Por Roberto Segre*
Uma teoria de mão única
 
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Capa de Sérgio Ferro: arquitetura e trabalho livre, publicação da Cosacnaify com textos de Ferro
 
Desenhos em que Sérgio Ferro compara o Taliesin (de Frank Lloyd Wright) com as casas em abóbada desenhadas por Ferro, Lefèvre e Império
 
O convento de La Tourette, projetado por Le Corbusier, em desenho de Sérgio Ferro
 
Capa de Grupo Arquitetura Nova. Flávio Império, Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro, de Ana Paula Koury
 
Capa de Arquitetura Nova. Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões, de Pedro Fiori Arantes
 
Capa de Michelangelo. Notas por Sérgio Ferro, publicado pela editora Palavra e Imagem, em 1981
 
Desenho da porta Pia de Roma, em Florença,
feito por Ferro
 
Capa de O canteiro e o desenho, de Sérgio Ferro, lançado pela editora Projeto em 1979
 
Capa de Casa popular - Arquitetura Nova, de Sérgio Ferro, edição do Centro de Estudos Brasileiros do Grêmio da FAU/USP, 1975
 

Organizada por Pedro Fiori Arantes e publicada pela editora Cosacnaify, a coletânea de textos teóricos de Sérgio Ferro1 resume mais de 40 anos de trabalho profissional, docente, artístico e literário. Trata-se de figura mítica na arquitetura brasileira do século 20, porque representa a vanguarda ideológica paulista que, primeiro, lutou nas aulas da FAU/USP e logo pegou em armas contra a ditadura, que perseguiu com particular agressividade os arquitetos. Para os militares era difícil aceitar que dois expoentes da arquitetura brasileira - Vilanova Artigas em São Paulo e Oscar Niemeyer no Rio de Janeiro -, prestigiosos localmente e conhecidos no exterior, fossem militantes do Partido Comunista, sendo um deles o principal autor dos prédios da nova capital do país. Daí a importância de acompanhar na totalidade o percurso do pensamento de Ferro, desde os primeiros textos combativos dos anos 1960 até a consolidação de sua teoria nos primórdios do século 21, até agora só difundido fragmentariamente.2

 

O livro tem estrutura cronológica. A primeira parte apresenta os projetos de casas “populares” desenvolvidos com Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, em busca de soluções econômicas e simples, construídas com materiais locais e mão-de-obra artesanal, expressivas dos ideais contidos no movimento Arquitetura Nova. A segunda parte corresponde aos principais textos teóricos elaborados em Grenoble, que constituem o cerne do volume. Depois de passar um ano na prisão (1970) por sua participação na luta armada contra a ditadura, Sérgio Ferro emigrou, em 1972, para a França, onde se dedicou ao ensino universitário e à pintura. Paralelamente às formulações ideológicas e filosóficas, aparecem as pesquisas desenvolvidas com os alunos da universidade de Grenoble sobre as obras de Le Corbusier e de alguns arquitetos clássicos, como Palladio e Michelangelo. A terceira parte contém textos escritos nas duas últimas décadas, nos quais desenvolve sua visão do urbanismo e da arquitetura brasileiros, voltada, em particular, para Brasília.

Não é tarefa fácil resumir e debater o conteúdo de um volume de mais de 400 páginas, denso de idéias, citações filosóficas e formulações radicais, agressivas e polêmicas. A essência que constitui seu fio condutor é a rejeição de Ferro ao sistema capitalista e a crítica à exploração histórica dos operários da construção civil mantida até hoje. Seu fervor e paixão revolucionários se mantiveram incólumes, sem mudanças e retrocessos, como ele declara no final do livro. Foi uma posição política e ideológica que se consolidou nos anos 1960, em período intenso e contraditório do século 20. No Brasil, a euforia de Kubitschek em Brasília, a renovação cultural do Cinema Novo e o movimento pictórico concretista, apagados pelos 20 anos de crise com a ditadura militar iniciada em 1964. Internacionalmente, a Guerra Fria e as expectativas de mudanças na URSS; a revolução cubana; a luta de Che Guevara na América Latina; a Revolução Cultural chinesa e o Maio de 1968 em Paris, que indicavam ainda uma esperança na revolução mundial.

