Fernando Serapião
Johnson e Niemeyer:
os pupilos americanos
 
Antes dos pupilos, Le Corbusier e Mies encontram-se em Stuttgart, Alemanha,
em 1926
 
 
Aprendiz e mestre, mestre e aprendiz:
Johnson e Mies no Moma, em 1947;
no detalhe, Corbusier e Niemeyer em Brasília, na década de 1960
 
Johnson flertou com o nazismo e projetou
para o mercado; comunista, Niemeyer encontrou no Estado o terreno ideal
para suas realizações
 
Johnson sem Niemeyer: capa do catálogo
da exposição International Style, de 1932 (reedição da Norton)
 
Niemeyer sem Johnson: capa do catálogo
da exposição Brazil Builds, de 1943
 
 
Lá e cá, os pupilos na mídia: enquanto
Johnson empunha maquete do edifício-ícone do capitalismo, Niemeyer tem ao fundo desenho
do edifício-ícone do poder do Estado
 
A Glass House é uma casa-museu e foi intensamente usada; a das Canoas, projetada para uso intenso, é um museu-casa
 

Existem algumas comparações odiosas, mas, por isso mesmo, irresistíveis. Quando se confrontam, por exemplo, Philip Johnson e Oscar Niemeyer, a primeira semelhança que vem à mente é a figura do profissional nonagenário e ainda produzindo arquitetura.

De fato, não é comum alguém projetar em tão avançada idade. Mas, aparentemente, as semelhanças entre eles são poucas: a idade, a proximidade com os mestres pioneiros do modernismo e o fato de ambos serem detentores do Pritzker.

Nessa comparação, o que chama a atenção são as diferenças, tanto no trabalho como nas personalidades e nas escolhas ideológicas: Johnson, discípulo de Mies, colocou-se a serviço da arquitetura para o mercado; Niemeyer, aprendiz de Le Corbusier, encontrou no Estado o terreno ideal para suas realizações.

 

Lenda da arquitetura do século 20, Philip Cortelyou Johnson morreu, aos 98 anos, em 25 de janeiro último. O arquiteto nasceu em 8 de julho de 1906, em Cleveland, Estados Unidos. Em outro canto da América, 541 dias depois, veio ao mundo, no Rio de Janeiro, Oscar Niemeyer Ribeiro de Almeida Soares. Ambos frutos das elites locais. O norte-americano era o único filho homem de uma professora de arte e de bem-sucedido advogado corporativo, que lhe deixou uma fortuna em ações.1 De origem calvinista, ele compunha a nascente burguesia urbano-industrial dos Estados Unidos. Já o brasileiro, neto de um ministro do Supremo Tribunal Federal, é descendente, em sua própria avaliação, de uma daquelas “velhas famílias brasileiras, católicas, criadas nas fazendas, trazendo sobre os ombros todos os preconceitos”.2 Nenhum dos dois abraçou a arquitetura com facilidade. Johnson estudou grego e filosofia em Harvard e só ingressou no curso de arquitetura aos 35 anos; Niemeyer “não ia nunca às aulas. Ficava jogando futebol nas praias e palitinho no café Lamas”.3

Isso não impediu que ambos fossem os principais interlocutores dos mestres europeus na América. Johnson foi o maior propagandista dos arquitetos ligados ao racionalismo alemão - leia-se Bauhaus - em solo norte-americano. Aos 25 anos de idade, foi um dos curadores (juntamente com Henry-Russell Hitchcock) da exposição Arquitetura Moderna - Exposição Internacional, montada em 1932, no Moma de Nova York. A mostra foi acompanhada do catálogo que marcou o batismo do chamado international style - termo cunhado, diga-se de passagem, por Alfred A. Barr Jr., então diretor do museu, no prefácio da publicação.4 A exposição foi montada depois que os dois curadores viajaram pela Europa em busca da nova arquitetura. Segundo o próprio Johnson, em texto que escreveu em 1995, no prefácio da reedição do catálogo da mostra, a diferença entre os três era a segunite: Russell “tinha um grande olho, era um historiador supremo”; Barr era ideólogo e provocador; e ele, Johnson, era “cinco vezes mais entusiasta e propagandista do que os outros; eu era mais católico do que o papa”. Além disso, Johnson criou condições para que Mies van der Rohe imigrasse para os Estados Unidos, conseguindo-lhe o cargo de diretor no Armour Institute, em 1938, e garantindo-lhe os primeiros encargos.

