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Consagração, no escritório
virtual: do Mube ao Pritzker
Nos anos seguintes ao início do processo de redemocratização
do país, o ostracismo de Mendes da Rocha começa
a transformar-se em firmamento. Nesse sentido, é marcante
a vitória que ele obteve em concurso fechado1
para a construção de um espaço cultural
em São Paulo. Trata-se do Museu Brasileiro da Escultura
(Mube), cujo projeto foi articulado pela poderosa sociedade
de moradores do bairro - área nobre paulistana, com
moradias unifamiliares -, que protestavam contra a construção
de um pequeno centro de compras. Curioso observar que, desse
ponto em diante, grande parte dos contratantes de Mendes da
Rocha vem da sociedade civil organizada (muitas vezes ligada
à cultura), que percebe a potencialidade de seu desenho.
Jurado
no concurso para o pavilhão brasileiro em Sevilha,
Mendes da Rocha defendeu o projeto das críticas
feitas à época
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No entanto, a redenção não se dá
imediatamente após o resultado do concurso, mesmo porque
a construção se alongou por quase de dez anos.
Ela começou a ser articulada, nos meios profissionais,
com um texto publicado em 1990, cinco anos antes da inauguração.
Com ele, a autora, Sophia Telles,2
transformou-se na grande intérprete de Mendes da Rocha
no período. No artigo, Sophia analisa a relação
entre a topografia e genealogia do terreno, em oposição
ao plano criado pelo pórtico.
Nesse ínterim, dois outros fatos, envolvendo indiretamente
Mendes da Rocha, merecem ser mencionados. O primeiro deles
é o resultado do concurso, realizado em 1991, para
o Pavilhão do Brasil na Expo Sevilha, Espanha. Simbolicamente,
o primeiro, desde Osaka. O prêmio - cuja decisão
é creditada, em grande parte, ao jurado Paulo Mendes
da Rocha - foi para a equipe liderada por Angelo Bucci, Álvaro
Puntoni e José Oswaldo Vilela, todos ex-alunos do arquiteto.
O projeto foi, em grande parte, desacreditado por parcela
do público do setor e da crítica especializada,
3
que apontava um retrocesso em relação às
possibilidades de avanço da arquitetura local e o desatendimento
de alguns pontos do edital. No fundo, Bucci, Puntoni e Vilela
foram criticados por usar uma lógica arquitetônica
datada, com mais de três décadas - e, hipoteticamente,
estranha a jovens profissionais. Em evento organizado para
discutir o projeto, no Masp, Mendes da Rocha defendeu-o abertamente.
O segundo fato se refere a uma exposição sobre
a obra de Peter Eisenman, montada no Masp, em 1993. O arquiteto
norte-americano, então um dos baluartes da onda pós-moderna,
estava em vias de selecionar um representante para uma exposição
em Buenos Aires. Depois de olhar diversas obras locais, escolheu
Mendes da Rocha. Foi surpreendente: como um legítimo
porta-voz da contemporaneidade poderia escolher tão
antiquada figura?
A verdade é que na época em que o Mube foi
inaugurado, em 1995, já estava em curso uma revisão
de conceitos, na esteira da nova leitura internacional que
revalorizou elementos do movimento moderno. Dessa forma, Mendes
da Rocha, com o frescor de obras que acabavam de ser executadas
- a loja Forma, por exemplo -, passou a ser visto com atenção
redobrada.
Embora o efeito da inauguração do museu não
tenha sido devastador, foi germinando de forma significativa
a divulgação da obra - mesmo com o espaço
carecendo de gestão à altura de sua arquitetura.
O Mube foi publicado em diversas revistas estrangeiras,4
culminando com o lançamento, em 1996, de um singelo
livro5
na Espanha, escrito por Josep Maria Montaner e Maria Isabel
Villac. Com esse e outros textos, Montaner tornou-se o primeiro
intérprete internacional de Mendes da Rocha, que o
espanhol diz representar “uma postura limite, exemplar por
sua coerência”. O prestígio mundial do arquiteto
cresceu, ano após ano, com conferências internacionais,
convites para exposições etc. Em 1997, por exemplo,
foi um dos cem palestrantes - entre artistas, cineastas etc.
- que participaram da 10ª Documenta de Kassel, na Alemanha,
prestigioso evento no calendário das artes plásticas
internacionais. Em seguida, vieram novamente da Espanha dois
importantes prêmios: o da 1ª Bienal Ibero-Americana
de Arquitetura e Engenharia, em 1998; e, o grande feito, o
Mies van der Rohe de Arquitetura Latino-Americana, em 2000,
pela obra de intervenção Pinacoteca do Estado
de São Paulo.
