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O início, no Conjunto Nacional:
do Paulistano a Osaka
A vida profissional do recém-formado Paulo Mendes
da Rocha não foi fácil. Já casado, não
recusava nenhum trabalho: entre outras coisas, pintou vitrines
de lojas da rua Augusta (moças alongadas, com cachorrinhos,
“à la Toulouse-Lautrec”, relata) e painéis artísticos
em sedes de empresas, criou perspectivas para outros arquitetos.
Nada disso foi documentado. No entanto, foi nessa época
que ele desenvolveu a famosa e elegante cadeira Paulistano,
“para uma loja de móveis da rua Augusta”, que participaria
da concorrência dos interiores do clube. Tal qual um
dos pioneiros do movimento moderno, Mendes da Rocha se
aventurou pelo universo do design.
Com a
cadeira Paulistano, aventurou-se pelo mundo do design,
como os pioneiros do movimento moderno
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Nessa época, ele passou a dividir com colegas do Mackenzie
um escritório no centro da cidade. Segundo João
Eduardo de Gennaro, seu sócio por quase dez anos, “logo
que saímos da faculdade, reunimos cinco pessoas, todos
do Mackenzie: o Bosco, um engenheiro calculista muito bom,
Djalma de Macedo Soares, Paulo Mendes da Rocha, Carlos Darwin
e eu. Alugamos um escritório em frente da Biblioteca
Mário de Andrade, no edifício Filizola, entre
1954 e 1955. Trabalhamos lá por dois ou três
anos”.1
Ninguém era sócio, eles dividiam o espaço
no quarto andar. Segundo Mendes da Rocha, era uma tática
profissional: o cliente em potencial
que visitava o espaço achava tratar-se de uma grande
empresa, pois o mobiliário era padronizado, desenhado
por ele.
Dois anos depois de sair do Mackenzie, Mendes da Rocha venceu
seu primeiro concurso nacional - considerado, juntamente com
a cadeira Paulistano, seu primeiro
trabalho no currículo oficial. Trata-se da sede da
Assembléia Legislativa de Santa Catarina, em equipe
formada por Alfredo Paesani e Pedro Paulo de Melo Saraiva.
O prédio, típica lâmina moderna com oito
pisos, teria estrutura de quatro pilares transversais ao lado
maior do volume; contudo, o edifício inaugurado em
1970,2
também considerado projeto dos três arquitetos,
é completamente diferente.
Um ano mais tarde, em 1958, Mendes da Rocha venceu seu segundo
concurso de arquitetura - parte do complexo esportivo do Clube
Atlético Paulistano, com destaque para o ginásio
-, desta vez associado a De Gennaro. “O trabalho foi todo
desenvolvido na sala do apartamento de Paulinho, na rua Lisboa.
Apenas eu e ele”, revela De Gennaro.1 No projeto do ginásio,
uma obra-prima da arquitetura brasileira, é possível
identificar diversas características da produção
de Mendes da Rocha: clareza estrutural, inventividade tectônica
e escassez de meios para obter grandes efeitos. A tônica
é dada pela solução da cúpula,
que mistura - como em grande parte da obra recente do arquiteto
- concreto e aço. Os tirantes, apoiados em seis pilares
que guardam certa semelhança com o trabalho de Niemeyer
e Reidy, suportam uma “cúpula plana”, nas palavras
de Denise Solot.3
Além disso, a obra é quase inaugural, longe
da escala das residências, da retórica da escola
paulista.
A primeira
fase, de grande vigor e relativa consagração,
aconteceu no Conjunto Nacional, ao lado de João
Eduardo de Gennaro
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Mendes da Rocha faz parte da segunda geração
de arquitetos modernos. Vinte e sete anos mais novo que Rino
Levi, com 20 a menos que Niemeyer e 13 de diferença
para Artigas, sua obra não possui idade para aparecer
nos dois livros iniciais da moderna arquitetura no Brasil:
Brazil builds, de Philip Goodwin (1943) e Modern architecture
in Brazil, de Henrique Mindlin (1956). Ele faz parte de uma
geração que começa a aflorar juntamente
com a construção de Brasília. Uma época
de otimismo, de um país em formação,
da possibilidade de uma nação mais justa. Mendes
da Rocha, assim como Niemeyer, possui em sua mente a escala
da gloriosa arquitetura brasileira; no entanto, diferentemente
do mestre carioca, consegue adequá-la a obras de pequeno
porte.
