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Em geral, a importância atribuída a Gilberto
Freyre para a arquitetura brasileira é relegada às
descrições da morada, tanto no ambiente rural
- sobretudo na cisão entre casa-grande e senzala
dos engenhos de açúcar, de seu mais famoso
livro - como no urbano, sobretudo do Recife, no posterior
Sobrados e mocambos. É evidente que o tema central
de Freyre não é esse: ele usa as descrições
como pano de fundo para esmiuçar as estruturas sociais
que compunham o país de outrora.
Para Freyre, o Brasil é um país multirracial
- formado por índios, brancos e negros -, cuja miscigenação
é capaz de formar um ser diferente, genuíno
e brasileiro. E o resultado disso seria a “democracia racial”.3
Essa é a imagem que o Brasil gosta de mostrar. Essa
forma de inclusão racial, por outro lado, compõe
confortável meio apaziguador das reais diferenças
dos diversos estratos que compõem o país.
Sentindo-se de fato representadas na cultura nacional, as
classes mais baixas não fazem pressão para
inclusões sociais e econômicas mais intensas,
ou mesmo com rupturas.
Mas não foi fácil para Freyre chegar a essa
brilhante interpretação do país. Não
podemos esquecer que na década de 1930, quando os
mais importantes livros dele foram publicados, o mundo ocidental
vivia sob incertezas, que levaram ao enfrentamento da Segunda
Guerra Mundial. E, nesse sentido, o racismo era a bandeira
mais comum levantada em prol de defesas nacionalistas. O
que Freyre propõe é justamente o contrário:
criar a identidade nacional a partir da mistura das várias
raças.
Durante sua infância, Gilberto de Mello Freyre, filho
de velhas estirpes pernambucanas, foi considerado “retardado”
por sua família, porque teve muita dificuldade para
se alfabetizar. Com isso, sua educação formal
foi errática. Vivia quase como um selvagem, brincando
com filhos de ex-escravos nos engenhos de sua família.
Depois disso, aprendeu a ler e escrever em inglês
antes de alfabetizar-se em nossa língua. Já
enquadrado no ensino formal, mas tendo na cabeça
as observações das relações
sociais da zona rural pernambucana, formou-se em 1917 em
ciências e letras.
No ano seguinte, mudou-se para o Texas, EUA, e se formou
em artes. Lá, pesquisou os guetos negros e travou
contato com poetas locais. Em seguida, foi a Nova York e
ingressou na Universidade Colúmbia, onde defendeu
tese em 1922. Foi nessa instituição que Freyre
encontrou Franz Boas, o antropólogo que mais influenciou
sua obra. Do pensamento de Boas - que dirigiu o Departamento
de Antropologia de Colúmbia - Freyre assimilou o
culturalismo etnológico4 que escancarava as portas
para uma postura anti-racista.
Depois da marcante temporada em Nova York, passou um período
na Europa. Retornou ao Recife em 1924 e logo passou a colaborar
com a imprensa. Em 1926, conheceu o Rio de Janeiro e personagens
de sua geração, como Rodrigo Melo Franco de
Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Manuel Bandeira
e Villa-Lobos, entre outros. Em 1928, tornou-se professor
na Escola Normal do Recife. Dois anos depois, em 1930, aproximou-se
do político Estácio Coimbra, governador de
Pernambuco. Com a revolução de 1930 e o conseqüente
afastamento de Coimbra - desalinhado com a política
getulista -, Freyre acompanhou o ex-governador em seu exílio
na Europa, fixando-se em Lisboa.
