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Cabe supor que, como Niemeyer comentava doar o dinheiro
dos prêmios recebidos ao Partido Comunista Brasileiro,
os diretores da Fundação Hyatt, mantenedora
da premiação, tenham preferido conservar a metade
dos cem mil dólares em casa. A duplicidade nunca esteve
contemplada no regulamento, até que no ano de 2001
o Pritzker foi dividido entre Herzog & De Meuron. Não
se valorizava o trabalho em equipe, como o realizado pelo
casal Robert Venturi e Denise Scott Brown, como ficou expresso
na nomeação apenas de Venturi, em 1991.
Mas o fato mais notável é que Mendes da Rocha
já havia recebido em 2001 o prestigioso Prêmio
Mies van der Rohe de Arquitetura Latino-Americana, o que o
coloca no parnaso dos eleitos detentores dos dois reconhecimentos:
Álvaro Siza, Rafael Moneo, Norman Foster, Rem Koolhaas
e Zaha Hadid. Como explicar essa predominância do arquiteto
paulista no contexto mundial? No sistema internacional de
críticos e dos profissionais do jet set que participam
dos julgamentos, as decisões nunca são casuais.
Existe uma luta subterrânea de influências e de
tendências que definem os resulta dos das premiações.
Quando o primeiro Mies para a América Latina foi outorgado
(em 1999) ao prédio high tech do mexicano Enrique Norten,
os jurados “regionalistas” - a colombiana Silvia Arango, o
uruguaio Mariano Arana e o carioca Luiz Paulo Conde - foram
subjugados pelos “cosmopolitas”: o norte-americano Terence
Riley, o espanhol Ignasi de Solá-Morales, o português
Fernando Távora e a mexicana Sara Topelson de Grinberg,
então presidenta da União Internacional de Arquitetos.

Reservatório de Urânia,
SP, 1968
No caso do Pritzker, o enfoque inicial foi o resgate das “velhas
estrelas”, aí incluídos desde Philip Johnson
- o primeiro a recebêlo, em 1979 - até o esquecido
Jørn Utzon, premiado em 2003. No entanto, a partir
do momento em que os membros das novas gerações
passaram a ser considerados nomeáveis, começaram
as contradições entre grupos antagônicos.
Conformaram-se três tendências básicas,
que caracterizam a contemporaneidade arquitetônica:
os que apoiavam uma renovação identificada com
o repertório formal e tecnológico da vanguarda
radical, representados pelas obras de Miralles & Tagliabue,
Zaera Polo, Coop Himmel(b)lau, Fournier & Cook, MVRDV,
Calatrava, Mecanoo, Asymptote, Future Systems, Gehry; os que
defendiam uma linguagem abstrata, geométrica e minimalista,
assumida como continuidade dos paradigmas do movimento moderno;
e os que reconheciam a significação das tendências
regionalistas na arquitetura atual, nos quatro cantos do planeta,
incluindo tanto Ken Yeang, na Malásia, como Samuel
Mockbee, nos Estados Unidos.
Até agora, essa última - associada ao norueguês
Sverre Fehn, premiado em 1997, e ao australiano Glenn Murcutt
(2002) - foi a que teve menor presença no sistema de
avaliação do Pritzker. As maiores tensões
se manifestaram entre os minimalistas e os radicais. Estes
obtiveram forte apoio nas recentes premiações:
o holandês Rem Koolhaas (2000), os suíços
Jacques Herzog e Pierre de Meuron (2001), a iraquiana Zaha
Hadid (2004) e o norte-americano Thom Mayne (2005).
Sucesso menor foi obtido pelos representantes da “linha dura”,
como o japonês Tadao Ando (1995) e os ibéricos
Álvaro Siza (1992) e Rafael Moneo (1996). Ao mesmo
tempo, nessa região concentrou-se um grupo importante
de profissionais ascéticos e abstratos: em Portugal,
além de Siza, temos Eduardo Souto de Moura, Gonçalo
Byrne, Manuel Aires Mateus; na Espanha, além de Moneo,
Alberto Campo Baeza, Juan Navarro Baldeweg e Eduardo Arroyo,
entre outros. Eles foram apoiados pelos críticos espanhóis
que também se identificaram com a linguagem arquitetônica
da obra de Mendes da Rocha: Ignasi de Solá-Morales,
Josep Maria Montaner e Helio Piñón. Os últimos,
além de autores de dois livros sobre o arquiteto brasileiro
premiado, são muito ativos no sistema publicitário
da mídia especializada, difundida e assimilada na América
Latina, evidenciando uma persistência cultural da colonização
espanhola nessa região. Por outro lado, a qualidade
da produção arquitetônica na península
ibérica obteve recentemente notável repercussão
internacional, o que justificou sua presença no Museu
de Arte Moderna de Nova York (Moma), na exposição
On Site: New Architecture in Spain (2005), organizada por
Terence Riley e pelo diretor da revista AV, Luis Fernández-Galiano.
