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Na semana seguinte, a Fundação Pritzker criou
um mito: o capixaba radicado desde os seis anos de idade em
São Paulo passou a ser o 29° selecionado de uma
lista heterogênea, onde constam, por exemplo, Jørn
Utzon (2003) e Kevin Roche (1982). Entre os latino-americanos,
só Luis Barragán (contemplado em 1980, por graça
de Philip Johnson, uma espécie de patrono do prêmio
e o primeiro agraciado, em 1979) e Oscar Niemeyer (1988).
Espanha, Holanda, Portugal, França ou Suíça,
todos pólos da arquitetura contemporânea, têm
só um Pritzker cada: Rafael Moneo (1996), Rem Koolhaas
(2000), Álvaro Siza (1992), Christian de Portzamparc
(1994) e Herzog & De Meuron (2001). Seja como for, Mendes
da Rocha entrou para o mais exclusivo grupo de arquitetos
de seu tempo, que, se reunidos, cabem numa van ou, em época
de Copa do Mundo, não são em número suficiente
para formar dois times de futebol e jogar uma pelada.2
Este ano, compunham o júri dois mecenas (lorde Palumbo,
aristocrata inglês amante da arquitetura, e Rolf Fehlbaum,
presidente da Vitra), três arquitetos (Balkrishna Doshi,
indiano que trabalhou com Le Corbusier em Chandigarh; o canadense-californiano
Frank O. Gehry, laureado em 1989, também por influência
de Johnson; e Carlos Jiménez, costarriquenho radicado
nos Estados Unidos que concilia vida acadêmica e prática
arquitetônica) e duas experts (Victoria Newhouse, historiadora
de arquitetura, e Karen Stein, editora da Phaidon). A decisão
do grupo foi unânime, como manda o figurino do Pritzker.
Os premiados são escolhidos entre os diversos indicados
(fala-se em centenas), que podem ser apontados por qualquer
arquiteto do mundo, através do site da fundação.
Por outro lado, anualmente, os organizadores pedem indicações
para o próprio júri e para críticos,
acadêmicos, diretores de museus e pessoas ligadas às
artes em geral. Apesar de o julgamento ser sigiloso, a diretora
executiva do prêmio, Martha Thorne, relatou-me, ao ser
questionada sobre quem teria indicado o brasileiro, que o
júri conhecia muito bem o trabalho de Mendes da Rocha,
deixando no ar a impressão de que o nome teria surgido
por indicação de um (ou mais) jurado(s).
Se a infância de Paulo Archias Mendes da Rocha foi marcada
pelas crises financeira e política que assolaram o
Brasil na virada dos anos 1920 para 1930, sua juventude experimentou
o nacionalismo de Getúlio Vargas, com o crescimento
industrial do país. Em meio a turbulência e otimismo,
uma coisa ficou registrada no imaginário dele: a sedução
pelo domínio da natureza praticado por seu pai, engenheiro
civil, especialista em assuntos hídricos. Por outro
lado, de forma inusitada,3
podemos dividir a trajetória profissional de Mendes
da Rocha através dos escritórios que ele ocupou.
Assim, a primeira fase foi desenvolvida no Conjunto Nacional,
na avenida Paulista, a maior parte do tempo ao lado de João
Eduardo de Gennaro. Esse momento inicial, de grande vigor
e relativa consagração, estende-se da conquista
do concurso do Clube Atlético Paulistano (1958) até
a vitória em outro certame, o do pavilhão brasileiro
na exposição mundial de Osaka, Japão
(1969). Essa fase coincide com o otimismo político
e econômico - simbolizado por Juscelino Kubitschek e
a construção de Brasília - e é
influenciado, definitivamente, por seu segundo mestre, Vilanova
Artigas, que acreditava na revolução burguesa
no Brasil.
A segunda parte da trajetória corresponde à
produção realizada no segundo escritório,
no edifício-sede do IAB/SP, época em que Mendes
da Rocha passou por ostracismo profissional, em conseqüência
do golpe militar de 1964 e da cassação (política)
do cargo de professor assistente da FAU/USP (1969) - tudo
isso potencializado pela decadência do movimento moderno,
em oposição à ascensão do pós-moderno
na arquitetura.
Por fim, a terceira e última fase da obra do arquiteto
é a do período de consagração,
momento em que quase a totalidade de seus trabalhos foi desenvolvida
dentro de quatro escritórios a ele associados, três
deles situados no bairro de Vila Buarque, no entorno de seu
refúgio no prédio do IAB/SP. Essa etapa, que
corresponde à redemocratização do país,
teve início simbolicamente com o projeto do Mube (1988)
e perdura até os dias de hoje, culminando com a escolha
de seu nome para receber o Prêmio Pritzker de 2006.
1 - Intitulado
O Modelo Enquanto Compreensão do Projeto,o curso de
maquetes dura até o final de junho. O resultado poderá
ser visto em livro a ser editado pela Cosac Naify, com lançamento
previsto para junho.
