Prêmio IDEA 2008

Diversidade no design nacional

Trabalhos brasileiros premiados trazem apelo à diversidade
Não é de hoje que profissionais e entidades ligadas ao design brasileiro têm procurado ampliar a presença nacional no cenário mundial. Um passo nesse sentido acaba de ser dado pelo prêmio Idea/Brasil, inaugurado em 2008 e vinculado ao norte-americano International Design Excellence Award. A versão brasileira da competição, uma iniciativa da Objeto Brasil, contemplou 53 trabalhos, 12 dos quais foram laureados também no circuito internacional.
O número é modesto em relação à quantidade de prêmios conferidos pelo júri - 205, nas classes ouro, prata e bronze -, mas expressivo se pensarmos que estes representam apenas 13,5% de 1.517 projetos inscritos. Concorrendo, então, com países que lidam com o design de modo mais ou menos profissional do que nós, que têm tradição mais ou menos assentada do que a nossa, caracterizados por condições diversas de criação, produção e circulação de bens, idéias e serviços resultantes de ações de design, o fato é que conquistamos representatividade no prêmio.

A premiação foi criada há 30 anos pela Sociedade dos Designers Industriais da América (IDSA, na sigla em inglês) e está dividida em 17 categorias. Em comparação com o IF Design Award - outro evento de que os brasileiros têm participado (e no qual têm conquistado prêmios) -, o Idea é igualmente focado no mercado, na produção industrial, embora tradicionalmente tenha caráter mais regional. Contudo, tendo apelo menor em relação à inovação tecnológica, o prêmio norteamericano acaba por fazer concessões à pesquisa e a trabalhos em que se revela a interação com a produção manual, de menor escala, enfim, com a diversidade.

Representativa disso é a natureza de um dos projetos eleitos pelo júri os melhores da competição, os chamados best in show, que estão além de ouro, prata e bronze. Costuma haver um premiado, mas este ano, além do icônico iPhone, da Apple, foi escolhido o Size China, um trabalho de pesquisa da Universidade Politécnica de Hong Kong que visa a criação de um banco digital de dados sobre as dimensões e formas faciais asiáticas.

De onde vem essa idéia e onde ela pode chegar? Provavelmente no convívio dos designers industriais de todo o mundo com um novo ou latente paradigma ergonômico, visto o mentor da pesquisa, o canadense Roger Ball, ter pensado em realizá-la a partir do insucesso de vendas no Japão de uma de suas criações premiadas, um capacete para a prática de snowboard. A comercialização do produto ia mal apenas no mercado asiático, potencialmente o terceiro do mundo. E a partir de encontro com esportistas daquele continente, o designer descobriu que aquilo não se devia a questões estéticas ou ideológicas, mas funcionais: os capacetes eram dimensionalmente inadequados aos japoneses.
Porta Max Door, Nó Design
Porta Max Door, Nó Design
Porta Max Door, Nó Design
Quanto à participação do Brasil no Idea, um possível elemento relacionado ao desempenho do país é o fato de parte de nossos premiados guardar forte vínculo com a idéia da diversidade, de personalização até da produção industrial.

Isso pode ser conseqüência do branding, da marca, do posicionamento no mercado, como é o caso da Max Door, projetada pelo escritório paulistano Nó Design para o empreendimento residencial de alto padrão Max Haus, a ser implantado nos bairros do Morumbi, Anália Franco e Mooca. Filiados ao estilo interiores integrados, os apartamentos serão entregues aos proprietários sem divisórias internas. Por isso os idealizadores elegeram a porta um dos elementos visuais representativos da identidade das edificações.

Durante um ano e meio, os designers do Nó debruçaram-se sobre o tema porta, estudando suas origens, tipologias freqüentes, semântica, à procura de algo novo. Das pesquisas surgiram três linhas de criação e, finalmente, elegeu-se como alvo o público jovem, aberto a novidades e à maior interface tecnológica. A Max Door, prêmio bronze tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, foi concebida com estrutura de alumínio e folha de policarbonato injetado preto e com acabamento macio ao toque. Ganhou ainda acessórios que procuram facilitar a vida do usuário: o acionamento remoto, no lugar de chave, e o compartimento retrátil para correspondência e outras facilidades.

A idéia de diversidade pode também estar em sintonia com as várias facetas que um objeto assume a partir da escolha do usuário. É esse o caso dos modelos de sapatos Doys e Sutra, da empresa Ciao Mao, que tem na criação a designer Priscila Callegari Leme Duarte. Eles são constituídos por uma versão padrão, à qual se podem associar numerosos acessórios, muitas vezes intercambiáveis entre as coleções da marca. Os sapatos, que no Brasil receberam prêmio ouro, foram os únicos merecedores do bronze na categoria acessórios pessoais, nos Estados Unidos.

A multiplicidade de usos pode se expressar também nas variantes de locais. A estudante mineira Patrícia Seixas (Fundação Mineira de Educação e Cultura), premiada pelo assento Interactive Lounge (prata no Brasil e bronze no mundial), revela estar às voltas com demandas de arquitetos e clientes residenciais e comerciais, embora o produto tenha sido concebido para áreas de entretenimento. Originalmente um trabalho de conclusão de curso, ele tem superfície ondulada e maleável, constituída por bolas de plástico forradas com tecido de toque macio, de modo que a forma seja determinada a partir da interação com o usuário.

Há ainda a diversidade no sentido do resultado controladamente imprevisto, como o cartão de visitas ecológico concebido pela equipe do escritório carioca Tátil Design. Feitos a partir da reciclagem de embalagens longa vida, papel e plástico, em ciclo que une diretamente os funcionários do estúdio de design ao processamento do material pela gráfica, os Greencard, da Tátil, mereceram prata no Brasil e bronze na premiação mundial.

Além desses projetos, os outros trabalhos brasileiros premiados na etapa mundial do Idea 2008 são a lavadora SuperPop (Chelles & Hayashi), a luminária Super Bossa (Lumini), o pulverizador agrícola Parruda (Design Inverso), o totem de luz Ziplux (Ziplux), o fogão Celebrate Duplo Forno (Electrolux Industrial Design Center Latin America), as luminárias da linha Cut (Lumini), a capa de viagem para pranchas 3.72 (Sincrodesign) e o nebulizador Ultra Alívio, da Questto Design.

Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 343 Setembro de 2008
Porta Max Door, Nó Design
Porta Max Door, Nó Design
Porta Max Door, Nó Design
 
Sapatos, Ciao Mao
Sapatos Sutra, Ciao Mao
Sapatos Sutra, Ciao Mao
Sapatos, Ciao Mao
Sapatos Sutra, Ciao Mao
Sapatos, Ciao Mao
Sapatos Sutra, Ciao Mao
Sapatos Sutra, Ciao Mao
Embalagens da Ciao Mao
Assento Interactive Lounge, Patrícia Seixas
Luminária Bossa, Lumini
Assento Interactive Lounge, Patrícia Seixas