Arthur Casas, Isay Weinfeld, Santos Georgescu e Triptyque
Design de móveis
 
  Poltrona com estrutura em ipê e tecido de fibra natural, Arthur Casas, Neo Design
 
Sistemas versáteis definem mobiliário criado por arquitetos
 

A incursão dos arquitetos na escala do objeto, do mobiliário, é tema de longa data. No Brasil, a geração moderna produziu móveis memoráveis, a exemplo do legado do estúdio Branco & Preto e das peças industriais de Sérgio Rodrigues e Michel Arnoult, entre tantos outros. Tanto como modelos de novas linguagens quanto como exercícios de otimização, seja de matéria-prima ou de processos produtivos, a concepção de móveis ilustra as ramificações disponíveis à atuação do arquiteto.

Mas também no cotidiano daqueles que criam edifícios e espaços, e não se especializaram no universo dos objetos, o desenho de mobiliário é atividade familiar e recorrente. Selecionamos para esta edição a produção atual de quatro escritórios brasileiros de arquitetura, que criaram estantes, mesas, aparadores e assentos, tanto como desdobramento de projetos arquitetônicos de sua autoria quanto por solicitação direta de fabricantes e empresas do setor.

Em Brasília, o escritório Santos Georgescu, dos arquitetos Horia Georgescu e Ana Gabriela Santos, procurou otimizar a ocupação da área de refeições de uma residência hipotética através da criação de linha versátil de mesa e cadeiras. Em virtude do giro de 180º de componentes planos, o conjunto pode abrigar quatro ou oito lugares, o que evita o superdimensionamento do espaço a que se destina.

 
A estante Pente tem montantes recortados a cada 17,5 centímetros.
 
  A estante Pente tem montantes recortados a cada 17,5 centímetros. Essa medida possibilita o armazenamento de CDs e livros, conforme aumenta o distanciamento entre prateleiras, Santos Georgescu, WR
 

Ou seja, através de dobradiças especiais, com dois eixos e inteiramente embutidas, a mesa retangular pode adquirir desenho quadrado, com lados de 1,80 metro, enquanto a cadeira é desdobrável em banco para dois lugares. Denominadas Grilo, essas peças são feitas com madeira e palhinha e, desde o início de 2006, entraram em produção seriada. “Nos agradam os móveis desenhados por arquitetos por neles reconhecer, em escala reduzida, os princípios de sistemas estruturais arquitetônicos”, comentam os autores.

O relato é sintomático da linguagem dos móveis dessa dupla do Distrito Federal, porque dele decorrem as idéias de funcionalidade e de distinção entre elementos estruturais e outros, não portantes. Ou seja, os dois tipos de madeira da Grilo são a andiroba, utilizada nos pés, portantes, e o freijó, encontrado no encosto, tampo e requadro do assento.

Percebe-se, ainda, certo desprendimento formal da linha, no sentido em que não se procurou dissimular os componentes ligados ao giro das peças. Assim, por exemplo, o assento projeta-se em balanço posterior no alinhamento das extremidades dos pés e encosto inclinados, um desenho com forte identidade.

Outro móvel desenhado por esses jovens arquitetos, para sua própria residência, e que tem igualmente produção em série é a estante Pente. Composta por prateleiras retangulares e montantes recortados horizontalmente, a cada 17,5 centímetros, a peça leva em consideração princípios estruturais arquitetônicos. “Os montantes são posicionados de forma que, no meio das prateleiras, o momento fletor seja mínimo. A relação entre balanço e vão deve aproximar-se das proporções de 1/5 e 3/5 do tamanho total da peça”, explicam Horia e Gabriela.

Em São Paulo, o também jovem escritório Triptyque, formado por Carolina Bueno e pelos franceses Greg Bousquet, Guillaume Sibaud e Olivier Raffaelli, assina o inusitado desenho de uma estante chamada Treme-Treme.

A questão enfrentada pelo desenho do móvel foi, originalmente, a da grande escala de implantação. Os arquitetos tinham como tarefa desenhar uma estante com 14 metros lineares, a ser instalada em apartamento da região central da cidade.

 
A cadeira Grilo tem assento giratório, propriedade que a transforma em banco de dois lugares, Santos Georgescu, WR
Foto: Arnold Baum Gartner
 
A mesa Grilo tem tampo duplo que, através do giro de 90º e da abertura de 180º, ganha a dimensão quadrada de 1,80 metro
de lado Santos Georgescu, WR - Foto: Arnold Baum Gartner
 
  Exemplo da versatilidade da linha Grilo, na opção cadeira e banco Santos Georgescu, WR - Foto: Arnold Baum Gartner
 

Com tamanha dimensão, a peça não poderia se concentrar em única parede, mas, ao contrário, teria de percorrer grande parte das superfícies do ambiente, contornando inclusive uma grande janela.

