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Dimensão territorial e urbana
Mendes da Rocha não escapa à percepção
do território latino-americano elaborada por Gabriel
García Márquez, como um mágico universo
geográfico, cheio de surpresas e experiências
inéditas, a ser salvo não só da especulação
que está destruindo a Amazônia, mas de sua extinção
com o avanço do triste anonimato urbano. Isso explica
que a dimensão territorial e urbanística tenha
sido uma constante ao longo da sua vida, tal como ocorreu
com Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Joaquim Guedes e Rino Levi,
entre outros, ao assumirem a vastidão do espaço
geográfico brasileiro e a necessidade de preenchê-lo
com soluções estéticas e funcionais identificadas
com a cultura social existente em cada região. Para
Mendes da Rocha, a concepção e construção
de Brasília, que define como “cidade africana”, foi
gesto semelhante ao dos índios que colocavam suas ocas
isoladas no meio do sertão. Ou seja, um gesto americano,
não europeu. Para ele, a cidade não deveria
ser uma malha compacta e infinita, mas uma sucessão
de ilhas arquitetônicas de alta qualidade imersas na
natureza.
A leitura
da particularidade da paisagem geográfica foi
um dos princípios básicos adotados por
Mendes da Rocha nas soluções elaboradas
na escala territorial
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A construção da utopia urbana seguiu duas tendências
maiores: uma imaginava a cidade total - Broadacre City, de
Wright, e a Ville Radieuse, de Le Corbusier; outra propunha
alternar a geometria da razão e a liberdade expressiva
da natureza. São conceitos presentes desde o século
18, primeiro nos volumes puros das estruturas funcionais criadas
por Ledoux no meio da bucólica paisagem francesa; nos
núcleos habitacionais dos socialistas utópicos
(Owen e Fourier); e, na primeira metade do século 20,
nos “desurbanistas” russos e nas propostas do situacionista
Constant Nieuwenhuis para a Nova Babilônia.
Mendes da Rocha se insere nesse processo histórico
sem, no entanto, assumir a história como produtora
de modelos, mas de conceitos e experiências, cuja sedimentação
define o progresso humano. Idéias reafirmadas por suas
próprias palavras: “Minha arquitetura foi sempre inspirada
em idéias, não evoca modelos de palácios
ou de castelos, mas a habilidade do homem em transformar o
lugar que habita com fundamental interesse social, através
de uma visão aberta voltada para o futuro”. Não
é uma história datada, mas a fusão de
todas as camadas de pensamento e inovação acumuladas
desde a origem da humanidade, depositadas em uma memória
dinâmica. Como o homem muda no tempo, mas na essência
continua sendo o mesmo ao longo de milênios, a essencialidade
das formas inventadas não mudou desde que Platão
descobriu a beleza do círculo, do quadrado e do triângulo.
A leitura da particularidade da paisagem geográfica
foi um dos princípios básicos adotados por Mendes
da Rocha em cada uma das soluções elaboradas
na escala territorial. No reservatório elevado em Urânia,
SP (1968), a presença visível dos três
altos cilindros que contêm as caixas-d’água atua
como um símbolo escultórico dessa pequena cidade,
que lembra as coloridas torres triangulares criadas por Barragán
e Mathias Goeritz para identificar a entrada no bairro de
Cidade Satélite, na Cidade do México (1958).
Nas propostas para a implantação de três
núcleos urbanos - a cidade paulista do Tietê
(1980), a baía de Vitória (1993) e a baía
de Montevidéu (1998) - percebem-se as soluções
diferentes, em concordância com a particularidade do
sítio.

Biblioteca Pública do Rio de
Janeiro, 1984
Nos projetos do Tietê e do porto de Vitória,
a dinâmica das funções portuárias
é integrada à vida social dos novos núcleos
urbanos e inter-relacionada pela localização
dispersa dos diferentes prédios, em diálogo
com a paisagem ancestral e original da beira dos rios, identificando
as atividades produtivas, de lazer e habitacionais. As torres
que prenunciam o acesso ao porto fluvial assumem valor simbólico
semelhante ao outorgado por Le Corbusier aos arranha-céus
cartesianos colocados na plataforma sobre o rio da Prata,
em Buenos Aires (1929).
No projeto para o resgate da baía de Montevidéu,
Mendes da Rocha adotou um princípio conceitual oposto:
tinha que fazer da desordenada e vazia irregularidade da natureza
uma geometria urbana. A pequena baía foi regularizada
e transformada em um quadrado conformando uma praça
aquática, com um teatro numa ilha central. Gerava assim,
com a apropriação arquitetônica da natureza,
a possibilidade de a cidade se expandir à beira da
nova praça, em vez de continuar incrementando a densidade
do velho centro, seguindo a proposta de Le Corbusier, cuja
linear faixa habitável de 20 andares que condensava
a malha tradicional submergia no interior da baía.
