Design gráfico

Bienal Tipos Latinos 2010

Pôster criado por Luciano Cardinali informa o leitor sobre as principais nomenclaturas da anatomia do tipo
Pôster criado por Luciano Cardinali informa o leitor sobre as principais nomenclaturas da anatomia do tipo
Mostra celebra a qualidade dos tipos latino-americanos
O desenho de letras é assunto para apaixonados. Muitas são as variantes da anatomia do tipo, guiadas por diretrizes ora técnicas, ora culturais, ora um misto de ambas. No Brasil, sem tradição na área, desde o fim da década de 1990 se tem produzido exposições, encontros e publicações sobre o tema, entre os quais se destaca a Bienal Tipos Latinos, que este ano completou sua quarta edição no país.

De origem argentina e realizada simultaneamente em vários países latinoamericanos, a Bienal Tipos Latinos ostenta em 2010 a conquista do público não especializado. Sua bem-sucedida apresentação no Centro Cultural São Paulo - dentre quatro edições brasileiras, esta é a segunda que se realiza no CCSP - teve índice de visitação que motivou até a prorrogação da mostra. “Uma bela surpresa”, comemora Cecília Consolo, coordenadora executiva da Tipos Latinos no Brasil, em uníssono com Luciano Cardinali, coordenador geral da exposição.

É extensa a programação de workshops e mesas-redondas que acompanham o evento. E, embora não sejam concedidos prêmios, pode-se dizer que a Bienal Tipos Latinos tem estrutura competitiva, pois os projetos passam pelo crivo de um júri multinacional, que define os participantes da mostra. A peneira é fina, e apesar da quantidade crescente de inscritos estipulou-se o número máximo de 70 trabalhos em exposição (este ano foram quase 700 inscritos, dos quais 450 efetivamente entregues).

Kukulkan, de Raúl Plancarte
Kukulkan, de Raúl Plancarte
(México, categoria família)
Espinosa Nova, de Cristóbal Henestrosa
Espinosa Nova, de Cristóbal Henestrosa
(México, categoria família)
 
Khubo, de Rodrigo Fuenzalida
Khubo, de Rodrigo Fuenzalida
(Venezuela, categoria experimentais)

O campo de atuação do designer tipográfico é vasto. Ele pode conceber desde a fonte com uma aplicação específica e limitada - para o título de uma peça publicitária ou a leitura confortável do texto de um livro ou jornal impresso - até projetos mais complexos, como a família tipográfica (sistemas com ao menos quatro variantes de estilo, mais símbolos e números) e os tipos experimentais, que flertam com as artes gráficas ao questionar a onipresente questão da legibilidade. Varia também o modo de atuação do designer, no limite do profissional que concebe, distribui e comercializa suas próprias criações.

Os organizadores brasileiros da bienal comemoram a habilidade que o evento teve, em sua jovem trajetória, para reunir os designers de tipo e criar no país um fórum de discussões sobre o tema, o que é comprovado pela quantidade e qualidade sempre crescentes dos projetos inscritos.

Tanto que o júri, diante da acirrada competitividade e do elevado nível dos concorrentes, concedeu este ano selos de excelência aos trabalhos que tiveram votação máxima nas duas rodadas do processo seletivo. No total, foram sete menções, livremente distribuídas entre as sete categorias.

O jurado brasileiro da bienal, o designer gráfico Fábio Lopez, há poucos anos causou rebuliço com o seu War in Rio, projeto conceitual baseado no jogo de tabuleiro War, substituindo o mapa múndi pelo intricado encadeamento das favelas cariocas. Ele comenta que há dois campos principais de análise das fontes, relacionados prioritariamente a questões técnicas ou culturais. De todo modo, “o que se avalia são aspectos como coesão dos estilos de uma mesma fonte, homogeneidade do peso visual entre eles, relação entre manchas tonais – como a do bold com a escrita normal”. Ele se refere à coerência pragmática e programática do projeto.

Sobre os tipos de excelência nesta quarta bienal, Lopez destaca: o refinamento das curvas, contornos e ligaduras da Monarcha (designer Isac Correa Rodrigues, Brasil, categoria família); a relação satisfatória entre os pesos visuais das variantes de estilo e a interessante construção do itálico da Kukulkan (Raúl Plancarte, México, categoria família); o diálogo entre as estruturas gótica e romana da Espinosa Nova (Cristóbal Henestrosa, México, categoria família); a delicadeza do desenho e o conjunto de ornamentos no estilo art nouveau da Brownstone (Alejandro Paul, Argentina, categoria título); também a inserção agradável de ornamentos sobre elementos tipográficos tradicionais na Carlota (Óscar Yáñez, México, categoria título); a pertinência do parâmetro cúbico e a qualidade dos cinzas e hachurados na alternância de estilos da Khubo (Rodrigo Fuenzalida, Venezuela, categoria experimentais); e a expressividade irreverente da Óptica Normal (Manuel Guerrero, México, categoria experimentais).

Uma nova categoria foi incorporada nesta edição da bienal: design com tipografias latino-americanas, que reúne exemplos de aplicação das fontes nos mais diversos meios. E novas mudanças devem estar a caminho. É provável que sejam suprimidas as categorias miscelânea e tela - “esta vai minguando: mudou completamente a tecnologia para o desenho do tipo, não mais se produz o bitmap a partir da forma vetorial, a menção ao pixel se tornou puramente estética”, comenta Lopez. “Houve uma mudança de perfil. Antes, na produção brasileira, predominavam as fontes experimentais, artísticas. Agora é relevante a participação dos trabalhos técnicos”, relata Cecília Consolo.

A relação completa dos projetos selecionados e dos jurados pode ser obtida no site www.tiposlatinos.com.


Texto de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 368 Outubro de 2010
Óptica Normal, de Manuel Guerrero
Óptica Normal, de Manuel Guerrero
(México, categoria experimentais)
Monarcha, de Isac Correa Rodrigues (Brasil, categoria família)
Monarcha, de Isac Correa Rodrigues (Brasil, categoria família)
Brownstone, de Alejandro Paul (Argentina, categoria título)
Brownstone, de Alejandro Paul (Argentina, categoria título)
Carlota, de Óscar Yáñez (México, categoria título)
Carlota, de Óscar Yáñez (México, categoria título)
 
Corvus, de Jonathan Cuervo Cisneros (México): a novidade é a coexistência de estilos tradicionais, o gótico e o romano
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Quincha, de Diego Sanz Salas (Peru): a construção da letra parte de variantes de pequenos blocos
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Verpix, de Roberto Robles Quiroz (México): remanescente da categoria fontes para tela
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Exemplo de aplicação da fonte Carlota, de Óscar Yáñez: publicidade veiculada na revista Elle, concebida por Yáñez e Ernesto Moncada
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Voces, de Ana Paula Bragança e Pablo Ugerman (Brasil): investiga os símbolos do Alfabeto Fonético Internacional
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Modelia Black, de Carlos Fabián Guerrero (Colômbia / Venezuela): estudo das letras vernaculares feitas a pincel
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Uruguay 1976, de Diego Cataldo e Sergio Rodríguez (Uruguai): envolve aspectos não tipográficos, mas políticos, de rememoração dos presos políticos entre 1973 e 1985
Uruguay 1976, de Diego Cataldo e Sergio Rodríguez (Uruguai): envolve aspectos não tipográficos, mas políticos, de rememoração dos presos políticos entre 1973 e 1985