Fernando Serapião
A vanguarda fez mal para os negócios
 
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Na segunda fase, capas e temas sofisticados: neste exemplar, arte de Alexandre Wollner e edição especial sobre Zanettini,
Campos Filho e Korciuszko Corrêa
 Monotonia da capa da “velha Acrópole”, monotemática e monocromática
 
 

A mitológica Acrópole1 possui curioso percurso: nasceu comercial e morreu vanguardista. De forma ligeira, a trajetória da revista pode ser dividida em duas fases principais: na primeira, de 1938 a 1952, foi dirigida por Roberto Corrêa de Brito e teve inclinação mais comercial; na segunda, de 1953 a 1971, Max e Manfredo Gruenwald estiveram à frente do periódico, e, no momento em que fecharam as portas, faziam, do ponto de vista editorial, a melhor Acrópole desde 1938. Era quase uma revista de vanguarda: capas de Alexandre Wollner, Enzo Grinover, Cauduro e Martino, Abrahão Sanovicz e Júlio Katinsky; edições temáticas com jovens arquitetos, como Paulo Mendes da Rocha, Joaquim Guedes e Carlos Millan; editoriais escritos por Eduardo Corona. Mas como a publicação desapareceu em pleno momento de aquecimento econômico?

 

No início de 1938, Roberto Corrêa de Brito, que dirigia o Cadastro Imobiliário de São Paulo, procurou o arquiteto Eduardo Kneese de Mello, então com 32 anos, a fim de publicar um volume sobre sua obra 2. Durante as conversas, este incentivou o editor a criar uma revista de arquitetura em São Paulo. Essa é a semente da Acrópole, cuja primeira edição circulou em maio de 1938 e é, até hoje, o periódico nacional do setor que mais números publicou, chegando à marca de 391.

As capas dessa fase, chamada também de “velha Acrópole”3 , são monótonas: sempre a imagem do Erecteu - um dos templos da Acrópole grega -, destacando as cariátides, com mudança apenas na cor. Nesse período, a revista está em formação: não há linha editorial precisa. Basicamente, o conteúdo editorial se divide entre artigos e projetos de arquitetura, mostrados de forma irregular, o que seria natural para um veículo pioneiro. Em casos excepcionais, há apresentação mais detalhada - parecida com as atuais -, com fotos, desenhos técnicos, texto e ficha técnica (incompleta). A forma mais usual de publicação trazia
apenas a identificação do autor do projeto, nome do proprietário e endereço. Por diversas vezes, não são apresentadas plantas. As poucas edições especiais, ou temáticas, são sobre projetos de grande porte, revelando interesse publicitário.

No período em que Corrêa de Brito dirigiu a Acrópole, são criadas outras seções, que possuem interesse puramente publicitário - como, por exemplo, a mulher ou o turismo -, o que demonstra indefinição editorial.

Nessa fase, é publicado, nas últimas páginas, um encarte denominado São Paulo Imobiliário (iniciado na edição 25, de maio de 1941). Esse suplemento apresenta todas as vendas de imóveis registradas nos cartórios. Por outro lado, há uma grande confusão entre a área editorial e a publicitária. Isso acontece de várias formas, inclusive com a chamada matéria paga. Dentro das páginas publicitárias, há ainda o Cadastro Profissional, espaço em que empresas, arquitetos e outros profissionais liberais oferecem seus serviços. Nesse sentido, a postura adotada pela direção na primeira fase, vista com olhos atuais, seria considerada inadequada. Isso porque, ao vender matérias - na tabela de preços publicitários, denominadas “colaborações”- não se deixa claro para o leitor o que é editorial e o que é objeto de comercialização.

Por outro lado, obras relevantes são publicadas no período, como o edifício Esther (Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho), que ilustra o número 1. Assim, temos que levar em conta que, aparentemente, nem todos os envolvidos na publicação (arquitetos, engenheiros e construtores) tinham interesse comercial, mais expressamente colocado pelas “firmas construtoras”, algumas das quais com anúncio de venda de unidades residenciais. Há, em contrapartida, interesse em estabelecer o debate arquitetônico em si - e ali, deve ser dito, tal privilégio não foi só dos envolvidos com o movimento moderno, apesar de representarem a maioria. Notadamente, com a evolução da arquitetura de São Paulo, os engenheiros-arquitetos mais vinculados ao modernismo tomam a revista de assalto, acompanhando o momento histórico e influenciando a parte editorial, mês a mês.

A revista dos Gruenwalds
O austríaco Max Gruenwald (1895-1974) imigrou com a família para o Brasil (aqui tinham um parente), chegando em 1936.

