Fernando Serapião
O recado de Paulo
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Paulo de Menezes o pai, em óleo de 1967, pintado por Silva Neves
 
As águas de Mendes da Rocha: a sangria da barragem de Cruzeta, no Rio Grande do Norte
 
O galo da igreja Nossa Senhora do Brasil,
simbolicamente cruzando dois eixos
 
Em 1954, ainda no Mackenzie. O arquiteto ganhou diversos prêmios em concursos internos
 
Formandos no Mackenzie: De Gennaro, Carlos Salles de Araújo, Alfredo Paesani, Jorge Nasser, Paulo e Ney Marcondes
 
Edifício Vicente Filizola, próximo à Biblioteca Mário de Andrade, na rua Coronel Xavier de Toledo, 65
 
 
 

Uma semana antes de ser anunciado o ganhador do Pritzker 2006, Paulo Mendes da Rocha estava em Curitiba, na Casa Vilanova Artigas (espaço cultural instalado em residência desenhada pelo mestre da arquitetura paulista), ministrando um curso de maquete. Isso mesmo: um curso de maquete. Sem enveredar por possíveis simbolismos - ele estava na cidade natal e no interior de uma casa desenhada por seu mestre -, a aula, apesar de ser dia 1° de abril, não era de mentira: lá estava, concentradamente, o futuro laureado com o mais seleto prêmio da arquitetura mundial, ensinando a interessados estudantes curitibanos a relação entre os modelos em reduzida escala e a arquitetura,1 silencioso, como se nada fosse acontecer na semana seguinte. Dias antes do início do evento, ao me mostrar o cartaz alusivo, Angelo Bucci disse: “Acho que o curso é um recado do Paulo”

 

Na semana seguinte, a Fundação Pritzker criou um mito: o capixaba radicado desde os seis anos de idade em São Paulo passou a ser o 29° selecionado de uma lista heterogênea, onde constam, por exemplo, Jørn Utzon (2003) e Kevin Roche (1982). Entre os latino-americanos, só Luis Barragán (contemplado em 1980, por graça de Philip Johnson, uma espécie de patrono do prêmio e o primeiro agraciado, em 1979) e Oscar Niemeyer (1988). Espanha, Holanda, Portugal, França ou Suíça, todos pólos da arquitetura contemporânea, têm só um Pritzker cada: Rafael Moneo (1996), Rem Koolhaas (2000), Álvaro Siza (1992), Christian de Portzamparc (1994) e Herzog & De Meuron (2001). Seja como for, Mendes da Rocha entrou para o mais exclusivo grupo de arquitetos de seu tempo, que, se reunidos, cabem numa van ou, em época de Copa do Mundo, não são em número suficiente para formar dois times de futebol e jogar uma pelada.2

Este ano, compunham o júri dois mecenas (lorde Palumbo, aristocrata inglês amante da arquitetura, e Rolf Fehlbaum, presidente da Vitra), três arquitetos (Balkrishna Doshi, indiano que trabalhou com Le Corbusier em Chandigarh; o canadense-californiano Frank O. Gehry, laureado em 1989, também por influência de Johnson; e Carlos Jiménez, costarriquenho radicado nos Estados Unidos que concilia vida acadêmica e prática arquitetônica) e duas experts (Victoria Newhouse, historiadora de arquitetura, e Karen Stein, editora da Phaidon). A decisão do grupo foi unânime, como manda o figurino do Pritzker. Os premiados são escolhidos entre os diversos indicados (fala-se em centenas), que podem ser apontados por qualquer arquiteto do mundo, através do site da fundação. Por outro lado, anualmente, os organizadores pedem indicações para o próprio júri e para críticos, acadêmicos, diretores de museus e pessoas ligadas às artes em geral. Apesar de o julgamento ser sigiloso, a diretora executiva do prêmio, Martha Thorne, relatou-me, ao ser questionada sobre quem teria indicado o brasileiro, que o júri conhecia muito bem o trabalho de Mendes da Rocha, deixando no ar a impressão de que o nome teria surgido por indicação de um (ou mais) jurado(s).

