profundidade dessa presença, e no espaço que ocupa na paisagem, ficaremos espantados. Do ponto de vista do acesso aos principais destinos, São Paulo não está mal-servida. No entanto, ainda que essa função básica esteja sendo atendida, na área do design há muito por fazer. Os suportes e a linguagem gráfica ressentem-se de maior apuro, a tecnologia está muito aquém do desejável - afinal, é difícil negar que mesmo os semáforos ditos inteligentes têm QI apenas médio. Melhorar tudo isso implicaria custos vultosos, dada a dimensão do problema, mas sua importância é vital, em todos os sentidos do termo.

Os sinais de identificação de logradouros são fruto de um projeto de 1978. Em relação à situação precedente, representaram um salto de informação, pois ampliou-se significativamente a orientação ao cidadão. As placas anteriores, normalmente afixadas nas edificações situadas nas esquinas, veiculavam apenas o nome da rua, enquanto o novo projeto incluiu tanto o suporte e sua localização como a placa propriamente dita. A informação passou a ser legível dos dois lados, a grafia dos nomes dos logradouros foi normatizada e foram acrescentadas a numeração da quadra e o número do CEP. Hoje, isso tudo soa óbvio, e os sinais fundiram-se de tal modo à paisagem paulistana que parecem ser fruto de geração espontânea. Trata-se de um caso de sucesso: foi adotado por dezenas de cidades, tornando-se sinônimo de identificação de ruas pelo Brasil afora.

Nos últimos anos, em vias de maior fluxo, começou a ser implantada uma segunda placa, de dimensões maiores, visível a longa distância, e por vezes luminosa, buscando resolver o problema de legibilidade a partir do veículo em movimento. No entanto, em muitos casos, o desenho dos suportes e a grafia dos nomes criam ruídos na apreensão da informação. O problema da leitura a distância mereceria ser equacionado com a mesma ótica abrangente do projeto de 1978.

Por fim, a terceira intervenção incluída na categoria é o padrão de piso com o desenho do mapa do estado de São Paulo. Quem é o autor desse projeto? Também este parece fruto de geração espontânea. Resposta paulista à brilhante solução da calçada de Copacabana, apesar de seu desenho tímido, não deixa de ser uma solução engenhosa. Com três peças quadradas - uma branca, uma preta e uma branca e preta, dividida na diagonal - cria-se um padrão de repetição infinito. O resultado é um componente de fácil produção e instalação, e que acabou afirmando-se como uma identidade reconhecível pelo cidadão. Talvez seja mesmo um bom retrato do pragmatismo paulista: em contraste com as curvas sinuosas do mar e das montanhas cariocas, a geometria austera do mapa do estado em São Paulo.

Há um segundo grupo de intervenções, que poderíamos denominar design total. Nele se destacam, pela magnitude e pelo significado, os projetos ambientais do metrô e da avenida Paulista, realizados na década de 1970. Cada um a seu modo, ambos dão respostas que vão além de um pragmatismo de fôlego curto. Há exigências de informação objetivas a serem atendidas, mas existe também a preocupação de construir um ambiente capaz de suprir as necessidades de conforto e estímulo sensorial dos usuários.

O projeto ambiental do metrô está à altura da qualidade do serviço de transporte oferecido. Aliás, é parte indissolúvel dela. Trata-se do mais bem-sucedido sistema de informação pública ao cidadão paulistano, referência para todo o país. É difícil separar o que é sinalização do que é ambientação e do que é arquitetura. O sistema de comunicação começa na nomeação das estações, um exemplo de compromisso com a história da cidade e com as referências concretas dos usuários. Continua na identificação das estações na paisagem urbana por meio de sinais discretos mas marcantes.

Depois que o usuário entra na estação, em virtude da ausência de referências externas, toda a orientação passa a ser responsabilidade da sinalização, o que nos dá a dimensão de sua importância. Em 1990, na implantação do ramal Paulista, foi desenvolvido projeto de ambientação cromática das estações, criando diálogo estreito do design com a arquitetura e mostrando como é possível expandir o entendimento do que seja sinalização. A nota dissonante fica por conta do crescimento exagerado do espaço reservado à informação publicitária que vem ocorrendo nos últimos anos. Ele coloca em risco a eficiência de um sistema exemplar.

O projeto ambiental da avenida Paulista é outro caso de sucesso. Na época de sua implantação, a via era o corredor de expansão comercial para o qual estavam voltadas todas as atenções da cidade. O projeto envolveu tanto a sinalização como o mobiliário. Após sua implantação, e por anos a fio, o retrato oficial de São Paulo passou a ser a paisagem da avenida, com seus característicos totens pretos. O nome das vias escrito na vertical, subvertendo hábitos perceptivos enraizados, causou celeuma na época. Na verdade, ele antecipou a necessidade de projetar a informação para ser lida a partir do veículo em movimento, e não apenas pelo pedestre. O trabalho representa a concretização da utopia que movia urbanistas, arquitetos e designers naquele período - a de um reordenamento global da paisagem da cidade. Em que pese o caráter questionável da utopia, a qualidade da resposta dada foi uma experiência de design público que merece figurar entre as mais importantes já realizadas no Brasil. Com o passar dos anos, ela foi sendo remendada e alterada, até a completa descaracterização atual.