Do ponto de vista editorial, surgem os dois (até agora)
mais completos volumes sobre Mendes da Rocha: um foi publicado
no Brasil pela Cosac Naify, em 2000; o outro foi lançado
em 2001, na Suíça, pela editora Niggli, com
texto de Annete Spiro e prefácio de Luigi Snozzi. Depois
disso, foi a vez de Helio Piñón, outro arquiteto
e crítico espanhol, traduzir seu encantamento com a
obra de Mendes da Rocha (e de Eduardo de Almeida) em uma publicação.6
No âmbito nacional, há quase uma unanimidade:
em enquete realizada por PROJETO DESIGN para uma avaliação
da produção dos anos 1990, os críticos
consultados
citaram Mendes da Rocha como o grande protagonista da década
(dos seis ouvidos, metade apontou-o diretamente e um quarto
incluiu-o numa relação, com outros profissionais).7
Em paralelo, ele foi pouco a pouco descoberto pela mídia
alternativa, como o grande nome da arquitetura brasileira.
Nas entrevistas que concedeu para esses veículos, deixou
clara - para a alegria de jornalistas ávidos por frases
de efeito - sua postura quase marginal diante da realidade,
com declarações do tipo “A natureza é
um trambolho”, “Não gosto de dinheiro” ou “O jornalismo
acabou” - esta dita a um jornalista que meses antes havia
transformado Niemeyer em piada.8
No auge da carreira profissional de Mendes da Rocha, ironicamente,
seu escritório no edifício do IAB/SP não
produz mais nada. Muito longe da aposentadoria, o espaço
tornou-se um refúgio. Lá ele chega no final
da manhã, depois de rodar de táxi poucos quarteirões,
já que trocou sua célebre morada por um apartamento
de três dormitórios em quase anônimo edifício
em Higienópolis. Há muito tempo ele vendeu seu
último carro, “um Chevette velho”,9
levando às últimas conseqüências
sua opinião sobre os automóveis (“o grande problema
das metrópoles”). No escritório ele resolve
os assuntos práticos e as solicitações
diversas - muito aumentadas com o prestígio internacional.
Lá, só fica a fiel escudeira Dulcinéia,
que organiza os pedidos e despacha o que for possível.
“Você já viu escritório mais esculhambado
do que este?”, ele me perguntou certa vez. Algumas obras do
período de transição foram ainda realizadas
nesses domínios, como as casas Gerassi (1988), em São
Paulo, e Masetti (1995), em Cabreúva, com o último
grupo de estagiários e arquitetos do escritório.
Não esqueçamos que esta, no sopé da serra
do Japi, é cortada por um veio de água, caprichosamente
represado por Mendes da Rocha.
Em enquete
realizada para avaliar a produção dos
anos 1990, o nome de Mendes da Rocha surge como unanimidade
entre os críticos
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Também estão no contexto da fase de transição
projetos como a cobertura da praça do Patriarca, em
São Paulo (1992), e alguns planos urbanísticos,
com destaque para os que envolvem as águas: o do porto
de Vitória (1993) e o da baía de Montevidéu
(1998). Ambos foram apresentados, juntamente com a cidade
do Tietê, na 7ª Mostra Internacional de Arquitetura
da Bienal de Veneza (2000), no espaço do Brasil, acompanhados
de trabalhos de Lelé.10
O projeto para Montevidéu, com uma grande praça
de água, com três quilômetros de largura,
foi desenvolvido com os alunos da Universidad de la Republica,
em um seminário.
Do ponto de vista da organização do trabalho,
na mais recente fase de sua carreira profissional, Mendes
da Rocha consolidou uma forma peculiar de projetar, que utiliza
a colaboração de escritórios associados
- ou, como ele mesmo afirma, uma forma de “institucionalizar
minha vagabundagem”.11
Grosso modo, a produção é realizada nos
escritórios dos colaboradores.
O início desse processo remonta a dois projetos de
1988 - a capela de São Pedro, em Campos do Jordão,
SP, e o Mube. Se no projeto sacro Eduardo Colonelli estava
presente na equipe, no Mube o mesmo papel coube a José
Armênio de Brito Cruz, que compõe os quadros
do escritório Piratininga. Ambos formam - juntamente
com os estúdios MMBB Arquitetos e Metro Arquitetura
- uma rede virtual de quatro escritórios associados,
que reúnem em seus quadros profissionais mais jovens
e ex-alunos formados depois da volta de Mendes da Rocha para
a FAU/USP (além destes, o projetista trabalha em associação
com o escritório Arte 3,
de seu filho Pedro Mendes da Rocha).
