Fernando Serapião
O recado de Paulo
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Conjunto Nacional, testemunha da primeira fase da trajetória de Mendes da Rocha. Um dos últimos trabalhos desenvolvidos ali foi o pavilhão de Osaka
 
Capa da Acrópole 232, de setembro de
1957, com a Assembléia Legislativa de SC
 
Capas da Acrópole edições 342 e 343: em dois números seguidos, foram publicados os primeiros dez anos da produção de Mendes da Rocha e De Gennaro
 
Paulo Mendes da Rocha no escritório do Conjunto Nacional. O local transformou-se em
ponto de encontro para jovens arquitetos
 
Em almoço no IAB, com o arquiteto francês Pierre Vago. O arquiteto presidiu o departamento de São Paulo por duas vezes, nos anos 1970 e 1980
 

O início, no Conjunto Nacional: do Paulistano a Osaka

A vida profissional do recém-formado Paulo Mendes da Rocha não foi fácil. Já casado, não recusava nenhum trabalho: entre outras coisas, pintou vitrines de lojas da rua Augusta (moças alongadas, com cachorrinhos, “à la Toulouse-Lautrec”, relata) e painéis artísticos em sedes de empresas, criou perspectivas para outros arquitetos. Nada disso foi documentado. No entanto, foi nessa época que ele desenvolveu a famosa e elegante cadeira Paulistano, “para uma loja de móveis da rua Augusta”, que participaria da concorrência dos interiores do clube. Tal qual um dos pioneiros do movimento moderno, Mendes da Rocha se
aventurou pelo universo do design.


Com a cadeira Paulistano, aventurou-se pelo mundo do design, como os pioneiros do movimento moderno

Nessa época, ele passou a dividir com colegas do Mackenzie um escritório no centro da cidade. Segundo João Eduardo de Gennaro, seu sócio por quase dez anos, “logo que saímos da faculdade, reunimos cinco pessoas, todos do Mackenzie: o Bosco, um engenheiro calculista muito bom, Djalma de Macedo Soares, Paulo Mendes da Rocha, Carlos Darwin e eu. Alugamos um escritório em frente da Biblioteca Mário de Andrade, no edifício Filizola, entre 1954 e 1955. Trabalhamos lá por dois ou três anos”.1 Ninguém era sócio, eles dividiam o espaço no quarto andar. Segundo Mendes da Rocha, era uma tática profissional: o cliente em potencial
que visitava o espaço achava tratar-se de uma grande empresa, pois o mobiliário era padronizado, desenhado por ele.

Dois anos depois de sair do Mackenzie, Mendes da Rocha venceu seu primeiro concurso nacional - considerado, juntamente com a cadeira Paulistano, seu primeiro
trabalho no currículo oficial. Trata-se da sede da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, em equipe formada por Alfredo Paesani e Pedro Paulo de Melo Saraiva. O prédio, típica lâmina moderna com oito pisos, teria estrutura de quatro pilares transversais ao lado maior do volume; contudo, o edifício inaugurado em 1970,2 também considerado projeto dos três arquitetos, é completamente diferente.

Um ano mais tarde, em 1958, Mendes da Rocha venceu seu segundo concurso de arquitetura - parte do complexo esportivo do Clube Atlético Paulistano, com destaque para o ginásio -, desta vez associado a De Gennaro. “O trabalho foi todo desenvolvido na sala do apartamento de Paulinho, na rua Lisboa. Apenas eu e ele”, revela De Gennaro.1 No projeto do ginásio, uma obra-prima da arquitetura brasileira, é possível identificar diversas características da produção de Mendes da Rocha: clareza estrutural, inventividade tectônica e escassez de meios para obter grandes efeitos. A tônica é dada pela solução da cúpula,
que mistura - como em grande parte da obra recente do arquiteto - concreto e aço. Os tirantes, apoiados em seis pilares que guardam certa semelhança com o trabalho de Niemeyer e Reidy, suportam uma “cúpula plana”, nas palavras de Denise Solot.3 Além disso, a obra é quase inaugural, longe da escala das residências, da retórica da escola paulista.