Ainda na esfera dos grandes projetos urbanos, é importante registrar as intervenções da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), dentre as quais destaca-se a da praça da Sé, realizada por ocasião da construção do metrô. Todo o desenho do piso foi idealizado com a preocupação de qualificar os espaços de acordo com seu uso predominante. Mas o que chama mais a atenção é mesmo a rosa-dos-ventos em torno do marco zero. Ponto de grande significado para a cidade, referência para a contagem das distâncias e para a numeração das ruas, o pequeno totem estava perdido no espaço da praça. A rosa-dos-ventos, em granito e mármore, devolveu-o à cidade, dando ao local a dignidade e o simbolismo merecidos.

Há uma última intervenção que merece ser lembrada, essa mais ligada à linguagem gráfica do que à ambiental. Foi o projeto de identidade visual da prefeitura de São Paulo, iniciado em 1990, na gestão Luíza Erundina. Pela primeira vez houve preocupação sistemática com o padrão visual das mensagens emitidas pela administração municipal. O projeto envolveu desde o sinal de identificação da administração e a família de assinaturas das secretarias, as placas de obras e o tratamento visual da frota de ônibus, até os cartazes de divulgação de eventos públicos. De lá para cá, o espaço ocupado pelo marketing institucional da prefeitura só cresceu, assim como as verbas consumidas por ele. No entanto, todo esse montante de recursos passou a ser administrado por agências de publicidade, com objetivos bem distintos daqueles que nortearam o projeto de 1990.

Ainda que o tema da poluição visual fuja ao âmbito deste artigo, convém não deixá-lo passar totalmente em branco. A tarefa de elaborar uma legislação adequada aos interesses da cidade e da população é outra face da atuação do urbanista, do arquiteto e do designer. Ao longo das últimas décadas, foram realizados diversos esforços nesse sentido, cujo resgate e reflexão são fundamentais para subsidiar o posicionamento e a ação dos profissionais envolvidos. Merecem registro os projetos para as avenidas Angélica e Pacaembu, sendo esta uma intervenção de grande alcance, outro caso de design total a ser examinado com atenção.

Este breve panorama de intervenções públicas realizadas em São Paulo indica que a cidade está cada vez mais condenada ao design privado, centrado em interesses comerciais imediatos, ou, no que diz respeito à esfera pública, a projetos submetidos aos imperativos do marketing político. Em ambas as frentes, os interesses da cidade e do cidadão parecem receber atenção cada vez menor.

 
Publicado originalmente em PROJETODESIGN
Edição 287 Janeiro de 2004
 
Vista do projeto da avenida Paulista, de autoria do escritório Cauduro/Martino, logo após sua implantação, em 1974
 
Sinalização de trânsito, projetada, produzida e administrada pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET)
 
Sinal de identificação de logradouro, projeto
de autoria de Maria Argentina Bibas, Minoru Naruto e Vivaldo H. Tsukumo, de 1978
 
Novos sinais de identificação de logradouro, implantados a partir da década de 1990
 
 
O piso São Paulo, de ladrilho hidráulico:
um desenho produzido com apenas
três peças diferentes
 
 
Projeto de sinalização do metrô, iniciado pelo escritório Cauduro/Martino, autor do símbolo;
o escritório norte-americano Unimark foi autor do projeto final implantado, sempre atualizado pela equipe interna da Cia. do Metropolitano.
O sistema de identidade visual é do escritório PVDI (1980); o projeto de ambientação cromática das estações do ramal Paulista
é de de Maria Argentina Bibas, Minoru
Naruto e Vivaldo H. Tsukumo (1990)
 
 
A identidade visual da frota de ônibus e a
placa de obra municipal são itens do projeto desenvolvido por João Baptista da Costa
Aguiar para a prefeitura de
São Paulo, em 1990
veja também
  Maurício Azenha Dias - Arquitetura moderna na praia de Pernambuco, Guarujá
  Fernando Serapião - Paralelos (e transversais) na história da casa paulista
  Haifa Yazigi Sabbag - Trabalho de Índio da Costa persegue fluidez e transparência
  Haifa Y. Sabbag - Luiz Forte Netto: o moderno como matriz
  Marcelo Aflalo - Arte e espaço público
  Arquitetura hospitalar - Ambiente hospitalar requer humanização e potencial de atualização constante
 
patrocínio   informe publicitário
     
Índice Notícias Agenda Fórum Envie por e-mail