Fernando Serapião
Casa-grande & sobrados
 
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O sobrado patriarcal do Recife, no traço de Manuel Bandeira (não é o poeta!), que ilustrou
a primeira edição de Sobrados e mocambos, publicada em 1936
 
Desenho de Carlos Leão, também para a primeira edição de Sobrados e mocambos, mostra a relação entre o grupo de Costa e Freyre
 
O mocambo, na visão de Bandeira, também presente no livro desde a primeira impressão
 
A casa E. G. Fontes (de 1930), considerada por Lucio Costa sua “última manifestação de sentido eclético-acadêmico”
 
Registro de Lucio Costa de uma casa colonial, com o tipo de escada presente nos últimos projetos dele
 
Detalhe da casa em Monlevade:
mistura de materiais e desenhos modernos
e tradicionais
 
O ministério, no traço de Lucio Costa
 
Casa de campo de George Hime, de 1949, criada por Henrique Mindlin: elogios de Freyre
 
Superquadras de Brasília, no risco de Lucio Costa: críticas de Freyre aos apartamentos
 

Estetas da cultura brasileira do século passado, Gilberto Freyre e Lucio Costa são da mesma geração - o primeiro nasceu em 1900 e o segundo, em 1902, ambos no berço da tradicional elite econômica brasileira. Entre educação formal e informal, possuem formação cosmopolita - Freyre nos Estados Unidos e Costa na Europa. Outro ponto em comum: os dois compuseram o quadro docente da Universidade do Distrito Federal, na década de 1930. A interpretação de ambos acerca do país foi “sensível às raízes”,1 e, até certo ponto, partilharam - Freyre na sociologia/antropologia e Costa na arquitetura/urbanismo - a construção da imagem do Brasil moderno agarrado às tradições. Para a pesquisadora Silvana Rubino,2 eles formaram “uma dupla que ilumina essa vinculação da arquitetura à história do país”. Tudo ia bem até que o projeto e a construção de Brasília quebraram esse vínculo, explicitando opiniões opostas.

 

Em geral, a importância atribuída a Gilberto Freyre para a arquitetura brasileira é relegada às descrições da morada, tanto no ambiente rural - sobretudo na cisão entre casa-grande e senzala dos engenhos de açúcar, de seu mais famoso livro - como no urbano, sobretudo do Recife, no posterior Sobrados e mocambos. É evidente que o tema central de Freyre não é esse: ele usa as descrições como pano de fundo para esmiuçar as estruturas sociais que compunham o país de outrora.

Para Freyre, o Brasil é um país multirracial - formado por índios, brancos e negros -, cuja miscigenação é capaz de formar um ser diferente, genuíno e brasileiro. E o resultado disso seria a “democracia racial”.3 Essa é a imagem que o Brasil gosta de mostrar. Essa forma de inclusão racial, por outro lado, compõe confortável meio apaziguador das reais diferenças dos diversos estratos que compõem o país. Sentindo-se de fato representadas na cultura nacional, as classes mais baixas não fazem pressão para inclusões sociais e econômicas mais intensas, ou mesmo com rupturas.

Mas não foi fácil para Freyre chegar a essa brilhante interpretação do país. Não podemos esquecer que na década de 1930, quando os mais importantes livros dele foram publicados, o mundo ocidental vivia sob incertezas, que levaram ao enfrentamento da Segunda Guerra Mundial. E, nesse sentido, o racismo era a bandeira mais comum levantada em prol de defesas nacionalistas. O que Freyre propõe é justamente o contrário: criar a identidade nacional a partir da mistura das várias raças.

Durante sua infância, Gilberto de Mello Freyre, filho de velhas estirpes pernambucanas, foi considerado “retardado” por sua família, porque teve muita dificuldade para se alfabetizar. Com isso, sua educação formal foi errática. Vivia quase como um selvagem, brincando com filhos de ex-escravos nos engenhos de sua família. Depois disso, aprendeu a ler e escrever em inglês antes de alfabetizar-se em nossa língua. Já enquadrado no ensino formal, mas tendo na cabeça as observações das relações sociais da zona rural pernambucana, formou-se em 1917 em ciências e letras.

No ano seguinte, mudou-se para o Texas, EUA, e se formou em artes. Lá, pesquisou os guetos negros e travou contato com poetas locais. Em seguida, foi a Nova York e ingressou na Universidade Colúmbia, onde defendeu tese em 1922. Foi nessa instituição que Freyre encontrou Franz Boas, o antropólogo que mais influenciou sua obra. Do pensamento de Boas - que dirigiu o Departamento de Antropologia de Colúmbia - Freyre assimilou o culturalismo etnológico4 que escancarava as portas para uma postura anti-racista.

