Quadrienal de Praga 2011

Design e Espaço Cênico

Mostra brasileira conquista prêmio máximo da Quadrienal de Praga
A mostra brasileira conquistou o prêmio máximo da quadrienal, a Triga de Ouro. No primeiro plano, à esquerda, parte da mostra Fotopinturas - Coleção Titus Reidl, exibida em 2011 na Galeria Estação com curadoria de Eder Chiodetto; no fundo, à direita, trabalhos de Os Gêmeos - Foto: Martina Nnovozámská
Brasil ganha o Oscar do teatro mundial
Foi de virada a vitória brasileira na Quadrienal de Praga 2011, evento considerado o Oscar do teatro mundial. O país começou mal na etapa preparatória, porque perdeu o prazo para responder à carta‑convite de 2009. Mas de volta ao jogo, passada a suada prorrogação, o saldo foi mais do que positivo: o Brasil conquistou o prêmio máximo do evento, a Triga de Ouro, pelo conjunto da obra reunida na competitiva seção das mostras nacionais, de que participaram 62 países.

Criada em 1967 com o nome de Exposição Internacional de Cenografia e Arquitetura Teatral, em 2011 a mostra passou a se chamar Quadrienal de Praga: Design e Espaço Cênico. Ampliou-se o campo de reflexão sobre os meios e modos da arte cênica atual.

Além da cenografia tradicional, o balaio de exposições, prêmios e ações incluiu projetos de linguagens cruzadas (cenografia com artes plásticas, por exemplo) e outros que versam sobre o aporte artístico das tecnologias digitais.

Mas se manteve o caráter de investigação contemporânea da área, para o que o famoso evento reúne a totalidade das disciplinas que envolvem o design da performance em seus variados gêneros (teatro, dança, ópera, site specific, performances midiáticas e artes performáticas), como cenografia, arquitetura, figurino, iluminação, artes visuais e sonoplastia. E o Brasil, que já havia conquistado uma Triga de Ouro em 1995, voltou a ganhar a premiação máxima em Praga.

O eixo da quadrienal são os prêmios concedidos por grupo internacional de jurados para cada disciplina em exposição. Nesta edição, o Brasil esteve presente em quatro seções: nacional, figurinos, arquitetura teatral e estudantes.

Antônio Grassi, presidente da Funarte, foi o curador geral da representação brasileira, embora cada categoria tenha contado com o suporte de curadores adjuntos e de uma equipe de colaboradores.

Aby Cohen e Ronald Teixeira estiveram à frente da premiada exposição Território Cenográfico Brasileiro: Personagens e Fronteiras, integrante da seção nacional, que contou com 24 trabalhos produzidos nos últimos seis anos.

Comemorado anúncio da vitória brasileira
O momento do comemorado anúncio da vitória brasileira.
À esquerda, o ator, presidente da Funarte e curador geral da representação brasileira em Praga, Antônio Grassi
Foto: Lorie Novak
Memória da cana da companhia Os Fofos Encenam
Peças exposta na seção Memória da mostra brasileira
Memória da cana, da companhia Os Fofos Encenam, esteve entre as peças expostas na seção Memória da mostra brasileira - Foto: Pedro Serapio
Cenário de Arrufos presente na seção Lugares
O cenário de Arrufos, concebido por Renato Bolelli para a companhia XIX, esteve presente na seção Lugares - Foto: Adalberto Lima

Estruturada em quatro núcleos conceituais - Memória, Lugares, Ação e Transposição -, ela procurou investigar as particularidades da produção nacional contemporânea.

O setor Memória apresentou projetos inspirados em histórias, personagens e lugares que evocam tradições e visualidades do vasto e diverso território brasileiro. É o trabalho de “artistas que defendem o refinamento do popular, o tratamento e acabamento de aparente simplicidade de sua artesania (...), obras que apresentam forte carga de regionalismo e tradição”, como exposto no catálogo da mostra.

Em Lugares, o que esteve em jogo foi a habilidade de certos projetos em identificar e evidenciar a intrínseca ligação que há entre paisagens e determinados aspectos sociais e culturais, ou seja, a relação do comportamento humano com o seu espaço e tempo.