Mas as teses que tinham validade naqueles anos caducaram no alvorecer do novo século. O socialismo mundial sumiu, a URSS desintegrou-se; os chineses estão desenvolvendo um capitalismo-socialista; o sistema neoliberal globalizado controlado pelos Estados Unidos domina o mundo, econômica e culturalmente, assim como os extremismos religiosos o dividem. As megalópoles, a crise ecológica, a miséria generalizada, a Internet e os computadores mudaram a escala dos problemas e as relações sociais. A luta de classes foi substituída pelas contradições entre países pobres e países ricos, entre os valores da cultura ocidental e o surgimento de um novo Islã, que pretende também participar de uma fatia do bolo da riqueza que ainda sobra na Terra. O lento ressurgimento da esquerda nos governos recentes da América Latina constitui uma luz de esperança no desejo de retificar as profundas injustiças herdadas de longa data.


Utópico romantismo

O fato de assumir como paradigma William Morris - o livro começa e acaba com as figuras decorativas artesanais de papel de parede elaboradas pelo artista inglês - e a sua tese “art is joy in labour”, para definir como boa arquitetura aquela que provém da integração entre o projetista, os materiais naturais, a lógica estrutural e o pedreiro no canteiro (partícipe da intencionalidade do desenho), transforma o radicalismo de Ferro em um utópico romantismo, alheio ao projeto moderno iluminista. Conceição ideológica unidimensional da arquitetura quando sustenta que “há oito séculos que o corpo produtivo acéfalo é esmagado”; assim como que “o fundamento constante da história do desenho, desde o gótico tardio, deriva da posição que ocupa no processo produtivo: instrumento do capital, indispensável para a extração da mais-valia” [...] “e suas mutações correspondem a configurações diversas da luta de classes na construção. O que esconde sob a ilusão de uma história imanente, digna, progressista”. Não se pode apagar com uma vassoura marxista toda a história da arquitetura ocidental, desde Brunelleschi - culpado pela eliminação dos grêmios medievais pelo o início da cisão entre projeto e canteiro - até hoje, considerando só o classicismo uma expressão universal do capital e a sua estética - tanto como os exercícios formais de Zaha Hadid, Peter Eisenman, Daniel Libeskind, Frank Gehry - uma mercadoria “fetiche”, que esconde a exploração violenta da força de trabalho. Nem toda arquitetura é mercadoria, como definiu Henri Lefebvre, estabelecendo a diferença entre uma arquitetura valor de uso e outra valor de troca.

Nós, que coincidimos com Ferro ao nos declararmos “marxistas vulgares”, ao longo de 30 anos dedicados ao ensino da história da arquitetura em Cuba para formar profissionais “socialistas”, nunca negamos o valor estético da arquitetura do sistema capitalista. Definidos as relações de produção e o desenvolvimento das forças produtivas como embasamento estrutural - ou seja, político, social e econômico -, a importância das obras analisadas se firmava na sua função e na sua iconicidade e simbolismo na cultura da época, concretizadas nos códigos formais, espaciais, tecnológicos. E, a partir daí, procurava-se avaliar como o arquiteto interpretaria os desejos - como categoria estrutural, segundo Deleuze e Guattari - e aspirações do poder estabelecido e da sociedade; e como os resolveria com inovação, criatividade, imaginação e com os materiais e as técnicas disponíveis, tentando manter o equilíbrio vitruviano da firmitas, utilitas e venustas. Ali estão as contribuições de Brunelleschi, Michelangelo, Palladio, Borromini, Gaudí, Tatlin, Le Corbusier, Niemeyer e Gehry, entre muitos outros, que são os representantes de uma “estética da revolução” sem fronteiras temporais nem espaciais.

É verdade que, segundo Bertolt Brecht, nunca se falou dos sofridos e explorados construtores, mas não é essa triste realidade generalizada ao longo de séculos que define o valor de um prédio na história da cultura universal. Tampouco é questionável a separação entre a atividade manual do canteiro e a atividade intelectual do projeto. Desde a sociedade primitiva, a divisão social do trabalho foi um dos fundamentos essenciais do progresso da humanidade. Distância aprofundada na primeira e na segunda revolução industrial e radicalizada hoje, no mundo pós-industrial, onde a realidade material vai sendo substituída pela realidade virtual. A sofisticação dos avanços científicos e tecnológicos na construção civil existente nas metrópoles não permite mais esse diálogo, que evidentemente ainda existe em regiões do mundo subdesenvolvido ou na escala de pequenas comunidades: isso poderia acontecer no povoado medieval de Grignan, onde Sérgio Ferro mora, ou no Brasil, nas fragmentárias intervenções nas favelas ou nos assentamentos do MST.

