ExperimentaDesign
Sétima edição da Bienal em Lisboa
- Detalhes
- 22 de Fevereiro de 2012. Visitas: 3.055
Sob a perspectiva das reordenações geopolíticas e sociais em curso mundo afora, do questionamento da vitalidade do capitalismo enquanto consumo globalizado - em massa e padronizado - e dos olhares voltados para as classes emergentes dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o recorte da bienal ExperimentaDesign, aberta em outubro, em Lisboa, foi discutir como o sistema do design, e o da arquitetura também, pode se tornar socialmente mais ativo no mundo contemporâneo.
Algumas perguntas centrais estruturaram as discussões: deve-se produzir e consumir em ritmo acelerado ou frear o sistema? Como as diversas práticas alternativas (ligadas a contextos sociais, culturais ou econômicos distintos) podem se valer da cultura dominante para ganhar visibilidade e, assim, ter poder de barganha para atingir os seus propósitos específicos? Em contrapartida, são inúteis as culturas do design e da arquitetura, qual o valor de discutir estilos ou interpretações de uma mesma tipologia? Para que serve, então, um museu de design? Por fim, o que os modernos têm a ensinar à geração pós-industrial, interconectada em redes virtuais, profissionais e sociais?
Foto: EXD/Tânia Araújo
Foto: EXD
Um mesmo raciocínio guiou toda a sorte de ponderações sobre essas questões. Pensados em sistema - em que interagem criadores, produtores, pesquisadores, indústria, academia, críticos e consumidores -, o design e a arquitetura do novo século devem funcionar transversalmente.
Quando se pensa que as pessoas não querem ou não precisam exatamente das mesmas coisas em todos os lugares, reproduzidas em escalas gigantescas, o processo colaborativo assume um potencial transformador das relações de criação, produção e distribuição de bens e serviços.
Para Guta Moura Guedes, diretora geral e uma das fundadoras da Experimenta - Associação para a Promoção do Design e Cultura de Projeto, em 1998, sendo a crise um fato, “o que importa é saber como o design pode chegar às pessoas na velocidade das transformações que se tornarão cada vez mais profundas pelo mundo”.
Em suas peregrinações por ateliês, bienais, exposições e debates sobre design, ela relata ter percebido, nos últimos quatro anos, que o recorte social de fato contagiou coletivamente o pensamento criativo. “Se nos anos 1990 foi divertido discutir a fronteira entre design e arte, a questão agora é pensar a disciplina enquanto estimuladora de novas convivências, serviços, cidades ou troca de ideias entre quem cria, quem usa e quem produz”, observa.
A proposta é inspiradora, mas “o ponto de virada é fazer com que a indústria participe desse pensamento”, pondera Guta.
Para isso, deve investir, como condição de sobrevivência, na pluralidade produtiva mais do que na seriação de um modelo, e encontrar meios para fazer do social e da diversidade cultural um negócio lucrativo para industriais, distribuidores, designers, comunidades e ONGs, ela complementa.
Foto: EXD
Foto: EXD
Walter Amerika, da Academia de Design de Eindhoven, na Holanda, defendeu um ponto de vista contrário ao relativo consenso manifestado na Experimenta de que o momento é de frear o consumo e as intermináveis reinterpretações formais de objetos.
“Há um novo mundo para ser edificado e, portanto, o que precisamos é produzir mais. Diferente, mas ainda assim mais”, ele acredita. Amerika apontou um contrassenso entre o investimento no design dominante e o público a que se direciona (algo como 80% para 8%, exemplifica); e, por outro lado, as redes virtuais seriam ainda inoperantes em termos criativos.
Se não fosse assim, aumentaria a comunicação entre o designer e a indústria, que, por sua vez, “precisa aprender a assumir riscos”. Juntos, design, indústria e ciência poderiam, num futuro não tão longínquo, transformar “o que é belo numa grande ideia”, prevê o holandês.
Ele cita como exemplo o projeto Custom Fit, da Comunidade Europeia, que mescla pesquisas em prototipagem rápida com ciência dos materiais e informações de redes sociais para produzir, na área médica, objetos personalizados feitos com tecnologia industrial.