Linotipista, Max obteve em São Paulo emprego na gráfica que imprimia a Acrópole. Logo, Gruenwald conseguiu transferir-se para a Acrópole, ocupando a posição
de contato publicitário. Isso ocorreu em 1939, ou seja, um ano depois de a revista ter sido lançada e três após sua chegada ao país. Assim, a relação dele com a revista começou na época da “velha Acrópole”.

Max Gruenwald, contudo, não é citado no expediente da revista até 1951. Sem alarde, seu nome é incluído pela primeira vez na edição 152/153 (janeiro de 1951), representando o departamento de publicidade. Coincidência ou não, nesse número há uma mudança na capa da revista. Inicia-se, assim, uma espécie de fase de transição.

Na edição seguinte, há outro comunicado que o coloca em destaque. A partir de então, Max passa a ser responsável pela redação e publicidade. O fato é que na mesma edição há mais duas mudanças: novo desenho no layout do sumário e uma espécie de editorial, que passa a ser escrito por diferentes projetistas 4 . Quase 20 números após figurar no expediente, Gruenwald torna-se proprietário da Acrópole, fato anunciado na edição 174. Outra marca no período é o ingresso de seu fi lho, Manfredo, que, a partir da edição 191, passa a ocupar o cargo de diretor. Nesse ponto, termina a transição.

A partir daí, há uma seleção mais rigorosa dos projetos publicados. Com essa mudança de postura, é perceptível a diferença de qualidade da revista. Acontece, então, uma mudança de paradigma. A ascensão da arquitetura moderna era inevitável, assim como o desaparecimento, pelo menos nas páginas de uma revista especializada, da arquitetura de inclinação eclética e neocolonial. Outra mudança é em relação à profissão: ficam para trás os engenheiros arquitetos, público-alvo da fase anterior, e a revista passa a ter como leitores os jovens arquitetos, cujas primeiras turmas se formam no início da década de 1950. E na gestão dos Gruenwalds aparece outra tendência arquitetônica, o brutalismo, vertente do moderno, mas ligada à geração mais jovem.

Para exemplificar a mudança de postura dos profissionais, vale lembrar trecho de uma entrevista de Oswaldo Bratke a Hugo Segawa, publicada na revista PROJETO 106 (dezembro de 1987/janeiro de 1988). Para Bratke, a Acrópole “não falhava, e o Instituto, no meu tempo, a protegeu na medida do possível. O Max, seu proprietário, implorava por material para publicar, pagando todas as despesas com fotos, clicherias etc. Foi de grande ajuda para o Instituto. Ele deveria ter seu nome gravado no IAB, embora houvesse gente ‘do contra’.”

Foram Max e Bratke que idealizaram a Exposição Permanente de Materiais no IAB, cuja renda ajudou a finalizar a construção da sede da entidade. A revista,
desde o número 184, passa a encartar o boletim do instituto, ou seja, torna-se, indiretamente, porta-voz oficial. Inicialmente, o encarte é de responsabilidade de Jorge Wilheim e Luís Roberto de Carvalho Franco 5. O boletim divulga assuntos de classe, mas também assume, em certa medida, papel cultural, fazendo resenhas de revistas estrangeiras e publicando textos analíticos mais contundentes.

Entre eles, um fica especialmente conhecido: “Que audácia!”, de Eduardo Corona, publicado em fevereiro de 1958. Ali, Corona atacou frontalmente as construções de Artacho Jurado. Curiosamente, a edição em que foi encartado (232) apresenta quatro prédios residenciais em São Paulo, freqüência acima da média. Para completar, traz um anúncio da empresa Parquet Kapor Tecnicola, ilustrado com o edifício Bretagne, de Jurado. Em contrapartida, a Monções, empresa do construtor, deixou de anunciar no Indicador Profissional de São Paulo na edição 226, ou seja, seis meses antes.

Na segunda fase, a revista também não tem um projeto gráfico definido. A maior parte das capas, sempre diferentes, é criada pelo desenhista Francisco C. Dias. Com o tempo, a publicação ganha sofisticação. As capas passam a ser feitas por arquitetos e designers, como Augusto Boccara, Alexandre Wollner, Enzo Grinover, Cauduro e Martino, Abrahão Sanovicz e Júlio Katinsky. No miolo, também várias mudanças: editoriais escritos por Eduardo Corona (desde fevereiro de 1963) e as matérias vão ganhando um padrão, que inclui a colocação de pequenos textos acerca dos projetos, sempre escritos pelos próprios autores. Na época, poucas plantas eram preparadas para publicação. O mais usual era a utilização de reduções do projeto executivo ou desenhos de apresentação para o cliente.