A mais
recente fase de sua carreira consolida o trabalho com
estúdios associados, em escritório quase
virtual
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Dessa forma, foi criada uma verdadeira escola de arquitetura
fora dos limites da universidade. E, por falar em escola,
em 1998 Mendes da Rocha tornou-se, finalmente, professor titular
da FAU/USP, aposentando-se em seguida. Depois disso, entraram
novos professores, entre eles alguns colaboradores e ex-colaboradores,
como Angelo Bucci, Álvaro Puntoni e Milton Braga.
Para Braga, o grupo dos quatro está junto “por afinidade
intelectual”. Para Mendes da Rocha, “é uma assembléia
crítica permanente”, numa forma de trabalho que ele
considera “um privilégio e ideal”.12
Dos quatro núcleos que formam o grande escritório
virtual, Metro, MMBB e Piratininga estão atualmente
a poucos passos de distância entre si, na rua General
Jardim - que faz esquina, no prédio do IAB/SP, com
a rua Bento Freitas. Assim, criou-se um suporte muito confortável
à atuação de Mendes da Rocha - apesar
do vigor, quase octogenário. Os deslocamentos são
feitos a pé, e é comum vê-los almoçando
pelos restaurantes do bairro de Vila Buarque.
A Pinacoteca do Estado (1993), criada em associação
com Colonelli, na etapa de transição para o
escritório virtual, inaugurou uma série de atuações
em edifícios históricos, com abordagens peculiares.
Com isso, vez ou outra, Mendes da Rocha tem que se submeter
a dar explicações aos homens do patrimônio.
Nesse ponto, sua visão difere da concepção
de Lucio Costa: é mais livre, não tão
rigorosa quanto àquilo que se deve preservar ou se
pode destruir. No caso da pinacoteca, foi necessária
até a visita de especialistas europeus, para dar aval
às intervenções realizadas. Mesmo assim,
o projeto não escapou ileso de críticas.13
O arquiteto desenvolveu ainda no período o Museu da
Língua Portuguesa (2000), com o escritório Arte
3, em São Paulo; a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (2003)
e o Museu Nacional de Belas-Artes (2005), ambos no Rio de
Janeiro e com o Metro; e a capela no Recife, em fase final
de obra (com Colonelli). Sem contar os dois projetos atualmente
em sua “lousa”: um espaço cultural em Belo Horizonte
e outro às margens do rio Piracicaba.
Desenvolveu ainda projetos como o do Centro Cultural do Sesi,
no térreo do prédio da Fiesp (1996), com intervenção
em patrimônio moderno. Outras obras em edifícios
existentes, não necessariamente históricos,
fazem parte do currículo do arquiteto: o projeto do
Sesc Tatuapé (1996), cujo sistema de circulação
suspensa lembra o partido adotado no campus da Universidade
de Vigo (2004) e, em certa medida, nos projetos para os museus
da USP (2000).
Nesses desenhos, assim como em muitos outros, o discurso
do projetista caminha na direção de criar uma
infraestrutura necessária - quase racionalista -, sem
deixar de lado sua sensibilidade em conferir luz e novas espacialidades
a locais por vezes até banais.
Quanto aos projetos criados do zero, o do terminal de ônibus
do parque D. Pedro 2º (1996), em São Paulo, além
de marcar o início da colaboração com
o MMBB, traz de volta a leveza do clube Paulistano, também
presente no Patriarca. Com o mesmo escritório, ele
fez o Poupatempo Itaquera (1998), na capital paulista, e o
museu em Santo André, SP (2003), atualmente em obras.
Na inauguração do Poupatempo, uma cena incomum
na trajetória de quem nunca dependeu de mecenato oficial:
o então governador Mário Covas chama a atenção,
em seu discurso, para o projeto de “um dos maiores arquitetos
brasileiros”. Vale ressaltar que o projeto foi ganho por licitação
pública.
Por outro lado, Mendes da Rocha realizou uma série
de trabalhos de pequeno porte com toda a força das
grandes obras: duas recentes residências em São
Paulo (no Sumaré e nos Jardins), duas galerias de arte
(Leme e Vermelho), a clínica na alameda Gabriel Monteiro
da Silva ou mesmo a CasaMatriz.
