Design efêmero    
       
 
  Identidade visual aplicada ao Sónar Sound São Paulo
       
 
Signos efêmeros
 

Com suas multidões, ampla divulgação e permanência no imaginário dos espectadores, os megaeventos de música são terreno fértil para o design estratégico, que comunica a identidade e os atributos da marca. Esses trabalhos têm se firmado como uma promissora área para o design efêmero.

O design é efêmero no sentido de passageiro, de tempo limitado de duração. Deriva, porém, de um complexo sistema criativo, a que alguns escritórios brasileiros se dedicam há pelo menos dois anos.

Com mais de 15 anos de atividades, a empresa carioca Tátil Design desenvolve projetos para as marcas Nokia Trends e Tim Festival, entre outras. “Elas são plataformas de contato com o público e grandes antenas direcionadas ao entretenimento”, comenta o diretor de criação Fred Gelli.

Para a Nokia Trends, os trabalhos da Tátil começaram em meados de 2003, quando foram criados o nome, a marca e a identidade visual, e evoluíram, em 2004, para a direção de arte e design dos eventos iniciais. O primeiro deles, denominado Big Beach Brasil - uma derivação do festival inglês Big Beach Boutique, comandado pelo DJ Fatboy Slim -, levou às areias da praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, mais de 100 mil pessoas. Foi uma grande oportunidade de exposição do conceito.

“Trata-se de uma marca musical, com sonoridade”, explica Gelli, o que é confirmado pela linguagem de seu símbolo, que parece na iminência de ganhar movimento. Com desenho orgânico, ele adquire formas múltiplas nas mais diversas aplicações, como no web design, em vinculações publicitárias, entre anúncios de revistas, outdoors e folhetos, assim como nas próprias peças e áreas de ambientação dos eventos.

No Big Beach Brasil, as areias cariocas foram cercadas por peças aéreas, como painéis coloridos e objetos infláveis, que se destacavam pelo alto grau de leitura e contraste, tanto durante o dia como à noite. Nas áreas vip, o elemento articulador era um painel com a aplicação do nome e variantes do símbolo da marca, superfície caracterizada pela transição de cores em iluminação e revestimentos.

Além dessas áreas tradicionais de ambientação, principalmente o palco e salas de convívio e descanso, denominadas lounge, o evento inaugural da Nokia Trends apresentou o imenso universo de objetos e peças que integram o projeto da Tátil.

Entre eles figura a papelaria do evento, com convites, folhetos ilustrativos e de divulgação; objetos promocionais, como camisetas, cadernos, canetas e utilitários; peças de mobiliário, que incluem balcões de venda e grandes sofás, e de sinalização, como testeiras dos restaurantes, dos palcos e das entradas dos eventos; e, por fim, a direção de arte do web design e das videografias.

Estas veiculam imagens de arte digital e informações sobre o evento, transmitidas, por todo o espaço, por meio de telões.

“Nosso principal papel é administrar a identidade da marca, ajustar e tornar proporcional o seu grau de exposição em relação aos parceiros de cada edição”, define Gelli.

Assim, por exemplo, no evento posterior da Nokia Trends, o Sónar Sound São Paulo, ocorrido no início de setembro na capital paulista, as placas de sinalização tinham desenho tripartido e aplicação semelhante, ou seja, na mesma linguagem e dimensões para ambas as marcas - no caso do Sónar, a marca da versão itinerante do evento de música eletrônica, criado em Barcelona há 11 anos.

O Sónar Sound São Paulo teve duração de três dias e três noites - como destacam os organizadores - e dividiu as atrações em dois endereços. A sede diurna, no Instituto Tomie Ohtake, abrigou shows, discotecagem, mostra de cinema, exposição, instalações multimídias, feira discográfica e ciclo de debates; na sede noturna, a casa de espetáculos Credicard Hall, ocorreram apresentações principais.

