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Ostracismo, no edifício do IAB:
de Osaka ao Mube
Um telefonema de Xaxá, o paraibano Xavier, que explorava
o restaurante do IAB/SP, deu a dica que Mendes da Rocha esperava:
havia um conjunto à venda no edifício-sede do
instituto, que estava sendo desocupado por Ariosto Mila e
João Cacciola. Localizado no quinto andar, o espaço,
com cerca de cem metros quadrados, dividia - e ainda divide1
- o andar com o escritório de Vilanova Artigas. O prédio,
desenhado por Rino Levi e equipe em 1947, estava no início
do processo de decadência - acompanhando o esvaziamento
do centro da cidade -, mas carregava, com mais força
do que agora, a carga latente da luta pela consolidação
da profissão de arquiteto em São Paulo. Por
coincidência, foi nesse período que Paulo Mendes
da Rocha presidiu, por duas ocasiões, o IAB/SP
(1972-73 e 1986-87).
No escritório
do edifício-sede do IAB/SP, Mendes da Rocha passou
a compartilhar o andar com o mestre Vilanova Artigas
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Foi também nesse escritório que ele enfrentou
seu momento profissional mais difícil. Além
de expulso da FAU/USP, foi impedido de atuar, direta ou indiretamente,
para o Estado, grande contratante. O arquiteto confessa que
foi “ajudado por colegas” (que, certamente, assinavam os contratos)
e continuou trabalhando para o governo, furando a censura
ao seu traço, imposta pelos militares. Talvez por isso,
o período é composto por uma série de
projetos, alguns de grande porte, em associação
com outros profissionais: o Núcleo de Educação
Infantil Jardim Calux (1972), escola pública em São
Bernardo do Campo, SP; o Estádio Serra Dourada, em
Goiânia (de 1973, com Roberto Portugal Albuquerque,
Maria Helena Flynn, Roberto Leme Ferreira, Newton Arakawa,
Ercules Turbiani e Eliane Galiardi); e o Museu de Arte Contemporânea
(MAC), na Universidade de São Paulo (de 1975, com Jorge
Wilheim e Leo Tomchinsky).
Se a caixa elevada de concreto do edifício didático
refaz o diálogo entre topografia (sinuosa) e laje (plana)
- tão marcante em Osaka -, o circo esportivo de Goiânia,
também cuidadosamente implantado a fim de criar sutil
presença no cerrado, permite surpresas através
da franca relação com a topografia da cidade,
oferecendo belas visuais desde o anel de circulação.
A relação estrutural da edificação
em torno de uma linha de pilares - que apóia arquibancada,
circulações externas e cobertura - também
desperta grande interesse, nesse que é um dos mais
belos estádios do país. Já no MAC, a
liberdade formal parece utilizar como base a tipologia de
Niemeyer para o museu de Caracas (1955), deformando a idéia
de caixa elevada de Artigas, sobretudo em relação
à FAU/USP (1961), só que com mais leveza, uma
vez que seria apoiada apenas em 12 pilares mais ao centro.
Partido semelhante foi adotado em outro trabalho do período,
resultado de sua participação no famoso concurso
internacional para a construção do Centro Georges
Pompidou (1971), em Paris, ganho pela dupla Renzo Piano e
Richard Rogers. O projeto de Mendes da Rocha - desenvolvido
em colaboração com Abrahão Sanovicz,
Osvaldo Corrêa Gonçalves e Cláudio Gomes
- ficou entre os 30 finalistas.
Nessa fase destacam-se ainda residências, como as de
Fernando Millan (1970),2
Mário Masetti (1970), James Francis King (1972) e Antônio
Junqueira de Azevedo
(1976). Se nas duas primeiras é possível identificar
algumas matrizes da escola paulista - introspecção
e rico núcleo espacial, em uma; pilotis com quatro
pilares e grandes vãos apoiados em empenas, na outra
-, não se pode deixar de observar a riqueza na utilização
do repertório. A casa Junqueira, por sua vez, possui
solução original, destacando- se o volume da
biblioteca, com piso atirantado ao pórtico, cuja inflexão
do fechamento, paralela à divisa do fundo, causa grande
efeito visual. Assim, a leitura do terreno transposta para
a geometria revela um objeto inusitado e original - tal como
no Mube, desenhado posteriormente. Tanto na residência
Millan quanto na Junqueira, ganham destaque nas coberturas
os espelhos d’água transpostos por promenades architecturales.
A piscina da casa Millan também se revela surpreendente.
