Volkswagen do Brasil
Design automobilistico
  
    
 
 O modelo Fox, lançado em meados de 2003, passou a ser exportado para a Europa já no início de 2004. A idéia de compacto esportivo fez com que o design partisse dos interiores para o exterior do veículo, processo denominado Designed Around Passengers
    
 
Desenho e engenharia “brigam”
por todos os milímetros de criação
 

O gerente de Design da Volkswagen do Brasil, Gerson Barone, considera-se um arquiteto frustrado. É nesse tom descontraído que o designer industrial, formado pela Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo, fala sobre sua missão de coordenar as áreas de tecnologia, criação e acabamentos, que integram a equipe brasileira de uma das mais importantes montadoras mundiais de automóveis.

São necessários ao menos 38 meses para o desenvolvimento de um novo modelo, período em que designers, engenheiros e arquitetos podem, literalmente, “brigar por todos os milímetros de suas criações”, comenta Barone - observação reveladora do elevado nível de complexidade que envolve o processo do qual resulta um veículo. E cada detalhe, independentemente da escala, deve ser minuciosamente desenhado, testado e analisado. Como exemplo, Barone relembra que, no projeto do Cross Fox, a fabricação de uma peça do painel frontal teve que ser completamente reformulada porque o acabamento texturizado poderia desfiar tecidos delicados.

No entanto, existem etapas de criação bem definidas. A partir de um briefing - que pode vir da matriz alemã, de equipes de marketing, da diretoria, entre outros -, o desenvolvimento do novo veículo tem início no setor de Package. Nessa fase são definidos os parâmetros iniciais, volumétricos e mecânicos, como potência do motor, tração, distância entre eixos e chassis. O briefing dá subsídios à linguagem do veículo, ou seja, qual será sua capacidade de passageiros, finalidade de uso e público estimado, entre outras informações - que, por sua vez, são quantificadas em pré-requisitos mecânicos e ergonômicos.

Ao mesmo tempo, essas premissas estruturais são acompanhadas por abrangente processo de pesquisas, de estudos de campo, que envolve todas as áreas do design. “Como os projetos são sempre muito longos, temos que antever os cenários cultural, social, econômico e tecnológico do lançamento do automóvel”, explica Barone.

O Fox, por exemplo, modelo totalmente criado e produzido no Brasil, é direcionado ao público jovem, que alterna o uso urbano com o lazer fora da cidade. Por isso seu conceito de utilitário esportivo compacto partiu do requisito de transporte confortável de cinco passageiros. Mudanças na posição do assento do motorista - elevado 60 milímetros e deslocado para a frente outros 29 milímetros - propiciam mais espaço para os passageiros do banco traseiro. A posição elevada, por sua vez, amplia a visibilidade e a sensação de segurança para quem dirige.

Em seguida, os profissionais do Design Shape dão início à acirrada concorrência interna. Os 12 integrantes do quadro atual da equipe iniciam suas criações das mais variadas formas, “em clima de guerra”, brinca Barone. Pequenos croquis, grandes perspectivas, o detalhe de uma lateral, o perfil de um farol, de uma maçaneta, entre outros belos desenhos, quase sempre feitos à mão, convivem lado a lado no extenso painel negro que interliga todas as mesas de trabalho.

É nessa fase, portanto, que os requisitos do package ganham forma, volume, “emoção”, complementa Barone. Os componentes esportivo, de aventura e jovial do briefing do Fox, por exemplo, deram margem à criação de design externo elevado, coluna frontal inclinada, acompanhando o desenho do teto, traseira truncada para sugerir a dimensão compacta, capô com fortes vincos para transmitir a idéia de força e fluidez, assim como interiores de design simples, com poucos elementos.