A fina sensibilidade com as preexistências naturais
e urbanas aparece em dois projetos de prédios definidos
pela particularidade do sítio. Na Biblioteca Pública
do Rio de Janeiro (1984), Mendes da Rocha assimilava a intensa
movimentação de pedestres e veículos
ao longo da avenida Presidente Vargas, nas proximidades do
Campo de Santana e perto da Estação Central.
Nesse contexto, decidiu soterrar a biblioteca, para obter
a paz e a tranqüilidade necessárias à leitura,
e criava uma praça pública coberta por extensa
laje horizontal, que facilitava a dinâmica dos pedestres
entre a avenida e o Campo de Santana, na direção
da estação. No concurso, Niemeyer, membro do
júri, apoiou o triste edifício de Glauco Campello,
agora malconservado e anônimo nesse duro entorno urbano.
No concurso internacional para a Biblioteca de Alexandria
(1988), assumia a herança histórica dos volumes
puros egípcios, nascidos com as pirâmides. Um
cilindro, um cubo e um retângulo semitransparente, situados
na beira da península dos Reis, contêm as funções
básicas do programa. A dispersão dos prédios
não foi aceita pelo júri, que premiou a proposta
unitária do escritório norueguês Snøhetta,
que também adotou uma forma cilíndrica para
conter o prédio principal.
Por último, no projeto do Bulevar do Esporte, para
a possível sede da Olimpíada de 2008 em Paris
- também elaborado pelos escritórios do UN Studio,
da Holanda, e de Alexandre Chemetoff e Christian de Portzamparc,
da França -, assimilando a imagem compacta da cidade,
imaginou uma megaestrutura de várias centenas de metros
ao longo de um eixo, protegendo os estádios e as instalações
esportivas, que vão se alternando debaixo da grande
cobertura metálica.
A linha
horizontal é um elemento gráfico e construtivo
persistente em sua obra. Mas é uma linha densa,
processada e trabalhada lentamente, oposta à
linha curva de Niemeyer
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O silêncio na metrópole
Mendes da Rocha reagiu, no conjunto de suas obras, contra
a imagem do caos urbano e a arquitetura sem qualidade da metrópole,
parafraseando Robert Musil. Opôs-se radicalmente à
fragmentação do espaço, à arbitrária
e dispendiosa verticalização das torres e à
introversão da vida social em prédios fechados.
Quando ele afirma que a monumentalidade somos nós,
está evidenciando sua rejeição aos conjuntos
monumentais clássicos que definiram o espaço
urbano das metrópoles. Daí que a linha horizontal
seja um elemento gráfico e construtivo persistente
em sua obra. É a linha do horizonte perdido na cidade;
é a linha que define a superfície do solo liberado
para uso social, ou que se soterra para multiplicar o espaço
disponível; é a linha que limita e protege a
área pública; é a linha suspensa no ar,
apoiada nos mínimos elementos de suporte.
Mas não é uma linha simples e esquemática,
elaborada em um traço único: é uma linha
densa, processada e trabalhada lentamente, como aparece em
seus riscos,
oposta à linha curva de Niemeyer, configurada em um
gesto único e definitivo. Quando a linha assume corporeidade,
transforma-se nas lajes contínuas, quase urbanas, do
Pavilhão do Brasil na Expo 70, em Osaka (1969), e do
Museu Brasileiro da Escultura (Mube), em São Paulo
(1988). Por que essa redução da laje a sua mínima
expressão? Porque ela constitui o resgate abstrato
e “humano” do espaço natural originário americano
- que Niemeyer assume romanticamente dos morros e mulheres
-, em sua extensão infinita e simbolismo libertário.
Metáfora relacionada com a herança das culturas
pré-colombianas, que ocuparam o contexto natural sem
modificá- lo, com os conjuntos cerimoniais formados
por terraços, plataformas e pirâmides, estabelecendo
a antítese à dimensão urbana e aos “monumentos”
barrocos, baseados em uma tipologia importada da Espanha e
de Portugal.
Esse “grau zero” da arquitetura - assumido por Bruno Zevi
do grau zero da escrita de Roland Barthes -, que utiliza uma
linguagem básica, igualmente distante do vernáculo
e dos estilos acadêmicos, alheio ao serviço de
uma ideologia triunfante, e como uma nova forma de existência
social, em que o silêncio - que não é
o silêncio do cemitério, mas o que prenuncia
uma vida nova - se transforma em expressão libertária
contra a confusão opressiva da metrópole, foi
adotado por Lina Bo Bardi em São Paulo, no vão
livre do Masp, situado na dispendiosa área nobre da
avenida Paulista.
O Clube
Atlético Paulistano - hoje desafortunadamente
alterado - é uma obra-mestra em sua perfeição
estética e cultural. Ali se resumem quatro décadas
de desenho
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Sem dúvida, foi um gesto de protesto contra a verticalização
da avenida e a perda do valor social do espaço público.
