Vecci & Lansky Arquitetura
Circuito cultural, Minas Gerais
   
 
   
 
  Mariana, Vagão Café
 
Um trem para a cultura, em cidades históricas mineiras

O Trem da Vale é um projeto com ênfase na educação patrimonial que, nas estações férreas de Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais, relaciona-se com turistas e com a comunidade local. Para os primeiros se direciona o programa museográfico, com biblioteca e terminais multimídia, entre outros, enquanto para a população foram criados suportes para atividades educacionais, de lazer e entretenimento.

“Trata-se de um projeto socialmente sustentável”, afirma o arquiteto Samy Lansky, um dos profissionais que integrou a numerosa equipe multidisciplinar do programa. Este tem suas origens mais remotas na década de 1980, quando, para fomentar o turismo, a Companhia Vale do Rio Doce decidiu reativar o trecho férreo entre Ouro Preto e Mariana. Embora há muito desarticulado de núcleos urbanos que ajudou a formar, o trem foi testemunha e propulsor do desenvolvimento mineiro nos séculos 19 e 20.

O caráter parcial da proposta fez com que o projeto fosse abandonado, para ser retomado apenas em 2003. Nessa etapa adquiriu os contornos multidisciplinar, cultural e patrimonial, no que viria a ser o Trem da Vale. A equipe de Lansky e de sua sócia, Isabela Vecci, passou a se dedicar à concepção dos projetos de arquitetura, urbanismo, paisagismo, museografia, interiores dos vagões e design de equipamentos urbanos. E, intensificados os trabalhos em 2005, apenas seis meses separaram a etapa de criação da data de inauguração.

Setorizado nos terminais de Ouro Preto e Mariana - intermediados pelas estações Vitorino Dias e Passagem de Mariana -, o programa demandava mais áreas do que a oferecida pelas duas edificações. Surgiram, então, os vagões estacionários, que, totalizando sete unidades, abrigam café, oficinas musicais e de vídeo, além de apoio operacional e administrativo. Eles foram completamente recuperados, pois se encontravam em péssimo estado de conservação.

Nesses vagões, a exemplo dos interiores das estações, a proposta adquiriu seu recorte atual - embora baseado em museografia histórica, e sendo Ouro Preto e Mariana áreas de preservação patrimonial, o “projeto não é historicista”, ressalva Lansky.

 
Ouro Preto, Sala Histórica da Ferrovia
 
Ouro Preto, Sala Histórica da Ferrovia
 
  Ouro Preto, Vagão Café
 

O design dos interiores, dos equipamentos de lazer e expográficos tomou como ponto de partida o diálogo com a tecnologia e a arte contemporâneas: fotografias de época, depoimentos, conteúdo literário e histórico, entre outros, são transmitidos através de projeções audiovisuais e composições de imagens digitais e impressas. Destaca-se a linguagem plana dos móveis e equipamentos internos das estações. Painéis de pedra-sabão, chapas de MDF impressas, requadros de ferro aparente adquiriram, assim, desenhos de grandes telas planas superpostas.

“Não se deve esquecer, porém, que o universo do trem é bruto”, alerta Lansky. Por isso arquitetura e design utilizam materiais aparentes, quase sem acabamento, e por vezes retirados da própria linha férrea, que se encontrava abandonada. É o caso, por exemplo, das coberturas e revestimentos de piso das plataformas que abrigam os vagões fixos, assim como das estruturas de móveis e equipamentos de exposição, feitos com trilhos. Em Ouro Preto, considerado o portal turístico do projeto, há salas históricas e um circo, enquanto em Mariana a comunidade local tem à disposição a praça Lúdico-Musical - “através das crianças e dos jovens é que conseguimos atrair a população do entorno”, explica Lansky -, biblioteca e sala de edição de vídeo, entre outros espaços.

Na praça, equipamentos sonoros são acionados através do contato com o corpo do usuário. Entre eles estão a gangorra pau-de-chuva, inspirada em instrumento musical indígena brasileiro, as buzinas verticais, o bumbo e a flauta de aço inoxidável. “A música sem dúvida faz parte do imaginário mineiro”, diz o arquiteto, e isso lhe inspirou a criação de objetos que serviriam de base para uma completa apresentação musical.

 
Ouro Preto, Sala Ciência e Ferrovia
 
Ouro Preto, Sala de Depoimentos
 
  Ouro Preto, vista aérea
 

Também na praça, o trilho de trem é o protagonista. O material foi utilizado como estrutura dos grandes cubos vazados que delimitam as áreas de cada equipamento e ainda nos escorregadores, balanços, ponte-móvel e escaladores. Apesar da diversidade de setores de conhecimento envolvidos no projeto, “o conceito norteador foi trazer a cidade à sua lógica e funcionamento”, conclui Lansky.




Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 325 Março de 2007

 
Mariana, vista externa
   
  Mariana, vagão dos sentidos   Perspectiva da praça Lúdico-Musical
   
  Mariana, vista dos vagões Café e dos Sentidos   Mariana, praça Lúdico-Musical. Trilhos de trem e imagens produzidas por crianças, aplicadas sobre painéis de vidro, conformam a estrutura dos brinquedos
 

Ficha Técnica

Trem da Vale
Início do projeto
2003
Conclusão da obra 2006
Coordenação geral e produção executiva Santa Rosa Bureau Cultural
Arquitetura, interiores, urbanismo, paisagismo, museografia e equipamentos urbanos Vecci & Lansky Arquitetura - Isabela Vecci e Samy Lansky (autores); Camila Zyngier, Danila Ferreira, Leonardo Fávero, Pedro Morais, Sílvio Todeschi e Tiago Esteves (colaboradores); Otávio Coelho (estagiário)
Consultoria musical e luteria Fernando Sardo
Projeto de restauração das estações AF&T
Luminotécnica e projetos hidrossanitários Ceilux
Projeto de educação patrimonial Jason Santa Rosa
Projeto de educação ambiental Márcio Santa Rosa
Videografia Eder Santos, Marcelo Braga, Evandro Rogers e Bellini Andrade (vídeo); Anna Flávia Salles, Cláudio Santos e Cristiane Zago (multimídia)
Comunicação visual Lúcia Nemer
Site Cláudio Santos e Cristiane Zago
Coordenação da mobilização comunitária Juca Villaschi
Circo da Estação Juliana Sevaybricker, Karla Guerra e Fernanda Vidigal
Pesquisa histórica Carmem Lemos
Consultoria histórica e textos para museografiaMaria Marta Araújo
Consultoria e textos de ciência e técnica Antônio José Costa Lima
Consultoria em história oral Museu da Pessoa
Diagnóstico sociocultural Maria Cristina Rocha Simão e Janice Nascimento
Maquete ferroviária Associação Mineira de Ferromodelismo - José Severiano Filho
Construção dos pátios e estações Total Engenharia
Supervisão de obra João Bagno
Fotos Eduardo Trópia e Jomar Bragança

 
Detalhes dos brinquedos sonoros da praça de Mariana
 
Detalhes dos brinquedos sonoros da praça de Mariana
 

Fornecedores
Eletroeletrônica Gital (reforma dos vagões); Escola Estadual Profa. Santa Godoy (desenhos nos vidros da praça Lúdico-Musical); Ferrovia Centro Atlântica (recuperação da malha ferroviária); RCR (serralheria dos brinquedos e instrumentos musicais); Size (mobiliário das estações); Traquitana (circo)

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