Com essas idéias em mente, os esboços dos designers evoluem para o clay. Trata-se de uma maquete maciça modelada na escala 1:4 com argila especial, que é rígida à temperatura ambiente, e partida ao meio para que duas versões distintas do mesmo veículo sejam visualizadas através da reflexão em um espelho central longitudinal. Essas maquetes são submetidas à análise dos responsáveis pelo projeto e ao menos duas delas seguirão para a etapa seguinte, que se denomina alisamento matemático de superfícies.
Desenvolvida pela equipe do Design Services, essa fase trata da correção de imperfeições ergonômicas ou de execução do clay, e é realizada com a interferência de um software específico. As fotografias dos modelos são transformadas em superfícies vetoriais, processo conhecido como fotogrametria. Essas superfícies terão os contornos e curvaturas “alisados”, corrigidos através do computador. “Essa etapa é fundamental porque os designers sempre tentam ganhar milímetros, mas nós não podemos permitir que o usuário bata a cabeça no teto porque há pouco espaço interno”, ilustra Barone. Além da verificação ergonômica e formal, o alisamento matemático possibilita o estudo de reflexos, ou seja, a análise da interação da forma do veículo com cores e iluminação.

Finalizada essa etapa, são construídos novos modelos, agora na escala 1:1. Denominados DKM, eles têm detalhes de acessórios, pintura e efeitos de luminosidade, entre outros pormenores. Ficam expostos em um dos pátios que contornam o Departamento de Design e, após a escolha final, é realizado novo alisamento matemático. Faltam, nesse estágio, cerca de 19 meses para o lançamento do veículo e os membros do Design Services passam a fornecer as matrizes para a produção das peças, sejam elas executadas na própria fábrica ou por empresas terceirizadas.

A equipe de Color & Trim ainda tem, nessa etapa, grande trabalho pela frente. Isso porque falta definir os detalhes de acabamento, como textura visual e tátil de peças plásticas e tecidos, assim como cores e padronagens.

Os modelos Fox e Cross Fox, por exemplo, buscaram inspiração em elementos naturais, o que é expresso por texturas de orvalho, couro e mata em tecidos e peças plásticas. Como o tecido importado necessário à aplicação dessas texturas era inviável financeiramente, a equipe pesquisou e viabilizou a alternativa de produção com a fibra de abacaxi. “A finalidade do design na Volkswagen é buscar novas soluções, novos materiais, desenvolver tecnologia compatível ao contexto local, em vez de simplesmente importar soluções”, conclui Barone.

Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 308 Outubro de 2005

 
O modelo Fox, lançado em meados de 2003, passou a ser exportado para a Europa já no início de 2004. A idéia de compacto esportivo fez com que o design partisse dos interiores para o exterior do veículo, processo denominado Designed Around Passengers
 
Designer trabalhando no modelo em escala 1:1
 
O Fox Europa tem como diferenciais a grade dianteira, em que
a marca VW teve contornos acentuados, detalhes de lanternas e a cor amarela, de grande aceitação no mercado externo
 
O design interno do Fox tem linguagem simples,
de poucos elementos
 
O volante tem regulagem de altura opcional
 
O painel de instrumentos concentra todas as informações
e o desenho facilita a leitura pelo usuário
 
 
Modelo conceitual Fox Pepper, divulgado pela Volkswagen do Brasil antes mesmo do lançamento do Fox
 
A suspensão e os pneus fazem com que o modelo Cross seja elevado 53 milímetros em relação ao Fox. Robustez e agressividade são, ainda, realçadas pela exclusiva pintura prata satim. Ela recobre o quebra-mato integrado ao pára-choque, assim como o rack de teto, os faróis de longo alcance, os estribos e as molduras laterais
 
A haste de controle junto ao motorista permite fácil
acesso aos comandos de iluminação
 
Detalhe da traseira do Cross Fox: abertura da alavanca que acomoda o pneu reserva
 
A haste de controle junto ao motorista permite
fácil acesso aos comandos de iluminação
Aproveitamento de espaços: o vão abaixo do controle do
ar-condicionado pode receber um porta-CDs
 
Imagem do evento de divulgação
do Cross Fox, no Rio de Janeiro
 
O banco traseiro pode ser deslocado sobre trilhos,
de forma a permitir tamanhos variáveis de porta-malas
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