Como se resolveria o problema posto por Ferro sobre a possibilidade do trabalho livre e criativo no canteiro? Não apenas procurando “a poética da mão”, mas eliminando a exploração e a obtenção da mais-valia para o empresário, sobre o salário de operário. Isso não se apaga só com o diálogo entre o pedreiro e o projetista, integrados na ação material da construção, mas com o fim do trabalho alienado. De acordo com Marx, a alienação é produzida pelo trabalho manual repetitivo, mecânico, do operário na fábrica, explorado pelo capitalista e alheio ao valor da matéria elaborada. O primeiro passo seria o controle dos meios de produção pelos operários, assumindo a direção da fábrica, e a consciência da significação social e econômica do processo produtivo. Dessa maneira, o trabalho manual realizado para a sociedade, e não para um proprietário capitalista, deixaria de ser alienado, com sujeito e objeto se unindo num processo consciente, segundo Erich Fromm. Em Cuba, havia uma diferença entre a situação do camponês que cortava cana-de-açúcar, explorado pelos empresários norte-americanos, e sua integração no sistema socialista como ente ativo no desenvolvimento econômico da sociedade. A identificação com o trabalho manual “consciente” realizava-se com a presença de intelectuais e de estudantes que participavam da colheita da safra ao lado dos camponeses, demonstrando a equivalência social entre teoria e prática.

Marx também propôs que o ser humano se diferenciaria dos animais pela razão, pela história e pela criatividade intelectual: daí a diferença entre o desenho original de um prédio e a repetição automática numa colméia. Então, quando Marx apóia a industrialização e, mais tarde, Lenin declara que o comunismo é socialismo mais eletrificação, os dois estariam justificando que a modernidade produtiva das máquinas permitiria substituir o trabalho mecânico manual dos homens. Essa abordagem fundamentou a adoção, com grande entusiasmo, da pré-fabricação e da industrialização da construção no mundo socialista, inclusive em Cuba. O objetivo era acabar com o pedreiro no canteiro, substituído por engenheiros e técnicos construtores especializados. Era a visão de Che Guevara, o qual afirmava que o subdesenvolvimento se superava adotando a técnica avançada onde ela estivesse. Surpreende que Ferro não cite, por exemplo, uma das experiências modernas em que se resolvia a articulação equilibrada entre o proprietário, o projetista e construtor, no sistema de madeira ballon frame utilizado na construção de casas individuais nos Estados Unidos.


Posição paradoxal

Em sua análise do desenvolvimento urbanístico e arquitetônico brasileiro, Ferro elabora também duras críticas. As orientações válidas se limitariam fundamentalmente aos profissionais paulistas - seu mestre Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha, Paulo Bruna, Joaquim Guedes, Carlos Millan, Rino Levi, entre outros - e a alguns integrantes da escola carioca, como Lucio Costa, Oscar Niemeyer, João Filgueiras Lima e José Zanine Caldas. Ferro assume uma posição paradoxal na avaliação da obra de Costa e Niemeyer. Por um lado, considera o primeiro o mais representativo da tendência que ele defende, ao utilizar nas suas obras os materiais naturais e elogiar os construtores coloniais. Mas não avança uma crítica aprofundada ao esteticismo e aos forçamentos estruturais de Niemeyer - “ele queria fazer Yves Saint Laurent para todo o mundo” -, atendo-se a uma avaliação sentimental: “O Oscar é de uma generosidade,
de um carinho espantosos”.

A mesma dura objetividade assumida para criticar Le Corbusier no convento de La Tourette poderia ter sido aplicada ao MAC de Niterói, ao Memorial de América Latina ou ao Museu de Arte de Curitiba, obras que apresentam contradições semelhantes às identificadas e questionadas nas realizações do mestre francês. Mas Brasília é o alvo principal da crítica de Ferro, ao demonstrar as duras condições existentes no canteiro da cidade durante o período de sua construção; fatos sem dúvida reais, mas que não coincidem com a visão entusiasta e apaixonada “da grande cruzada [...] vendo a cidade crescer como uma flor do deserto...” que testemunha Oscar. De novo aparece um juízo limitado à estrutura socioeconômica que definiu o surgimento da cidade e à rigidez dos princípios “racionalistas” que nortearam o projeto, sem assumir o valor transcendente de sua significação estética e o valor icônico que hoje tem para o Brasil e o mundo como representação urbana inédita na América Latina e expressão da criatividade de Lucio e Oscar.

