Prêmio Shell de Teatro

Cenografia e iluminação

O despertar da primavera, iluminação vencedora no Rio de Janeiro
O despertar da primavera, iluminação vencedora no Rio de Janeiro
Premiação reconhece trabalho de produções de pequena escala
Memória da cana e Music hall; Dois irmãos e O despertar da primavera: esses foram, respectivamente, os vencedores do 22° Prêmio Shell de Teatro em São Paulo e no Rio de Janeiro, nas categorias cenário e iluminação. Os contemplados são unânimes em destacar a grande repercussão da premiação em meio às artes teatrais brasileiras. A lista revela o predomínio das produções de pequena escala, dirigidas a um público médio de 50 pessoas.

A exceção ficou por conta de O despertar da primavera, grande produção assinada pela dupla Cláudio Botelho e Charles Möeller, com iluminação de Paulo César Medeiros. Trata-se da montagem brasileira do musical de Duncan Sheik e Steven Sater, encenado em 2006 na Broadway e detentor, entre vários prêmios importantes, do Tony na categoria iluminação. Baseado na obra homônima do dramaturgo alemão Frank Wedekind, de 1891, aborda de modo contundente os ritos de passagem da adolescência para a vida adulta.

“Se fosse cinema, teria umas 40 locações, algo impensável para o teatro”, explica Medeiros, referindo-se à linguagem abstrata com que a cenografia do arquiteto Rogério Falcão equacionou o desafio espacial da peça. “Ele é construtivista, elabora estruturas com planos verticais e de profundidade bastante nítidos, privilegiando a grandiosidade de áreas abertas e o uso de regiões tradicionalmente pouco exploradas no teatro, como os subsolos. Isso é um presente para a iluminação”, conclui.

O iluminador premiado pelo Shell carioca se refere à simultaneidade e à diversidade de posicionamento das cenas do musical, como o uso dos espaços sobre ou sob as passarelas, a frente e o fundo do palco e, ainda, o fosso da orquestra. Consequentemente, havia equipamentos por todos os lugares: “Utilizei luzes de chão, contraluzes gerais, painéis retroiluminados, moving lights - projetores computadorizados - que criam texturas e a aparente impressão de movimento, além de muito facho tangenciando o piso”, detalha Medeiros. Para ele, o projeto de iluminação mescla as linguagens expressionista e feérica, com as quais enfatizou tanto o sentimento dos personagens através da luz não realística - sombras acentuadas e planos de iluminação pouco usuais, como os rasteiros -, quanto a face musical e contemporânea do espetáculo.

Music hall, da Companhia da Mentira, prêmio paulista de iluminação, foi dirigida por Luiz Päetow e baseada em texto do dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce. A primeira temporada do espetáculo ocorreu no exíguo Espaço Vitrine, quase um corredor no Teatro Imprensa, na capital paulistana. “As dificuldades espaciais se adequaram perfeitamente ao texto”, analisa Päetow - além de iluminação, autor da cenografia -, associando o caráter atemporal do texto às restritas dimensões da plateia e do espaço cênico.

Iluminação de Paulo César Medeiros
Iluminação de Paulo César Medeiros
Cenografia do arquiteto Rogério Falcão
Cenografia do arquiteto Rogério Falcão
O despertar da primavera
O despertar da primavera
Music hall, prêmio de iluminação em São Paulo
Music hall, prêmio de iluminação em São Paulo

Os atores dispunham de pouco menos de dois metros de largura para encenarem as vozes sem forma ou referência de tempo e espaço com as quais a peça aborda o tema do fracasso dos artistas, a não realização de seus desejos e sonhos.

A luz estabeleceu o elo entre essas vozes - ora simultâneas, ora isoladas - alternando de indireta para focalizada, de rasteira para aérea, de intensa para suave, através da manipulação, pelos próprios atores, de luminárias artesanais fixas aos banquinhos do cenário. “Não se trata de um espetáculo convencional, minha necessidade era usar a luz como um personagem, um guia sensorial para o espectador. A premiação foi uma grande surpresa para mim”, comemora Päetow.

O prêmio de melhor cenário, em São Paulo, foi para Memória da cana, baseada em Álbum de família, de Nelson Rodrigues, e dirigida por Newton Moreno, da Companhia Os Fofos Encenam, que assina a cenografia junto com o ator Marcelo Andrade. Frente aos conflitos familiares expressos pela dramaturgia, Andrade ambientou a peça num engenho, com a casa formada por seis cômodos íntimos mais sala central, em que figurava com destaque uma mesa com seis metros de comprimento.

Transparência e mobilidade foram as premissas do projeto cenográfico, dadas a necessidade de o público acompanhar a encenação no interior dos cômodos e a ideia dos diretores de, em determinado momento, desmontar o cenário à vista dos espectadores. “A casa cai”, sintetiza Andrade.

Foram utilizados materiais leves e flexíveis. Telas plásticas, comumente usadas na proteção de fachadas, fizeram as vezes de paredes, enquanto a mesa aparentemente maciça era constituída por módulos feitos com papelão. “Penduramos tudo com cabo de aço, embora a aparência fosse extremamente estável, arquitetônica”, ele relata.

A mesa também era protagonista no cenário premiado de Alberto Renault para Dois irmãos, espetáculo baseado em livro homônimo de Milton Hatoum e dirigido por Roberto Lage. “Transformei o apartamento da dramaturgia numa grande mesa, rigorosamente plana e tomada por signos gráficos e objetos próprios à vivência dos personagens”, resume o carioca, que é também diretor e cenógrafo de óperas e desfiles de moda.

O objeto ocupava um quadrado com dez metros de lado e era composto por nichos e tampos móveis, com dobradiças, manipulados pelos atores durante a encenação. “Imprimi a planta do apartamento sobre a mesa e fui somando objetos, fotografias, pinturas, arte popular e equipamentos de luz. O resultado final, como quase tudo o que faço, ficou difícil de fotografar”, avisa o cenógrafo.

Desde sua criação, em 1988, o Prêmio Shell de Teatro reúne um júri multidisciplinar que indica os concorrentes e elege coletivamente os vencedores nas categorias cenário, iluminação, música, figurino, ator, atriz, direção e autor. Uma das exigências para que o espetáculo seja considerado em condições de participar da premiação é ter cumprido maratona mínima de 24 apresentações em São Paulo ou 25 no Rio.


Texto de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 364 Junho de 2010
Music hall, dirigido por Luiz Päetow
Music hall, dirigido por Luiz Päetow
Music hall, da Companhia da Mentira
Music hall, da Companhia da Mentira
Music hall, luz como um personagem
Music hall, luz como um personagem
Memória da cana, cenografia premiada em São Paulo
Memória da cana, cenografia premiada em São Paulo
Memória da cana, baseada em Álbum de família, de Nelson Rodrigues
Memória da cana, baseada em Álbum de família, de Nelson Rodrigues
Transparência e mobilidade, premissas do projeto cenográfico
Transparência e mobilidade, premissas do projeto cenográfico
Dois irmãos, cenário vencedor do Shell no Rio de Janeiro
Dois irmãos, dirigido por Roberto Lage
Dois irmãos, dirigido por Roberto Lage
Dois irmãos, cenário premiado de Alberto Renault
Dois irmãos, cenário premiado de Alberto Renault
Dois irmãos, espetáculo baseado em livro homônimo de Milton Hatoum
Dois irmãos, espetáculo baseado em livro homônimo de Milton Hatoum