Roberto Segre*
Um modernista nostálgico
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Casa em Cabreúva, SP, 1996
 
Cobertura na praça do Patriarca,
São Paulo, 1992
 

Modernidade pluralista

Mendes da Rocha nunca foi uma “diva” individualista da arquitetura brasileira. Sua simplicidade, modéstia e bem-humorada personalidade - o brasileiro cordial de Sergio Buarque de Holanda -, caracterizada pelo low profile e pelo distanciamento das socialites paulistas, são contraditórias com a perseguição que, pela obtenção do Pritzker, move-lhe a mídia, sempre em procura de heróis e personagens para satisfazer a ansiedade informativa de consumo popular. Daí a falsificação da realidade profissional brasileira, ao identificar a produção arquitetônica com apenas dois mestres: Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha. Visão unidimensional (ou bidimensional) errada, que contradiz e nega a existência de muitos arquitetos talentosos da “velha guarda”, também reconhecidos internacionalmente, e o surgimento de uma nova geração cheia de entusiasmo e de paixão por manter firmes a qualidade e o simbolismo estético da arquitetura nacional. Quando revistas e jornais publicam o anúncio do recente prêmio, e afirmam que agora começou o renascimento arquitetônico e o seu prestígio universal, esquecem e apagam a difusão que obteve no ano passado (2005) a arquitetura brasileira em Paris, com a grande exposição no Instituto de Arquitetura da França, organizada por Lauro Cavalcanti, diretor do Paço Imperial do Rio de Janeiro.

Cabe assinalar que o fato fundamental que caracteriza a produção de Mendes da Rocha na última década é sua associação com um grupo de talentosos jovens arquitetos. Ele nunca organizou um escritório profissional de grande tamanho, com equipamento técnico sofisticado. Seu sistema criativo continua mantendo o desenho manual como a essência do projeto, elaborando riscos e gráficos que logo se transformam em planos de obra. É a persistência do arquiteto artesão, que subsiste em figuras como Clorindo Testa, Oscar Niemeyer, Rogelio Salmona ou Steven Holl.


Os novos elementos utilizados em sua linguagem são a mistura entre estrutura de concreto e de aço, a transformação das formas fechadas em abertas e o controle sutil da escala


Centro Cultura Georges Pompidou, Paris, 1971

Mas a diferença com Niemeyer é que, enquanto este não se vinculou ao ensino universitário e não formou discípulos em seu escritório, Mendes da Rocha, seguindo a tradição de Artigas, integrou a dinâmica do ateliê na FAU/USP com a participação de estagiários em seu escritório. Daí a recíproca e rica influência entre mestre e discípulos, através dos diálogos, seminários e debates. Assim ele transmite sua experiência, a metodologia de desenho, os truques construtivos, e os jovens dinamizam as soluções arquitetônicas com um olhar novo, descontraído, entusiasta, livre de preconceitos, como afirmou o mineiro Carlos Alberto Maciel, ao sustentar os conceitos do desenho em uma “retomada de um caminho silencioso de estudo de nossas tradições construtivas, especialmente vinculadas à produção moderna”. Ou seja, não é a modernidade “estilística”, mas a modernidade perene que se transforma com a vida e a cultura da sociedade atual.

A parceria com os escritórios MMBB, Piratininga e Metro integrou nas novas obras uma turma significativa de arquitetos. Entre eles, citemos Angelo Bucci, Fernando de Mello Franco, Marta Moreira, Milton Braga, Eduardo Colonelli, Kátia Pestana, Giancarlo Latorraca, Marcelo Laurino, Luciana Itikawa, Martin Corullon, Weliton Torres, Anna Ferrari, Gustavo Cedroni, Guilherme Wisnik, Stephan Baumberg, Carolina Castro, José Armênio de Brito Cruz, Renata Semin e João Paulo Beugger. Qual foi a influência deles na obra do mestre? Sem dúvida, maior liberdade expressiva e diversificação das tipologias funcionais. Pode-se falar de um retorno às caixas, que tinha desenvolvido no início de sua carreira no conjunto de casas projetadas. Mas não é a rígida caixa miesiana, e sim uma caixa multiforme, transparente, opaca ou translúcida: a transparência aparece na capela de São Pedro (1988) e na loja Forma (1987), anteriores à formação das equipes de trabalho; é opaca e texturada na liberdade compositiva da casa de sítio em Cabreúva, SP (1996); é volumétrica na Galeria Leme (2004), é decorada na Galeria Vermelho (2001), ambas em São Paulo; e, finalmente, é virtual na filtragem da luz nas chapas furadas das fachadas da garagem no Recife (2001).

Nesse sentido, Mendes da Rocha, quase octogenário, além do seu proverbial entusiasmo, consegue renovarse constantemente e demonstrar que a identidade arquitetônica brasileira não é representada por um estilo ou uma moda, mas está contida na paixão pela beleza social, identificada com o rico e inesgotável contexto natural e com a confiança no futuro e nas jovens gerações, em sua multiplicidade racial e cultural. Por isso têm atualidade as palavras de Walter Benjamin: “A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha”.


Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1975

Bibliografia indicada
Artigas, Rosa (org.). Paulo Mendes da Rocha. Cosac Naify,
São Paulo, 2000.
Solot, Denise Chini. Paulo Mendes da Rocha. Estrutura: o
êxito da forma. Viana & Mosley, Rio de Janeiro, 2004.
Piñón, Helio. Paulo Mendes da Rocha. São Paulo, Romano
Guerra Editora, 2002.
Montaner, Josep Maria. Mendes da Rocha. Introducciones.
Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1996.
Spiro, Annette. Paulo Mendes da Rocha. Bauten und
Projekte. Niggli, Zurique, 2002.

*Roberto Segre nasceu na Itália e formou-se pela Universidade de Buenos Aires em 1960. Lecionou em Havana, onde esteve radicado por muitos anos. Atualmente, é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 316 Junho de 2006

 
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