Mas também representou o resgate da simplicidade e
da elementaridade da originária arquitetura americana,
contraposta à elaboração formal e decorativa
da tradicional arquitetura européia. Lina, italiana,
pertencente à geração sob a tutela de
Mario Ridolfi, Ignazio Gardella, Ludovico Quaroni, Ernesto
Rogers e Gio Ponti (que no segundo pósguerra abandonaram
o purismo racionalista pelo “neo-realismo” folclórico),
rejeitou essa postura e tentou começar “do zero” no
Novo Continente. Assim surgiu essa arquitetura dura e despojada,
expressiva em sua dimensão insólita e na crueza
material. Uma linguagem que foi assumida pela jovem geração
paulista sob a liderança de Vilanova Artigas, de quem
Mendes da Rocha foi um dos principais discípulos, na
turma formada por Júlio Katinsky, Dácio Ottoni,
João Walter Toscano, Marcos Acayaba, Paulo Bastos,
Ruy Ohtake e Joaquim Guedes. Entre eles, que seguiram caminhos
divergentes, Mendes da Rocha foi o mais rigoroso continuador
da ortodoxia purista estabelecida por Lina e Artigas, mas
com uma interpretação criativa pessoal. Postura
que, curiosamente, eles mesmos
não mantiveram quando Artigas desenhou as colunas plásticas
da rodoviária de Jaú, SP (1973), assumindo uma
mistura entre Niemeyer e Wright; ou quando Lina, submersa
na cultura popular nordestina e africana, projetou a exótica
casa de Chame- Chame, em Salvador (1958).
Mendes da Rocha, desde a primeira obra que o destaca no panorama
arquitetônico paulista - o Clube Atlético Paulistano
(1958) -, evidencia o distanciamento dos paradigmas assumidos
por ele: Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer.
Quais são os novos elementos utilizados em sua linguagem?
O primeiro é a mistura persistente entre a estrutura
de concreto armado e a de aço, cuja articulação
e combinação permitem níveis de leveza,
transparência e continuidade espacial não obtidos
com a utilização unidimensional do concreto
brutalista. O segundo é a transformação
das formas fechadas em abertas, reduzindo ao mínimo
a introversão do prédio. O terceiro é
o controle sutil da escala, das proporções e
da luz interior, que superam estética e plasticamente
a fria rigidez de Vilanova Artigas, o formalismo excessivo
de Niemeyer e o intenso sincretismo de Lina.

Ginásio do Clube Atlético
Paulistano, São Paulo, 1958
Sem a pretensão de analisar aqui toda a obra de Mendes
da Rocha, citemos alguns exemplos que ratificam essas afirmações.
O Clube Atlético Paulistano - hoje desafortunadamente
alterado e deformado - é uma obra-mestra em sua perfeição
estética e cultural. Ali se resume o caminho de quatro
décadas de desenho. A combinação da estrutura
de concreto e de aço cria impressionante sistema de
tensões e continuidades espaciais, que transforma a
cobertura do salão esportivo em uma imagem ao mesmo
tempo estática - por sua centralidade e simetria -
e dinâmica, definida pelos suportes triangulares de
concreto que amarram os cavos de aço do teto metálico
e a curva contínua da fina laje perimetral. O elemento
estrutural triangular que substitui a rígida e estática
coluna vertical transforma- se em tipologia quase universal,
utilizada por diversos arquitetos: começa com a escola
Júlia Kubitschek e o hotel Tijuco, em Diamantina (1951),
e na Universidade de Constantine, na Argélia (1969),
desenhados por Oscar Niemeyer; aparece no ginásio de
Itanhaém (1959), de Vilanova Artigas, e se prolonga
na central telefônica da Telesp em Ibiúna, SP
(1973), de Ruy Ohtake.
O virtuosismo de Mendes da Rocha o leva a fazer do triângulo
elemento não somente estrutural, mas também
delimitador, expansor e dinamizador do sistema estabelecido
pelas lajes horizontais. Por uma parte, o triângulo
estrutural de concreto do Paulistano se transforma na chapa
de aço que suporta a leve estrutura sobre o espaço
contínuo do Poupatempo Itaquera (1998), criando em
sua ordem modulada os limites inclinados das fachadas do edifício.
Composição triangular (nesse caso, uma pirâmide
invertida) que Oscar Niemeyer desenvolveu no Museu de Arte
Moderna de Caracas (1954), totalmente fechada ao exterior.
Como assumiu Mendes da Rocha essa tipologia formal? Vemos
a referência a esse projeto na proposta para o concurso
do Centro Cultural Georges Pompidou, em Paris (1971), e no
Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São
Paulo (1975). Nas duas soluções, o triângulo
é rebaixado e o volume se abre para o exterior, transformando-se
a forma fechada em um sistema de elementos horizontais que
estabelecem a continuidade entre os espaços interior
e exterior. Ou seja, se por um lado o aço é
utilizado como representação da leveza e suporte
da continuidade espacial - aspontes na Pinacoteca do Estado
de São Paulo (1993) e a cobertura do terminal rodoviário
de Goiânia (1985) -, é ao mesmo tempo leve indicação
da existência de um espaço público urbano:
a cobertura metálica na praça do Patriarca (1992)
e o terminal rodoviário no parque D. Pedro 2º
(1996).
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