Da qualidade pretendida para a interação espacial entre o móvel e o ambiente, assim como da paisagem vislumbrada através do recorte da janela, o denominado edifício Treme-Treme da rua Paim, surgiu então a estante da Triptyque.

“É uma peça de design que mexe com o espaço. Cada prateleira é única”, relata Bousquet, referindo-se às inclinações e inflexões características da peça.

Programada em módulos, que integram colunas e prateleiras, a estante é feita de MDF laqueado na cor branca, e está disponível para comercialização em larguras diferentes, que variam de 2,20 a oito metros. Pode-se, opcionalmente, personalizar a pintura em série de combinações cromáticas.

Os fechamentos horizontais superiores e inferiores são, respectivamente, inclinados para cima e para baixo, o que gera interessante perspectiva.

 
Em decorrência da grande escala de implantação, os arquitetos criaram inflexões e curvaturas que transformam a percepção espacial do ambiente. No centro, a janela requadra a paisagem do edifício Treme-Treme, na Bela Vista Triptyque, Mi Casa
 
A Treme-Treme foi criada para ser estante com 14 metros lineares, ininterruptos Triptyque, Mi Casa - Foto: Rômulo Fialdini
 
  O aparador utiliza as madeiras cedro, ipê e tauari, além de puxadores de latão, banhados a ouro. As portas e gavetas mesclam diversos sistemas de abertura Isay Weinfeld, Etel Interiores
 

Essa linguagem é utilizada atualmente pelos arquitetos para o desenvolvimento de portas e gavetas da linha, que terão chapas vincadas na diagonal e sistemas diversificados de abertura.

Já Isay Weinfeld e Arthur Casas criaram recentemente série de móveis encomendados por fabricantes e empresas nacionais.

Weinfeld assina o aparador, biombo, bar, sofá e poltrona, entre outros objetos, que guardam estreitos vínculos com a particular relação entre irreverência e detalhismo, característica de sua obra arquitetônica. Constituído por três tipos diferentes e contrastantes de madeira, cedro, ipê e tauari, o aparador partiu do conceito de criação modular.

“Quis fazer um móvel que pudesse ser apresentado em diferentes medidas. Daí surgiu a idéia de fazer cada módulo em uma madeira, com função e abertura diversas”, relata o arquiteto. Também com linguagem descontraída, o bar, uma peça baixa, tem puxador acoplado à tira de couro que, em conjunto com os rodízios de madeira, faz com que a peça possa ser deslocada pelo ambiente.

No sofá e poltrona destacam-se o desenho e as proporções das bases metálicas, que têm arestas levemente arredondadas. Elas apresentam contraste com a simplicidade e as medidas enxutas do volume que é formado pelo assento e pelo encosto.

 
Bar volante, com combinação de cedro, freijó, tauari, timbaúba, aço inox, acrílico e couro Isay Weinfeld, Etel Interiores
 
Mesa Airumã, feita em freijó rústico Arthur Casas, Neo Design - Foto: Tuca Reinés
   
  O gaveteiro alto tem fechamentos laterais em madeira e frentes espelhadas Arthur Casas, Neo Design - Foto: Tuca Reinés   Casas criou também gaveteiro alto com estrutura metálica aparente e componentes em freijó de manejo sustentável
 

A série de mesa, gaveteiros, banco e aparador criada por Arthur Casas, em 2005, é outro exemplo da influência da linguagem arquitetônica na criação de objetos.

“Desenhar móveis é um desdobramento natural da profissão e, nesse sentido, a escolha dos materiais guarda forte relação com a produção atual do escritório nas áreas de arquitetura e interiores”, relata Casas. Assim, a sua mais recente linha de mobiliário utiliza freijó, proveniente do manejo sustentável, tecido de fibra natural produzido em sistema de cooperativa, latão e processos simplificados de montagem.

As peças de mobiliário de autoria de Santos Georgescu, Triptyque, Isay Weinfeld e Arthur Casas são produzidas ou comercializadas, respectivamente, pelas empresas WR, de Brasília, Mi Casa e Etel Interiores, de São Paulo, e Neo Design, de Belo Horizonte.

Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 320 Outubro de 2006

 
Poltrona com base metálica e encosto/assento em madeira ipê Isay Weinfeld, Etel Interiores - Foto: Rômulo Fialdini
 
  Banco com estrutura em ipê e tecido de fibra natural, Arthur Casas, Neo Design
 
  Isay desenhou sofá e poltrona com base metálica e encosto/assento em madeira ipê. Destacam-se a linguagem e repetição dos pés metálicos Isay Weinfeld, Etel Interiores
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