Michel Arnoult
Mobiliário
 
As últimas criações de Arnoult
 

A produção de móveis poderia ser assunto passageiro na vida de Michel Arnoult. Mas esse francês que estreou na profissão como uma espécie de prisioneiro de guerra e, desde a década de 1950, elegeu o Brasil como segunda pátria dedicou-se integralmente ao desenho e à fabricação seriada de mobiliário de elevada qualidade e baixo custo. Arnoult morreu em abril, em São Paulo. Seus últimos projetos foram três linhas de móveis, que estão prestes a ser lançadas.

As três linhas de mesas, cadeiras e poltronas se encontram em fase de lançamento pela KPK Interiores. A empresa, sediada em Atibaia, interior paulista, dedica- -se ao desenvolvimento e fabricação em grande escala de peças criadas por designers e arquitetos. Arnoult concebeu a Gwen e a Garden ao longo de 2004 e a Trio ainda no início de 2005.

O arquiteto Francisco Leal Passos, diretor da KPK, ressalta o elaborado processo criativo do designer, que, “além de detalhado projeto executivo, habilmente desenhado à mão na escala 1:1, projetava ainda através de pequenos modelos por ele mesmo executados”. As novas linhas se baseiam em um único elemento construtivo: réguas de eucalipto reflorestado, com cerca de sete centímetros de largura e 22 de comprimento. “Era impressionante a habilidade de Arnoult em criar inúmeras variantes a partir de um dado constante”, relata Passos.

As últimas criações de Arnoult estão sintonizadas com a idéia de móvel desmontável e componível - que ele começou a desenvolver já em meados da década de 1950 - e a preocupação com a sustentabilidade, que marcou seu trabalho a partir da década de 1990. Elas apresentam desenhos diferenciados para áreas residenciais internas e externas.

A Trio é composta por cadeiras com e sem braço, além de banco e mesa quadrada, que pode ser ampliada e adquirir desenho retangular a partir da inserção de módulos independentes de tampo. A junção entre as peças estruturais é a mesma em toda a linha, através de encaixe cavilhado para agilizar o processo produtivo, explica Passos.

Constituídas por quadros laterais e travessas de traçado retilíneo, as cadeiras Trio têm encostos e assentos em chapa de compensado com desenho curvo, o que, segundo Passos, é característica recorrente nas linhas desenvolvidas por Arnout para interiores. Esses elementos são revestidos por laminado melamínico nas cores primárias. Embora a linha Gwen tenha cadeira e poltrona com encosto e assento também curvos, desenho e dimensionamento a diferem completamente da Trio.

Destaca-se, nesse caso, a independência entre as chapas arredondadas de compensado, pintadas na cor preta e com acabamento fosco, e os requadros laterais que servem de estrutura e de base às peças.

Já a linha Garden foi idealizada para áreas externas, “o que define sua linguagem mais sóbria, com traçado retilíneo e inclinações proeminentes”, comenta Passos. Composta por mesa, cadeira e poltrona, ela também utiliza réguas de eucalipto reflorestado, pintados com tinta poliuretano na cor branca. A exemplo da constante preocupação de Arnoult com a facilidade de transporte e manejo de suas peças, a mesa tem pés em forma de C que, desmontados, enquadram-se nos limites do tampo. O lançamento da Garden estava previsto para o final de maio.

Além do processo construtivo, as três linhas têm em comum o apelo popular, no sentido de baixo custo de produção, ao qual Arnoult dedicou boa parte de sua carreira. “Elas andam na contramão de Milão”, comenta Passos, referindo-se ao que o designer certa vez denominou de conforto duro de suas peças. “Trata-se do design conhecido como pó-de-serra, sem inclinação blasé. O designer privilegiava a execução, debatia de fato suas criações com o marceneiro ou com a indústria que as produziria”, ele complementa.

Além das novas peças, as poltronas Pelicano e Peg Lev terão novos destinos a partir de 2005. A primeira, vencedora da categoria mobiliário na 17ª edição do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira, em 2003, será comercializada também pela KPK. A diferença em relação à versão encontrada na rede de varejo Tok & Stok é que serão introduzidas opções coloridas nas lonas da espécie de rede que conforma o assento da poltrona. Além disso, serão comercializadas as psoltronas de balanço e as poltronas sem braço, que compõem jogos de dois ou mais assentos se associadas à versão com braços.

Já a Peg Lev, criada na década de 1970, será relançada pela paulistana Dpot. Selecionada pela designer Baba Vacaro, responsável pela linha 2005 da loja, a peça integrará uma série composta por móveis históricos projetados por importantes profissionais do Brasil.

Uma rápida vista no conjunto dos atuais lançamentos de Michel Arnoult enfatiza a persistência do tema que foi recorrente em sua carreira: a busca pela democratização do design acima de qualquer vaidade criativa, defendida de forma veemente. “É verdade, eu faço o mesmo programa há 30 anos, com a paixão da madeira e do produto bem-feito. Não me interessa essa busca da novidade. Aliás, a evolução do mobiliário é zero. Desde Tutancâmon a cadeira como projeto é a mesma”, afirmou o designer.

Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 304 Junho de 2005

 
 
 
 
 
Linha Trio
 
Linha Gwen
 
 
Linha Garden
 
Poltrona Peg Lev
 
Poltrona Pelicano
 
  
 
 Modelos em miniatura produzidos por Michel Arnoult entre 2004 e 2005
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