Ainda sobre o concurso do Paulistano, há um fato interessante
que envolve Artigas. Segundo relato de Saraiva, “todos achavam
que Artigas tinha ganhado, pois vazara a história de
que o vencedor era um projeto com tirantes. Paesani era amigo
de Plínio Croce, que fazia parte do júri, e
queríamos saber o resultado. Plínio custou para
nos atender, meio receoso de abrir o jogo. Mas nos perguntou
quais eram os nossos projetos. Fizemos um croqui, e ele disse
que Paulo Mendes da Rocha havia ficado em primeiro lugar e
eu em segundo”.4
Certamente o projeto dos vencedores chamou a atenção
de Artigas, que anos mais tarde chamou Mendes da Rocha e Saraiva
para serem seus assistentes. “Ele queria acabar com certo
corporativismo que havia na FAU/USP”, opina Saraiva.
Logo que ganharam o concurso, um corretor procurou Mendes
da Rocha e De Gennaro, oferecendo pequenas unidades no Conjunto
Nacional. Cada um comprou dois espaços no 17º
andar, todos unificados. Assim, nessa primeira fase da obra
de Mendes da Rocha, o escritório do Conjunto Nacional
(complexo multifuncional desenhado por David Libeskind em
1955) foi testemunha dos projetos desenvolvidos com De Gennaro,
numa sociedade que durou quase dez anos, e, para além
da cooperação com o primeiro e único
sócio, do concurso do pavilhão brasileiro na
exposição de Osaka (1969).
São dessa época (todos de 1962) os projetos
do Fórum de Avaré, SP; do edifício da
Confederação Nacional das Indústrias
(CNI), em Brasília (com Melo Saraiva); da sede do Jóquei
Clube de Goiânia; do edifício Guaimbê,
em São Paulo; além de algumas residências,
como a do próprio arquiteto (1964) - “uma favela racionalizada”,
para Flávio Motta. Essa produção foi
documentada na revista Acrópole, edições
342 e 343, de agosto e setembro de 1967.5
O texto de Motta, que pode ser considerado o grande intérprete
de Mendes da Rocha nesse primeiro período, está
no segundo número.
Essas edições foram publicadas no mesmo ano
em que De Gennaro deixou a sociedade. Segundo depoimento do
exsócio, ainda em 1967, em certa ocasião, “chegando
ao escritório do Conjunto Nacional, a polícia
estava nos esperando. Paulinho tinha ido para Cuba. Foi uma
época muito difícil”. A saída de De Gennaro
foi motivada por um convite para trabalhar na Duratex, o que
se desdobrou, logo em seguida, na criação da
Itauplan, núcleo de projetos do grupo Itaú (proprietário
também da Duratex), talvez o maior escritório
de arquitetura que o país já teve, chegando
a contar com 700 funcionários. Esse fato dá
um exemplo da nova forma de organização profissional
que surgia na época, com o arquiteto como funcionário
de grandes escritórios.
Mendes da Rocha seguiu a trajetória de profissional
liberal, sem nunca mais ter um sócio. Desse momento
em diante, passou a trabalhar associado a outros projetistas
e estúdios. Um dos colaboradores mais próximos
nesse período foi Newton Arakawa, que entrou em seu
escritório como desenhista e mais tarde se formou arquiteto.
Ele, que atualmente desenvolve trabalhos na área de
transportes, assinou diversos projetos, como o reservatório
elevado de Urânia, SP (1968).