Ainda entre as residências, é digna de nota
a de Artemio Furlan (1973), em Ubatuba, SP executada com técnica
construtiva de nativos, utilizando pau roliço.
A morada de quatro águas mistura duas imagens: a famosa
casa de Millan, localizada na mesma Lagoinha, e as de Artigas
com piso elevado artificial - sobretudo a Baeta (1956), em
São Paulo. Contudo, mesmo diante da técnica
primitiva empregada, a obra retoma o tema do plano da cobertura
em contraposição à topografia,
mesmo que artificial.
Essa fase é assinalada também pelos grandes
planos urbanísticos, como o projeto para remodelação
da área central de Santiago (1972), o planejamento
para as margens do rio Jaú (1974, com Artigas), o projeto
para o parque da Grota (1974, com a participação
de Cristina de Castro Mello, Flávio Motta, José
Cláudio Gomes, Benedito Lima de Toledo, Maria Ruth
do Amaral Sampaio, Samuel Kerr, Koiti Mori e Klara Kaiser)
e a cidade-porto do rio Tietê (1980).
Nesta última, resultante de estudos com vistas à
mudança da capital paulista para o interior, fica clara
mais uma vez a disposição de colocar em prática
o imaginário hídrico-técnico-afetivo.
O parque da Grota, por sua vez, desmitifica a questão
da horizontalidade na obra do arquiteto, apontada por vários
críticos. Mendes da Rocha é adepto do adensamento
urbano, por edifícios em altura, com parcelamento do
solo diferenciado, à la Corbusier. O fato é
que teve poucas oportunidades nesse sentido, talvez pela desarticulação
- em certa medida intencional - com forças privadas
que poderiam, eventualmente, levar a cabo seu raciocínio.
Em contradição, o final do período é
marcado por alguns encargos privados, pequenas edificações
paulistanas em altura, residenciais e comerciais. Por mais
banal que seja o tema, Mendes da Rocha surpreende nas soluções.
No prédio comercial Keiralla Sarhan (1984), o mote
da caixa de vidro é utilizado, com estrutura independente
de seis pilares, destacando-se a linha marcada por interessante
quebrasol (dificilmente utilizado pelo projetista, que o adotou
também em recente casa paulistana, desenvolvida com
o escritório Metro Arquitetura). Já no edifício
residencial Jaraguá (1984), o desnível interno
permite a visualização das duas bacias hidrográficas
da cidade (sempre os rios!), enquanto no Aspen (1986) é
retomado o tema das paredes externas estruturais (tal como
o Guaimbê), que o diferenciam da mais comum tipologia
do brutalismo paulista de construções em altura
- com linhas de pilares periféricas, pequeno vão
num sentido e grande, no outro.3
Tanto o Jaraguá quanto o Aspen recuperam a imagem do
pequeno prédio da avenida Angélica, de Júlio
de Abreu, considerado por Mendes da Rocha “um dos mais interessantes
edifícios da arquitetura brasileira”.
Entre
as obras desenhadas para Goiânia está o
terminal rodoviário da cidade, que combina aço
e concreto
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O momento coincide com a anistia, que permitiu a volta de
Artigas, Mendes da Rocha e Maitrejean à FAU/USP. Em
14 de setembro de 1979, cerca de mil pessoas acompanharam
a volta dos professores, registrada nas fotografias de Cristiano
Mascaro e organizada pelos alunos. “É claro o nosso
objetivo: a reintegração imediata desses professores
ao quadro docente da escola”,4
relatava o texto distribuído pelo grêmio de estudantes
no dia do evento. O clima já não era o mesmo,
os professores, de certa forma, estão deslocados, e
Artigas, um pouco assustado com aquilo tudo. Suas primeiras
palavras, contudo, foram proféticas:
“Eu tinha combinado com Paulo Mendes da Rocha e com Jon Maitrejean
que ia abandonar a minha condição de decano
deste processo, meio forçado, e que a linguagem daqui
para a frente passava para a boca deles”.4 Dito e feito. No
entanto, a reintegração só aconteceu
em 1981. Artigas lecionou somente por três anos, morrendo
no início de 1985. Começou, a partir de então,
sobretudo por Mendes da Rocha, a sedutora conquista dos alunos,
com sua retórica e presença marcantes. O resultado
se tornou visível com os formados depois dos anos 1980
e consolidou-se com a turma da década de 1990 - alguns
deles atuais colaboradores do arquiteto.
