Fernando Serapião
O recado de Paulo
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Instantâneo do momento do anúncio do
vencedor do concurso do Mube
 
Capa do livro espanhol, da Gustavo Gili: início
da divulgação internacional
 
Os suíços Luigi Snozzi e Mario Botta visitam
a casa Millan, em 2000
 
Depois do prêmio Mies van der Rohe, a Suíça se rende e Paulo Mendes da Rocha ganha publicação retrospectiva de seu trabalho
 
“Um dos maiores arquitetos do Brasil”, diz Mário Covas na inauguração do
Poupatempo Itaquera: um dos raros reconhecimentos do poder político
 
Reunido com os companheiros da Vila Buarque. A “assembléia crítica permanente”, numa forma de trabalho que o arquiteto considera ideal, é uma maneira de “institucionalizar minha vagabundagem”, ele brinca
 
No eixo da rua General Jardim, o escritório
virtual de Mendes da Rocha
 
Com Penteado e Saraiva, no clube Pinheiros, em 2005, na ocasião do concurso do edifício-garagem
 
Maquete do Paulistano, criada no curso de Curitiba. Antes do anúncio do Pritzker, Mendes da Rocha deu aula magna no curso O Modelo Enquanto Compreensão do Projeto
 

Consagração, no escritório virtual: do Mube ao Pritzker

Nos anos seguintes ao início do processo de redemocratização do país, o ostracismo de Mendes da Rocha começa a transformar-se em firmamento. Nesse sentido, é marcante a vitória que ele obteve em concurso fechado1 para a construção de um espaço cultural em São Paulo. Trata-se do Museu Brasileiro da Escultura (Mube), cujo projeto foi articulado pela poderosa sociedade de moradores do bairro - área nobre paulistana, com moradias unifamiliares -, que protestavam contra a construção de um pequeno centro de compras. Curioso observar que, desse ponto em diante, grande parte dos contratantes de Mendes da Rocha vem da sociedade civil organizada (muitas vezes ligada à cultura), que percebe a potencialidade de seu desenho.


Jurado no concurso para o pavilhão brasileiro em Sevilha, Mendes da Rocha defendeu o projeto das críticas feitas à época

No entanto, a redenção não se dá imediatamente após o resultado do concurso, mesmo porque a construção se alongou por quase de dez anos. Ela começou a ser articulada, nos meios profissionais, com um texto publicado em 1990, cinco anos antes da inauguração. Com ele, a autora, Sophia Telles,2 transformou-se na grande intérprete de Mendes da Rocha no período. No artigo, Sophia analisa a relação entre a topografia e genealogia do terreno, em oposição ao plano criado pelo pórtico.

Nesse ínterim, dois outros fatos, envolvendo indiretamente Mendes da Rocha, merecem ser mencionados. O primeiro deles é o resultado do concurso, realizado em 1991, para o Pavilhão do Brasil na Expo Sevilha, Espanha. Simbolicamente, o primeiro, desde Osaka. O prêmio - cuja decisão é creditada, em grande parte, ao jurado Paulo Mendes da Rocha - foi para a equipe liderada por Angelo Bucci, Álvaro Puntoni e José Oswaldo Vilela, todos ex-alunos do arquiteto. O projeto foi, em grande parte, desacreditado por parcela do público do setor e da crítica especializada, 3 que apontava um retrocesso em relação às possibilidades de avanço da arquitetura local e o desatendimento de alguns pontos do edital. No fundo, Bucci, Puntoni e Vilela foram criticados por usar uma lógica arquitetônica datada, com mais de três décadas - e, hipoteticamente, estranha a jovens profissionais. Em evento organizado para discutir o projeto, no Masp, Mendes da Rocha defendeu-o abertamente.

O segundo fato se refere a uma exposição sobre a obra de Peter Eisenman, montada no Masp, em 1993. O arquiteto norte-americano, então um dos baluartes da onda pós-moderna, estava em vias de selecionar um representante para uma exposição em Buenos Aires. Depois de olhar diversas obras locais, escolheu Mendes da Rocha. Foi surpreendente: como um legítimo porta-voz da contemporaneidade poderia escolher tão antiquada figura?

A verdade é que na época em que o Mube foi inaugurado, em 1995, já estava em curso uma revisão de conceitos, na esteira da nova leitura internacional que revalorizou elementos do movimento moderno. Dessa forma, Mendes da Rocha, com o frescor de obras que acabavam de ser executadas - a loja Forma, por exemplo -, passou a ser visto com atenção redobrada.

