Design Ecológico
Lixo para todos
 
A expansão da sociedade de consumo e do uso de produtos descartáveis associaram o progresso material à geração de lixo.
Na contramão dessa tendência, designers de todo o mundo têm se empenhado na valorização de produtos naturais, na reciclagem de materiais e no reaproveitamento de bens industriais.

No Brasil, alguns designers engrossam esse movimento. Exemplos dessa produção estiveram reunidos na exposição Novos Alquimistas, organizada pela jornalista Adélia Borges.

Muito antes da intervenção dos designers, a população carente do país já praticava a reciclagem do lixo na forma de utensílios domésticos, brinquedos e mobiliários. No catálogo da exposição montada no Itaú Cultural, em São Paulo, entre novembro de 1999 e fevereiro de 2000, explica-se que essa criatividade era movida pela dificuldade de acesso aos bens da sociedade de consumo. Parece óbvio, mas a explicação é certamente necessária para estrangeiros e alguns extraterrestres que vivem no Brasil.

Mãos engenhosas transformam latas velhas e sucatas variadas em bules, bacias, canecas, floreiras, lamparinas. Os designers brasileiros reunidos nesta exposição exercem outro tipo de transformação. “Eles são capazes de extrair a qualidade poética de materiais banais para compor com eles objetos úteis e expressivos”, afirma Adélia.

Os materiais utilizados nesse processo de transformação integram três grupos. O primeiro inclui coisas da natureza, como gravetos e cascas de árvores, palha de milho e sementes. No segundo estão materiais já usados, como tampinhas de refrigerantes e embalagens variadas (garrafas de vidro ou de plástico, latas de cerveja, papelão tetrapack do leite longa vida).

No terceiro, produtos industriais baratos, fabricados em larga escala: ralos de esgoto, canudinhos de refrigerante, bolinhas de borracha, barbantes, papéis e papelões, plásticos, pratos de vidro, coadores de plástico, utensílios de cozinha.

A carioca Tereza Xavier faz sucesso no mercado internacional com jóias que combinam sementes brasileiras com pedras e metais preciosos. Em 1998, venceu o Diamonds International Award com um fio de palha trançada salpicado de diamantes brancos.

Outro carioca formado em São Paulo é Renato Imbroisi, que trabalha com tecidos e cestos produzidos artesanalmente. Imbroisi eleva o grau de sofisticação de seus produtos ao utilizar, em seus teares manuais, cascas e galhos de árvores ao lado de fios naturais e sintéticos.

Daniela Moreau, formada em São Paulo, também nasceu no Rio de Janeiro e também trabalha com teares manuais. Há alguns anos montou uma oficina de tecelagem em Santo Antônio do Pinhal, interior paulista. Ali, produz mantas, colchas e xales com algodão orgânico. Na exposição do Itaú Cultural, exibe belos tecidos, macios e agradáveis ao toque, produzidos com um fio sintético obtido a partir da reciclagem de garrafas plásticas de refrigerante.

Outros exemplos de reciclagem podem ser encontrados nas luminárias Eletra e Babel, de Júlio Sannazzaro, produzidas com garrafas azuis de vinhos alemães baratos. Ou no aglomerado de tetrapack, feito com embalagens longa vida usadas e aplicado na tampa do Criado-Lata, desenhado por Flávio Verdini, Júlio Sannazzaro e Sandro Verdini. Ou ainda, nos sofisticados objetos de vidro feitos por Eduardo e Beth Prado a partir de um aglomerado de cacos.

No terceiro grupo dos novos alquimistas estão os designers que subvertem a função original de materiais e componentes industriais. Os irmãos Humberto e Fernando Campana produziram uma mesa de refeição com tampo formado por ralos de esgoto. O pernambucano Maurício Castro, o paulista Eduardo Alves Jorge e o espanhol Imanol Ossa criaram luminárias utilizando pratos de vidro ou utensílios de cozinha.

O designer Valter Bahcivanji também recorreu a um banal utensílio de cozinha, de plástico branco, para obter uma curiosa luminária. Além deles, participaram da mostra o estilista paraense Lino Villaventura (vestidos e adornos com escamas de peixe, palha e barbante) e o designer paulista Nido Campolongo (bolsas de papel feitas com canudinhos coloridos de folhas de revistas e papelão reciclado).

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 240 Fevereiro 2000
 
Valter Bahcivanji
Luminária 1 Kiluz: conchas de poliopropileno
utilizadas na pesagem de alimentos
 
Maurício Castro, Eduardo Jorge e Imanol Ossa
Luminária obtida com a combinação de pratos e utensílios
de plástico, peneira metálica e outros objetos de cozinha
 
Júlio Sannazzaro
Luminária Babel, produzida
com garrafas azuis de vinho
 
Eduardo e Beth Prado
Bowl Gotas, com cacos de vidro aglutinados
 
Daniela Moreau
Mantas confeccionadas com fio de garrafas PET
pós-reciclado nas cores originais das garrafas
 
Tereza Xavier
Pulseira de sementes brasileiras
 
Flávio Verdini, Júlio Sannazzaro e Sandro Verdini
Criado-Lata, com tampo da gaveta em aglomerado
tetrapack, feito com embalagens longa vida usadas
 
 
Renato Imbrosi
Tecidos de algodão com gravetos
 
Humberto e Fernando Campana
Mesa: ralos, com estrutura metálica
e tampo de ralos de plástico
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