O envolvimento de cerca de 1,5 mil pessoas na produção indica sua complexidade. A principal atribuição da Tátil foi a direção de arte, pela qual “padronizamos as diretrizes gráficas, que orientam os diversos projetos dos pontos de visualização, como a comunicação, desenvolvida por uma agência de publicidade, as estruturas temporárias e demais itens de ambientação”, explica Gelli.

Esse trabalho de direção conferiu às atrações e espaços do Instituto Tomie Ohtake um caráter “calmo” e ao Credicard Hall “linguagem mais exuberante”, com telões e projeções multimídias, desde a fachada do edifício até o fechamento das estruturas temporárias. “A matriz de identidade visual é o único fator não efêmero em todo o processo”, avalia o designer.

A Tátil desenvolve ainda projetos de design efêmero para o Prêmio Tim, o que incluiu o desenho de suas logomarcas. Em julho passado, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a edição 2004 da premiação contou com projetos da agência para os convites, troféu, material de imprensa, livreto com a programação, sinalização e fachada do edifício, todos conceituados pela imagem de um caleidoscópio. O homenageado do ano foi o cantor Lulu Santos.

E para edição 2004 do Tim Festival, evento que substituiu o tradicional Free Jazz e aconteceu no início de novembro, no Jockey Club de São Paulo, Gelli e sua equipe estão se baseando no conceito de invasão da cidade.

“Uma invasão que tem como idéia o movimento cíclico, de convergência e propagação, e, portanto, influenciou a criação de imagens fluidas, manchas coloridas em expansão. Em síntese, trata-se do conceito visual de invasão da cidade pela explosão de cor e de luz”, ele define.

Esses projetos correspondem a uma nova fase do escritório carioca, que cresceu muito - atualmente conta com 85 funcionários - e está prestes a ampliar sua unidade paulista. Mas Fred Gelli os define “como uma extensão de nossa produção inicial, quando já criávamos sistemas de experimentação das marcas. De press kits, esses trabalhos evoluíram ao ponto-de-venda e, agora, aos megaeventos”.

Fora do eixo Rio-São Paulo, outras iniciativas reforçam o potencial de mercado do design efêmero. Um exemplo é o evento Tudo é Jazz, realizado em Ouro Preto e que tem três anos de existência. Sua logomarca foi criada em 2002 pelo designer Guilherme Seara; e, desde a segunda edição, a agência mineira For Ilimitada é quem desenvolve seu conceito visual.

Em 2004, tirou-se partido da iconografia arquitetônica de Ouro Preto, com o recurso ao alto-contraste, e a ela foram contrapostas silhuetas de músicos e seus instrumentos, explica Marcus Barão, diretor de arte da agência.


Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 297 Novembro de 2004

 

 
 
 
 
 
A identidade visual aplicada ao Sónar Sound São Paulo tirou partido da linguagem exuberante, em que projeções multimídias e cores fortes da ambientação interagiam com grande contraste
 
 
 
 
 
A ambientação do Sónar Sound São Paulo
no Instituto Tomie Ohtake teve caráter “calmo”,
destaca o designer Fred Gelli
 
Em áreas como o lounge Nokia, no Sónar Sound São Paulo, prevaleceu a linguagem colorida e diversificada que
caracteriza a identidade visual da marca
 
   
   
  O Big Beach Brasil, evento inaugural da marca Nokia Trends, foi a primeira grande oportunidade de visualização do complexo trabalho elaborado pela Tátil Design   Além da marca, da identidade visual e das peças
de sinalização e ambientação, a agência criou grande
número de objetos promocionais
       
   
  Para o Prêmio Tim de 2004, a Tátil baseou-se no conceito de caleidoscópio, enquanto figura mutante   A identidade visual apresentou zonas coloridas
em desenhos aleatórios
       
   
   
 
  Peças de comunicação do evento mineiro Tudo é Jazz, que tem identidade visual desenvolvida pela agência For Ilimitada O conceito gráfico parte da contraposição da arquitetura
de Ouro Preto a silhuetas de músicos e instrumentos
       
   
       
 
  As peças iniciais de comunicação do Tim Festival São Paulo 2004 evidenciam o conceito gráfico de invasão da cidade
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