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Lenda da arquitetura do século 20, Philip Cortelyou
Johnson morreu, aos 98 anos, em 25 de janeiro último.
O arquiteto nasceu em 8 de julho de 1906, em Cleveland,
Estados Unidos. Em outro canto da América, 541 dias
depois, veio ao mundo, no Rio de Janeiro, Oscar Niemeyer
Ribeiro de Almeida Soares. Ambos frutos das elites locais.
O norte-americano era o único filho homem de uma
professora de arte e de bem-sucedido advogado corporativo,
que lhe deixou uma fortuna em ações.1 De origem
calvinista, ele compunha a nascente burguesia urbano-industrial
dos Estados Unidos. Já o brasileiro, neto de um ministro
do Supremo Tribunal Federal, é descendente, em sua
própria avaliação, de uma daquelas
“velhas famílias brasileiras, católicas, criadas
nas fazendas, trazendo sobre os ombros todos os preconceitos”.2
Nenhum dos dois abraçou a arquitetura com facilidade.
Johnson estudou grego e filosofia em Harvard e só
ingressou no curso de arquitetura aos 35 anos; Niemeyer
“não ia nunca às aulas. Ficava jogando futebol
nas praias e palitinho no café Lamas”.3
Isso não impediu que ambos fossem os principais interlocutores
dos mestres europeus na América. Johnson foi o maior
propagandista dos arquitetos ligados ao racionalismo alemão
- leia-se Bauhaus - em solo norte-americano. Aos 25 anos
de idade, foi um dos curadores (juntamente com Henry-Russell
Hitchcock) da exposição Arquitetura Moderna
- Exposição Internacional, montada em
1932, no Moma de Nova York. A mostra foi acompanhada do
catálogo que marcou o batismo do chamado international
style - termo cunhado, diga-se de passagem, por Alfred A.
Barr Jr., então diretor do museu, no prefácio
da publicação.4 A exposição
foi montada depois que os dois curadores viajaram pela Europa
em busca da nova arquitetura. Segundo o próprio Johnson,
em texto que escreveu em 1995, no prefácio da reedição
do catálogo da mostra, a diferença entre os
três era a segunite: Russell “tinha um grande olho,
era um historiador supremo”; Barr era ideólogo e
provocador; e ele, Johnson, era “cinco vezes mais entusiasta
e propagandista do que os outros; eu era mais católico
do que o papa”. Além disso, Johnson criou condições
para que Mies van der Rohe imigrasse para os Estados Unidos,
conseguindo-lhe o cargo de diretor no Armour Institute,
em 1938, e garantindo-lhe os primeiros encargos.
Já o despertar do talento de Niemeyer deve-se ao
contato de três meses que teve com Le Corbusier,
em 1936, por ocasião do projeto do Ministério
da Educação e Saúde. A historiografia
e os depoimentos dão como sua a sugestão para
que os pilotis tivessem dez metros de altura, em vez de
três. Estava criado, assim, o mito da monumentalidade
da arquitetura brasileira a serviço do Estado, ditatorial
(como era o caso) ou democrático. Se nos primeiros
projetos de Niemeyer ficou clara a vinculação
com a obra do mestre franco-suíço - a residência
Henrique Xavier (1936), não construída,
e a Obra do Berço (1937) -, em pouco tempo
seu trabalho demonstrou personalidade, como no pavilhão
brasileiro para a feira de Nova York de 1939, desenhado
em 1938.
De certa forma, o “racionalismo metodológico-didático”
alemão, nas palavras de Argan,5 não poderia
encontrar terreno mais fértil do que os Estados Unidos,
enquanto o “racionalismo formal” parece ter sido
imaginado para o Brasil. A transferência da arquitetura
racionalista do Velho para o Novo Mundo foi potencializada
com o auxílio dos dois pupilos americanos. O racionalismo
alemão a serviço do mercado, nos Estados Unidos,
e o racionalismo francês a serviço do Estado,
no Brasil.
Traços da personalidade de cada um dos pupilos encaixam-se
nos meandros de suas opções estilísticas,
diferenciando-os ao extremo.
Johnson era elegante, irônico, cosmopolita, intelectualmente
preparado, gostava de cercar-se por arte moderna e design
- o estereótipo da elite urbana da costa leste dos
Estados Unidos. Homossexual assumido (viveu 45 anos com
seu companheiro David Whitney), Johnson morava num apartamento
anexo ao Moma e durante anos deu-se ao luxo de ocupar uma
casa, na rua 52,6 de milhares de dólares. Tinha mesa
cativa no Four Seasons, restaurante símbolo da modernidade
endinheirada nova-iorquina. O restaurante, desenhado por
Johnson em 1959, permanece inalterado, no térreo
da torre Seagram, criada por Mies com a colaboração
de seu pupilo. No prédio, ele manteve, em períodos
diferentes, seu impecável escritório de arquitetura.
Já Niemeyer representa o estereótipo do
sul-americano, mais ainda, do carioca: criativo, desleixado,
briguento e mulherengo. Um dos traços que mais
caracterizam sua obra é a criatividade, em contraposição
ao rigor técnico ou construtivo. Ele nunca detalhou
com vontade seus projetos, passando essa etapa para terceiros.