Depois da marcante temporada em Nova York, passou um período na Europa. Retornou ao Recife em 1924 e logo passou a colaborar com a imprensa. Em 1926, conheceu o Rio de Janeiro e personagens de sua geração, como Rodrigo Melo Franco de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Manuel Bandeira e Villa-Lobos, entre outros. Em 1928, tornou-se professor na Escola Normal do Recife. Dois anos depois, em 1930, aproximou-se do político Estácio Coimbra, governador de Pernambuco. Com a revolução de 1930 e o conseqüente afastamento de Coimbra - desalinhado com a política getulista -, Freyre acompanhou o ex-governador em seu exílio na Europa, fixando-se em Lisboa.

Na capital portuguesa ele iniciou a pesquisa que gerou sua mais conhecida publicação - Casa-grande & senzala. Em 1931, seguiu para os Estados Unidos a convite da Universidade Stanford e no ano seguinte, depois de outra temporada na Europa, voltou para o Brasil, instalando-se no Rio de Janeiro, onde continuou a pesquisa para o famoso livro. Em 1933, voltou para o Recife e concluiu a obra, publicada em dezembro, com grande repercussão. Três anos mais tarde, a convite de Anísio Teixeira, dirige o curso de antropologia social e cultura na América Latina, na Universidade do Distrito Federal. Aqui há o primeiro contato direto com Lucio Costa, que também lecionou nessa instituição, só que no Instituto de Artes.5 Fisicamente, essa é a maior aproximação entre ambos.

Mas o vínculo de Lucio Costa com as “raízes brasileiras” dá-se antes da consolidação do pensamento freyriano. Isso porque, durante o início de sua carreira como arquiteto - e inspirado por seu professor e, nesse sentido, mentor José Mariano Filho -, aproximou-se do neocolonial, movimento que buscava uma arquitetura nacional em oposição ao ecletismo de então, tido como manifestação exótica. Durante a década de 1920, Costa realizou uma série de projetos, sobretudo residências, a maior parte com inspiração neocolonial - por exemplo, a casa E. G. Fontes (de 1930), considerada por ele a “última manifestação de sentido eclético-acadêmico”.

Costa, que já tinha essa história própria de “aproximação das raízes”, utilizou as idéias antropológicas de Freyre para fortalecer sua tese? Pode ser. Ou será que houve influência de Costa em Freyre? Pode ser: a epígrafe de Documentação necessária - escrito em 1938 e republicado no livro-memória do arquiteto - é um texto escrito por Lucio Costa a pedido de Manuel Bandeira que foi citado em Casa-grande & senzala. Diz o trecho: “Vendo aquelas casas, aquelas igrejas, de surpresa em surpresa, a gente como que se encontra, fica contente, feliz, e se lembra de coisas esquecidas, de coisas que a gente nunca soube, mas que estavam lá dentro de nós”. O certo é que, até determinado ponto, uma idéia convergente foi compartilhada por ambos: a busca pela identidade brasileira.

Mas os caminhos individuais para chegar a esse ponto são diversos. Se Freyre era rebento da elite agrária nordestina, Lucio Costa era filho da nascente elite técnica nacional - urbana por natureza -, que então advinha também da elite econômica, uma vez que só estudava quem tinha recursos. Costa nasceu na França, no período em que seu pai, um engenheiro militar, trabalhava na Europa. Por isso estudou na Inglaterra, na Suíça e naquele país, antes de voltar para o Brasil, em 1916, quando tinha 14 anos. Ao regressar, a família escolheu o Rio de Janeiro, então capital federal, para morar. Curiosamente, o pai queria ter um “filho artista”, e por isso o matriculou na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), onde Lucio Costa se formou arquiteto.

Durante o período em que projetava com base no neocolonial, Costa se dizia um “alienado” em relação à arquitetura moderna: em 1927, voltando da Europa a bordo do Bagé, ele perdeu para Mary Houston jogando forca, pois não conseguiu identificar a palavra Le Corbusier,6 nome então já conhecido entre as vanguardas arquitetônicas.

Dois anos depois, em 1929, ao adentrar o recinto da palestra do mestre franco-suíço durante a primeira visita dele ao Brasil, Costa resolveu ir embora, pois não encontrou lugar para sentar. Não é muito claro o exato motivo que convenceu o arquiteto a converter-se ao moderno. Talvez a política tenha peso maior do que usualmente se acha. É certo que ele participou, no ensino e na estética, da renovação que o governo de Getúlio Vargas simbolizava no início dos anos de 1930. E de defensor do neocolonial ele passou a grande opositor, travando nesse período um embate público com o ex-mestre Mariano.