Se a infância de Paulo Archias Mendes da Rocha foi marcada pelas crises financeira e política que assolaram o Brasil na virada dos anos 1920 para 1930, sua juventude experimentou o nacionalismo de Getúlio Vargas, com o crescimento industrial do país. Em meio a turbulência e otimismo, uma coisa ficou registrada no imaginário dele: a sedução pelo domínio da natureza praticado por seu pai, engenheiro civil, especialista em assuntos hídricos. Por outro lado, de forma inusitada,3 podemos dividir a trajetória profissional de Mendes da Rocha através dos escritórios que ele ocupou. Assim, a primeira fase foi desenvolvida no Conjunto Nacional, na avenida Paulista, a maior parte do tempo ao lado de João Eduardo de Gennaro. Esse momento inicial, de grande vigor e relativa consagração, estende-se da conquista do concurso do Clube Atlético Paulistano (1958) até a vitória em outro certame, o do pavilhão brasileiro na exposição mundial de Osaka, Japão (1969). Essa fase coincide com o otimismo político e econômico - simbolizado por Juscelino Kubitschek e a construção de Brasília - e é influenciado, definitivamente, por seu segundo mestre, Vilanova Artigas, que acreditava na revolução burguesa no Brasil.

A segunda parte da trajetória corresponde à produção realizada no segundo escritório, no edifício-sede do IAB/SP, época em que Mendes da Rocha passou por ostracismo profissional, em conseqüência do golpe militar de 1964 e da cassação (política) do cargo de professor assistente da FAU/USP (1969) - tudo isso potencializado pela decadência do movimento moderno, em oposição à ascensão do pós-moderno na arquitetura.

Por fim, a terceira e última fase da obra do arquiteto é a do período de consagração, momento em que quase a totalidade de seus trabalhos foi desenvolvida dentro de quatro escritórios a ele associados, três deles situados no bairro de Vila Buarque, no entorno de seu refúgio no prédio do IAB/SP. Essa etapa, que corresponde à redemocratização do país, teve início simbolicamente com o projeto do Mube (1988) e perdura até os dias de hoje, culminando com a escolha de seu nome para receber o Prêmio Pritzker de 2006.


1 - Intitulado O Modelo Enquanto Compreensão do Projeto,o curso de maquetes dura até o final de junho. O resultado poderá ser visto em livro a ser editado pela Cosac Naify, com lançamento previsto para junho.
2 - Entre os que receberam o prêmio e estão vivos, são 21 arquitetos, entre os quais uma mulher.
3 - Tal como fez Luis Fernández-Galiano na A&V 78, de 1999, sobre Norman Foster.



“Fui criado vendo a engenhosidade do mundo”

Antes de Paulo nascer, a engenharia fazia parte da família Mendes da Rocha havia duas gerações: seu pai, Paulo de Menezes Mendes da Rocha (1887-1967),1 era engenheiro civil; mineiro de Barbacena, mas “de família baiana, formado no Rio de Janeiro”,2 na Escola Politécnica. Apesar do título, tornou-se especialista em recursos hídricos e navais. A vocação para o controle das águas - que preenche fortemente o imaginário do arquiteto - foi iniciada pelo avô Francisco Mendes da Rocha (1861-1949), que era engenheiro militar e dirigiu o Serviço de Navegação do Rio São Francisco.

Ambos os ascendentes tiveram destacada posição profissional: Paulo de Menezes foi diretor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e Francisco foi diretor da Biblioteca Nacional.

Nascido em 25 de outubro de 1928, Mendes da Rocha teve a primeira infância marcada pelas turbulências econômicas e políticas do Brasil de então: a crise de 1929 e a revolução de 1932. Isso porque seu pai, depois de formado, transferiu-se para o Nordeste, a serviço do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Denocs), realizando obras de açudes no Rio Grande do Norte (com destaque para o de Cruzeta).

