Gringo Cardia
Memorial Minas Gerais Vale, Belo Horizonte
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- 10 de Junho de 2011. Visitas: 6.713
Anteriormente cotado para sede da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (a proposta de Humberto Hermeto, vencedora de concurso em 2005, não foi adiante), o antigo edifício da Secretaria das Finanças, em Belo Horizonte, destinou-se a abrigar o Memorial Minas Gerais Vale, cujo projeto foi encomendado em 2008 a Gringo Cardia.
A tarefa de conceber a ocupação do edifício eclético de três pavimentos, inaugurado em 1897, resultou num “trabalho autobiográfico”, brinca Cardia, já que envolveu conhecimentos de cenografia e direção de arte para o palco, arquitetura, fotografia, design gráfico e curadoria de arte, algumas das áreas a que se dedicou desde os anos 1970 esse arquiteto de formação.
O estilo de Cardia na estruturação e apresentação do conteúdo do Memorial Minas Gerais Vale se traduz em certa representação teatral e na linguagem pop, aliadas à tecnologia de ponta.
A ambientação dos espaços é multissensorial - visual, tátil e sonora -, estruturada por três eixos temáticos: a história (Minas Imemorial), a cultura (Minas Polifônica) e o modernismo (Minas Visionária), que se misturam nos três andares da edificação.
É o que Cardia denomina museu em legendas, com temas condensados em núcleos cenográficos e multimídia. “O público contemporâneo entende por notas”, opina o curador, que dedicou grande parte do trabalho à concepção de mais de meia centena de vídeos e das instalações interativas.
O trabalho foi feito a muitas mãos. Participaram, por exemplo, o arquiteto Humberto Hermeto e 19 pesquisadores do Projeto República, de 2001, da Universidade Federal de Minas Gerais, orientados pela professora Heloísa Starling.
A estes juntaram-se 52 consultores, de professores da UFMG a especialistas nos temas tratados - como a consultora de moda Glória Kalil, que orientou o vídeo sobra a moda mineira a partir dos anos 1950.
Para os historiadores, o grande mérito é ver seu trabalho transformado, sem perda de densidade, no que Heloísa chama de forma encantatória. “Perdem aqueles que pensam que a linguagem do teatro é apenas um adereço, que se trata de montar o texto e, depois, simplesmente procurar uma imagem ilustrativa”, ela avalia.
Grande parte do conteúdo provém de fotografias de época, pinturas, escritos, documentos históricos, enfim, registros bidimensionais. Segundo Fábio Arruda, que trabalhou na concepção dos vídeos, o desafio foi transformá-los em imagens lúdicas, em movimento.
Com o trabalho de consultores, historiadores e cenógrafos, elas ganharam requintes de realidade, como na sala que trata das vilas setecentistas mineiras, na qual uma grande maquete reproduz a topografia e o casario.
A abordagem multimídia incluiu a representação do ciclo diário nessas realidades remotas, o que colocou historiadores à pesquisa, por exemplo, dos vários sons mecânicos e de animais daqueles tempos.
Mas os destaques são os ambientes interativos, como a Caverna Rupestre e a sala do Modernismo Mineiro. Na primeira, blocos de gesso de alta densidade, estrutura metálica e muita tinta e massa plástica adquiriram a aparência de uma verdadeira caverna - inspirada na paisagem de Peruaçu, em Minas Gerais - sobre a qual foram projetadas imagens de pinturas pré-históricas.
Ao serem tocadas ou quando encontram a silhueta luminosa do observador, elas entram em movimento.
Já no universo do modernismo há a grande mesa orgânica multitoques. Nela, círculos coloridos organizados em três profundidades visuais armazenam apresentações sobre determinados aspectos do modernismo em Minas Gerais, no Brasil e no mundo, que podem ser acessados individualmente ou conjugados em grupos.
Quando o usuário junta três círculos, por exemplo, ativa-se uma apresentação audiovisual. Esse trabalho foi feito em parceria com o escritório Super Uber, responsável também por toda a automação do museu.
homenagem a Carlos
Drummond de Andrade

Gringo Cardia alerta que o propósito de seu trabalho foi mesmo criar um estranhamento, um choque entre preservação/ restauro e moderno/tecnológico.
A cenografia invisível, portanto, convive com a teatral e de grande visibilidade. Por isso as cores intensas e a iluminação futurista, a cargo de Peter Gasper, fazem par com o cuidadoso trabalho de preservação do edifício, sobretudo em sua porção frontal.
Mas para o curador o mais importante é que os moradores se sintam à vontade no memorial, para o que, além da programação estendida em horário, foi recuperado o pátio central e aberto, em conexão direta com a praça envoltória.
A relação completa dos profissionais envolvidos no projeto e informações sobre a programação do memorial podem ser obtidas no site www.circuitoculturalliberdade.mg.gov.br.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 374 Abril de 2011



