Mesmo não estando à frente de nenhum projeto de estádio para a Copa do Mundo de 2014, o arquiteto Carlos de La Corte é o profissional que está por dentro de todos os detalhes das 12 arenas que receberão jogos no Brasil: ele é o consultor técnico contratado pela Fifa, a federação internacional de futebol, para, juntamente com sua equipe, acompanhar o desenvolvimento das propostas vencedoras.
O senhor defendeu doutorado sobre os estádios brasileiros, certo?
Sim. Ainda recém-formado eu me filiei à Iaks [The International Association for Sports and Leisure Facilities], a principal organização internacional dedicada a instalações esportivas e recreativas. Com sede em Colônia, Alemanha, essa associação foi fundada em 1962 e congrega arquitetos, administradores e operadores de instalações esportivas de todo o mundo. A cada dois anos a Iaks organiza um congresso e uma feira sobre esse assunto em Colônia. Existe uma seção latino-americana da entidade, da qual eu também faço parte.
Quando o senhor iniciou seu doutorado já havia alguma indicação da possibilidade de o Brasil sediar a Copa?
Não. Meu doutorado não é focado na Copa do Mundo. Trata-se de um trabalho que comparou estádios brasileiros com estádios europeus, desde a década de 1980 até o ano 2000.
Quais estádios?
Escolhi quatro para analisar de maneira mais aprofundada - Morumbi, Pacaembu, Mineirão e Maracanã - e examinei dois com menos profundidade, a Arena da Baixada e o Engenhão, que são mais novos. Como o Brasil não possui nenhuma norma para projetos de estádios, desenvolvi um questionário com 200 itens, tomando como base as normativas europeias. Para isso, usei basicamente quatro referências internacionais: os cadernos de encargos da Fifa, o Green Guide (da Inglaterra), a EN 3.200 - uma norma europeia para a qualificação de espaços para espectadores - e um livro chamado Stadia: a design and development guide, escrito pelos especialistas ingleses Rod Sheard, Geraint John e Ben Vickery.
Como era esse questionário?
Ele reunia perguntas do tipo: “Existe o sistema X aplicado no estádio? Sim ou não, e qual a característica dele?”. Dessa forma, verifiquei quais itens se aplicavam em cada um dos estádios através de uma matriz de avaliação. Consegui mapear quão distantes os estádios brasileiros estavam dessas normativas e quais seriam as dificuldades para se adaptarem a elas.
E qual foi a sua conclusão?
Os estádios brasileiros atendiam entre 45% e 60% das exigências europeias atuais, levando em conta oito itens, como conforto e segurança, acesso, capacidade de público, instalações para árbitros e para espectadores, entre outros. Também foram considerados outros 13 itens, que analisaram o edifício em si, através de uma inspeção visual - a situação da estrutura e das instalações elétricas, o desempenho do sistema de drenagem etc. Aqui também se ficou entre 40% e 50% de atendimento.
Em qual grupo de itens havia o melhor e o pior atendimento?
No desempenho técnico - instalações elétricas, por exemplo -, alguns estádios, em virtude de terem passado por reformas recentes, atendiam entre 70% e 80% das exigências. Os piores aspectos envolviam cálculo de capacidade de público, visibilidade, acesso, circulação, segurança, entre outros, e ficavam em cerca de 40% a 50% de atendimento. Isso revela a não modernização dessas edificações tendo em mente as novas tendências: na Europa, o futebol é efetivamente um negócio e os estádios são parte dessa equação. Eles representam uma parcela muito grande da rentabilidade do clube.
Nesse sentido, um bom projeto é aquele que ajuda na rentabilidade do negócio?
Exatamente. Na Europa, até os estádios antigos foram adaptados, ainda que com evidentes limitações, e hoje são rentáveis.
Quais estádios europeus foram incluídos nessa comparação?
Analisei detalhadamente 14 deles. Visitei-os e entrevistei os administradores. Tentei responder perguntas como: qual o papel da arquitetura nesses estádios? Qual é o gasto com manutenção? Eles são lucrativos ou deficitários? E por quê? Alguns deles me deram acesso a dados financeiros e pude fazer uma análise detalhada de como são suas receitas e despesas.