Se o momento é de tirar partido das diferenças, a cultura assume papel de destaque como alicerce do design. O Brasil, nas entrelinhas ou ostensivamente, se oferece ao imaginário estrangeiro como um oásis de novas possibilidades.
O representante brasileiro na semana inaugural da Experimenta, Marcelo Rosenbaum, arrancou elogios ao projeto A Gente Transforma, de melhoria urbana de uma comunidade periférica de São Paulo (leia entrevista com o designer nesta edição).
Trata-se de uma ação mais marcada, colorida e participativa se comparada, por exemplo, com as discretas (em estilo) intervenções da ONG Architecture for Humanity, sediada em São Francisco e na Cidade do Cabo, cujo propósito é atuar em locais fragilizados por tragédias naturais ou desfavorecimento econômico.
Gretchen Mokry, uma das diretoras da instituição, relatou que as pessoas atendidas pelo programa sempre esperam por algo novo, feito com concreto, por exemplo, enquanto o papel do Architecture for Humanity é extrair do conhecimento e recursos locais os elementos edificadores dos hospitais, escolas e campos de futebol que constroem pelo mundo, com a colaboração de voluntários e doações financeiras.
O arquiteto Pedro Gadanho, intermediador na mesa de que Gretchen tomou parte ao lado da crítica de arquitetura e design Alexsandra Lange e de Folke Köbberling (uma das criadoras do teatro londrino Jellyfish, de 2010, feito inteiramente com material reciclado), acredita que o debate serviu ao propósito de considerar práticas que extrapolam os limites tradicionais da arquitetura, refletindo condições sociais e econômicas em transformação.
“O que quis trazer à Experimenta foi uma pergunta provocadora: a cultura arquitetônica é inútil? A conclusão foi interessante: a visibilidade e a midiatização são essenciais para que intenções positivas cheguem a algum porto”, disse Gadanho.
Professor na Faculdade de Arquitetura do Porto, em Portugal, ele observa que o meio acadêmico, embora crescentemente interessado no reflexo da realidade na pedagogia escolar, persiste em exercícios que dizem respeito a condições de projeto ultrapassadas, modernistas.
“Preparamos arquitetos para construir habitação coletiva e luxuosa para o mercado imobiliário, quando, talvez, as soluções tenham que ser pensadas em outros termos, como de retrofit”, opina.
Foto: Douglas Garcia
Foto: EXD/Luis Rocha
Um puxão de orelha, então, foi dado pela mostra Utilitas Interrupta, organizada por Joseph Grima, editor da revista Domus. Ele reuniu 17 casos de projetos infraestruturais megalomaníacos, que fracassaram por motivos políticos, econômicos ou naturais.
Impressiona ver como alguns deles são recentes: a série de hotéis de luxo abandonados ainda na estrutura, na península do Sinai, no Egito, nos anos 1980, em razão da diminuição do turismo por medo de ataques terroristas; ou os mais de 3 mil aeroportos já sem função, na Rússia, dada a falência do modelo descentralizado de bases aéreas comerciais.
E que dizer da paranoia de autoproteção dos albaneses, que construíram cerca de 750 mil bunkers de concreto, entre 1972 e 1983, para uma população de cerca de 4 milhões de pessoas, das quais 30% emigraram com o fim do regime comunista, no início da década de 1990?
Em contrapartida, o veterano Enzo Mari e o português Fernando Brízio mostraram, com franqueza e personalidade destoantes do mundo veloz de hoje, que os valores de clareza, justeza e serviço do design (Mari) e de inspiração e experimentalismo (Brízio), do bom projeto, enfim, seguem rendendo bons frutos nos novos tempos.
“São valores que não se esgotam e que, unidos à tarefa diversa da mais nova geração de designers, conectada em redes pelo mundo todo, podem transformar o sistema” conclui Guta.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 381 Novembro de 2011
Foto: Evelise Grunow
Foto: Evelise Grunow
Foto: Evelise Grunow
de Fernando Brízio
Foto: Evelise Grunow
Foto: EXD/Rodrigo Peixoto
Foto: EXD/Tânia Araújo
Foto: EXD/Luis Rocha


