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Modernidade pluralista
Mendes da Rocha nunca foi uma “diva” individualista da
arquitetura brasileira. Sua simplicidade, modéstia
e bem-humorada personalidade - o brasileiro cordial de Sergio
Buarque de Holanda -, caracterizada pelo low profile e pelo
distanciamento das socialites paulistas, são contraditórias
com a perseguição que, pela obtenção
do Pritzker, move-lhe a mídia, sempre em procura de
heróis e personagens para satisfazer a ansiedade informativa
de consumo popular. Daí a falsificação
da realidade profissional brasileira, ao identificar a produção
arquitetônica com apenas dois mestres: Oscar Niemeyer
e Paulo Mendes da Rocha. Visão unidimensional (ou bidimensional)
errada, que contradiz e nega a existência de muitos
arquitetos talentosos da “velha guarda”, também reconhecidos
internacionalmente, e o surgimento de uma nova geração
cheia de entusiasmo e de paixão por manter firmes a
qualidade e o simbolismo estético da arquitetura nacional.
Quando revistas e jornais publicam o anúncio do recente
prêmio, e afirmam que agora começou o renascimento
arquitetônico e o seu prestígio universal, esquecem
e apagam a difusão que obteve no ano passado (2005)
a arquitetura brasileira em Paris, com a grande exposição
no Instituto de Arquitetura da França, organizada por
Lauro Cavalcanti, diretor do Paço Imperial do Rio de
Janeiro.
Cabe assinalar que o fato fundamental que caracteriza a produção
de Mendes da Rocha na última década é
sua associação com um grupo de talentosos jovens
arquitetos. Ele nunca organizou um escritório profissional
de grande tamanho, com equipamento técnico sofisticado.
Seu sistema criativo continua mantendo o desenho manual como
a essência do projeto, elaborando riscos e gráficos
que logo se transformam em planos de obra. É a persistência
do arquiteto artesão, que subsiste em figuras como
Clorindo Testa, Oscar Niemeyer, Rogelio Salmona ou Steven
Holl.
Os novos
elementos utilizados em sua linguagem são a mistura
entre estrutura de concreto e de aço, a transformação
das formas fechadas em abertas e o controle sutil da
escala
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Centro Cultura Georges Pompidou, Paris,
1971
Mas a diferença com Niemeyer é que, enquanto
este não se vinculou ao ensino universitário
e não formou discípulos em seu escritório,
Mendes da Rocha, seguindo a tradição de Artigas,
integrou a dinâmica do ateliê na FAU/USP com a
participação de estagiários em seu escritório.
Daí a recíproca e rica influência entre
mestre e discípulos, através dos diálogos,
seminários e debates. Assim ele transmite sua experiência,
a metodologia de desenho, os truques construtivos, e os jovens
dinamizam as soluções arquitetônicas com
um olhar novo, descontraído, entusiasta, livre de preconceitos,
como afirmou o mineiro Carlos Alberto Maciel, ao sustentar
os conceitos do desenho em uma “retomada de um caminho silencioso
de estudo de nossas tradições construtivas,
especialmente vinculadas à produção moderna”.
Ou seja, não é a modernidade “estilística”,
mas a modernidade perene que se transforma com a vida e a
cultura da sociedade atual.
A parceria com os escritórios MMBB, Piratininga e Metro
integrou nas novas obras uma turma significativa de arquitetos.
Entre eles, citemos Angelo Bucci, Fernando de Mello Franco,
Marta Moreira, Milton Braga, Eduardo Colonelli, Kátia
Pestana, Giancarlo Latorraca, Marcelo Laurino, Luciana Itikawa,
Martin Corullon, Weliton Torres, Anna Ferrari, Gustavo Cedroni,
Guilherme Wisnik, Stephan Baumberg, Carolina Castro, José
Armênio de Brito Cruz, Renata Semin e João Paulo
Beugger. Qual foi a influência deles na obra do mestre?
Sem dúvida, maior liberdade expressiva e diversificação
das tipologias funcionais. Pode-se falar de um retorno às
caixas, que tinha desenvolvido no início de sua carreira
no conjunto de casas projetadas. Mas não é a
rígida caixa miesiana, e sim uma caixa multiforme,
transparente, opaca ou translúcida: a transparência
aparece na capela de São Pedro (1988) e na loja Forma
(1987), anteriores à formação das equipes
de trabalho; é opaca e texturada na liberdade compositiva
da casa de sítio em Cabreúva, SP (1996); é
volumétrica na Galeria Leme (2004), é decorada
na Galeria Vermelho (2001), ambas em São Paulo; e,
finalmente, é virtual na filtragem da luz nas chapas
furadas das fachadas da garagem no Recife (2001).
Nesse sentido, Mendes da Rocha, quase octogenário,
além do seu proverbial entusiasmo, consegue renovarse
constantemente e demonstrar que a identidade arquitetônica
brasileira não é representada por um estilo
ou uma moda, mas está contida na paixão pela
beleza social, identificada com o rico e inesgotável
contexto natural e com a confiança no futuro e nas
jovens gerações, em sua multiplicidade racial
e cultural. Por isso têm atualidade as palavras de Walter
Benjamin: “A idéia de um progresso da humanidade na
história é inseparável da idéia
de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo.
A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto
a crítica da idéia dessa marcha”.

Museu de Arte Contemporânea da
Universidade de São Paulo, 1975
Bibliografia indicada
Artigas, Rosa (org.). Paulo Mendes da Rocha. Cosac Naify,
São Paulo, 2000.
Solot, Denise Chini. Paulo Mendes da Rocha. Estrutura: o
êxito da forma. Viana & Mosley, Rio de Janeiro,
2004.
Piñón, Helio. Paulo Mendes da Rocha. São
Paulo, Romano
Guerra Editora, 2002.
Montaner, Josep Maria. Mendes da Rocha. Introducciones.
Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1996.
Spiro, Annette. Paulo Mendes da Rocha. Bauten und
Projekte. Niggli, Zurique, 2002.
*Roberto Segre nasceu na Itália e
formou-se pela Universidade de Buenos Aires em 1960. Lecionou
em Havana, onde esteve radicado por muitos anos. Atualmente,
é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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