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No início de 1938, Roberto Corrêa de
Brito, que dirigia o Cadastro Imobiliário de São
Paulo, procurou o arquiteto Eduardo Kneese de Mello,
então com 32 anos, a fim de publicar um volume sobre
sua obra 2.
Durante as conversas, este incentivou o editor a criar
uma revista de arquitetura em São Paulo. Essa é
a semente da Acrópole, cuja primeira edição
circulou em maio de 1938 e é, até hoje, o periódico
nacional do setor que mais números publicou, chegando
à marca de 391.
As capas dessa fase, chamada também de “velha
Acrópole”3 , são
monótonas: sempre a imagem do Erecteu - um dos templos da Acrópole
grega -, destacando as cariátides, com mudança apenas na cor. Nesse
período, a revista está em formação: não há
linha editorial precisa. Basicamente, o conteúdo editorial se divide entre
artigos e projetos de arquitetura, mostrados de forma irregular,
o que seria natural para um veículo pioneiro. Em casos excepcionais, há
apresentação mais detalhada - parecida com as atuais -, com fotos,
desenhos técnicos, texto e ficha técnica (incompleta). A forma mais
usual de publicação trazia apenas a identificação
do autor do projeto, nome do proprietário e endereço. Por diversas
vezes, não são apresentadas plantas. As poucas edições
especiais, ou temáticas, são sobre projetos de grande porte, revelando
interesse publicitário. No período em que Corrêa de
Brito dirigiu a Acrópole, são criadas outras seções,
que possuem interesse puramente publicitário - como, por exemplo, a mulher
ou o turismo -, o que demonstra indefinição editorial. Nessa
fase, é publicado, nas últimas páginas, um encarte denominado
São Paulo Imobiliário (iniciado na edição 25, de maio
de 1941). Esse suplemento apresenta todas as vendas de imóveis registradas
nos cartórios. Por outro lado, há uma grande confusão
entre a área editorial e a publicitária. Isso acontece de várias
formas, inclusive com a chamada matéria paga. Dentro das páginas
publicitárias, há ainda o Cadastro Profissional, espaço
em que empresas, arquitetos e outros profissionais liberais oferecem seus serviços.
Nesse sentido, a postura adotada pela direção na primeira fase,
vista com olhos atuais, seria considerada inadequada. Isso porque,
ao vender matérias - na tabela de preços publicitários, denominadas
“colaborações”- não se deixa claro para o leitor o que é
editorial e o que é objeto de comercialização. Por
outro lado, obras relevantes são publicadas no período, como
o edifício Esther (Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho), que ilustra
o número 1. Assim, temos que levar em conta que, aparentemente, nem
todos os envolvidos na publicação (arquitetos, engenheiros e
construtores) tinham interesse comercial, mais expressamente colocado pelas
“firmas construtoras”, algumas das quais com anúncio de venda de unidades
residenciais. Há, em contrapartida, interesse em estabelecer o debate
arquitetônico em si - e ali, deve ser dito, tal privilégio não
foi só dos envolvidos com o movimento moderno, apesar de representarem
a maioria. Notadamente, com a evolução da arquitetura de
São Paulo, os engenheiros-arquitetos mais vinculados ao modernismo
tomam a revista de assalto, acompanhando o momento histórico e influenciando
a parte editorial, mês a mês. A revista dos Gruenwalds
O austríaco Max Gruenwald (1895-1974) imigrou com a família
para o Brasil (aqui tinham um parente), chegando em 1936. Linotipista,
Max obteve em São Paulo emprego na gráfica que imprimia a Acrópole.
Logo, Gruenwald conseguiu transferir-se para a Acrópole, ocupando a posição
de contato publicitário. Isso ocorreu em 1939, ou seja, um ano depois
de a revista ter sido lançada e três após sua chegada ao país.
Assim, a relação dele com a revista começou na época
da “velha Acrópole”. Max Gruenwald, contudo, não é
citado no expediente da revista até 1951. Sem alarde, seu nome é
incluído pela primeira vez na edição 152/153 (janeiro de
1951), representando o departamento de publicidade. Coincidência ou não,
nesse número há uma mudança na capa da revista. Inicia-se,
assim, uma espécie de fase de transição. Na
edição seguinte, há outro comunicado que o coloca em destaque.