As edições especiais davam destaque para os arquitetos ligados ao brutalismo, na maior parte das vezes jovens: Carlos Millan, Ruy Ohtake, Paulo Mendes da Rocha, Joaquim Guedes, entre outros.

Nessa sofisticação, Manfredo descarta a influência de Corona - que nunca trabalhou na revista, embora tenha anunciado o fim da publicação em seu último editorial, de novembro/dezembro de 1971, intitulado “Vida e morte de uma revista de arquitetura”.

A relação entre a publicidade e a linha editorial é diversa na segunda fase, momento em que a Acrópole se comportou de forma semelhante ao que se pratica hoje nas mídias correlatas. Ou seja, conteúdo editorial não tem relação direta com anúncios.

Acrópole em números
Sob dois aspectos, as duas fases possuem semelhanças. A primeira e mais significativa delas é o fato de o periódico publicar a maioria de textos de São Paulo. Pode-se afirmar, com absoluta segurança, que Acrópole foi uma revista de arquitetura paulista, apesar da notada queda que as obras em São Paulo sofrem no final do período dos Gruenwalds. Na primeira fase, as obras em São Paulo representam 88,86% (depois vêm Rio de Janeiro, com 3,26%; Paraná, com 2,12%; Minas Gerais, com 0,97%; e Rio Grande do Sul, 0,88%) e na segunda, 78,91% (seguido por Rio de Janeiro, com 5,25%; Brasília, com 3,33%; e Minas Gerais, com 1,2%). Os números relativos a São Paulo poderiam ser um pouco maior se fossem considerados os projetos de paulistas em outros estados. A segunda semelhança entre as duas gestões é a permanência constante de um número pequeno de artigos por edição - característica freqüente dos periódicos comerciais de arquitetura, mais voltados, em geral, para o registro da produção do que para a análise crítica em geral.

Vejamos então as diferenças entre as duas fases. Em relação aos movimentos arquitetônicos, a gestão de Corrêa de Brito revela a indefinição do período: diversas tendências convivem no periódico. De certa forma, a revista reflete, mês a mês, a evolução da arquitetura paulista em direção aos preceitos do moderno. No último período da revista sob Corrêa de Brito é evidente o crescimento das obras modernas. O grupo responsável por isso é bem definido: Kneese de Mello, Hélio Duarte, Zenon Lotufo e Abelardo de Souza. No período seguinte, as obras vinculadas ao movimento moderno predominam, e uma nova vertente - o brutalismo, ou escola paulista - surge, para tornar-se soberana no final dessa etapa.

No que diz respeito a obras executadas, há uma grande diferença entre as duas fases da Acrópole: enquanto a primeira é mais pragmática (o que é natural para quem é financiado, em parte, por anúncios ligados à construção, pois publica maioria de obras realizadas), na segunda fase, principalmente nos últimos anos de vida, os projetos não executados ganham força. Isso demonstra que a revista ficou mais experimental. A publicação de concursos de arquitetura é expressiva.

Ainda analisando os números semelhantes, temos as residências unifamiliares como programa mais freqüente em ambas as fases. No entanto, o número cai de uma
para a outra. Na primeira, elas representam 50,35% das reportagens de arquitetura; na segunda, 33,45% - essa fase é caracterizada pela pulverização de programas, ou seja, não há grande concentração, mas diversidade. O segundo programa mais publicado, em ambos os períodos, são os prédios de apartamentos.

Há também, em ambas as fases, uma proximidade com a política profissional. Entramos, assim, no incerto campo político.

Política, ética e profissão
A separação entre as duas fases da Acrópole dá-se também pela grande diferença na relação que ela manteve com duas diferentes gerações de projetistas. A primeira fase é a dos engenheiros-arquitetos, que tinham um relacionamento muito próximo com a construção civil: Oswaldo Bratke, Eduardo Kneese de Mello, Henrique Mindlin, entre outros. Eles começaram a vida profissional construindo as obras que projetavam e adquiriam assim grande familiaridade com o universo da construção civil e seus personagens, como os construtores e fabricantes de materiais de construção. Ao que parece, essa geração considerava importante a existência de um veículo de comunicação ligado à arquitetura, até mesmo parasolidificar a então jovem profissão.

