Design gráfico

Exposição, São Paulo

75 capas da Elenco integraram a mostra
No total, 75 capas da Elenco integraram a mostra
Mostra resgata papel das capas de disco para o design brasileiro
Treze capas de disco no formato long-play (os LPs, com 12 centímetros de diâmetro e praticamente extintos no Brasil desde o início dos anos 1990) foram exibidas com pompa de obra de arte e objeto histórico na mostra Elenco - A Cara da Bossa, ocorrida no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Marcello Montore foi o responsável pela curadoria da exposição, que resulta da tese de doutorado defendida pelo designer em 2008.

Mostra e trabalho acadêmico, relata Montore, pretenderam preencher uma lacuna na historiografia do design gráfico brasileiro, relativa aos primórdios da criação de capas de discos. A atividade desde cedo teve desdobramentos em todo o território nacional, dada a rápida expansão do mercado consumidor no período posterior à Segunda Guerra Mundial, e até mesmo precedeu em quase duas décadas a institucionalização da profissão de designer no país - ou seja, o marco instaurador da atividade, nos anos 1950, quando foram criadas as primeiras escolas de design.

Amante da música, o designer escolheu como foco de seu trabalho historiográfico as capas produzidas entre 1963 e 1971 pela Elenco, uma gravadora independente criada no Rio de Janeiro pelo músico e empresário Aloysio de Oliveira (1914-1995). Embora tardias, se considerarmos o início da década de 1940 como o momento em que ilustradores, artistas plásticos e publicitários passaram a conceber o visual de discos de variados gêneros - ainda fabricados com dez polegadas de diâmetro -, tais peças, enfatiza Montore, merecem destaque porque foram inovadoras para a época.

O artista plástico César Villela, primeiro capista da Elenco, teve como grande mérito, segundo Montore, antecipar no produto fonográfico técnicas da fotografia e da tipografia que só posteriormente viriam a ser utilizadas pela indústria gráfica. E, de quebra, ele eternizou a simplicidade visual da bossa nova.

Nas capas de duas cores (preto e vermelho), amplo fundo branco e composição de viés tipográfico criadas nos primeiros anos da Elenco, Villela utilizou, por exemplo, em parceria com o fotógrafo Chico Pereira, recursos como a fotografia em alto-contraste (zonas claras e escuras bem marcadas) e a fotoletra (passagem para o negativo dos tradicionais tipos de madeira ou metálicos). Com eles, as capas das gravações da bossa nova se diferenciaram em relação à profusão de cores e estilos que dominava o mercado fonográfico na época.

A mostra é perpassada por uma base histórica. No painel de entrada, por exemplo, Montore informa o visitante sobre os principais avanços tecnológicos que transformaram o modo como a música gravada foi disponibilizada ao mercado consumidor, a partir do final do século 19. Desde os cilindros gravados até a atual música digital, os discos já tiveram apenas um ou dois lados gravados, de três minutos a cerca de uma hora de reprodução, foram embalados em envelopes genéricos, feitos com papel kraft, ou em plásticos sem identificação gráfica, assim como tiveram visual artístico, assinado por ilustradores e artistas plásticos. Em comum, tais fases testemunharam sempre a fragilidade da indústria fonográfica frente às inovações tecnológicas, situação atualmente acentuada pela distribuição digital de músicas pela internet.

Mostra da Elenco exibe capas de discos de vinil
Mostra da Elenco exibe capas de discos de vinil
Chapeuzinho Vermelho, 1949, ilustração de Alceu Penna
A Continental foi a primeira gravadora brasileira a criar capa que fazia referência ao disco: Chapeuzinho Vermelho, 1949, ilustração de Alceu Penna
Reproduções dos envelopes genéricos, feitos com papel kraft, com que os discos eram comercializados no Brasil no início do século 20
Reproduções dos envelopes genéricos, feitos com papel kraft, com que os discos eram comercializados no Brasil no início do século 20
Na primeira sala da exposição, as capas da bossa nova foram ambientadas por painéis sobre a história da indústria fonográfica
Na primeira sala da exposição, as capas da bossa nova foram ambientadas por painéis sobre a história da indústria fonográfica
A exposição Elenco - A Cara da Bossa esteve em cartaz em São Paulo de dezembro de 2009 ao final de fevereiro de 2010 e deverá circular por outras capitais brasileiras.


Texto de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 361 Março de 2010
Painéis sobre a história da indústria fonográfica
Painéis sobre a história da indústria fonográfica
As primeiras 13 capas da Elenco tiveram design gráfico e ilustração de César Villela
As primeiras 13 capas da Elenco tiveram design gráfico e ilustração de César Villela, que trabalhou em parceria com o fotógrafo Chico Pereira. Nelas, foi recorrente a composição de cunho tipográfico, a impressão em duas cores (preto e vermelho) e o uso descontraído do círculo vermelho que caracteriza o logotipo da gravadora, também criado por Villela