Rico Lins
Mostra, Rio de Janeiro e São Paulo
- Detalhes
- 19 de Maio de 2009. Visitas: 21.806
A mostra reúne trabalhos da área editorial, cartazes e ilustrações criados por Rico Lins ao longo de mais de 30 anos de carreira. Eles são representativos da situação fronteiriça em que o design gráfico do autor se encontra em relação a outros campos visuais, como o das artes plásticas, um dos mais importantes em seu espectro de influências e inspirações. Essa é a origem da expressão “gráfica de fronteira”, utilizada pelo curador Agnaldo Farias no nome da exposição.
Lins desenvolve trabalhos para importantes periódicos brasileiros e mundiais, como a revista norte-americana Time e a publicação acadêmica alemã Kultur Revolution, além de projetos de marcas, comunicação institucional, ilustração e tipografia. Em comum, eles derivam de um processo não linear de concepção, que busca adicionar conteúdo, significados, a partir do estabelecimento do que o designer denomina espaço inclusivo. “Procuro abrir caminho para que o interlocutor colabore com sua própria interpretação”, explica Lins.
Isso muitas vezes deriva da adoção de imagens fortes, de ícones de massa. Numa das capas da Kultur Revolution, por exemplo, a figura da banana foi manipulada como símbolo do tema do exotismo dos trópicos. A peça parte do cartaz do filme Banana is my business (1995), de Helena Solberg, sobre a carreira de Carmen Miranda, suprimindo o rosto da artista, os adornos exagerados que eram típicos da cantora e a definição de fundo, de modo a enfatizar um sorriso desajeitado e os olhos na forma da fruta.
A reapropriação de significados, assim, é um traço criativo que percorre todos os ambientes e trabalhos da mostra, organizada em três camadas simultâneas de comunicação com o visitante. O banner contínuo narra a particularidade de o design gráfico ser a um só tempo efêmero e permanente, ou seja, tanto fruto de situações específicas de projeto quanto registros culturais e intercambiáveis de determinada época ou segmento social.



O banner, portanto, através da disposição mais ou menos aleatória e desproporcional dos projetos que o constituem, discorre sobre a versatilidade intrínseca da peça gráfica, que, tratada como objeto, permite a mudança de escala, de contextos e de vias de significação. Como se um selo se transformasse em cartaz, que se transformasse em livro, que se transformasse em argumentos conceituais à disposição de trabalhos de outras épocas ou cenários.
A mostra também apresenta aplicações reais dos trabalhos desenvolvidos por Rico Lins e vídeos que documentam seu processo criativo. Interessante acompanhar, por exemplo, a passagem da assinatura de Eça de Queiroz para a figura de uma mandala e, em seguida, para o padrão gráfico da capa do livro Os brasileiros (2008), da editora Mandala, do Rio de Janeiro. Um trabalho que sinaliza um dos mais importantes traços da obra de Rico: a capacidade experimental e libertária de criação colocada a serviço de projetos comerciais, reais.
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 335 Janeiro de 2008

Projeto Guri, de São Paulo

