Arthur Casas, Isay Weinfeld, Santos Georgescu e Triptyque
Design de móveis
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- 16 de Novembro de 2006. Visitas: 62.304
A incursão dos arquitetos na escala do objeto , do mobiliário, é tema de longa data. No Brasil, a geração moderna produziu móveis memoráveis, a exemplo do legado do estúdio Branco & Preto e das peças industriais de Sérgio Rodrigues e Michel Arnoult, entre tantos outros. Tanto como modelos de novas linguagens quanto como exercícios de otimização, seja de matéria-prima ou de processos produtivos, a concepção de móveis ilustra as ramificações disponíveis à atuação do arquiteto.
Mas também no cotidiano daqueles que criam edifícios e espaços, e não se especializaram no universo dos objetos, o desenho de mobiliário é atividade familiar e recorrente. Selecionamos para esta edição a produção atual de quatro escritórios brasileiros de arquitetura, que criaram estantes, mesas, aparadores e assentos, tanto como desdobramento de projetos arquitetônicos de sua autoria quanto por solicitação direta de fabricantes e empresas do setor.
Em Brasília, o escritório Santos Georgescu, dos arquitetos Horia Georgescu e Ana Gabriela Santos, procurou otimizar a ocupação da área de refeições de uma residência hipotética através da criação de linha versátil de mesa e cadeiras. Em virtude do giro de 180º de componentes planos, o conjunto pode abrigar quatro ou oito lugares, o que evita o superdimensionamento do espaço a que se destina.
O relato é sintomático da linguagem dos móveis dessa dupla do Distrito Federal, porque dele decorrem as idéias de funcionalidade e de distinção entre elementos estruturais e outros, não portantes. Ou seja, os dois tipos de madeira da Grilo são a andiroba, utilizada nos pés, portantes, e o freijó, encontrado no encosto, tampo e requadro do assento.
Percebe-se, ainda, certo desprendimento formal da linha, no sentido em que não se procurou dissimular os componentes ligados ao giro das peças. Assim, por exemplo, o assento projeta-se em balanço posterior no alinhamento das extremidades dos pés e encosto inclinados, um desenho com forte identidade.
Outro móvel desenhado por esses jovens arquitetos, para sua própria residência, e que tem igualmente produção em série é a estante Pente . Composta por prateleiras retangulares e montantes recortados horizontalmente, a cada 17,5 centímetros, a peça leva em consideração princípios estruturais arquitetônicos. “Os montantes são posicionados de forma que, no meio das prateleiras, o momento fletor seja mínimo. A relação entre balanço e vão deve aproximar-se das proporções de 1/5 e 3/5 do tamanho total da peça”, explicam Horia e Gabriela.
Em São Paulo, o também jovem escritório Triptyque, formado por Carolina Bueno e pelos franceses Greg Bousquet, Guillaume Sibaud e Olivier Raffaelli, assina o inusitado desenho de uma estante chamada Treme-Treme .
A questão enfrentada pelo desenho do móvel foi, originalmente, a da grande escala de implantação. Os arquitetos tinham como tarefa desenhar uma estante com 14 metros lineares, a ser instalada em apartamento da região central da cidade.
Foto: Arnold Baum Gartner
de lado Santos Georgescu, WR - Foto: Arnold Baum Gartner
Da qualidade pretendida para a interação espacial entre o móvel e o ambiente, assim como da paisagem vislumbrada através do recorte da janela, o denominado edifício Treme-Treme da rua Paim, surgiu então a estante da Triptyque.
“É uma peça de design que mexe com o espaço. Cada prateleira é única ”, relata Bousquet, referindo-se às inclinações e inflexões características da peça.
Programada em módulos , que integram colunas e prateleiras, a estante é feita de MDF laqueado na cor branca, e está disponível para comercialização em larguras diferentes, que variam de 2,20 a oito metros. Pode-se, opcionalmente, personalizar a pintura em série de combinações cromáticas.
Os fechamentos horizontais superiores e inferiores são, respectivamente, inclinados para cima e para baixo, o que gera interessante perspectiva.
Já Isay Weinfeld e Arthur Casas criaram recentemente série de móveis encomendados por fabricantes e empresas nacionais.
Weinfeld assina o aparador, biombo, bar, sofá e poltrona, entre outros objetos, que guardam estreitos vínculos com a particular relação entre irreverência e detalhismo, característica de sua obra arquitetônica. Constituído por três tipos diferentes e contrastantes de madeira, cedro, ipê e tauari, o aparador partiu do conceito de criação modular .
“Quis fazer um móvel que pudesse ser apresentado em diferentes medidas . Daí surgiu a idéia de fazer cada módulo em uma madeira, com função e abertura diversas”, relata o arquiteto. Também com linguagem descontraída, o bar, uma peça baixa, tem puxador acoplado à tira de couro que, em conjunto com os rodízios de madeira, faz com que a peça possa ser deslocada pelo ambiente.
No sofá e poltrona destacam-se o desenho e as proporções das bases metálicas, que têm arestas levemente arredondadas. Elas apresentam contraste com a simplicidade e as medidas enxutas do volume que é formado pelo assento e pelo encosto.
“Desenhar móveis é um desdobramento natural da profissão e, nesse sentido, a escolha dos materiais guarda forte relação com a produção atual do escritório nas áreas de arquitetura e interiores”, relata Casas. Assim, a sua mais recente linha de mobiliário utiliza freijó, proveniente do manejo sustentável, tecido de fibra natural produzido em sistema de cooperativa, latão e processos simplificados de montagem.
As peças de mobiliário de autoria de Santos Georgescu, Triptyque, Isay Weinfeld e Arthur Casas são produzidas ou comercializadas, respectivamente, pelas empresas WR, de Brasília, Mi Casa e Etel Interiores, de São Paulo, e Neo Design, de Belo Horizonte.
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETO DESIGN
Edição 320 Outubro de 2006