2 - Entre os que receberam o prêmio e estão
vivos, são 21 arquitetos, entre os quais uma mulher.
3 - Tal como fez Luis Fernández-Galiano na A&V
78, de 1999, sobre Norman Foster.
“Fui criado vendo a engenhosidade do mundo”
Antes de Paulo nascer, a engenharia fazia parte da família
Mendes da Rocha havia duas gerações: seu pai,
Paulo de Menezes Mendes da Rocha (1887-1967),1
era engenheiro civil; mineiro de Barbacena, mas “de família
baiana, formado no Rio de Janeiro”,2
na Escola Politécnica. Apesar do título, tornou-se
especialista em recursos hídricos e navais. A vocação
para o controle das águas - que preenche fortemente
o imaginário do arquiteto - foi iniciada pelo avô
Francisco Mendes da Rocha (1861-1949), que era engenheiro
militar e dirigiu o Serviço de Navegação
do Rio São Francisco.
Ambos os ascendentes tiveram destacada posição
profissional: Paulo de Menezes foi diretor da Escola Politécnica
da Universidade de São Paulo e Francisco foi diretor
da Biblioteca Nacional.
Nascido em 25 de outubro de 1928, Mendes da Rocha teve a primeira
infância marcada pelas turbulências econômicas
e políticas do Brasil de então: a crise de 1929
e a revolução de 1932. Isso porque seu pai,
depois de formado, transferiu-se para o Nordeste, a serviço
do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Denocs),
realizando obras de açudes no Rio Grande do Norte (com
destaque para o de Cruzeta).
Ao voltar para o Rio de Janeiro, Paulo de Menezes criou uma
empresa que ganhou a concorrência para construir uma
ponte no Espírito Santo, sobre o rio Santa Leopoldina.
Para serviços de aterro ligados a esse trabalho, contratou
um imigrante italiano - Serafim Derenzi, “que tinha uma filha
lindíssima, chamada Angelina, com quem meu pai se casou”.2
Ainda no menor estado do Sudeste - onde o arquiteto nasceu
-, o pai tornou-se exportador de café, atividade encerrada
com a crise de 1929, que o levou a falência. Com isso,
a família mudou-se para a então capital federal,
onde residiram por três anos na casa do avô Francisco,
na ilha de Paquetá. Em seguida, Paulo de Menezes rumou
sozinho para São Paulo, atrás de oportunidades
de trabalho, enquanto Angelina e os filhos (Paulo e duas irmãs)
voltaram para o Espírito Santo. Na capital paulista,
o engenheiro se aproximou de colegas do Instituto de Pesquisas
Tecnológicas (IPT) e desenvolveu, no esforço
de guerra da revolução de 1932, uma autoclave
de campanha utilizada nas batalhas - envolvimento que resultou
em perseguições políticas, pela oposição
ao governo de Getúlio Vargas. Em conseqüência,
Angelina foi presa e interrogada no Espírito Santo,
a fim de revelar o paradeiro do marido - o que, de fato, ela
desconhecia.
O escritório
no edifício Filizola, no centro de São
Paulo, era compartilhado e tinha mobiliário padronizado
pelo arquiteto
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Em 1935, quando Mendes da Rocha estava com seis anos de idade,
as turbulências passaram. Com o início da estabilidade
profissional de Paulo de Menezes - que
já integrava os quadros da Secretaria de Viação
e Obras Públicas, sendo, posteriormente, responsável
pela construção de obras como o aeroporto de
Congonhas e
barragens hidrelétricas -, a família finalmente
mudou para São Paulo, para uma pensão “muito
mambembe” na avenida Liberdade. Logo em seguida se transferiram
para “uma espécie de pensão de umas senhoras
espanholas” na avenida Paulista, quase na esquina com a avenida
Brigadeiro Luís Antônio.3
Mendes da Rocha foi alfabetizado pela mãe, educadora.
“Minha mãe educou, no Espírito Santo, o [naturalista]
Augusto Ruschi”, relata. A homenagem a Ruschi na 1ª Bienal
de Arquitetura de São Paulo (1973) foi sugestão
de Mendes da Rocha, que desenhou os espaços expositivos.
De certa forma, ele atribui grande parte de sua formação
à atenta observação do trabalho do pai,
com forte presença em seu imaginário. Nesse
sentido, o domínio da natureza - controle de marés,
cheias, portos etc. - ainda desperta o interesse de Mendes
da Rocha, que percebe uma grande beleza na possibilidade da
técnica desenvolvida pelo homem, seja em que área
for. No entanto, apesar da importância da presença
profissional do pai, o projetista sempre demarcou certa distância,
procurando não ficar em seu domínio - o que,
certamente, poderia ter aberto diversas portas. Isso porque,
em 1939, Paulo de Menezes prestou concurso (de forma “brilhante”,
nas palavras de José Augusto Martins) para o corpo
docente da Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo, tornando-se catedrático no ano seguinte e diretor
da instituição entre 1943 e 1947. Ou seja, três
anos antes de Mendes da Rocha entrar na faculdade, seu pai
dirigia a grande faculdade pública da época,
à qual estava ligado o ensino de arquitetura.