Embora o efeito da inauguração do museu não tenha sido devastador, foi germinando de forma significativa a divulgação da obra - mesmo com o espaço carecendo de gestão à altura de sua arquitetura. O Mube foi publicado em diversas revistas estrangeiras,4 culminando com o lançamento, em 1996, de um singelo livro5 na Espanha, escrito por Josep Maria Montaner e Maria Isabel Villac. Com esse e outros textos, Montaner tornou-se o primeiro intérprete internacional de Mendes da Rocha, que o espanhol diz representar “uma postura limite, exemplar por sua coerência”. O prestígio mundial do arquiteto cresceu, ano após ano, com conferências internacionais, convites para exposições etc. Em 1997, por exemplo, foi um dos cem palestrantes - entre artistas, cineastas etc. - que participaram da 10ª Documenta de Kassel, na Alemanha, prestigioso evento no calendário das artes plásticas internacionais. Em seguida, vieram novamente da Espanha dois importantes prêmios: o da 1ª Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Engenharia, em 1998; e, o grande feito, o Mies van der Rohe de Arquitetura Latino-Americana, em 2000, pela obra de intervenção Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Do ponto de vista editorial, surgem os dois (até agora) mais completos volumes sobre Mendes da Rocha: um foi publicado no Brasil pela Cosac Naify, em 2000; o outro foi lançado em 2001, na Suíça, pela editora Niggli, com texto de Annete Spiro e prefácio de Luigi Snozzi. Depois disso, foi a vez de Helio Piñón, outro arquiteto e crítico espanhol, traduzir seu encantamento com a obra de Mendes da Rocha (e de Eduardo de Almeida) em uma publicação.6

No âmbito nacional, há quase uma unanimidade: em enquete realizada por PROJETO DESIGN para uma avaliação da produção dos anos 1990, os críticos consultados
citaram Mendes da Rocha como o grande protagonista da década (dos seis ouvidos, metade apontou-o diretamente e um quarto incluiu-o numa relação, com outros profissionais).7

Em paralelo, ele foi pouco a pouco descoberto pela mídia alternativa, como o grande nome da arquitetura brasileira. Nas entrevistas que concedeu para esses veículos, deixou clara - para a alegria de jornalistas ávidos por frases de efeito - sua postura quase marginal diante da realidade, com declarações do tipo “A natureza é um trambolho”, “Não gosto de dinheiro” ou “O jornalismo acabou” - esta dita a um jornalista que meses antes havia transformado Niemeyer em piada.8

No auge da carreira profissional de Mendes da Rocha, ironicamente, seu escritório no edifício do IAB/SP não produz mais nada. Muito longe da aposentadoria, o espaço tornou-se um refúgio. Lá ele chega no final da manhã, depois de rodar de táxi poucos quarteirões, já que trocou sua célebre morada por um apartamento de três dormitórios em quase anônimo edifício em Higienópolis. Há muito tempo ele vendeu seu último carro, “um Chevette velho”,9 levando às últimas conseqüências sua opinião sobre os automóveis (“o grande problema das metrópoles”). No escritório ele resolve os assuntos práticos e as solicitações diversas - muito aumentadas com o prestígio internacional. Lá, só fica a fiel escudeira Dulcinéia, que organiza os pedidos e despacha o que for possível. “Você já viu escritório mais esculhambado do que este?”, ele me perguntou certa vez. Algumas obras do período de transição foram ainda realizadas nesses domínios, como as casas Gerassi (1988), em São Paulo, e Masetti (1995), em Cabreúva, com o último grupo de estagiários e arquitetos do escritório. Não esqueçamos que esta, no sopé da serra do Japi, é cortada por um veio de água, caprichosamente represado por Mendes da Rocha.


Em enquete realizada para avaliar a produção dos anos 1990, o nome de Mendes da Rocha surge como unanimidade entre os críticos

Também estão no contexto da fase de transição projetos como a cobertura da praça do Patriarca, em São Paulo (1992), e alguns planos urbanísticos, com destaque para os que envolvem as águas: o do porto de Vitória (1993) e o da baía de Montevidéu (1998). Ambos foram apresentados, juntamente com a cidade do Tietê, na 7ª Mostra Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza (2000), no espaço do Brasil, acompanhados de trabalhos de Lelé.10 O projeto para Montevidéu, com uma grande praça de água, com três quilômetros de largura, foi desenvolvido com os alunos da Universidad de la Republica, em um seminário.

Do ponto de vista da organização do trabalho, na mais recente fase de sua carreira profissional, Mendes da Rocha consolidou uma forma peculiar de projetar, que utiliza a colaboração de escritórios associados - ou, como ele mesmo afirma, uma forma de “institucionalizar minha vagabundagem”.11 Grosso modo, a produção é realizada nos escritórios dos colaboradores.