Para
“replicar a vertigem do mercado”, trabalhará,
como sempre, em resistência ao atual rumo da humanidade
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No plano internacional, além de Vigo e de um concurso
na Itália, o prestígio já lhe havia rendido
um convite para trabalhar em um projeto que era parte do esforço
para credenciar Paris como candidata à sede da Olimpíada
de 2008 (juntamente com Toyo Ito, Jean Nouvel, Steven Holl
e Christian de Portzamparc, entre outros). Para o mesmo programa,
no âmbito doméstico, ele desenvolveu desenho
para a candidatura de São Paulo a sede dos Jogos Olímpicos
de 2012. Aqui houve a oportunidade de, pela primeira vez,
reunir os escritórios colaboradores (e mais o Una Arquitetos),
para atender a urgente demanda. Menos preocupado com os edifícios
isolados em si, novamente o arquiteto vislumbrava a formação
de uma infra-estrutura de transporte público eficiente,
que não existe na cidade de São Paulo. Em um
detalhe do projeto, as torres gêmeas na área
da favela do Gato remetem ao projeto de reestruturação
do Senac, na avenida do Estado: o prédio, em altura,
brota da água, uma “visão interessante quanto
à idéia de território firme e recursos”.
Como este texto já está perto de encerrar-
se, o leitor deve estar intrigado com uma observação
que foi feita logo em seu início: qual seria o recado
de Paulo Archias Mendes da Rocha a que se referiu Angelo Bucci?
A simplicidade? O embate entretécnica e natureza? Talvez
o mais épico e moderno dos arquitetos brasileiros não
queira dar recado nenhum. Com a ética e a espacialidade
de Artigas somadas ao imaginário de seu pai, ele continuará
a realizar uma obra com a bruta sofisticação
tectônica que lhe é peculiar. Para “replicar
a vertigem do mercado”, trabalhará, como sempre, em
resistência ao atual rumo da humanidade. Pessimista,
mas com toda elegância, lá estava ele, dando
seu recado para os curitibanos, com suas singelas maquetes.
Um dos modelos que realizou no curso? Justamente o do ginásio
do clube Paulistano, fechando assim o ciclo, propondo ao galo
um novo giro.
1 - Participaram
ainda do concurso, realizado em oito dias,os arquitetos Marcos
Acayaba, Croce, Aflalo & Gasperini, Siegbert Zanettini,
entre outros.
2 - “Museu da Escultura: primeira leitura”, em AU 32,
outubro/novembro de 1990. Um outro texto, que aborda a obra
dele de forma mais ampla, foi publicado na mesma revista,
na seção Documento, na edição
60, junho/julho de 1995.
3 - Em duas edições PROJETO abordou o tema.
Em uma delas, o título do texto de Hugo Segawa (um
dos mais ferrenhos críticos do projeto), “Concurso
de Sevilha: deu em vão”, é um ácido trocadilho.
A revista Caramelo, de estudantes da FAU/USP, saiu em defesa
dos vencedores.
4 - A primeira publicação da obra pronta
foi em PROJETO 183, março de 1995, com texto de Hugo
Segawa e fotos de Nelson Kon e Andrés Otero. Antes
disso, além
do já citado texto de Sophia na AU, a primeira aparição
internacional foi na espanhola A&V 48, de 1994, com texto
de Segawa, em edição especial sobre a América
Latina. Seguiram-se publicações em revistas
mexicanas, japonesas, argentinas, italianas, francesas e uruguaias.
5 - Editora Gustavo Gili, em branco e preto, na coleção
Catálogos de Arquitetura Contemporânea.
6 - Livro lançado pela Edicions UPC, Barcelona,
2002; no Brasil, foi publicado pela Romano Guerra Editora,
também em 2002.
7 - Abílio Guerra, Ana Luíza Nobre e
Carlos Eduardo Dias Comas apontam Mendes da Rocha; Roberto
Segre o inclui em lista em meio a outros profissionais.
8 - Entrevista ao caderno Aliás, no jornal O
Estado de S. Paulo, para o jornalista Fred Melo Paiva, em
16 de abril de 2006.
9 - Entrevista à revista Trip 94, outubro de
2001.
10- Veja-se o catálogo Arquitetura, cidade e
território, Fundação Bienal de São
Paulo, 2000.
11- Entrevista a Jorge Jáuregui em http://jauregui.arq.br/texto_entrevista_jorge.html.
12- Entrevista de Mendes da Rocha e equipes, PROJETO
DESIGN 275, janeiro de 2003.
13- Em artigo publicado em PROJETO DESIGN 252, fevereiro
de 2001, Haroldo Gallo compara a intervenção
na Pinacoteca, com análise negativa, à da Sala
São Paulo, que considera positiva.
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