Com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, Lucio Costa foi convidado por Rodrigo Melo Franco de Andrade para assumir a direção da Enba, com o intuito de modernizar o curso de belas-artes no país. Provocou uma revolução no ensino que durou pouco tempo, mas teve grande resultado ao influenciar com o modernismo uma geração que estava nos bancos escolares: Luís Nunes, Oscar Niemeyer e Abelardo de Souza, entre outros.

Pouco depois, Costa coordenou o projeto-símbolo da modernidade do governo Vargas: a sede do Ministério da Educação e Saúde (MES). Nesse sentido, cabe observar que ele e Freyre estiveram (ou representaram) em campos opostos durante o período de Vargas. Enquanto um foi para o exílio, o outro tornou-se importante quadro do governo federal e foi responsável pela área técnica do patrimônio histórico.

Mas a obra que Costa produziu depois de converter-se possui um movimento pendular:7 ora se aproxima do modelo moderno internacional, ora pende para as raízes brasileiras. Ele é um dos principais defensores, dentro da moderna arquitetura nacional, de aspectos característicos da construção do Brasil de outrora - como elementos vazados, azulejos, caixilhos e até pormenores.

Entre 1931 e 1933, quando se associou a Gregori Warchavchik, Costa criou obras puristas - como o conjunto da Gamboa e a casa Schwartz (ambas de 1932) -, que poderiam perfeitamente estar no catálogo International style, de Philip Johnson e Henry-Russell Hitchcock, para a exposição montada no Moma, em Nova York, no mesmo ano. Em seguida, em 1934, criou para um concurso uma vila operária, Monlevade, cuja inspiração é Corbusier. No entanto, já aparecem no projeto aspectos luso-brasileiros, como a caiação, a caixilharia ou o forro de taquara, que contrastam com elementos modernos e/ou industriais, tais como a telha de fibrocimento ou a estrutura de concreto - é importante notar - deixada sem acabamento. Dois anos depois, desenvolveu um projeto para a Cidade Universitária, no Rio de Janeiro. Apesar da franca inspiração corbusieriana, Matheus Gorovitz identifica, em sua tese, as diferenças com a proposta do mestre (que também realizou projeto para o mesmo programa).

Pouco depois, no desenho do Parque Guinle repete-se o embate: de um lado, pilotis, a planta livre, o bloco laminar; do outro, fechamentos em elemento vazado, as varandas das casas coloniais. A fachada explicita essa dualidade: lado a lado estão o brise-soleil vertical, criado por Corbusier, e os elementos vazados tradicionalmente associados às antigas construções de inspiração luso-árabe. No Park Hotel (de 1940) é a mesma coisa: a planta livre é de madeira. Se mais uma vez a inspiração é corbusieriana - da casa Errazuriz, no Chile -, a proposta lança-se quase colonial, com seu telhado de barro. Yves Bruand acredita que Lucio Costa - “sensível ao encanto da arquitetura civil luso-brasileira dos séculos anteriores” - tenha influenciado muitos arquitetos, como Francisco Bolonha, Carlos Frederico Ferreira, os irmãos Roberto e Paulo Antunes Ribeiro. Poderíamos citar ainda o próprio Carlos Leão.

Nesse contexto, voltemos a Freyre. Em 1942, na obra Problemas brasileiros de antropologia, ele comentou a transformação da arquitetura doméstica e criticou os “estilos soberanamente indiferentes às condições regionais da vida e paisagem que invadiram nossas cidades maiores, hoje dominadas pelo arranha-céu do tipo norte-americano ou de feitio alemão. Embora já se notem verdadeiras vitórias de arquitetura experimental obtida por arquitetos brasileiros, desejosos de darem soluções brasileiras a problemas de construção e habitação moderna, essas vitórias têm sido no setor da arquitetura pública; e não no da doméstica”.

Mas a suposta lua-de-mel intelectual imaginária sobre a identidade brasileira acabou antes de começar. E o motivo foi Brasília. Freyre tornou-se um ferrenho crítico da construção da nova capital, pois não foram ouvidos “arquitetos ligados a ecologistas e a cientistas sociais que juntos desenvolvessem uma sistemática de integração de novas cidades num espaço natural, social e cultura”, escreveu em “Brasília”, texto inserido em Brasis, Brasil e Brasília (1968). Parece dor-de-cotovelo. “Julgam possível a um país pobre, como é o Brasil, dar-se ao luxo de levantar uma cidade só de arquitetura escultural, com a sua edificação ordenada exclusivamente por arquitetos - aliás ilustres”, complementa. Mais adiante, no texto, ele critica os apartamentos - aí esbarra nas superquadras de Costa.