Ao voltar para o Rio de Janeiro, Paulo de Menezes criou uma empresa que ganhou a concorrência para construir uma ponte no Espírito Santo, sobre o rio Santa Leopoldina. Para serviços de aterro ligados a esse trabalho, contratou um imigrante italiano - Serafim Derenzi, “que tinha uma filha lindíssima, chamada Angelina, com quem meu pai se casou”.2 Ainda no menor estado do Sudeste - onde o arquiteto nasceu -, o pai tornou-se exportador de café, atividade encerrada com a crise de 1929, que o levou a falência. Com isso, a família mudou-se para a então capital federal, onde residiram por três anos na casa do avô Francisco, na ilha de Paquetá. Em seguida, Paulo de Menezes rumou sozinho para São Paulo, atrás de oportunidades de trabalho, enquanto Angelina e os filhos (Paulo e duas irmãs) voltaram para o Espírito Santo. Na capital paulista, o engenheiro se aproximou de colegas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e desenvolveu, no esforço de guerra da revolução de 1932, uma autoclave de campanha utilizada nas batalhas - envolvimento que resultou em perseguições políticas, pela oposição ao governo de Getúlio Vargas. Em conseqüência, Angelina foi presa e interrogada no Espírito Santo, a fim de revelar o paradeiro do marido - o que, de fato, ela desconhecia.


O escritório no edifício Filizola, no centro de São Paulo, era compartilhado e tinha mobiliário padronizado pelo arquiteto

Em 1935, quando Mendes da Rocha estava com seis anos de idade, as turbulências passaram. Com o início da estabilidade profissional de Paulo de Menezes - que
já integrava os quadros da Secretaria de Viação e Obras Públicas, sendo, posteriormente, responsável pela construção de obras como o aeroporto de Congonhas e
barragens hidrelétricas -, a família finalmente mudou para São Paulo, para uma pensão “muito mambembe” na avenida Liberdade. Logo em seguida se transferiram para “uma espécie de pensão de umas senhoras espanholas” na avenida Paulista, quase na esquina com a avenida Brigadeiro Luís Antônio.3 Mendes da Rocha foi alfabetizado pela mãe, educadora. “Minha mãe educou, no Espírito Santo, o [naturalista] Augusto Ruschi”, relata. A homenagem a Ruschi na 1ª Bienal de Arquitetura de São Paulo (1973) foi sugestão de Mendes da Rocha, que desenhou os espaços expositivos.

De certa forma, ele atribui grande parte de sua formação à atenta observação do trabalho do pai, com forte presença em seu imaginário. Nesse sentido, o domínio da natureza - controle de marés, cheias, portos etc. - ainda desperta o interesse de Mendes da Rocha, que percebe uma grande beleza na possibilidade da técnica desenvolvida pelo homem, seja em que área for. No entanto, apesar da importância da presença profissional do pai, o projetista sempre demarcou certa distância, procurando não ficar em seu domínio - o que, certamente, poderia ter aberto diversas portas. Isso porque, em 1939, Paulo de Menezes prestou concurso (de forma “brilhante”, nas palavras de José Augusto Martins) para o corpo docente da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, tornando-se catedrático no ano seguinte e diretor da instituição entre 1943 e 1947. Ou seja, três anos antes de Mendes da Rocha entrar na faculdade, seu pai dirigia a grande faculdade pública da época, à qual estava ligado o ensino de arquitetura.