Já o despertar do talento de Niemeyer deve-se ao contato de três meses que teve com Le Corbusier, em 1936, por ocasião do projeto do Ministério da Educação e Saúde. A historiografia e os depoimentos dão como sua a sugestão para que os pilotis tivessem dez metros de altura, em vez de três. Estava criado, assim, o mito da monumentalidade da arquitetura brasileira a serviço do Estado, ditatorial (como era o caso) ou democrático. Se nos primeiros projetos de Niemeyer ficou clara a vinculação com a obra do mestre franco-suíço - a residência Henrique Xavier (1936), não construída, e a Obra do Berço (1937) -, em pouco tempo seu trabalho demonstrou personalidade, como no pavilhão brasileiro para a feira de Nova York de 1939, desenhado em 1938.

De certa forma, o “racionalismo metodológico-didático” alemão, nas palavras de Argan,5 não poderia encontrar terreno mais fértil do que os Estados Unidos, enquanto o “racionalismo formal” parece ter sido imaginado para o Brasil. A transferência da arquitetura racionalista do Velho para o Novo Mundo foi potencializada com o auxílio dos dois pupilos americanos. O racionalismo alemão a serviço do mercado, nos Estados Unidos, e o racionalismo francês a serviço do Estado, no Brasil.

Traços da personalidade de cada um dos pupilos encaixam-se nos meandros de suas opções estilísticas, diferenciando-os ao extremo.

Johnson era elegante, irônico, cosmopolita, intelectualmente preparado, gostava de cercar-se por arte moderna e design - o estereótipo da elite urbana da costa leste dos Estados Unidos. Homossexual assumido (viveu 45 anos com seu companheiro David Whitney), Johnson morava num apartamento anexo ao Moma e durante anos deu-se ao luxo de ocupar uma casa, na rua 52,6 de milhares de dólares. Tinha mesa cativa no Four Seasons, restaurante símbolo da modernidade endinheirada nova-iorquina. O restaurante, desenhado por Johnson em 1959, permanece inalterado, no térreo da torre Seagram, criada por Mies com a colaboração de seu pupilo. No prédio, ele manteve, em períodos diferentes, seu impecável escritório de arquitetura.

Já Niemeyer representa o estereótipo do sul-americano, mais ainda, do carioca: criativo, desleixado, briguento e mulherengo. Um dos traços que mais caracterizam sua obra é a criatividade, em contraposição ao rigor técnico ou construtivo. Ele nunca detalhou com vontade seus projetos, passando essa etapa para terceiros. Amigos classificam seu escritório como “uma espelunca”,7 onde havia “um quarto com cama feita e banheiro, de prontidão para emergências”. A fama de brigão está ligada ao Clube dos Cafajestes, lendária instituição carioca que ajudou a definir a figura típica do malandro local. As encrencas de Niemeyer - que era lutador de jiu-jítsu - ultrapassam os limites da vida particular e adentram a profissão. Além da histórica pendenga com Burle Marx, vale lembrar dois casos: o engalfinhamento com o jornalista e crítico Geraldo Ferraz, em Brasília, e o cerco à casa de Burle Marx, no Leme, com um grupo de amigos, com o objetivo de bater em Rino Levi.8 Em ambos os casos, a fúria tinha o mesmo motivo: críticas a sua obra.

International style e Brazil Builds
Quando Niemeyer projetou as obras da Pampulha, em 1942 - o que de fato o transformou em figura mundialmente conhecida -, Johnson estudava arquitetura em Harvard, onde se formou em 1943. Nesse ano, foi montada a exposição Brazil Builds, no mesmo Moma que 11 anos antes recebera a mostra sobre o international style. Organizada por Philip Goodwin, a exposição e seu catálogo são tidos como responsáveis por colocara a arquitetura moderna brasileira em destaque. Sobre a montagem, é necessário um estudo aprofundado a respeito da suposição de que fez parte da política de boa-vizinhança norte-americana, que antecedeu a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Quais são, afinal, os documentos que comprovam essa suspeita? Mas de fato, o livro abriu portas para o reconhecimento, dentro e fora, da arquitetura moderna brasileira. Dentre os profissionais apresentados, o destaque é Oscar Niemeyer, com dez projetos selecionados, seguido de longe pelos irmãos Roberto, com quatro.