Antes disso, em 1960, em artigo na revista Visão, Freyre já resumia tais idéias - em síntese, uma crítica ao fato de os sociólogos não terem sido consultados, o que teria permitido prever problemas como o crescimento urbano. As críticas não agradaram Juscelino Kubitschek, mas estavam no âmbito do planejamento da cidade, não do desenho. Com o advento de Brasília, Freyre pareceu eleger Mindlin representante da nova arquitetura nacional ligada às tradições. Em Brasis, Brasil e Brasília, ele relatou: “Ao Brasil amazônico vai chegando, de modo saudável, o sentido da arquitetura moderna e, ao mesmo tempo, regional e tradicional, que, tendo sido, desde 1924, um dos objetivos do Movimento Regionalista, Tradicionalista e, a seu modo, Modernista do Recife, encontrou no arquiteto Henrique Mindlin o seu mais autorizado intérprete e realizador nos dias de transição que o país atravessa”. A afirmação parece fora de propósito, uma vez que, quando escrita, Mindlin tinha produção alinhada com a arquitetura internacional, sobretudo norte-americana. Parece que a citação de Freyre retribuía o texto “Gilberto Freyre e os arquitetos”, escrito por Mindlin em 1962 e publicado no número 4 da revista Guanabara (do IAB/DF).

As críticas continuaram ferrenhas. Em um diálogo com Aldous Huxley em 1958 (reproduzido dez anos depois em Brasis, Brasil e Brasília), Freyre atacou mais uma vez a arquitetura moderna do Brasil: “O que a arquitetura chamada funcional raramente vem conseguindo entre nós, pois são poucos os novos arquitetos brasileiros que já conseguiram na sua arquitetura um sentido perfeitamente brasileiro de luz e das relações do homem com a luz desta região tropical. Compreende-se que Le Corbusier não conseguisse. Mas não se compreende que não o consigam os arquitetos brasileiros”.

Ao que se sabe, Lucio Costa nunca respondeu a Freyre. Talvez por não entender a crítica como endereçada a ele. Mas em seus últimos projetos, como a residência de sua filha Helena (de 1982), parece estar mais próximo das antigas casas patriarcais. Certamente agradaria a Freyre, que em diversas ocasiões se colocou favorável à arquitetura da linha de Costa, apesar de crítico da arquitetura moderna internacional. Na publicação Novo mundo nos trópicos (1971), por exemplo, ele faz elogios ao trabalho de Costa e de Mindlin.

Ainda hoje, é muito comum escutar arquitetos justificarem seus projetos em busca da identidade brasileira nos moldes de Gilberto Freyre. Por outro lado, o nacionalismo cultural é tido por alguns como uma forma de preconceito, e, no final das contas, de racismo, como no polêmico artigo “O nacional-burrismo”, de Sérgio Paulo Rouanet.8 É um problema a ser debatido. Mas, certamente, uma verdade é incontestável: para os arquitetos que buscam as raízes nacionais, as referências ainda estão mais na casa-grande e no sobrado do que na senzala e no mocambo.

 

 

 
  Notas:

1
Entrevista de Gilberto Freyre à revista Veja, em janeiro de 1981.
2 Em “Gilberto Freyre e Lucio Costa, ou a boa tradição: o patrimônio intelectual do Sphan”, de Silvana Barbosa Rubino, publicado em Óculum 2, 1992. Parte dessas considerações a respeito da relação entre Freyre e Costa também fazem parte da disciplina Teoria do Conhecimento - História e Cultura, ministrada por Carlos Guilherme Mota e Cândido Malta Campos Neto no curso de mestrado da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
3 Hermano Vianna, Folha de S. Paulo, 12 de março de 2000.
4 Veja Gilberto Freyre: uma biografia intelectual, de Vamireh Chacon, publicado em 1993.
5 Letícia de Vicenzi estudou em 1986 a Universidade do Distrito Federal.
6 Relato do próprio Lucio Costa no texto “Mary Houston - Registro de viagem”, publicado no livro-memória Lucio Costa:
registro de vivência.
7 Leia em PROJETO DESIGN 265, março de 2002, o artigo “O pêndulo de Lucio Costa”, de minha autoria.
8 Publicado na revista Veja em 5 de janeiro de 2005.
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