A partir de então, Max passa a ser responsável pela redação
e publicidade. O fato é que na mesma edição há
mais duas mudanças: novo desenho no layout do sumário e uma espécie
de editorial, que passa a ser escrito por diferentes projetistas 4
. Quase 20 números após figurar no expediente, Gruenwald
torna-se proprietário da Acrópole, fato anunciado na edição
174. Outra marca no período é o ingresso de seu fi lho, Manfredo,
que, a partir da edição 191, passa a ocupar o cargo de diretor.
Nesse ponto, termina a transição. A partir daí, há
uma seleção mais rigorosa dos projetos publicados. Com essa
mudança de postura, é perceptível a diferença de qualidade
da revista. Acontece, então, uma mudança de paradigma. A ascensão
da arquitetura moderna era inevitável, assim como o desaparecimento,
pelo menos nas páginas de uma revista especializada, da arquitetura de
inclinação eclética e neocolonial. Outra mudança
é em relação à profissão: ficam para trás
os engenheiros arquitetos, público-alvo da fase anterior, e a revista passa
a ter como leitores os jovens arquitetos, cujas primeiras turmas se formam
no início da década de 1950. E na gestão dos Gruenwalds
aparece outra tendência arquitetônica, o brutalismo, vertente do moderno,
mas ligada à geração mais jovem. Para exemplificar
a mudança de postura dos profissionais, vale lembrar trecho de uma
entrevista de Oswaldo Bratke a Hugo Segawa, publicada na revista PROJETO 106 (dezembro
de 1987/janeiro de 1988). Para Bratke, a Acrópole “não falhava,
e o Instituto, no meu tempo, a protegeu na medida do possível. O Max, seu
proprietário, implorava por material para publicar, pagando
todas as despesas com fotos, clicherias etc. Foi de grande ajuda para o Instituto.
Ele deveria ter seu nome gravado no IAB, embora houvesse gente ‘do contra’.” Foram
Max e Bratke que idealizaram a Exposição Permanente de Materiais
no IAB, cuja renda ajudou a finalizar a construção da sede da entidade.
A revista, desde o número 184, passa a encartar o boletim do
instituto, ou seja, torna-se, indiretamente, porta-voz oficial. Inicialmente,
o encarte é de responsabilidade de Jorge Wilheim e Luís Roberto
de Carvalho Franco 5.
O boletim divulga assuntos de classe, mas também assume, em certa
medida, papel cultural, fazendo resenhas de revistas estrangeiras e publicando
textos analíticos mais contundentes. Entre eles, um fica especialmente
conhecido: “Que audácia!”, de Eduardo Corona, publicado em fevereiro
de 1958. Ali, Corona atacou frontalmente as construções de Artacho
Jurado. Curiosamente, a edição em que foi encartado (232) apresenta
quatro prédios residenciais em São Paulo, freqüência
acima da média. Para completar, traz um anúncio da empresa Parquet
Kapor Tecnicola, ilustrado com o edifício Bretagne, de Jurado. Em
contrapartida, a Monções, empresa do construtor, deixou de anunciar
no Indicador Profissional de São Paulo na edição 226, ou
seja, seis meses antes. Na segunda fase, a revista também
não tem um projeto gráfico definido. A maior parte das capas, sempre
diferentes, é criada pelo desenhista Francisco C. Dias. Com o tempo, a
publicação ganha sofisticação. As capas passam
a ser feitas por arquitetos e designers, como Augusto Boccara, Alexandre
Wollner, Enzo Grinover, Cauduro e Martino, Abrahão Sanovicz e Júlio
Katinsky. No miolo, também várias mudanças: editoriais
escritos por Eduardo Corona (desde fevereiro de 1963) e as matérias vão
ganhando um padrão, que inclui a colocação de pequenos textos
acerca dos projetos, sempre escritos pelos próprios autores. Na época,
poucas plantas eram preparadas para publicação. O mais usual era
a utilização de reduções do projeto executivo ou desenhos
de apresentação para o cliente. As edições
especiais davam destaque para os arquitetos ligados ao brutalismo,
na maior parte das vezes jovens: Carlos Millan, Ruy Ohtake, Paulo Mendes da Rocha,
Joaquim Guedes, entre outros. Nessa sofisticação, Manfredo
descarta a influência de Corona - que nunca trabalhou na revista, embora
tenha anunciado o fim da publicação em seu último editorial,
de novembro/dezembro de 1971, intitulado “Vida e morte de uma revista de arquitetura”. A
relação entre a publicidade e a linha editorial é
diversa na segunda fase, momento em que a Acrópole se comportou de forma
semelhante ao que se pratica hoje nas mídias correlatas. Ou seja, conteúdo
editorial não tem relação direta com anúncios. Acrópole
em números Sob dois aspectos, as duas fases possuem semelhanças.