Por que o nome de Johnson não aparece no catálogo da Brazil Builds, se ele era membro do Moma? Resposta: em 1936, por motivos políticos, ele se afastou do museu. “Acho que fui o único que não se envolveu com o comunismo - os comunistas não eram pessoas muito amistosas com os outros”, relatou Johnson mais tarde. De fato, desde os anos 1920, ele simpatizava com a direita. Esteve ligado a Huey Long, populista demagogo dos EUA, foi diversas vezes à Alemanha, admirava Hitler e, na década de 1930, tentou fundar um partido fascista nos Estados Unidos.9 Mudou de opinião quando seu país declarou guerra ao Eixo. Em diversas ocasiões, definiu aquela escolha como “estupidez” e para se redimir desenhou uma sinagoga em Port Chester, Nova York, sem cobrar honorários.

Quando sua opção política do passado veio à tona, ficou em situação delicada com os arquitetos imigrantes, principalmente com o judeu-húngaro Marcel Breuer. Também para se redimir, fez exposições com Breuer no Moma, para onde voltou em 1946, três anos depois da Brazil Builds. Mas até 1954 seu nome permaneceu em segundo plano na instituição, embora ele desse as cartas, como relata Peter Blake,10 que dirigia o departamento de arquitetura do museu - cargo que Johnson ocupou oficialmente de 1954 a 1991. Suas escolhas dentro do Moma o colocam como o mais influente personagem da arquitetura do século 20: além da divulgação do moderno, foi propagandista do pós-moderno (a primeira edição do livro Complexidade e contradição em arquitetura, de Robert Venturi, foi publicada pelo museu, em 1966), adepto de primeira hora do deconstrutivismo e de Frank Gehry, e um dos responsáveis pela descoberta de Luis Barragán, já nos anos 1990.

Em contrapartida, Niemeyer é filiado, desde 1945, ao Partido Comunista Brasileiro. Coerente, é um dos poucos que ainda apóiam publicamente a ditadura castrista em Cuba. Contudo, não se fez de rogado ao aceitar trabalhos da ditadura de Vargas e do desenvolvimentismo de JK, do populismo de Jânio e do autoritarismo das ditaduras militares pós-64, atendendo ainda às demandas dos governadores Orestes Quércia e Paulo Maluf (São Paulo), Leonel Brizola (Rio de Janeiro) e Aécio Neves (Minas Gerais). Também não escapou à acusação de passar por cima da ética profissional, no caso do Paço Municipal de São Paulo.8

Sua obra também caiu como uma luva para as explicações de parte da elite cultural brasileira que se funda em Gilberto Freyre. Assim, aquela obra lírica, que “rompe” com a rigidez do racionalismo europeu, é considerada pela elite branca, que adota o multirracialismo como marca, nossa contribuição à arquitetura do século 20. É uma metáfora de nosso país: é bonito, mas não funciona. E o próprio mestre de Apipucos definiu Niemeyer, em entrevista à revista Playboy, como o maior chato do país: “É muito ignorante, não sendo um homem de inteligência muito abrangente, repete muito os chavões que aprendeu”.7


Glass House versus Canoas

A comparação entre dois projetos contemporâneos dos pupilos americanos - a Glass House (de 1949) e a casa das Canoas (de 1953) - revela mais diferenças. A casa de vidro é um dos projetos mais célebres do século 20, e o segundo que Johnson realizou. Localizada em New Canaan, Connecticut, cidade a cerca de 70 quilômetros de Nova York, foi construída para veraneio do arquiteto, que a utilizou, até o fim da vida, nos finais de semana. Johnson deu a paternidade da idéia da casa envidraçada a Mies, autor da residência Farnsworth, erguida anos depois.

Peter Blake assinalou em suas memórias que a casa de vidro guarda talvez o maior conflito de seu autor: liberdade versus autoritarismo, refletido na dualidade simetria versus assimetria. Na organização interna há completa assimetria - como mandam os preceitos da arquitetura moderna -, enquanto os fechamentos em vidro possuem desconcertante simetria, típica da arquitetura do autoritarismo. Simultaneamente, foi feita no local uma construção em tijolos, que, pelo pequeno número de aberturas, contrapõe-se ao volume acristalado.

As transformações no pensamento de Johnson - que mais tarde se tornou anti-Mies, antimoderno - ficam evidentes nas construções que ele realizou na propriedade, aumentada com a aquisição de dois lotes vizinhos. Ali, ele implantou, ao longo dos anos, uma espécie de museu de arquitetura de sua trajetória profissional: o pavilhão no meio do lago (de 1962), as galerias de pintura (1965) e de escultura (1970), o estúdio (1980), o portão de entrada (1977), a casa-fantasma (em homenagem a Frank Gehry) e a Lincoln Kirstein House (1985), uma escultura em homenagem ao fundador da companhia de balé de Nova York. No conjunto, fica evidente a ligação da lógica de Johnson à velocidade imposta pelo capitalismo: nenhum padrão estético pode ser imune ao tempo, faz mal para a dinâmica dos negócios. Johnson, que esteve a serviço das idéias do mercado, usava de ironia para autodefinir-se como “prostituta da arquitetura”.