Nessa mesma época, pouco antes de cursar arquitetura,
ele estudava no Colégio de São Bento e já
trabalhava desenhando para Luiz Maiorana, que construía
imóveis para os Matarazzos. Então a família
já morava na rua Padre João Manoel, em Cerqueira
César. Assim, em 1949, aos 21 anos de idade, Mendes
da Rocha, sem mesmo prestar exame na USP, inscreveu-se no
vestibular do Mackenzie para arquitetura: “Sempre fui um pouco
relaxado, era muito atento, mas não era estudioso”.2
Seu pai foi quem, de fato, assinou a criação
do curso de arquitetura, desmembrando-o da engenharia. Por
que então ele não estudou na USP? “Talvez porque
tivesse pudor. Não quis me arriscar a fazer besteiras
na casa de meu pai. Acabei indo estudar no Mackenzie, onde
tinha de pagar”.4
Além da busca pela independência, o empurrão
na direção da faculdade privada foi dado por
um amigo, que depois se tornou colega de turma, Abelardo Gomes
de Abreu. Naquele momento era novidade o curso de arquitetura
no Mackenzie, desvinculado da escola de engenharia, assim
como na USP: quando Mendes da Rocha entrou na instituição,
a primeira turma ainda não havia se formado. O curso
era dirigido por Christiano Stockler das Neves, que lhe dava
inclinação acadêmica. No entanto, entre
os alunos já se criava um núcleo de pesquisa
paralela em direção da arquitetura moderna.
Mendes da Rocha fazia parte de um grupo de estudantes, com
Jorge Wilheim, Telésforo Cristofani, Roberto Aflalo,
Alfredo Paesani, Fábio Penteado e Pedro Paulo de Melo
Saraiva, entre outros, que se reuniam na sala de desenho artístico
para, nas palavras de Penteado, “desenhar, conversar, discutir
e ler revistas”.5
Durante a faculdade, Paulo ganhou diversos prêmios em
concursos internos realizados pelo diretório acadêmico.
Um fato curioso dessa fase é o estágio que fez
com o engenheiro-arquiteto Bruno Simões Magro, para
quem desenhou “as cúpulas das torres, em mosaico, e
os pináculos em ferro fundido”6
das torres da igreja Nossa Senhora do Brasil, em São
Paulo. No alto das torres, os galos, também desenhados
por ele, disfarçavam a iluminação de
segurança que orientava os aviões rumo a Congonhas.
Com menos de 30 metros, a luz balizava as aeronaves. Mal sabia
o jovem projetista que aquela luz vermelha, criadora de um
eixo entre seu trabalho juvenil e o aeroporto construído
por seu pai, seria também, no sentido transversal,
o centro quase geométrico entre duas de suas mais significativas
obras. Ao invés de orientar o eixo noroeste-sudeste,
na direção do terminal aéreo, o vento
virou e o galo, hipoteticamente móvel, como uma rosa-dos-ventos,
indicou a posição nordeste, apontando para um
clube elitizado que logo abriria um concurso de arquitetura.
E não era mais só o imaginário advindo
de seu pai que estava em jogo, mas sim o de seu segundo mestre,
Vilanova Artigas.
1 - Informações
sobre Paulo de Menezes Mendes da Rocha constam no livro Diretores
da Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo: vidas dedicadas a uma
instituição 1893-2003, coordenado por Eni de
Mesquita Samara (Edusp, São Paulo, 2003). O trecho
sobre o pai de Mendes da Rocha teve pesquisa de Vera Lúcia
Nakata.
2 - Entrevista de Paulo Mendes da Rocha à revista
Caros Amigos 61, abril de 2002.
3 - No Álbum iconográfico da avenida
Paulista, de Benedito Lima de Toledo (Ex Libris, São
Paulo, 1987), a casa de Rita Braga - quase na esquina da Brigadeiro
Luís Antônio, há a indicação
de que esta seria a pensão. A residência, assinalada
com o número 138, ficava defronte da casa de Egydio
Pinotti Gamba. No entanto, no relato de Mendes da Rocha, a
casa ficava na calçada oposta.
4 - Na reportagem “SP 450: uma relação
espacial com a cidade”, de Luiz Caversan, publicada no jornal
Folha de S. Paulo, em 13/12/2003.
5 - Entrevista de Fábio Penteado, em PROJETO
DESIGN 290, abril de 2004.
6 - Helena Saia, Da capela à metrópole,
Imagem Data, São Paulo, 1997.
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