Na capital portuguesa ele iniciou a pesquisa que gerou sua
mais conhecida publicação - Casa-grande &
senzala. Em 1931, seguiu para os Estados Unidos a convite
da Universidade Stanford e no ano seguinte, depois de outra
temporada na Europa, voltou para o Brasil, instalando-se
no Rio de Janeiro, onde continuou a pesquisa para o famoso
livro. Em 1933, voltou para o Recife e concluiu a obra,
publicada em dezembro, com grande repercussão. Três
anos mais tarde, a convite de Anísio Teixeira, dirige
o curso de antropologia social e cultura na América
Latina, na Universidade do Distrito Federal. Aqui há
o primeiro contato direto com Lucio Costa, que também
lecionou nessa instituição, só que
no Instituto de Artes.5 Fisicamente, essa é a maior
aproximação entre ambos.
Mas o vínculo de Lucio Costa com as “raízes
brasileiras” dá-se antes da consolidação
do pensamento freyriano. Isso porque, durante o início
de sua carreira como arquiteto - e inspirado por seu professor
e, nesse sentido, mentor José Mariano Filho -, aproximou-se
do neocolonial, movimento que buscava uma arquitetura nacional
em oposição ao ecletismo de então,
tido como manifestação exótica. Durante
a década de 1920, Costa realizou uma série
de projetos, sobretudo residências, a maior parte
com inspiração neocolonial - por exemplo,
a casa E. G. Fontes (de 1930), considerada por ele a “última
manifestação de sentido eclético-acadêmico”.
Costa, que já tinha essa história própria
de “aproximação das raízes”, utilizou
as idéias antropológicas de Freyre para fortalecer
sua tese? Pode ser. Ou será que houve influência
de Costa em Freyre? Pode ser: a epígrafe de Documentação
necessária - escrito em 1938 e republicado no livro-memória
do arquiteto - é um texto escrito por Lucio Costa
a pedido de Manuel Bandeira que foi citado em Casa-grande
& senzala. Diz o trecho: “Vendo aquelas casas, aquelas
igrejas, de surpresa em surpresa, a gente como que se encontra,
fica contente, feliz, e se lembra de coisas esquecidas,
de coisas que a gente nunca soube, mas que estavam lá
dentro de nós”. O certo é que, até
determinado ponto, uma idéia convergente foi compartilhada
por ambos: a busca pela identidade brasileira.
Mas os caminhos individuais para chegar a esse ponto são
diversos. Se Freyre era rebento da elite agrária
nordestina, Lucio Costa era filho da nascente elite técnica
nacional - urbana por natureza -, que então advinha
também da elite econômica, uma vez que só
estudava quem tinha recursos. Costa nasceu na França,
no período em que seu pai, um engenheiro militar,
trabalhava na Europa. Por isso estudou na Inglaterra, na
Suíça e naquele país, antes de voltar
para o Brasil, em 1916, quando tinha 14 anos. Ao regressar,
a família escolheu o Rio de Janeiro, então
capital federal, para morar. Curiosamente, o pai queria
ter um “filho artista”, e por isso o matriculou na Escola
Nacional de Belas Artes (Enba), onde Lucio Costa se formou
arquiteto.
Durante o período em que projetava com base no neocolonial,
Costa se dizia um “alienado” em relação à
arquitetura moderna: em 1927, voltando da Europa a bordo
do Bagé, ele perdeu para Mary Houston jogando forca,
pois não conseguiu identificar a palavra Le Corbusier,6
nome então já conhecido entre as vanguardas
arquitetônicas.
Dois anos depois, em 1929, ao adentrar o recinto da palestra
do mestre franco-suíço durante a primeira
visita dele ao Brasil, Costa resolveu ir embora, pois não
encontrou lugar para sentar. Não é muito claro
o exato motivo que convenceu o arquiteto a converter-se
ao moderno. Talvez a política tenha peso maior do
que usualmente se acha. É certo que ele participou,
no ensino e na estética, da renovação
que o governo de Getúlio Vargas simbolizava no início
dos anos de 1930. E de defensor do neocolonial ele passou
a grande opositor, travando nesse período um embate
público com o ex-mestre Mariano.