Nessa mesma época, pouco antes de cursar arquitetura, ele estudava no Colégio de São Bento e já trabalhava desenhando para Luiz Maiorana, que construía imóveis para os Matarazzos. Então a família já morava na rua Padre João Manoel, em Cerqueira César. Assim, em 1949, aos 21 anos de idade, Mendes da Rocha, sem mesmo prestar exame na USP, inscreveu-se no vestibular do Mackenzie para arquitetura: “Sempre fui um pouco relaxado, era muito atento, mas não era estudioso”.2 Seu pai foi quem, de fato, assinou a criação do curso de arquitetura, desmembrando-o da engenharia. Por que então ele não estudou na USP? “Talvez porque tivesse pudor. Não quis me arriscar a fazer besteiras na casa de meu pai. Acabei indo estudar no Mackenzie, onde tinha de pagar”.4

Além da busca pela independência, o empurrão na direção da faculdade privada foi dado por um amigo, que depois se tornou colega de turma, Abelardo Gomes de Abreu. Naquele momento era novidade o curso de arquitetura no Mackenzie, desvinculado da escola de engenharia, assim como na USP: quando Mendes da Rocha entrou na instituição, a primeira turma ainda não havia se formado. O curso era dirigido por Christiano Stockler das Neves, que lhe dava inclinação acadêmica. No entanto, entre os alunos já se criava um núcleo de pesquisa paralela em direção da arquitetura moderna. Mendes da Rocha fazia parte de um grupo de estudantes, com Jorge Wilheim, Telésforo Cristofani, Roberto Aflalo, Alfredo Paesani, Fábio Penteado e Pedro Paulo de Melo Saraiva, entre outros, que se reuniam na sala de desenho artístico para, nas palavras de Penteado, “desenhar, conversar, discutir e ler revistas”.5

Durante a faculdade, Paulo ganhou diversos prêmios em concursos internos realizados pelo diretório acadêmico. Um fato curioso dessa fase é o estágio que fez com o engenheiro-arquiteto Bruno Simões Magro, para quem desenhou “as cúpulas das torres, em mosaico, e os pináculos em ferro fundido”6 das torres da igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo. No alto das torres, os galos, também desenhados por ele, disfarçavam a iluminação de segurança que orientava os aviões rumo a Congonhas. Com menos de 30 metros, a luz balizava as aeronaves. Mal sabia o jovem projetista que aquela luz vermelha, criadora de um eixo entre seu trabalho juvenil e o aeroporto construído por seu pai, seria também, no sentido transversal, o centro quase geométrico entre duas de suas mais significativas obras. Ao invés de orientar o eixo noroeste-sudeste, na direção do terminal aéreo, o vento virou e o galo, hipoteticamente móvel, como uma rosa-dos-ventos, indicou a posição nordeste, apontando para um clube elitizado que logo abriria um concurso de arquitetura. E não era mais só o imaginário advindo de seu pai que estava em jogo, mas sim o de seu segundo mestre, Vilanova Artigas.


1 - Informações sobre Paulo de Menezes Mendes da Rocha constam no livro Diretores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo: vidas dedicadas a uma
instituição 1893-2003, coordenado por Eni de Mesquita Samara (Edusp, São Paulo, 2003). O trecho sobre o pai de Mendes da Rocha teve pesquisa de Vera Lúcia Nakata.
2 - Entrevista de Paulo Mendes da Rocha à revista Caros Amigos 61, abril de 2002.
3 - No Álbum iconográfico da avenida Paulista, de Benedito Lima de Toledo (Ex Libris, São Paulo, 1987), a casa de Rita Braga - quase na esquina da Brigadeiro Luís Antônio, há a indicação de que esta seria a pensão. A residência, assinalada com o número 138, ficava defronte da casa de Egydio Pinotti Gamba. No entanto, no relato de Mendes da Rocha, a casa ficava na calçada oposta.
4 - Na reportagem “SP 450: uma relação espacial com a cidade”, de Luiz Caversan, publicada no jornal Folha de S. Paulo, em 13/12/2003.
5 - Entrevista de Fábio Penteado, em PROJETO DESIGN 290, abril de 2004.
6 - Helena Saia, Da capela à metrópole, Imagem Data, São Paulo, 1997.

 

Continua...

 
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