Amigos classificam seu escritório como “uma espelunca”,7
onde havia “um quarto com cama feita e banheiro, de prontidão
para emergências”. A fama de brigão está
ligada ao Clube dos Cafajestes, lendária instituição
carioca que ajudou a definir a figura típica do malandro
local. As encrencas de Niemeyer - que era lutador de jiu-jítsu
- ultrapassam os limites da vida particular e adentram a
profissão. Além da histórica pendenga
com Burle Marx, vale lembrar dois casos: o engalfinhamento
com o jornalista e crítico Geraldo Ferraz, em Brasília,
e o cerco à casa de Burle Marx, no Leme, com um grupo
de amigos, com o objetivo de bater em Rino Levi.8 Em ambos
os casos, a fúria tinha o mesmo motivo: críticas
a sua obra.
International style e Brazil Builds
Quando Niemeyer projetou as obras da Pampulha, em 1942 -
o que de fato o transformou em figura mundialmente conhecida
-, Johnson estudava arquitetura em Harvard, onde se formou
em 1943. Nesse ano, foi montada a exposição
Brazil Builds, no mesmo Moma que 11 anos antes recebera
a mostra sobre o international style. Organizada por Philip
Goodwin, a exposição e seu catálogo
são tidos como responsáveis por colocara a
arquitetura moderna brasileira em destaque. Sobre a montagem,
é necessário um estudo aprofundado a respeito
da suposição de que fez parte da política
de boa-vizinhança norte-americana, que antecedeu
a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Quais são,
afinal, os documentos que comprovam essa suspeita? Mas de
fato, o livro abriu portas para o reconhecimento, dentro
e fora, da arquitetura moderna brasileira. Dentre os profissionais
apresentados, o destaque é Oscar Niemeyer, com dez
projetos selecionados, seguido de longe pelos irmãos
Roberto, com quatro.
Por que o nome de Johnson não aparece no catálogo
da Brazil Builds, se ele era membro do Moma? Resposta: em
1936, por motivos políticos, ele se afastou do museu.
“Acho que fui o único que não se envolveu
com o comunismo - os comunistas não eram pessoas
muito amistosas com os outros”, relatou Johnson mais tarde.
De fato, desde os anos 1920, ele simpatizava com a direita.
Esteve ligado a Huey Long, populista demagogo dos
EUA, foi diversas vezes à Alemanha, admirava Hitler
e, na década de 1930, tentou fundar um partido fascista
nos Estados Unidos.9 Mudou de opinião quando seu
país declarou guerra ao Eixo. Em diversas ocasiões,
definiu aquela escolha como “estupidez” e para se
redimir desenhou uma sinagoga em Port Chester, Nova York,
sem cobrar honorários.
Quando sua opção política do passado
veio à tona, ficou em situação
delicada com os arquitetos imigrantes, principalmente com
o judeu-húngaro Marcel Breuer. Também para
se redimir, fez exposições com Breuer no Moma,
para onde voltou em 1946, três anos depois da Brazil
Builds. Mas até 1954 seu nome permaneceu em segundo
plano na instituição, embora ele desse as
cartas, como relata Peter Blake,10 que dirigia o departamento
de arquitetura do museu - cargo que Johnson ocupou oficialmente
de 1954 a 1991. Suas escolhas dentro do Moma o colocam como
o mais influente personagem da arquitetura do século
20: além da divulgação do moderno,
foi propagandista do pós-moderno (a primeira edição
do livro Complexidade e contradição em arquitetura,
de Robert Venturi, foi publicada pelo museu, em 1966), adepto
de primeira hora do deconstrutivismo e de Frank Gehry, e
um dos responsáveis pela descoberta de Luis Barragán,
já nos anos 1990.
Em contrapartida, Niemeyer é filiado, desde 1945,
ao Partido Comunista Brasileiro. Coerente, é
um dos poucos que ainda apóiam publicamente a ditadura
castrista em Cuba. Contudo, não se fez de rogado
ao aceitar trabalhos da ditadura de Vargas e do desenvolvimentismo
de JK, do populismo de Jânio e do autoritarismo das
ditaduras militares pós-64, atendendo ainda às
demandas dos governadores Orestes Quércia
e Paulo Maluf (São Paulo), Leonel Brizola
(Rio de Janeiro) e Aécio Neves (Minas Gerais).
Também não escapou à acusação
de passar por cima da ética profissional, no caso
do Paço Municipal de São Paulo.8
Sua obra também caiu como uma luva para as explicações
de parte da elite cultural brasileira que se funda em Gilberto
Freyre. Assim, aquela obra lírica, que “rompe”
com a rigidez do racionalismo europeu, é considerada
pela elite branca, que adota o multirracialismo como marca,
nossa contribuição à arquitetura do
século 20. É uma metáfora de nosso
país: é bonito, mas não funciona. E
o próprio mestre de Apipucos definiu Niemeyer, em
entrevista à revista Playboy, como o maior chato
do país: “É muito ignorante, não
sendo um homem de inteligência muito abrangente, repete
muito os chavões que aprendeu”.7
Glass House versus Canoas
A comparação entre dois projetos contemporâneos
dos pupilos americanos - a Glass House (de 1949)
e a casa das Canoas (de 1953) - revela mais diferenças.