Com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder,
Lucio Costa foi convidado por Rodrigo Melo Franco de Andrade
para assumir a direção da Enba, com o intuito
de modernizar o curso de belas-artes no país. Provocou
uma revolução no ensino que durou pouco tempo,
mas teve grande resultado ao influenciar com o modernismo
uma geração que estava nos bancos escolares:
Luís Nunes, Oscar Niemeyer e Abelardo de Souza, entre
outros.
Pouco depois, Costa coordenou o projeto-símbolo da
modernidade do governo Vargas: a sede do Ministério
da Educação e Saúde (MES). Nesse sentido,
cabe observar que ele e Freyre estiveram (ou representaram)
em campos opostos durante o período de Vargas. Enquanto
um foi para o exílio, o outro tornou-se importante
quadro do governo federal e foi responsável pela
área técnica do patrimônio histórico.
Mas a obra que Costa produziu depois de converter-se possui
um movimento pendular:7 ora se aproxima do modelo moderno
internacional, ora pende para as raízes brasileiras.
Ele é um dos principais defensores, dentro da moderna
arquitetura nacional, de aspectos característicos
da construção do Brasil de outrora - como
elementos vazados, azulejos, caixilhos e até pormenores.
Entre 1931 e 1933, quando se associou a Gregori Warchavchik,
Costa criou obras puristas - como o conjunto da Gamboa e
a casa Schwartz (ambas de 1932) -, que poderiam perfeitamente
estar no catálogo International style, de Philip
Johnson e Henry-Russell Hitchcock, para a exposição
montada no Moma, em Nova York, no mesmo ano. Em seguida,
em 1934, criou para um concurso uma vila operária,
Monlevade, cuja inspiração é Corbusier.
No entanto, já aparecem no projeto aspectos luso-brasileiros,
como a caiação, a caixilharia ou o forro de
taquara, que contrastam com elementos modernos e/ou industriais,
tais como a telha de fibrocimento ou a estrutura de concreto
- é importante notar - deixada sem acabamento. Dois
anos depois, desenvolveu um projeto para a Cidade Universitária,
no Rio de Janeiro. Apesar da franca inspiração
corbusieriana, Matheus Gorovitz identifica, em sua tese,
as diferenças com a proposta do mestre (que também
realizou projeto para o mesmo programa).
Pouco depois, no desenho do Parque Guinle repete-se o embate:
de um lado, pilotis, a planta livre, o bloco laminar; do
outro, fechamentos em elemento vazado, as varandas das casas
coloniais. A fachada explicita essa dualidade: lado a lado
estão o brise-soleil vertical, criado por Corbusier,
e os elementos vazados tradicionalmente associados às
antigas construções de inspiração
luso-árabe. No Park Hotel (de 1940) é a mesma
coisa: a planta livre é de madeira. Se mais uma vez
a inspiração é corbusieriana - da casa
Errazuriz, no Chile -, a proposta lança-se quase
colonial, com seu telhado de barro. Yves Bruand acredita
que Lucio Costa - “sensível ao encanto da arquitetura
civil luso-brasileira dos séculos anteriores” - tenha
influenciado muitos arquitetos, como Francisco Bolonha,
Carlos Frederico Ferreira, os irmãos Roberto e Paulo
Antunes Ribeiro. Poderíamos citar ainda o próprio
Carlos Leão.
Nesse contexto, voltemos a Freyre. Em 1942, na obra Problemas
brasileiros de antropologia, ele comentou a transformação
da arquitetura doméstica e criticou os “estilos soberanamente
indiferentes às condições regionais
da vida e paisagem que invadiram nossas cidades maiores,
hoje dominadas pelo arranha-céu do tipo norte-americano
ou de feitio alemão. Embora já se notem verdadeiras
vitórias de arquitetura experimental obtida por arquitetos
brasileiros, desejosos de darem soluções brasileiras
a problemas de construção e habitação
moderna, essas vitórias têm sido no setor da
arquitetura pública; e não no da doméstica”.
Mas a suposta lua-de-mel intelectual imaginária sobre
a identidade brasileira acabou antes de começar.