O início desse processo remonta a dois projetos de 1988 - a capela de São Pedro, em Campos do Jordão, SP, e o Mube. Se no projeto sacro Eduardo Colonelli estava presente na equipe, no Mube o mesmo papel coube a José Armênio de Brito Cruz, que compõe os quadros do escritório Piratininga. Ambos formam - juntamente com os estúdios MMBB Arquitetos e Metro Arquitetura - uma rede virtual de quatro escritórios associados, que reúnem em seus quadros profissionais mais jovens e ex-alunos formados depois da volta de Mendes da Rocha para a FAU/USP (além destes, o projetista trabalha em associação com o escritório Arte 3,
de seu filho Pedro Mendes da Rocha).


A mais recente fase de sua carreira consolida o trabalho com estúdios associados, em escritório quase virtual

Dessa forma, foi criada uma verdadeira escola de arquitetura fora dos limites da universidade. E, por falar em escola, em 1998 Mendes da Rocha tornou-se, finalmente, professor titular da FAU/USP, aposentando-se em seguida. Depois disso, entraram novos professores, entre eles alguns colaboradores e ex-colaboradores, como Angelo Bucci, Álvaro Puntoni e Milton Braga.

Para Braga, o grupo dos quatro está junto “por afinidade intelectual”. Para Mendes da Rocha, “é uma assembléia crítica permanente”, numa forma de trabalho que ele considera “um privilégio e ideal”.12

Dos quatro núcleos que formam o grande escritório virtual, Metro, MMBB e Piratininga estão atualmente a poucos passos de distância entre si, na rua General Jardim - que faz esquina, no prédio do IAB/SP, com a rua Bento Freitas. Assim, criou-se um suporte muito confortável à atuação de Mendes da Rocha - apesar do vigor, quase octogenário. Os deslocamentos são feitos a pé, e é comum vê-los almoçando pelos restaurantes do bairro de Vila Buarque.

A Pinacoteca do Estado (1993), criada em associação com Colonelli, na etapa de transição para o escritório virtual, inaugurou uma série de atuações em edifícios históricos, com abordagens peculiares. Com isso, vez ou outra, Mendes da Rocha tem que se submeter a dar explicações aos homens do patrimônio. Nesse ponto, sua visão difere da concepção de Lucio Costa: é mais livre, não tão rigorosa quanto àquilo que se deve preservar ou se pode destruir. No caso da pinacoteca, foi necessária até a visita de especialistas europeus, para dar aval às intervenções realizadas. Mesmo assim, o projeto não escapou ileso de críticas.13 O arquiteto desenvolveu ainda no período o Museu da Língua Portuguesa (2000), com o escritório Arte 3, em São Paulo; a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (2003) e o Museu Nacional de Belas-Artes (2005), ambos no Rio de Janeiro e com o Metro; e a capela no Recife, em fase final de obra (com Colonelli). Sem contar os dois projetos atualmente em sua “lousa”: um espaço cultural em Belo Horizonte e outro às margens do rio Piracicaba.

Desenvolveu ainda projetos como o do Centro Cultural do Sesi, no térreo do prédio da Fiesp (1996), com intervenção em patrimônio moderno. Outras obras em edifícios existentes, não necessariamente históricos, fazem parte do currículo do arquiteto: o projeto do Sesc Tatuapé (1996), cujo sistema de circulação suspensa lembra o partido adotado no campus da Universidade de Vigo (2004) e, em certa medida, nos projetos para os museus da USP (2000).

Nesses desenhos, assim como em muitos outros, o discurso do projetista caminha na direção de criar uma infraestrutura necessária - quase racionalista -, sem deixar de lado sua sensibilidade em conferir luz e novas espacialidades a locais por vezes até banais.

Quanto aos projetos criados do zero, o do terminal de ônibus do parque D. Pedro 2º (1996), em São Paulo, além de marcar o início da colaboração com o MMBB, traz de volta a leveza do clube Paulistano, também presente no Patriarca. Com o mesmo escritório, ele fez o Poupatempo Itaquera (1998), na capital paulista, e o museu em Santo André, SP (2003), atualmente em obras. Na inauguração do Poupatempo, uma cena incomum na trajetória de quem nunca dependeu de mecenato oficial: o então governador Mário Covas chama a atenção, em seu discurso, para o projeto de “um dos maiores arquitetos brasileiros”. Vale ressaltar que o projeto foi ganho por licitação pública.

Por outro lado, Mendes da Rocha realizou uma série de trabalhos de pequeno porte com toda a força das grandes obras: duas recentes residências em São Paulo (no Sumaré e nos Jardins), duas galerias de arte (Leme e Vermelho), a clínica na alameda Gabriel Monteiro da Silva ou mesmo a CasaMatriz.