O escritório da avenida Paulista, de certa forma, era
um ponto de encontro e Mendes da Rocha já era tido
como influenciador de gerações mais novas.6
Isso sem contar que, desde 1959, lecionava na FAU/USP, como
assistente de Artigas. “Foi minha segunda formação”,
relata. Até o momento do convite, eles nunca haviam
tido contato pessoal e, dali em diante, passou a ser fundamental
a presença de Artigas, que lhe deu a retórica
crítica de um modelo ético-profissional marcante
em sua trajetória até os dias atuais. “Meu pai
e Artigas foram, digamos, os patronos que abriram minha mente
para coisas em que eu acreditava, mas não tinha coragem”,
ele conta.7
Contudo, realizaram poucos projetos juntos, com destaque para
o Conjunto Habitacional Cecap (1967), conhecido como Zezinho
Magalhães Prado. Desenvolvido em grande equipe (autoria
também de Fábio Penteado e colaboração
de Ruy Gama, Arnaldo Martino, Giselda Visconti, Geraldo Puntoni
e Renato Nunes), o complexo agrega habitação,
escola e comércio local, recuperando a idéia
de freguesia, em contraposição à superquadra
de Brasília. Uma das idéias geradoras do partido
previa a pré-fabricação da estrutura,
o que não ocorreu. O conjunto é, em certa medida,
um divisor de águas quando se fala de habitação
popular, sobretudo pela postura adotada pela equipe de Sérgio
Ferro, Rodrigo Lefèvre e Flávio Império.
“Contrapondo-se a Sérgio, Flávio e Rodrigo,
que procuravam soluções para a habitação
popular partindo de técnicas e materiais simples, Artigas
pretendia demonstrar que as técnicas industriais e
modernas de construção chegavam, no Brasil,
no momento histórico de sua democratização,
mesmo que em pleno autoritarismo”, relata Pedro Arantes.8
Essa contraposição produziu um racha dentro
da FAU/USP, aumentado com a expulsão da universidade,
em 1969, de Artigas e Mendes da Rocha (juntamente com Jon
Maitrejean), deixando um vácuo no ensino de projeto.
A ausência desses importantes personagens ajudou a transformar
a FAU/USP, na década de 1970, em uma escola sem projeto.
Projetar, para grande parte dos alunos, era sinônimo
de adesão ao sistema. É a época do fim
das utopias, do fim do otimismo.
Um dos últimos trabalhos desenvolvidos por Mendes da
Rocha no Conjunto Nacional é o Pavilhão do Brasil
em Osaka - que, assim, como o Paulistano, figura na lista
dos mais interessantes projetos do arquiteto. Criada em parceria
com Flávio Motta, Júlio Katinsky, Ruy Ohtake,
Jorge Caron, Marcelo Nitsche e Carmela Gross, a obra coloca
em pauta um dos grandes temas recorrentes no autor: a relação
entre a cobertura, em geral plana, e o terreno, neste caso
artificialmente acidentado. A essa altura, o galo quase entortou,
para apontar na direção do Japão.
“Meu
pai e Artigas foram os patronos que abriram minha mente
para coisas em que eu acreditava”, diz o arquiteto
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1 - Entrevista
de João Eduardo de Gennaro, PROJETO DESIGN 306, agosto
de 2005.
2 - Atualmente, Saraiva e equipe desenvolvem para a
Assembléia Legislativa catarinense uma ampliação,
cujo projeto foi premiado pelo IAB em 2002.
3 - Em Paulo Mendes da Rocha, estrutura: o êxito
da forma. Viana & Mosley, Rio de Janeiro, 2004.
4 - Entrevista de Pedro Paulo de Melo Saraiva, PROJETO
DESIGN 295, setembro de 2004.
5 - As duas edições estão inseridas
em uma série de números monográficos
sobre jovens arquitetos paulistas, publicados ao longo dos
anos 1960 na Acrópole.
6 - Relato de Sami Bussab, AU 56, outubro/novembro
de 1994.
7 - Entrevista de Mendes da Rocha a Hayfa Sabbag, AU
131, fevereiro de 2005.
8 - Em Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio
Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões.
Editora 34, São Paulo, 2002.
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