E o motivo foi Brasília. Freyre tornou-se um ferrenho
crítico da construção da nova capital,
pois não foram ouvidos “arquitetos ligados a ecologistas
e a cientistas sociais que juntos desenvolvessem uma sistemática
de integração de novas cidades num espaço
natural, social e cultura”, escreveu em “Brasília”,
texto inserido em Brasis, Brasil e Brasília (1968).
Parece dor-de-cotovelo. “Julgam possível a um país
pobre, como é o Brasil, dar-se ao luxo de levantar
uma cidade só de arquitetura escultural, com a sua
edificação ordenada exclusivamente por arquitetos
- aliás ilustres”, complementa. Mais adiante, no
texto, ele critica os apartamentos - aí esbarra nas
superquadras de Costa.
Antes disso, em 1960, em artigo na revista Visão,
Freyre já resumia tais idéias - em síntese,
uma crítica ao fato de os sociólogos não
terem sido consultados, o que teria permitido prever problemas
como o crescimento urbano. As críticas não
agradaram Juscelino Kubitschek, mas estavam no âmbito
do planejamento da cidade, não do desenho. Com o
advento de Brasília, Freyre pareceu eleger Mindlin
representante da nova arquitetura nacional ligada às
tradições. Em Brasis, Brasil e Brasília,
ele relatou: “Ao Brasil amazônico vai chegando, de
modo saudável, o sentido da arquitetura moderna e,
ao mesmo tempo, regional e tradicional, que, tendo sido,
desde 1924, um dos objetivos do Movimento Regionalista,
Tradicionalista e, a seu modo, Modernista do Recife, encontrou
no arquiteto Henrique Mindlin o seu mais autorizado intérprete
e realizador nos dias de transição que o país
atravessa”. A afirmação parece fora de propósito,
uma vez que, quando escrita, Mindlin tinha produção
alinhada com a arquitetura internacional, sobretudo norte-americana.
Parece que a citação de Freyre retribuía
o texto “Gilberto Freyre e os arquitetos”, escrito por Mindlin
em 1962 e publicado no número 4 da revista Guanabara
(do IAB/DF).
As críticas continuaram ferrenhas. Em um diálogo
com Aldous Huxley em 1958 (reproduzido dez anos depois em
Brasis, Brasil e Brasília), Freyre atacou mais uma
vez a arquitetura moderna do Brasil: “O que a arquitetura
chamada funcional raramente vem conseguindo entre nós,
pois são poucos os novos arquitetos brasileiros que
já conseguiram na sua arquitetura um sentido perfeitamente
brasileiro de luz e das relações do homem
com a luz desta região tropical. Compreende-se que
Le Corbusier não conseguisse. Mas não se compreende
que não o consigam os arquitetos brasileiros”.
Ao que se sabe, Lucio Costa nunca respondeu a Freyre. Talvez
por não entender a crítica como endereçada
a ele. Mas em seus últimos projetos, como a residência
de sua filha Helena (de 1982), parece estar mais próximo
das antigas casas patriarcais. Certamente agradaria a Freyre,
que em diversas ocasiões se colocou favorável
à arquitetura da linha de Costa, apesar de crítico
da arquitetura moderna internacional. Na publicação
Novo mundo nos trópicos (1971), por exemplo, ele
faz elogios ao trabalho de Costa e de Mindlin.
Ainda hoje, é muito comum escutar arquitetos justificarem
seus projetos em busca da identidade brasileira nos moldes
de Gilberto Freyre. Por outro lado, o nacionalismo cultural
é tido por alguns como uma forma de preconceito,
e, no final das contas, de racismo, como no polêmico
artigo “O nacional-burrismo”, de Sérgio Paulo Rouanet.8
É um problema a ser debatido. Mas, certamente, uma
verdade é incontestável: para os arquitetos
que buscam as raízes nacionais, as referências
ainda estão mais na casa-grande e no sobrado do que
na senzala e no mocambo.
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