A primeira e mais significativa delas é o fato de o periódico publicar
a maioria de textos de São Paulo. Pode-se afirmar, com absoluta
segurança, que Acrópole foi uma revista de arquitetura paulista,
apesar da notada queda que as obras em São Paulo sofrem no final do período
dos Gruenwalds. Na primeira fase, as obras em São Paulo representam
88,86% (depois vêm Rio de Janeiro, com 3,26%; Paraná, com
2,12%; Minas Gerais, com 0,97%; e Rio Grande do Sul, 0,88%) e na segunda, 78,91%
(seguido por Rio de Janeiro, com 5,25%; Brasília, com 3,33%; e Minas Gerais,
com 1,2%). Os números relativos a São Paulo poderiam ser um pouco
maior se fossem considerados os projetos de paulistas em outros estados. A segunda
semelhança entre as duas gestões é a permanência constante
de um número pequeno de artigos por edição
- característica freqüente dos periódicos comerciais de arquitetura,
mais voltados, em geral, para o registro da produção do que para
a análise crítica em geral. Vejamos então as diferenças
entre as duas fases. Em relação aos movimentos arquitetônicos,
a gestão de Corrêa de Brito revela a indefinição
do período: diversas tendências convivem no periódico.
De certa forma, a revista reflete, mês a mês, a evolução
da arquitetura paulista em direção aos preceitos do moderno. No
último período da revista sob Corrêa de Brito é
evidente o crescimento das obras modernas. O grupo responsável por
isso é bem definido: Kneese de Mello, Hélio Duarte, Zenon Lotufo
e Abelardo de Souza. No período seguinte, as obras vinculadas ao
movimento moderno predominam, e uma nova vertente - o brutalismo, ou escola
paulista - surge, para tornar-se soberana no final dessa etapa. No que
diz respeito a obras executadas, há uma grande diferença
entre as duas fases da Acrópole: enquanto a primeira é mais
pragmática (o que é natural para quem é financiado,
em parte, por anúncios ligados à construção, pois
publica maioria de obras realizadas), na segunda fase, principalmente nos
últimos anos de vida, os projetos não executados ganham força.
Isso demonstra que a revista ficou mais experimental. A publicação
de concursos de arquitetura é expressiva. Ainda analisando os números
semelhantes, temos as residências unifamiliares como programa mais
freqüente em ambas as fases. No entanto, o número cai de uma
para a outra. Na primeira, elas representam 50,35% das reportagens
de arquitetura; na segunda, 33,45% - essa fase é caracterizada
pela pulverização de programas, ou seja, não há
grande concentração, mas diversidade. O segundo programa
mais publicado, em ambos os períodos, são os prédios
de apartamentos. Há também, em ambas as fases, uma
proximidade com a política profissional. Entramos, assim, no incerto
campo político. Política, ética e profissão
A separação entre as duas fases da Acrópole dá-se
também pela grande diferença na relação que
ela manteve com duas diferentes gerações de projetistas.