A primeira fase, de grande vigor e relativa consagração, aconteceu no Conjunto Nacional, ao lado de João Eduardo de Gennaro

Mendes da Rocha faz parte da segunda geração de arquitetos modernos. Vinte e sete anos mais novo que Rino Levi, com 20 a menos que Niemeyer e 13 de diferença
para Artigas, sua obra não possui idade para aparecer nos dois livros iniciais da moderna arquitetura no Brasil: Brazil builds, de Philip Goodwin (1943) e Modern architecture in Brazil, de Henrique Mindlin (1956). Ele faz parte de uma geração que começa a aflorar juntamente com a construção de Brasília. Uma época de otimismo, de um país em formação, da possibilidade de uma nação mais justa. Mendes da Rocha, assim como Niemeyer, possui em sua mente a escala da gloriosa arquitetura brasileira; no entanto, diferentemente do mestre carioca, consegue adequá-la a obras de pequeno porte.

Ainda sobre o concurso do Paulistano, há um fato interessante que envolve Artigas. Segundo relato de Saraiva, “todos achavam que Artigas tinha ganhado, pois vazara a história de que o vencedor era um projeto com tirantes. Paesani era amigo de Plínio Croce, que fazia parte do júri, e queríamos saber o resultado. Plínio custou para nos atender, meio receoso de abrir o jogo. Mas nos perguntou quais eram os nossos projetos. Fizemos um croqui, e ele disse que Paulo Mendes da Rocha havia ficado em primeiro lugar e eu em segundo”.4 Certamente o projeto dos vencedores chamou a atenção de Artigas, que anos mais tarde chamou Mendes da Rocha e Saraiva para serem seus assistentes. “Ele queria acabar com certo corporativismo que havia na FAU/USP”, opina Saraiva.

Logo que ganharam o concurso, um corretor procurou Mendes da Rocha e De Gennaro, oferecendo pequenas unidades no Conjunto Nacional. Cada um comprou dois espaços no 17º andar, todos unificados. Assim, nessa primeira fase da obra de Mendes da Rocha, o escritório do Conjunto Nacional (complexo multifuncional desenhado por David Libeskind em 1955) foi testemunha dos projetos desenvolvidos com De Gennaro, numa sociedade que durou quase dez anos, e, para além da cooperação com o primeiro e único sócio, do concurso do pavilhão brasileiro na exposição de Osaka (1969).

São dessa época (todos de 1962) os projetos do Fórum de Avaré, SP; do edifício da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), em Brasília (com Melo Saraiva); da sede do Jóquei Clube de Goiânia; do edifício Guaimbê, em São Paulo; além de algumas residências, como a do próprio arquiteto (1964) - “uma favela racionalizada”, para Flávio Motta. Essa produção foi documentada na revista Acrópole, edições 342 e 343, de agosto e setembro de 1967.5 O texto de Motta, que pode ser considerado o grande intérprete de Mendes da Rocha nesse primeiro período, está no segundo número.

Essas edições foram publicadas no mesmo ano em que De Gennaro deixou a sociedade. Segundo depoimento do exsócio, ainda em 1967, em certa ocasião, “chegando ao escritório do Conjunto Nacional, a polícia estava nos esperando. Paulinho tinha ido para Cuba. Foi uma época muito difícil”. A saída de De Gennaro foi motivada por um convite para trabalhar na Duratex, o que se desdobrou, logo em seguida, na criação da Itauplan, núcleo de projetos do grupo Itaú (proprietário também da Duratex), talvez o maior escritório de arquitetura que o país já teve, chegando a contar com 700 funcionários. Esse fato dá um exemplo da nova forma de organização profissional que surgia na época, com o arquiteto como funcionário de grandes escritórios.

Mendes da Rocha seguiu a trajetória de profissional liberal, sem nunca mais ter um sócio. Desse momento em diante, passou a trabalhar associado a outros projetistas e estúdios. Um dos colaboradores mais próximos nesse período foi Newton Arakawa, que entrou em seu escritório como desenhista e mais tarde se formou arquiteto. Ele, que atualmente desenvolve trabalhos na área de transportes, assinou diversos projetos, como o reservatório elevado de Urânia, SP (1968).