A casa de vidro é um dos projetos mais célebres
do século 20, e o segundo que Johnson realizou. Localizada
em New Canaan, Connecticut, cidade a cerca de 70 quilômetros
de Nova York, foi construída para veraneio do arquiteto,
que a utilizou, até o fim da vida, nos finais de
semana. Johnson deu a paternidade da idéia da casa
envidraçada a Mies, autor da residência Farnsworth,
erguida anos depois.
Peter Blake assinalou em suas memórias que
a casa de vidro guarda talvez o maior conflito de seu autor:
liberdade versus autoritarismo, refletido na dualidade simetria
versus assimetria. Na organização interna
há completa assimetria - como mandam os preceitos
da arquitetura moderna -, enquanto os fechamentos em vidro
possuem desconcertante simetria, típica da arquitetura
do autoritarismo. Simultaneamente, foi feita no local uma
construção em tijolos, que, pelo pequeno número
de aberturas, contrapõe-se ao volume acristalado.
As transformações no pensamento de Johnson
- que mais tarde se tornou anti-Mies, antimoderno - ficam
evidentes nas construções que ele realizou
na propriedade, aumentada com a aquisição
de dois lotes vizinhos. Ali, ele implantou, ao longo dos
anos, uma espécie de museu de arquitetura de sua
trajetória profissional: o pavilhão no
meio do lago (de 1962), as galerias de pintura (1965) e
de escultura (1970), o estúdio (1980), o portão
de entrada (1977), a casa-fantasma (em homenagem a Frank
Gehry) e a Lincoln Kirstein House (1985), uma escultura
em homenagem ao fundador da companhia de balé de
Nova York. No conjunto, fica evidente a ligação
da lógica de Johnson à velocidade imposta
pelo capitalismo: nenhum padrão estético pode
ser imune ao tempo, faz mal para a dinâmica dos negócios.
Johnson, que esteve a serviço das idéias do
mercado, usava de ironia para autodefinir-se como “prostituta
da arquitetura”.
A casa das Canoas é um dos projetos preferidos
de Niemeyer. Também realizada para uso próprio,
foi construída em 1953, no meio da floresta da Tijuca.
Mas seu autor morou ali somente por três anos: em
1956, um desabamento da encosta assustou a família,
que voltou para a zona sul. Desde então, a casa é
mantida pelo arquiteto - que reside em um apartamento de
três dormitórios em Copacabana -, sob a conservação
de um caseiro. Niemeyer e sua família utilizam, para
o lazer, uma casa de fazenda em Maricá - preferência
talvez inconsciente pelos espaços coloniais, semelhantes
àqueles de que seus ancentrais usufruíram.
Ao contrário da casa de Johnson, a das Canoas reflete
ainda as divisões da moradia burguesa, inclusive
com acomodações para empregados. O espaço
possui dois pisos: em cima ficam estar, jantar e cozinha;
e embaixo, os dormitórios. Nela, o que chama a atenção
não são o rigor e a transparência,
mas a sinuosidade da laje e dos fechamentos em contraposição
à exuberante mata ao redor. O contraste se dá
entre a plasticidade do piso superior e a falta de expressão
do pavimento inferior, mimetizado como topografia. A casa
das Canoas não saiu ilesa de críticas: Gropius,
em sua lógica racionalista germânica, disse
que ela não era “multiplicável”, como que
a acusando de “construção pequeno-burguesa,
luxo em excesso, exótica”.
A Glass House, apesar de com o tempo ter se transformado
numa espécie de museu, teve intenso uso por
parte de Johnson, até o último minuto - foi
ali que o arquiteto faleceu. Em contraposição,
a casa das Canoas, construída para ter uso intenso,
falhou em seus propósitos e, em vez de moradia, tornou-se
uma peça de museu, visitada apenas por aqueles que
vão em busca da arquitetura de Niemeyer. É
quase previsível que, em menos de uma década,
as duas casas se tornem, de direito e de fato, museus
abertos ao público. Nelas deverão estar
expostas as trajetórias de seus respectivos projetistas.
E as residências em si, notáveis que são,
também se encarregarão de revelar aos visitantes
até que ponto a arquitetura do século 20 levou
a resolução do programa residencial.
Canoas e Glass House revelam diferenças até
nos pontos em comum: ambas são metáforas da
forma diferente com que as duas nações se
colocaram - ou foram colocadas - no século 20. A
casa de Johnson, assim como os Estados Unidos, herdou a
tradição européia da lógica
anglo-saxônica, mas vive o dilema entre liberdade
interna protegida por um invólucro de autoritarismo.
Já a residência de Niemeyer, assim como o Brasil,
herdou a tradição européia de lógica
latina, mas vive o dilema entre a aparente liberdade
formal, que faz questão de mostrar um país
multirracial, e a parte feia que fica escondida em algum
lugar - no caso, embaixo da terra.
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