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Comecemos lembrando três intervenções
visuais públicas que ocupam lugar de destaque
na paisagem e pertencem a uma categoria que poderíamos
denominar “cegos de tanto vê-las”: os sinais
de trânsito, os de identificação
de logradouros e o revestimento de pisos.
A informação relacionada ao trânsito
de veículos é assunto que mereceria exame
detalhado. Ela é onipresente, baliza nosso
deslocamento pela cidade, quer estejamos usando transporte
coletivo ou individual, quer estejamos a pé.
Se pensarmos na profundidade dessa presença,
e no espaço que ocupa na paisagem, ficaremos
espantados. Do ponto de vista do acesso aos principais
destinos, São Paulo não está
mal-servida. No entanto, ainda que essa função
básica esteja sendo atendida, na área
do design há muito por fazer. Os suportes e a
linguagem gráfica ressentem-se de maior apuro,
a tecnologia está muito aquém do desejável
- afinal, é difícil negar que mesmo
os semáforos ditos inteligentes têm QI
apenas médio. Melhorar tudo isso implicaria custos
vultosos, dada a dimensão do problema, mas
sua importância é vital, em todos
os sentidos do termo.
Os sinais de identificação de logradouros
são fruto de um projeto de 1978. Em relação
à situação precedente, representaram
um salto de informação, pois ampliou-se
significativamente a orientação ao cidadão.
As placas anteriores, normalmente afixadas nas edificações
situadas nas esquinas, veiculavam apenas o nome da rua,
enquanto o novo projeto incluiu tanto o suporte e sua
localização como a placa propriamente
dita. A informação passou a ser legível
dos dois lados, a grafia dos nomes dos logradouros
foi normatizada e foram acrescentadas a numeração
da quadra e o número do CEP. Hoje, isso tudo
soa óbvio, e os sinais fundiram-se de tal modo
à paisagem paulistana que parecem ser fruto de
geração espontânea. Trata-se de
um caso de sucesso: foi adotado por dezenas de
cidades, tornando-se sinônimo de identificação
de ruas pelo Brasil afora.
Nos últimos anos, em vias de maior fluxo, começou
a ser implantada uma segunda placa, de dimensões
maiores, visível a longa distância, e por
vezes luminosa, buscando resolver o problema de legibilidade
a partir do veículo em movimento. No entanto,
em muitos casos, o desenho dos suportes e a grafia dos
nomes criam ruídos na apreensão da informação.
O problema da leitura a distância mereceria
ser equacionado com a mesma ótica abrangente
do projeto de 1978.
Por fim, a terceira intervenção incluída
na categoria é o padrão de piso
com o desenho do mapa do estado de São Paulo.
Quem é o autor desse projeto? Também este
parece fruto de geração espontânea.
Resposta paulista à brilhante solução
da calçada de Copacabana, apesar de seu
desenho tímido, não deixa de ser uma solução
engenhosa. Com três peças quadradas - uma
branca, uma preta e uma branca e preta, dividida na
diagonal - cria-se um padrão de repetição
infinito. O resultado é um componente de fácil
produção e instalação, e
que acabou afirmando-se como uma identidade reconhecível
pelo cidadão. Talvez seja mesmo um bom retrato
do pragmatismo paulista: em contraste com as
curvas sinuosas do mar e das montanhas cariocas, a geometria
austera do mapa do estado em São Paulo.
Há um segundo grupo de intervenções,
que poderíamos denominar design total.
Nele se destacam, pela magnitude e pelo significado,
os projetos ambientais do metrô e da avenida
Paulista, realizados na década de 1970. Cada
um a seu modo, ambos dão respostas que vão
além de um pragmatismo de fôlego curto.
Há exigências de informação
objetivas a serem atendidas, mas existe também
a preocupação de construir um ambiente
capaz de suprir as necessidades de conforto e
estímulo sensorial dos usuários.
O projeto ambiental do metrô está
à altura da qualidade do serviço de transporte
oferecido. Aliás, é parte indissolúvel
dela. Trata-se do mais bem-sucedido sistema de informação
pública ao cidadão paulistano, referência
para todo o país. É difícil
separar o que é sinalização do
que é ambientação e do que é
arquitetura. O sistema de comunicação
começa na nomeação das estações,
um exemplo de compromisso com a história da cidade
e com as referências concretas dos usuários.
Continua na identificação das estações
na paisagem urbana por meio de sinais discretos mas
marcantes.