A geração seguinte coloca em pauta um debate de cunho político, com ênfase em um compromisso social, não presente na anterior - o que, por princípio, entra em conflito com a lógica de uma revista comercial, que vive de anúncios publicitários. No caso da Acrópole, grande parte das páginas publicitárias era indiretamente ligada ao mercado da construção predial em São Paulo. Tal postura, contextualizada com o conturbado momento histórico, abarca a geração mais jovem de arquitetos.

Nesse sentido, é interessante perceber como os edifícios de apartamentos desaparecem das páginas da Acrópole depois da metade da década de 1960. E isso num
período de grande crescimento vertical em São Paulo, baseado no financiamento imobiliário via SFH e BNH. E parte dos profissionais ligados a essa nova postura ética da arquitetura não estava produzindo prédios de apartamentos em São Paulo? Na verdade, estava, mas eles preferiam não mostrar o que faziam junto ao mercado imobiliário (considerado impuro, impróprio).

O somatório desses dois fatores - a falta de envolvimento da nova geração com o mercado imobiliário e a busca por revelar uma arquitetura mais ética - pode ter contribuído, de alguma forma, para o fechamento da revista. A arquitetura fez mal para os negócios. Essa postura francamente política adotada pelos arquitetos paulistas não seria incongruente com uma revista comercial? Teria ela sobrevivido se tivesse se transformado num periódico mais comercial?

Essas perguntas nunca poderão ser respondidas. O fato é que, sem anúncios, a revista parou de circular em dezembro de 1971, abrindo um vácuo de registro da produção de São Paulo, só retomado mais de uma década depois. Max morreu, aos 73 anos, um ano depois de fechar a revista. Manfredo Gruenwald continuou a editar outras revistas segmentadas - até o Plano Collor, quando decidiu aposentar-se, ante as incertezas do mercado financeiro. Sua coleção de exemplares da Acrópole, encadernados, foi doada para a biblioteca da Fundação Armando Álvares Penteado. Consigo, guarda poucas edições da revista, principalmente os números especiais. Ironicamente, Manfredo mora num daqueles edifícios de apartamentos paulistanos quase anônimos, mas de arquitetura moderna e sóbria, desenhado por João Kon (leia a seção Artigo da edição passada). Da janela, espontaneamente, ele me aponta um prédio do Benno Perelmutter - o último edifício
residencial publicado pela Acrópole. Fala sobre o concreto à vista, que deu problemas, mas agora está pintado. Muito diferente do edifício em que ele mora. “Bem construído”, descreve, mas não publicado pela revista. Ironicamente, o prédio ilustra o anúncio da Mecânica Ryval em um dos poucos exemplares na estante do ex-editor. Ah, sobre a placa no IAB sugerida por Bratke? Nem sinal.

Notas:
1 - Este texto é um extrato da dissertação “Arquitetura revista: a Acrópole e os edifícios de apartamento em São Paulo (1938-1971)”, defendida por mim em janeiro último, na Universidade Presbiteriana Mackenzie. A orientação coube a Nádia Somekh e a banca examinadora foi composta pelos professores Mônica Junqueira de Camargo e Mario Figueroa.
2 - A publicação, denominada Construções Residenciaes - 1937 - Eng. Arq. Eduardo Kneese de Mello, registrou o primeiro grupo de obras ecléticas produzidas por esse projetista - sobretudo neocolonial -, que, com o passar dos anos, aproximou-se do modernismo, tornando-se um dos expoentes dessa arquitetura em São Paulo.
3 - Carlos Lemos assim se refere a ela em conferência de abertura do Docomomo São Paulo, em 2005.
4 - Entre eles, Zenon Lotufo, Carlos A. Gomes Martins,
Oswaldo Corrêa Gonçalves e Wilson Maia Fina.
5 - Ambos, quando estudantes, já haviam participado da edição da Pilotis, revista universitária do Mackenzie.

 

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 312 Fevereiro de 2006

 
Roberto Corrêa de Brito, fundador e
diretor da revista na primeira fase
 
Max Gruenwald, diretor da segunda fase e
na Acrópole desde 1939
 
Semente da Acrópole: capa da publicação Construções Residenciaes - 1937 - Eng. Arq. Eduardo Kneese de Mello
 
Gráfico 1 - Número médio de edifícios de apartamentos paulistanos publicados por edição, por ano
 
Gráfi co 2 - Número médio de páginas editoriais e totais por edição, por ano (a diferença entre ambas representa as páginas publicitárias)
 
Gráfi co 3 - Número médio de matérias com
fins públicos e privados por edição, por ano
 
Gráfi co 4 - Número médio de matérias com obras executadas e projetos por edição,
por ano
 
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