A casa das Canoas é um dos projetos preferidos de Niemeyer. Também realizada para uso próprio, foi construída em 1953, no meio da floresta da Tijuca. Mas seu autor morou ali somente por três anos: em 1956, um desabamento da encosta assustou a família, que voltou para a zona sul. Desde então, a casa é mantida pelo arquiteto - que reside em um apartamento de três dormitórios em Copacabana -, sob a conservação de um caseiro. Niemeyer e sua família utilizam, para o lazer, uma casa de fazenda em Maricá - preferência talvez inconsciente pelos espaços coloniais, semelhantes àqueles de que seus ancentrais usufruíram.

Ao contrário da casa de Johnson, a das Canoas reflete ainda as divisões da moradia burguesa, inclusive com acomodações para empregados. O espaço possui dois pisos: em cima ficam estar, jantar e cozinha; e embaixo, os dormitórios. Nela, o que chama a atenção não são o rigor e a transparência, mas a sinuosidade da laje e dos fechamentos em contraposição à exuberante mata ao redor. O contraste se dá entre a plasticidade do piso superior e a falta de expressão do pavimento inferior, mimetizado como topografia. A casa das Canoas não saiu ilesa de críticas: Gropius, em sua lógica racionalista germânica, disse que ela não era “multiplicável”, como que a acusando de “construção pequeno-burguesa, luxo em excesso, exótica”.

A Glass House, apesar de com o tempo ter se transformado numa espécie de museu, teve intenso uso por parte de Johnson, até o último minuto - foi ali que o arquiteto faleceu. Em contraposição, a casa das Canoas, construída para ter uso intenso, falhou em seus propósitos e, em vez de moradia, tornou-se uma peça de museu, visitada apenas por aqueles que vão em busca da arquitetura de Niemeyer. É quase previsível que, em menos de uma década, as duas casas se tornem, de direito e de fato, museus abertos ao público. Nelas deverão estar expostas as trajetórias de seus respectivos projetistas. E as residências em si, notáveis que são, também se encarregarão de revelar aos visitantes até que ponto a arquitetura do século 20 levou a resolução do programa residencial.

Canoas e Glass House revelam diferenças até nos pontos em comum: ambas são metáforas da forma diferente com que as duas nações se colocaram - ou foram colocadas - no século 20. A casa de Johnson, assim como os Estados Unidos, herdou a tradição européia da lógica anglo-saxônica, mas vive o dilema entre liberdade interna protegida por um invólucro de autoritarismo. Já a residência de Niemeyer, assim como o Brasil, herdou a tradição européia de lógica latina, mas vive o dilema entre a aparente liberdade formal, que faz questão de mostrar um país multirracial, e a parte feia que fica escondida em algum lugar - no caso, embaixo da terra.

 

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 301 Março de 2005

 
 
Notas:

Veja o texto “Philip Johnson is dead at 98; architecture’s restless intellect”, de Paul Goldberger, publicado no jornal The New York Times, em 26 de janeiro de 2005.
2 Depoimento de Oscar Niemeyer no livro Oscar Niemeyer, publicado pela editora Almed, em 1985.
3 Depoimento de Abelardo de Souza a Lena Coelho Santos, em PROJETO 105, novembro de 1987.
4 A editora Norton, de Nova York, republicou, em 1995, o catálogo da exposição.
5 Leia Arte moderna, de Argan, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.
6 Leia o artigo Quinze agulhas num palheiro, de Fernando Serapião, em PROJETO DESIGN 299, janeiro de 2005.
7 Leia a biografia de Niemeyer escrita em 1996, por Marcos Sá Corrêa, para a coleção Perfis do Rio,
da editora Relume Dumará/Rio Arte.
8 Ambos os casos foram narrados por Geraldo Ferraz em seu livro de memórias Depois de tudo, publicado em 1983
pela editora Paz e Terra.
9 Leia o texto “Form follows fascism”, de Mark Stevens, publicado em 31 de fevereiro de 2005 no The New York Times.
10 Leia No place like utopia, memórias de Peter Blake, publicadas em 1993 pela Norton, Nova York.


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