O escritório da avenida Paulista, de certa forma, era um ponto de encontro e Mendes da Rocha já era tido como influenciador de gerações mais novas.6 Isso sem contar que, desde 1959, lecionava na FAU/USP, como assistente de Artigas. “Foi minha segunda formação”, relata. Até o momento do convite, eles nunca haviam tido contato pessoal e, dali em diante, passou a ser fundamental a presença de Artigas, que lhe deu a retórica crítica de um modelo ético-profissional marcante em sua trajetória até os dias atuais. “Meu pai e Artigas foram, digamos, os patronos que abriram minha mente para coisas em que eu acreditava, mas não tinha coragem”, ele conta.7

Contudo, realizaram poucos projetos juntos, com destaque para o Conjunto Habitacional Cecap (1967), conhecido como Zezinho Magalhães Prado. Desenvolvido em grande equipe (autoria também de Fábio Penteado e colaboração de Ruy Gama, Arnaldo Martino, Giselda Visconti, Geraldo Puntoni e Renato Nunes), o complexo agrega habitação, escola e comércio local, recuperando a idéia de freguesia, em contraposição à superquadra de Brasília. Uma das idéias geradoras do partido previa a pré-fabricação da estrutura, o que não ocorreu. O conjunto é, em certa medida, um divisor de águas quando se fala de habitação popular, sobretudo pela postura adotada pela equipe de Sérgio Ferro, Rodrigo Lefèvre e Flávio Império. “Contrapondo-se a Sérgio, Flávio e Rodrigo, que procuravam soluções para a habitação popular partindo de técnicas e materiais simples, Artigas pretendia demonstrar que as técnicas industriais e modernas de construção chegavam, no Brasil, no momento histórico de sua democratização, mesmo que em pleno autoritarismo”, relata Pedro Arantes.8

Essa contraposição produziu um racha dentro da FAU/USP, aumentado com a expulsão da universidade, em 1969, de Artigas e Mendes da Rocha (juntamente com Jon Maitrejean), deixando um vácuo no ensino de projeto. A ausência desses importantes personagens ajudou a transformar a FAU/USP, na década de 1970, em uma escola sem projeto. Projetar, para grande parte dos alunos, era sinônimo de adesão ao sistema. É a época do fim das utopias, do fim do otimismo.

Um dos últimos trabalhos desenvolvidos por Mendes da Rocha no Conjunto Nacional é o Pavilhão do Brasil em Osaka - que, assim, como o Paulistano, figura na lista dos mais interessantes projetos do arquiteto. Criada em parceria com Flávio Motta, Júlio Katinsky, Ruy Ohtake, Jorge Caron, Marcelo Nitsche e Carmela Gross, a obra coloca em pauta um dos grandes temas recorrentes no autor: a relação entre a cobertura, em geral plana, e o terreno, neste caso artificialmente acidentado. A essa altura, o galo quase entortou, para apontar na direção do Japão.


“Meu pai e Artigas foram os patronos que abriram minha mente para coisas em que eu acreditava”, diz o arquiteto

1 - Entrevista de João Eduardo de Gennaro, PROJETO DESIGN 306, agosto de 2005.
2 - Atualmente, Saraiva e equipe desenvolvem para a Assembléia Legislativa catarinense uma ampliação, cujo projeto foi premiado pelo IAB em 2002.
3 - Em Paulo Mendes da Rocha, estrutura: o êxito da forma. Viana & Mosley, Rio de Janeiro, 2004.
4 - Entrevista de Pedro Paulo de Melo Saraiva, PROJETO DESIGN 295, setembro de 2004.
5 - As duas edições estão inseridas em uma série de números monográficos sobre jovens arquitetos paulistas, publicados ao longo dos anos 1960 na Acrópole.
6 - Relato de Sami Bussab, AU 56, outubro/novembro de 1994.
7 - Entrevista de Mendes da Rocha a Hayfa Sabbag, AU 131, fevereiro de 2005.
8 - Em Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões. Editora 34, São Paulo, 2002.

 

Continua...

 
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