Rico Lins

Mostra, Rio de Janeiro e São Paulo

O banner, um discurso sobre a versatilidade da peça gráfica
Banner monumental reúne trabalhos de várias áreas de atuação
Um monumental banner de 1,5 metro de largura e 40 metros de comprimento orienta o visitante em seu percurso pela exposição Rico Lins: Uma Gráfica de Fronteira, que esteve em cartaz no início do ano na Caixa Cultural do Rio de Janeiro e, em maio próximo, desembarcará no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

A mostra reúne trabalhos da área editorial, cartazes e ilustrações criados por Rico Lins ao longo de mais de 30 anos de carreira. Eles são representativos da situação fronteiriça em que o design gráfico do autor se encontra em relação a outros campos visuais, como o das artes plásticas, um dos mais importantes em seu espectro de influências e inspirações. Essa é a origem da expressão “gráfica de fronteira”, utilizada pelo curador Agnaldo Farias no nome da exposição.

Lins desenvolve trabalhos para importantes periódicos brasileiros e mundiais, como a revista norte-americana Time e a publicação acadêmica alemã Kultur Revolution, além de projetos de marcas, comunicação institucional, ilustração e tipografia. Em comum, eles derivam de um processo não linear de concepção, que busca adicionar conteúdo, significados, a partir do estabelecimento do que o designer denomina espaço inclusivo. “Procuro abrir caminho para que o interlocutor colabore com sua própria interpretação”, explica Lins.

Isso muitas vezes deriva da adoção de imagens fortes, de ícones de massa. Numa das capas da Kultur Revolution, por exemplo, a figura da banana foi manipulada como símbolo do tema do exotismo dos trópicos. A peça parte do cartaz do filme Banana is my business (1995), de Helena Solberg, sobre a carreira de Carmen Miranda, suprimindo o rosto da artista, os adornos exagerados que eram típicos da cantora e a definição de fundo, de modo a enfatizar um sorriso desajeitado e os olhos na forma da fruta.

A reapropriação de significados, assim, é um traço criativo que percorre todos os ambientes e trabalhos da mostra, organizada em três camadas simultâneas de comunicação com o visitante. O banner contínuo narra a particularidade de o design gráfico ser a um só tempo efêmero e permanente, ou seja, tanto fruto de situações específicas de projeto quanto registros culturais e intercambiáveis de determinada época ou segmento social.

Frente e verso do cartaz da mostra

O banner, portanto, através da disposição mais ou menos aleatória e desproporcional dos projetos que o constituem, discorre sobre a versatilidade intrínseca da peça gráfica, que, tratada como objeto, permite a mudança de escala, de contextos e de vias de significação. Como se um selo se transformasse em cartaz, que se transformasse em livro, que se transformasse em argumentos conceituais à disposição de trabalhos de outras épocas ou cenários.

A mostra também apresenta aplicações reais dos trabalhos desenvolvidos por Rico Lins e vídeos que documentam seu processo criativo. Interessante acompanhar, por exemplo, a passagem da assinatura de Eça de Queiroz para a figura de uma mandala e, em seguida, para o padrão gráfico da capa do livro Os brasileiros (2008), da editora Mandala, do Rio de Janeiro. Um trabalho que sinaliza um dos mais importantes traços da obra de Rico: a capacidade experimental e libertária de criação colocada a serviço de projetos comerciais, reais.


Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 335 Janeiro de 2008
 
Duas capas criadas por Rico Lins para a revista alemã Kultur Revolution, uma parceria que já dura 27 anos
Peça de comunicação visual do
Projeto Guri, de São Paulo
Sequência de criação da capa de Os brasileiros, da editora Mandala