A lacuna que se percebe no livro é a indicação de uma perspectiva futura que concretize a sua formulação de que “toda crítica radical deve conduzir a uma prática modificadora”. A experiência desenvolvida nos anos 1960, nas casas construídas em São Paulo, não teve continuação, embora tenha servido de embasamento para novas iniciativas surgidas com o retorno da democracia no Brasil, duas décadas mais tarde. Lembremos os conjuntos habitacionais de Demetre Anastassakis, de Joan Villà, de Nabil Bonduki; os projetos do programa Favela-Bairro, no Rio de Janeiro, e as realizações de Severiano Porto na Amazônia.

Mas a trajetória de Ferro, quase isolada no Brasil enquanto radical compromisso político, teve seus homólogos na América Latina. Entre eles citemos, no Chile, Esteban Rodriguez, responsável pelos projetos habitacionais da Unidad Popular, assassinado pelos militares em Valparaíso, e Miguel Lawner e Osvaldo Cáceres, profissionais de renome, torturados e presos; na Argentina, Mario Tempone, assassinado, e Mario Soto e Osvaldo Bidinost, presos; na Bolívia, o arquiteto Javier (Maco) Gutiérrez, que trabalhou em Cuba e morreu na guerrilha; e, na Venezuela, Fruto Vivas, que participou na luta armada naquele país. Arquitetos que, superado o período das ditaduras em seus países, continuaram contribuindo para o desenvolvimento de uma arquitetura popular, baseada no diálogo com os construtores e os usuários. A eles se somaram Cláudio Caveri, no subúrbio de Buenos Aires, e Victor Saul Pelli, intervindo nas comunidades carentes de Resistência; Carlos González Lobo, projetando nos povoados indígenas mexicanos; Gilberto Florez Restrepo, na Colômbia, desenhando casas populares de bambu; e Fernando Castillo Velasco, planejando conjuntos residenciais para a população pobre de Santiago.

São iniciativas que sempre tiveram soluções formais com uma linguagem de vanguarda, e que aconteceram em outras regiões do planeta. Lembremos também Samuel Mockbee, projetando e construindo, com os estudantes das universidades de Alabama e Mississippi, para as comunidades negras pobres; Hassan Fathy, criador de uma expressão regional no Egito; Charles Correa, nos projetos de casas evolutivas na Índia. Ou seja, a luta pela qualificação estética do ambiente vital das populações carentes, reivindicando a criatividade de desenhistas e construtores, é um imperativo universal com o qual as novas gerações de arquitetos têm que comprometer-se. Nesse sentido, na procura de uma arquitetura emancipatória, baseada no “trabalho livre”, a lição de Sérgio Ferro é ponto de partida para atingir a liberdade estética de que necessita o mundo, uma vez atingida a ansiada justiça social.



*Nascido na Itália, o arquiteto Roberto Segre formou-se pela Universidade de Buenos Aires em 1960 e lecionou em Havana, onde esteve radicado por muitos anos.
Atualmente, é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro

Notas
1 - Sérgio Ferro: arquitetura e trabalho livre. Pedro Fiori Arantes (org.); posfácio de Roberto Schwarz. Cosacnaify, São Paulo, 2006.
2 - Em 1979, a editora Projeto publicou a tese fundamental de Ferro, exposta em O canteiro e o desenho, reeditada em 2005 e traduzida neste ano na França pela Éditions de La Villette, com o título Dessin/chantier. Ver também: Pedro Fiori Arantes, Arquitetura Nova. Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões, Editora 34, São Paulo, 2002; Ana Paula Koury, Grupo Arquitetura Nova. Flávio Império, Rodrigo Lefèvre, Sérgio Ferro. Edusp, Romano Guerra Editores, São Paulo, 2003.

 

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 314 Abril de 2006

 
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