Para “replicar a vertigem do mercado”, trabalhará, como sempre, em resistência ao atual rumo da humanidade

No plano internacional, além de Vigo e de um concurso na Itália, o prestígio já lhe havia rendido um convite para trabalhar em um projeto que era parte do esforço para credenciar Paris como candidata à sede da Olimpíada de 2008 (juntamente com Toyo Ito, Jean Nouvel, Steven Holl e Christian de Portzamparc, entre outros). Para o mesmo programa, no âmbito doméstico, ele desenvolveu desenho para a candidatura de São Paulo a sede dos Jogos Olímpicos de 2012. Aqui houve a oportunidade de, pela primeira vez, reunir os escritórios colaboradores (e mais o Una Arquitetos), para atender a urgente demanda. Menos preocupado com os edifícios isolados em si, novamente o arquiteto vislumbrava a formação de uma infra-estrutura de transporte público eficiente, que não existe na cidade de São Paulo. Em um detalhe do projeto, as torres gêmeas na área da favela do Gato remetem ao projeto de reestruturação do Senac, na avenida do Estado: o prédio, em altura, brota da água, uma “visão interessante quanto à idéia de território firme e recursos”.

Como este texto já está perto de encerrar- se, o leitor deve estar intrigado com uma observação que foi feita logo em seu início: qual seria o recado de Paulo Archias Mendes da Rocha a que se referiu Angelo Bucci? A simplicidade? O embate entretécnica e natureza? Talvez o mais épico e moderno dos arquitetos brasileiros não queira dar recado nenhum. Com a ética e a espacialidade de Artigas somadas ao imaginário de seu pai, ele continuará a realizar uma obra com a bruta sofisticação tectônica que lhe é peculiar. Para “replicar a vertigem do mercado”, trabalhará, como sempre, em resistência ao atual rumo da humanidade. Pessimista, mas com toda elegância, lá estava ele, dando seu recado para os curitibanos, com suas singelas maquetes. Um dos modelos que realizou no curso? Justamente o do ginásio do clube Paulistano, fechando assim o ciclo, propondo ao galo um novo giro.

1 - Participaram ainda do concurso, realizado em oito dias,os arquitetos Marcos Acayaba, Croce, Aflalo & Gasperini, Siegbert Zanettini, entre outros.
2 - “Museu da Escultura: primeira leitura”, em AU 32, outubro/novembro de 1990. Um outro texto, que aborda a obra dele de forma mais ampla, foi publicado na mesma revista, na seção Documento, na edição 60, junho/julho de 1995.
3 - Em duas edições PROJETO abordou o tema. Em uma delas, o título do texto de Hugo Segawa (um dos mais ferrenhos críticos do projeto), “Concurso de Sevilha: deu em vão”, é um ácido trocadilho. A revista Caramelo, de estudantes da FAU/USP, saiu em defesa dos vencedores.
4 - A primeira publicação da obra pronta foi em PROJETO 183, março de 1995, com texto de Hugo Segawa e fotos de Nelson Kon e Andrés Otero. Antes disso, além
do já citado texto de Sophia na AU, a primeira aparição internacional foi na espanhola A&V 48, de 1994, com texto de Segawa, em edição especial sobre a América Latina. Seguiram-se publicações em revistas mexicanas, japonesas, argentinas, italianas, francesas e uruguaias.
5 - Editora Gustavo Gili, em branco e preto, na coleção Catálogos de Arquitetura Contemporânea.
6 - Livro lançado pela Edicions UPC, Barcelona, 2002; no Brasil, foi publicado pela Romano Guerra Editora, também em 2002.
7 - Abílio Guerra, Ana Luíza Nobre e Carlos Eduardo Dias Comas apontam Mendes da Rocha; Roberto Segre o inclui em lista em meio a outros profissionais.
8 - Entrevista ao caderno Aliás, no jornal O Estado de S. Paulo, para o jornalista Fred Melo Paiva, em 16 de abril de 2006.
9 - Entrevista à revista Trip 94, outubro de 2001.
10- Veja-se o catálogo Arquitetura, cidade e território, Fundação Bienal de São Paulo, 2000.
11- Entrevista a Jorge Jáuregui em http://jauregui.arq.br/texto_entrevista_jorge.html.
12- Entrevista de Mendes da Rocha e equipes, PROJETO DESIGN 275, janeiro de 2003.
13- Em artigo publicado em PROJETO DESIGN 252, fevereiro de 2001, Haroldo Gallo compara a intervenção na Pinacoteca, com análise negativa, à da Sala São Paulo, que considera positiva.

 
 
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