Anos 90 - Design gráfico

Os textos ficaram "sujos"

Os textos ficaram "sujos"

Se influenciou a identidade visual, a experimentação possibilitada pela computação fez-se sentir com mais força ainda no design editorial. O grito de liberdade dado por nomes como o ex-surfista David Carson, na Califórnia, ecoou pelo planeta e chegou ao Brasil nas sobreposições, fusões e recortes de imagens. "É praticamente irracional, nos dias de hoje, trabalhar em design gráfico de maneira constante e ordenada", argumenta um dos expoentes dessa bricolagem visual, Vicente Gil, autor de um dos livros lançados no período: A revolução dos tipos, resultado de tese de doutorado defendida na FAU/USP.

"Não estamos mais diante de coisas prontas e imutáveis, mas nos confrontamos com elementos que podem ser transformados a qualquer momento e em qualquer situação", diz Vicente. "Desculpem-me aqueles que querem um texto completamente limpo, sem emoções e sem uma reflexão sobre o que se está projetando, mas isso é como querer um texto sem significado formal, incapaz de prender o leitor. O texto, na sua representação gráfica, necessita de ideologia, subjetividade e emoção visual."

O próprio David Carson foi chamado para a reforma gráfica da revista Trip. A década, aliás, foi pródiga em redesigns de periódicos. Se o jornal O Globo foi atrás de Milton Glaser e a Exame Vip, de Roger Black, ambos nos EUA, a Folha de S. Paulo confiou a tarefa a Eliane Stephan, que recorreu a colegas estrangeiros (no caso, o alemão Erik Spiekerman) apenas para uma consultoria tipográfica. Todas as revistas praticamente passaram por renovações, mais ou menos radicais, em seus projetos gráficos.

Na esteira da legislação de incentivo fiscal, como a Lei Rouanet, o boom editorial dos chamados livros de arte propiciou projetos sofisticados e muito bem-cuidados. O segmento englobou de catálogos de artes plásticas a filões novos, como culinária, esportes e moda. Representantes expressivos são Ofélia, o sabor do Brasil, pretexto para Victor Burton fazer um ensaio visual sobre a cultura popular brasileira por meio de sua gastronomia; Futebol-arte - A cultura e o jeito brasileiro de jogar, em que Jair de Souza traz para as páginas aparentemente frias do livro a emoção dos estádios; e Alice, de Rico Lins, para a Zoomp - surpreendente sob todos os aspectos, uma expressão desse designer que trafega com desenvoltura e forte conteúdo autoral por tantas áreas.

Também nos livros de texto as editoras começaram a se abrir mais para as inovações propostas pelos artistas gráficos, especialmente nas capas. Basta lembrar de Estorvo, de Hélio de Almeida, e da série A ética, A paixão etc., de Moema Cavalcanti. O primeiro livro eletrônico brasileiro (um romance de João Ubaldo Ribeiro) teve projeto gráfico de outro designer muito ativo na área, João Baptista de Aguiar.
Não só os executivos das editoras passaram a considerar mais a importância da "boa embalagem" para disputar a atenção do comprador. Também os das gravadoras perceberam o peso crescente, num mundo de bombardeamento visual, de capas de CDs e livretes caprichados. As caixas que o estúdio carioca Pós Imagem fez para as obras completas de Chico Buarque e Caetano Veloso são exemplos.
Em todas essas áreas em que o suporte foi o papel, uma mudança técnica foi o barateamento e a facilidade no uso da impressão em cores. Como conseqüência, tudo se coloriu. "A impressão em preto e branco passa a ser um recurso, e não mais quase uma obrigação", observa Homem de Mello.


Texto resumido a partir de artigo de Adélia Borges
Publicado originalmente em PROJETODESIGN
Edição 253 março 2001
 
Rico Lins: revista Big Brazil e Alimentos Proibidos
 
Ofélia, o sabor do Brasil, pretexto para Victor Burton
produzir um ensaio visual sobre a cultura popular brasileira
 
A Ética, de Moema Cavalcanti:
abertura das editoras para
inovações propostas pelos
artistas gráficos
Reforma gráfica no jornal Folha
de S. Paulo:Eliane Stephan,
com consultoria do alemão
Erik Spi