Com obra apátrida por excelência, Mendes da
Rocha rejeita, apesar do discurso que evoca a consciência
americana, qualquer tipo de regionalismo, latinidade
ou brasilidade. Contudo, o trabalho do pai de transpor a América,
de forma navegável, sem ter que contornar o continente,
marca-o decisivamente. Talvez por isso, em sua mente, esse
seja um dos grandes dramas latinos. Nos anos 1980, quando
se planejava construir o Memorial da América Latina,
antes de solicitado o projeto a Niemeyer, Mendes da Rocha
foi informalmente consultado, e começou a imaginar:
o primeiro vislumbre foi pendurar uma imensa tela de Benedito
Calixto, uma marinha, mostrando uma imagem do Atlântico.
Para
críticos e estudiosos, nos anos 1980, a modernidade
chegara ao fim, e o nome do arquiteto era arrolado no
bolo
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O ostracismo profissional é potencializado pela inconstância,
no período, dos periódicos especializados.5
Também desaparecem os concursos de arquitetura, apesar
de a economia do país estar aquecida.
Quando o debate voltou com mais intensidade, já nos
anos 1980, vivia-se o auge da discussão sobre a pós-modernidade
na mídia local de arquitetura. Entre os críticos
e estudiosos, havia a percepção de que a modernidade
havia acabado, e o nome de Mendes da Rocha (intimamente ligado
a ela) era arrolado no bolo. Vale lembrar que o arquiteto
passou ao largo de algumas das poucas exposições
de arquitetura brasileira contemporânea de então
no exterior - só para citar duas, Architecture in Latin
America, em Berlim (1984),6
e Arquitetos Brasileiros, em Paris (1987).7
Nessa época, estavam em sua prancheta dois projetos
importantes na recondução da organização
tectônica de Mendes da Rocha, que retoma, de maneira
mais incisiva, a utilização de elementos estruturais
metálicos em seus projetos. Refiro-me, sobretudo, ao
terminal rodoviário de Goiânia (1985, com a colaboração
de Luiz Fernando Teixeira e Moacyr Paulista Cordeiro) e à
loja Forma (1987), em São Paulo.
Em Goiás, duas linhas estruturais periféricas
e paralelas em concreto - formadas por cinco pilares duplos
que abraçam vigas-calhas de sete metros de altura cada
uma - apóiam, com o auxílio de um sistema estrutural
central, vigas metálicas treliçadas com vão
de 60 metros. Esse sistema foi adotado, em escala diversa,
no projeto do pavilhão principal do Aquário
Municipal de Santos (1991), sem o pilar central, e também
no galpão de eventos do complexo às margens
do rio Piracicaba, atualmente em projeto, neste caso com calha
central desnivelada, criando uma cobertura em borboleta. Na
loja de móveis paulistana, o tema da caixa elevada
é retomado, utilizando dois volumes estruturais nas
laterais e estrutura mista para vencer o vão de 30
metros.
Os projetos antecipam a tectônica mais sofisticada
e leve da última fase, relembrando o período
gerador do Paulistano. Nesse momento, o vento mudou, e o galo
da Nossa Senhora do Brasil apontou imaginariamente para o
sudoeste, na direção de uma casa vulgar de Warchavchik,
que acabava de ser demolida para dar lugar a um pequeno centro
de compras.
1 - O
conjunto de Artigas é ocupado pela Fundação
Vilanova Artigas e pelo filho do arquiteto, Júlio César,
também projetista.
2 - A casa Millan foi reformada recentemente pelo próprio
Mendes da Rocha, a pedido do proprietário, outro marchand.
3 - Leia-se o artigo “Pedra Grande, um marco oculto
na cidade”, em PROJETO DESIGN 303, maio de 2005.
4 - Anistia na FAU/USP, GFAU, 1998.
5 - A Acrópole deixou de circular em 1971. A
única revista do período é CJ Arquitetura,
com edição de arquitetura pautada por Jorge
Caron, ex-colaborador de Mendes da Rocha no projeto de Osaka.
PROJETO começou a circular em 1977, tornando-se de
fato uma revista no início dos anos 1980; AU tem o
primeiro número editado em 1985.
6 - Com curadoria de Jorge Glusberg e a participação
dos brasileiros Burle Marx, Luiz Paulo Conde, Assis Reis,
Carlos Ferreira dos Santos, Joaquim Guedes, Éolo Maia,
Niemeyer, Severiano Porto e Decio Tozzi.
7 - Com curadoria de Antônio Carlos Sant’Anna
e Luis Espallargas Gimenez e a participação
heterogênea de 31 escritórios, de Borsoi a Eduardo
Longo.
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