A peça BR-3, montagem da companhia Teatro da Vertigem, conquistou também o prêmio de melhor produção nesta edição da quadrienal, tendo usado a paisagem do rio Tietê, em São Paulo, como ferramenta para falar de contradições da nossa cultura e sociedade: espetacular x não espetacular, arcaico x moderno, centro x periferia.

Já em Ação e Transposição, estiveram presentes, respectivamente, os retratos de performances baseadas predominantemente na interação com o público e projetos de variadas linguagens, como o grafite da dupla Os Gêmeos, que simbolizam realidades brasileiras.

Croácia recebeu prêmio melhor cenografia
A Croácia recebeu o prêmio de melhor cenografia, pelo trabalho da equipe do Numen/For Use. Em detalhe, a encenação de Sonho de uma noite de verão
Para Numen/For Use concedido prêmio melhor uso tecnologia teatral
Para o croata Numen/For Use também foi concedido o prêmio de melhor uso da tecnologia teatral
Maquete Machine Theatre da equipe grega Flux Office
Maquete do Machine Theatre, da equipe grega Flux Office, um dos projetos vencedores da seção arquitetura teatral
Foto: Martina Nnovozámská

A dobradinha brasileira fez par com a da Croácia, país premiado tanto pela melhor cenografia quanto pelo melhor uso da tecnologia teatral, ambas pelo trabalho dos arquitetos e designers da Numen/For Use.

O trabalho brasileiro exposto na seção arquitetura teatral foi o paulistano Teatro Estádio Universidade Popular (leia a seção Memória na edição 377), vinculado ao Teatro Oficina, cujo projeto arquitetônico (de Lina Bo Bardi e Edson Elito) fora premiado em Praga em 1995.

A proposta atual, concebida pela dupla João Batista Martinez Corrêa e Beatriz Pimenta Corrêa, trata da ampliação do Oficina, através da ocupação de terrenos ociosos no bairro do Bexiga com programa cultural e educativo-teatral.

Deu empate nessa importante categoria, com o prêmio dividido entre o projeto Within a Failing State, do México, e os trabalhos Machine Theatre e ampliação do Teatro Nacional, ambos da Grécia.

Não é propriamente arquitetura o trabalho mexicano, mas a apropriação do espaço urbano para a realização de performances (denominadas No!, Pasajes e Visitas guiadas, do grupo Teatro Ojo), enquanto o miniteatro grego, idealizado pelo escritório Flux Office, mostrou com brilhantismo como a arquitetura pode se tornar elemento ativo da encenação, na medida em que propicia locais, enquadramentos e cenários técnicos variados.

Concebido entre 2009 e 2010, o pequeno edifício recobriria as escavações de uma ruína localizada na região turística de Karameikos e, fazendo deslizar paredes, pisos e tetos, poderia abrigar diversas configurações e visuais cenográficos.

Os demais premiados no evento foram: Nova Zelândia, na seção figurinos radicais, pelo trabalho concebido para a peça Inhabiting dress; Noruega, na seção estudantes, pela mostra Erase the Play; Hungria, pelo melhor conceito curatorial; e Inglaterra, na seção sonoplastia, pelas produções Kursk e Hush House.

Vale uma visita ao site da mostra no endereço www.pq.cz ou em sua versão brasileira, www.pq11.com.br, para conferir a relação completa de eventos e trabalhos apresentados em Praga.



Texto de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 378 Agosto de 2011
Trabalho Inhabiting dress de Emma Ransley
Inhabiting dress melhor figurino radical
O trabalho Inhabiting dress, de Emma Ransley, da Nova Zelândia, melhor figurino radical - Foto: Martina Nnovozámská
Inglaterra ganhou prêmio excelência em sonoplastia
A Inglaterra ganhou prêmio de excelência em sonoplastia, pelas produções Kursk e Hush House
Mostra estudantil Noruega
A mostra estudantil da Noruega foi a preferida do júri da Quadrienal de Praga 2011
 
A mostra da Hungria foi vitoriosa na categoria conceito curatorial
Peça BR-3 premiada melhor produção
A peça BR-3, da companhia Teatro da Vertigem, foi premiada como a melhor produção - Reprodução catálogo digital