A primeira fase é a dos engenheiros-arquitetos, que tinham um relacionamento
muito próximo com a construção civil: Oswaldo Bratke, Eduardo
Kneese de Mello, Henrique Mindlin, entre outros. Eles começaram a vida
profissional construindo as obras que projetavam e adquiriam assim grande familiaridade
com o universo da construção civil e seus personagens, como os construtores
e fabricantes de materiais de construção. Ao que parece,
essa geração considerava importante a existência de um veículo
de comunicação ligado à arquitetura, até mesmo parasolidificar
a então jovem profissão. A geração seguinte
coloca em pauta um debate de cunho político, com ênfase em
um compromisso social, não presente na anterior - o que, por princípio,
entra em conflito com a lógica de uma revista comercial, que vive
de anúncios publicitários. No caso da Acrópole, grande
parte das páginas publicitárias era indiretamente ligada ao mercado
da construção predial em São Paulo. Tal postura, contextualizada
com o conturbado momento histórico, abarca a geração mais
jovem de arquitetos. Nesse sentido, é interessante perceber
como os edifícios de apartamentos desaparecem das páginas
da Acrópole depois da metade da década de 1960. E isso num
período de grande crescimento vertical em São Paulo, baseado no
financiamento imobiliário via SFH e BNH. E parte dos profissionais ligados
a essa nova postura ética da arquitetura não estava produzindo prédios
de apartamentos em São Paulo? Na verdade, estava, mas eles preferiam não
mostrar o que faziam junto ao mercado imobiliário (considerado impuro,
impróprio). O somatório desses dois fatores - a falta
de envolvimento da nova geração com o mercado imobiliário
e a busca por revelar uma arquitetura mais ética - pode ter contribuído,
de alguma forma, para o fechamento da revista. A arquitetura fez mal para
os negócios. Essa postura francamente política adotada pelos
arquitetos paulistas não seria incongruente com uma revista comercial?
Teria ela sobrevivido se tivesse se transformado num periódico mais comercial? Essas
perguntas nunca poderão ser respondidas. O fato é que, sem anúncios,
a revista parou de circular em dezembro de 1971, abrindo
um vácuo de registro da produção de São Paulo, só
retomado mais de uma década depois. Max morreu, aos 73 anos, um ano depois
de fechar a revista. Manfredo Gruenwald continuou a editar outras revistas segmentadas
- até o Plano Collor, quando decidiu aposentar-se, ante as incertezas do
mercado financeiro. Sua coleção de exemplares da Acrópole,
encadernados, foi doada para a biblioteca da Fundação Armando
Álvares Penteado. Consigo, guarda poucas edições da revista,
principalmente os números especiais. Ironicamente, Manfredo mora num daqueles
edifícios de apartamentos paulistanos quase anônimos, mas de arquitetura
moderna e sóbria, desenhado por João Kon (leia a seção
Artigo da edição passada). Da janela, espontaneamente, ele me aponta
um prédio do Benno Perelmutter - o último edifício residencial
publicado pela Acrópole. Fala sobre o concreto à vista, que deu
problemas, mas agora está pintado. Muito diferente do edifício em
que ele mora. “Bem construído”, descreve, mas não publicado pela
revista. Ironicamente, o prédio ilustra o anúncio da Mecânica
Ryval em um dos poucos exemplares na estante do ex-editor. Ah, sobre a placa no
IAB sugerida por Bratke? Nem sinal. Notas: 1
- Este texto é um extrato da dissertação “Arquitetura revista:
a Acrópole e os edifícios de apartamento em São Paulo (1938-1971)”,
defendida por mim em janeiro último, na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A orientação coube a Nádia Somekh e a banca examinadora foi
composta pelos professores Mônica Junqueira de Camargo e Mario Figueroa.
2 - A publicação, denominada Construções Residenciaes
- 1937 - Eng. Arq. Eduardo Kneese de Mello, registrou o primeiro grupo de obras
ecléticas produzidas por esse projetista - sobretudo neocolonial -, que,
com o passar dos anos, aproximou-se do modernismo, tornando-se um dos expoentes
dessa arquitetura em São Paulo. 3 - Carlos Lemos assim se refere
a ela em conferência de abertura do Docomomo São Paulo, em 2005.
4 - Entre eles, Zenon Lotufo, Carlos A. Gomes Martins, Oswaldo
Corrêa Gonçalves e Wilson Maia Fina. 5 - Ambos, quando
estudantes, já haviam participado da edição da Pilotis, revista
universitária do Mackenzie. |