Depois que o usuário entra na estação,
em virtude da ausência de referências externas,
toda a orientação passa a ser responsabilidade
da sinalização, o que nos dá a
dimensão de sua importância. Em 1990, na
implantação do ramal Paulista, foi desenvolvido
projeto de ambientação cromática
das estações, criando diálogo
estreito do design com a arquitetura e mostrando como
é possível expandir o entendimento do
que seja sinalização. A nota dissonante
fica por conta do crescimento exagerado do espaço
reservado à informação publicitária
que vem ocorrendo nos últimos anos. Ele coloca
em risco a eficiência de um sistema exemplar.
O projeto ambiental da avenida Paulista é
outro caso de sucesso. Na época de sua implantação,
a via era o corredor de expansão comercial para
o qual estavam voltadas todas as atenções
da cidade. O projeto envolveu tanto a sinalização
como o mobiliário. Após sua implantação,
e por anos a fio, o retrato oficial de São
Paulo passou a ser a paisagem da avenida, com seus
característicos totens pretos. O nome das vias
escrito na vertical, subvertendo hábitos perceptivos
enraizados, causou celeuma na época. Na
verdade, ele antecipou a necessidade de projetar a informação
para ser lida a partir do veículo em movimento,
e não apenas pelo pedestre. O trabalho representa
a concretização da utopia que movia
urbanistas, arquitetos e designers naquele período
- a de um reordenamento global da paisagem da cidade.
Em que pese o caráter questionável da
utopia, a qualidade da resposta dada foi uma experiência
de design público que merece figurar entre as
mais importantes já realizadas no Brasil. Com
o passar dos anos, ela foi sendo remendada e alterada,
até a completa descaracterização
atual.
Ainda na esfera dos grandes projetos urbanos, é
importante registrar as intervenções da
Empresa Municipal de Urbanização (Emurb),
dentre as quais destaca-se a da praça da Sé,
realizada por ocasião da construção
do metrô. Todo o desenho do piso foi idealizado
com a preocupação de qualificar os espaços
de acordo com seu uso predominante. Mas o que chama
mais a atenção é mesmo a rosa-dos-ventos
em torno do marco zero. Ponto de grande significado
para a cidade, referência para a contagem das
distâncias e para a numeração das
ruas, o pequeno totem estava perdido no espaço
da praça. A rosa-dos-ventos, em granito e mármore,
devolveu-o à cidade, dando ao local a dignidade
e o simbolismo merecidos.
Há uma última intervenção
que merece ser lembrada, essa mais ligada à linguagem
gráfica do que à ambiental. Foi o
projeto de identidade visual da prefeitura de São
Paulo, iniciado em 1990, na gestão Luíza
Erundina. Pela primeira vez houve preocupação
sistemática com o padrão visual das mensagens
emitidas pela administração municipal.
O projeto envolveu desde o sinal de identificação
da administração e a família de
assinaturas das secretarias, as placas de obras e o
tratamento visual da frota de ônibus, até
os cartazes de divulgação de eventos públicos.
De lá para cá, o espaço ocupado
pelo marketing institucional da prefeitura só
cresceu, assim como as verbas consumidas por ele. No
entanto, todo esse montante de recursos passou a ser
administrado por agências de publicidade,
com objetivos bem distintos daqueles que nortearam o
projeto de 1990.
Ainda que o tema da poluição visual
fuja ao âmbito deste artigo, convém
não deixá-lo passar totalmente em branco.
A tarefa de elaborar uma legislação
adequada aos interesses da cidade e da população
é outra face da atuação do urbanista,
do arquiteto e do designer. Ao longo das últimas
décadas, foram realizados diversos esforços
nesse sentido, cujo resgate e reflexão são
fundamentais para subsidiar o posicionamento e a ação
dos profissionais envolvidos. Merecem registro os projetos
para as avenidas Angélica e Pacaembu,
sendo esta uma intervenção de grande alcance,
outro caso de design total a ser examinado com atenção.
Este breve panorama de intervenções públicas
realizadas em São Paulo indica que a cidade está
cada vez mais condenada ao design privado, centrado
em interesses comerciais imediatos, ou, no que
diz respeito à esfera pública, a projetos
submetidos aos imperativos do marketing político.
Em ambas as frentes, os interesses da cidade e do
cidadão parecem receber atenção
cada vez menor.
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