A valorização de Paulo Mendes da Rocha como
representante latino-americano da estética ascética
e severa se integra no processo de pressão que os críticos
espanhóis exercem sobre a opinião mundial, e
da liderança que eles tentam assegurar sobre os que
defendem posições mais abertas, como Kenneth
Frampton, Alexander Tzonis, Charles Jencks e William Curtis,
aos quais se une Fernández- Galiano, que ainda mantém
uma posição de equilíbrio intermediário
entre as tendências contrapostas. Compreende-se então
a decisão de alguns membros do júri - formado
por lorde Palumbo, Balkrishna Doshi, Rolf Fehlbaum, Frank
Gehry, Carlos Jiménez, Victoria Newhouse e Karen Stein
-, que reconheceram a significação criadora
da obra de Mendes da Rocha como expressão da arquitetura
realizada tanto no Brasil como no continente americano.
O fato
mais notável é que Mendes da Rocha já
havia recebido em 2001 o prestigioso Prêmio Mies
van der Rohe, o que o coloca no parnaso dos detentores
dos dois reconhecimentos
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Certamente, os apoios mais significativos foram os do costarriquense
Carlos Jiménez, cujo persistente rigor formal foi elogiado
por Aldo Rossi; do indiano Balkrishna Doshi, discípulo
de Le Corbusier e totalmente identificado com a continuidade
da linguagem do movimento moderno; de Frank Gehry, que nunca
premiaria uma obra identificada com sua tendência estética;
do alemão Rolf Fehlbaum, diretor da empresa de móveis
Vitra, que aceitou o desenho de Mendes da Rocha para uma loja
em São Paulo; e Karen Stein, diretora da Phaidon Press,
que recentemente publicou o livro Brazil’s modern architecture.
Sem questionar o destacado valor da obra de Mendes da Rocha
e o merecido prêmio, vale perguntar quais as condições
existentes que levaram esse arquiteto a
receber dois importantes reconhecimentos mundiais, em uma
região sempre esquecida ou relegada no panorama internacional,
como a América Latina. Mesmo porque a linguagem minimalista
iniciada aqui por Barragán, com seu colorido silêncio
- e continuada por Mendes da Rocha, Artigas e um grupo de
arquitetos brasileiros que atuam predominantemente em São
Paulo, numa versão “brutalista” dessa corrente arquitetônica
-, não constitui a única representação
estética de um continente caracterizado por componentes
sociais e culturais extremamente variados e contraditórios.
Isso além do fato de contarmos com um grupo de profissionais
elegíveis, cuja significativa e diversificada obra
arquitetônica aguarda o reconhecimento mundial: os argentinos
Clorindo Testa e Cláudio Caveri; o chileno Fernando
Castillo Velazco; o colombiano Rogelio Salmona; o costarriquense
Bruno Stagno; os mexicanos Teodoro González de León
e Ricardo
Legorreta, entre outros.

Baia de Montevidéu, 1998
Um pensamento ecumênico
Os arquitetos costumam ser julgados não apenas
pela qualidade das obras construídas, mas também
pelos conceitos filosóficos, éticos e estéticos
que definem sua existência e a sustentam. Mendes da
Rocha manteve ao longo da vida, em seus breves textos e longas
entrevistas, um sistema teórico coerente, definido
pelos valores culturais universais, filtrados pela realidade
brasileira e latino-americana. Mais que defender ou justificar
seus projetos - como tiveram que fazer Wright e Le Corbusier
-, ele construiu uma visão de mundo que lembra os inícios
do pensamento iluminista no século 18, tal como uma
mistura entre o racionalismo de Voltaire e a concepção
naturalista de Rousseau, logo continuada pelos socialistas
utópicos, do século 19, e os enunciados estéticos
de Paul Valéry no século 20. Homem, natureza
e cidade são os temas recorrentes em seus escritos.
Sua arquitetura
solidária baseia-se nas estruturas espaciais
abertas e contínuas, para conter o que deveria
ser uma fraternal vida social urbana, negando muros
e divisões internas
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A mãe natureza é a essência básica
da vida da humanidade, em particular no extenso continente
latino-americano, só explorado há 500 anos,
no início da modernidade européia. É
a sustentação da nossa vida, supostamente desenvolvida
em equilíbrio dialético com ela. A ocupação
do território e a criação das cidades,
implantadas nas múltiplas geografias dessa região
do planeta, não deveriam quebrar a harmonia ecológica
mantida ao longo de milhões de anos, nas constantes
mudanças internas da natureza, sendo que em um pequeno
espaço do ciclo histórico da Terra incluiu-se
o homem. Este, com sua criatividade e imaginação,
assentouse nas cidades, criando a contraposição
entre a abstração e a natureza, parafraseando
Worringer.
Eis que um equilíbrio mantido ao longo de 20 mil anos
de história da humanidade foi quebrado no breve instante
de um século. Aquele projeto do “eterno inacabado”
da natureza e do “horizonte de paz” e da solidariedade humana,
que deveria primar na vida social, não aconteceu, com
as contradições produzidas pela cruel exploração
das populações indígenas na conquista
da América e dos operários no desenvolvimento
da Revolução Industrial; e finalmente pelo império
da hipocrisia e do cinismo, dos interesses econômicos
mesquinhos, elitistas e egoístas, exacerbados no atual
neoliberalismo. Daí as lutas desenvolvidas pelos reformadores
sociais e políticos, culminadas no surgimento do sistema
socialista - que devia constituir a alternativa ao capitalismo
e identificar-se com a redenção da espécie
humana, mas desafortunadamente não deu certo.
Qual é o papel do arquiteto nessa contraditória
dinâmica? Não vender a sua criatividade aos sinistros
interesses dos especuladores; não se comprometer com
a privatização do espaço; não
negar os fundamentos éticos e morais do processo inovador
das vanguardas arquitetônicas. Como é essa arquitetura
solidária elaborada por Mendes da Rocha? Baseia-se
nas estruturas espaciais abertas e contínuas, disponíveis
para conter o que deveria ser uma fraternal vida social urbana,
negando os muros e as divisões internas que fecham
o egoísta espaço privado. Formulações
quase utópicas, em um mundo onde as elites sociais
se isolam nos condomínios fechados fora da cidade,
tal como os países que tentam se apartar uns dos outros
com quilométricos muros. A nefasta experiência
do Muro de Berlim, que dividia radicalmente a cidade capitalista
e a socialista, foi multiplicada na fronteira entre Estados
Unidos e México, bem como no agressivo muro que separa
Israel dos territórios palestinos.
A defesa desses princípios manifestouse coerentemente
nos projetos urbanos e arquitetônicos de Mendes da Rocha.
Seus enunciados estéticos e formais nunca estiveram
associados às mudanças de modas e correntes
estilísticas, que em alguns casos, como no pós-modernismo,
tentaram alterar as formulações essenciais do
movimento moderno, às quais ele manteve fidelidade
irrestrita. Tampouco se deixou envolver por extremismos políticos,
que explodiram na convulsiva história brasileira, e
em particular no contexto da FAU/USP, nas longas duas décadas
da ditadura militar. Identificado com as forças progressistas,
cassado pela AI-5 e expulso da faculdade juntamente com outros
professores, como Sérgio Ferro e Vilanova Artigas,
manteve uma atitude equilibrada: não se identificou
com o populismo radical e utópico do primeiro; nem
com o comunismo dogmático do segundo, tristemente registrado
no texto contra Le Corbusier, por ele acusado de “agente do
imperialismo norte-americano”; ou mesmo com o stalinismo de
salão de Oscar Niemeyer.
Todavia, as idéias mais provocadoras que ele difundiu
recentemente nas entrevistas questionam alguns dos reiterados
clichês da crítica arquitetônica. Primeiro,
o fato de que as formulações dos Ciams nunca
tenham sido rígidas e normativas: elas tentavam indicar
como resolver os problemas urbanos que iriam agravar-se ao
longo do século 20. Foram dogmáticos os que
aplicaram mecanicamente seus enunciados. Segundo, o de que
não existe uma arquitetura brasileira, mas uma arquitetura
feita no Brasil, conceito válido se considerarmos a
dimensão continental do país e as dissímiles
condições geográficas, culturais e sociais
das diferentes regiões e as conseqüentes respostas
produzidas pelos arquitetos espalhados pelo território.
Por último, questiona sua identificação
com a categoria estilística do brutalismo paulista,
por ter nascido em Vitória e projetado obras tanto
no Rio de Janeiro como em Goiânia ou Recife, utilizando
vocabulário arquitetônico diversificado. O uso
do concreto armado aparente em grandes estruturas de vãos
livres surgiu em diferentes cidades do Brasil, não
tendo sido exclusividade de São Paulo: justamente,
ele coloca como exemplo o Museu de Arte Moderna do Rio de
Janeiro, desenhado por Affonso Reidy em 1952.
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