Como a banca recebeu seu trabalho?
Ele foi muito bem recebido. Por recomendação da banca, eu o divulguei entre as entidades que estavam ligadas à Copa do Mundo ou que são importantes para o futebol brasileiro, como, por exemplo, o Ministério do Esporte e a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF. A Universidade de São Paulo fez uma entrega formal desse trabalho, como uma contribuição da academia.
Qual foi a reação da CBF?
O trabalho causou boa impressão na CBF, e a entidade se mostrou receptiva à proposta de criar uma normativa, pois eles estavam elaborando um caderno de inspeção de estádios através de seu corpo técnico, do Departamento de Competições. A ideia é que isso se desenvolva no sentido de uma inspeção com parâmetros - do tipo bom, ruim, péssimo - e na classificação dos estádios em um ranking para as séries C, B e A. Vamos definir parâmetros para enquadrar os estádios em uma, duas ou três estrelas. Para um clube subir para a série A, por exemplo, deverá ter um estádio três estrelas. Enfim, meu trabalho foi visto como uma contribuição para alcançar esse modelo. Pretendo defender e participar da formulação dessas normativas.
O senhor acha que, a médio prazo, haverá demanda para a construção de outros estádios?
Sim, deve vir uma onda de qualificação e modernização dos equipamentos, tal como começou a acontecer na Europa há 20 anos. E não só aqueles que participaram de eventos serão reformados: haverá novos parâmetros de qualidade e os outros vão se adequar, principalmente quando se observar a viabilidade financeira e os clubes tiverem rentabilidade maior por causa dos estádios. A questão financeira está sempre envolvida, ninguém qualifica um espaço por qualificar.
Deve haver uma onda de modernização de estádios, e não só aqueles que participaram de eventos: outros vão se adequar, quando observarem a viabilidade financeira e os clubes tiverem rentabilidade maior.
Como o senhor foi chamado pela Fifa?
Depois que meu trabalho se tornou conhecido pela CBF, foi feita uma indicação para a participação em uma concorrência que o comitê da Fifa fez para a consultoria técnica. Recebi uma carta convidando-me para essa concorrência, do tipo técnica/preço, participei e fui chamado. Inicialmente, fiz a consultoria técnica das 18 cidades candidatas. Maceió desistiu; o comitê recebeu 17 projetos diferentes e precisava de alguém para analisar e criar um modelo de avaliação único, que pudesse selecionar as melhores soluções e para que a Fifa pudesse discutir.
De que maneira é composto o comitê?
São cerca de 30 pessoas, entre funcionários diretos e consultores, que analisam desde aspectos jurídicos até os financeiros. São pessoas com perfil semelhante ao meu.
Brasileiros ou estrangeiros?
São todos brasileiros.
Ligado aos estádios, é só o senhor?
Dos estádios, só minha equipe está tratando.
A Fifa não engessa o caderno de encargos nem afirma que “tem de ser assim”. Existem recomendações e restrições, mas trabalhamos com flexibilidade, com argumentação e contraargumentação no diálogo com os arquitetos e a entidade.
O comitê expressa a opinião técnica, mas a decisão final é sempre da Fifa, não?
Sim. É uma decisão tomada por eles e anunciada publicamente também por eles. Mas por trás disso há uma troca de informações muito grande. São de 40 a 60 e-mails por dia.
E a respeito do legado dos estádios?
O estádio precisa ter um uso pós-evento. A Fifa também está preocupada com isso.
O papel do senhor e da Fifa está mais relacionado ao evento em si? A preocupação com o legado deveria ser dos governantes, clubes e investidores?
Sem dúvida. Se houver uma argumentação em relação a algum aspecto diferenciado, mas que tem importância para o legado, a proposta é analisada e pode ser aceita. Se não fosse assim, seria mais fácil e mais barato ter 12 estádios iguais. Mas não é por aí. O próprio comitê tomou iniciativas, com o aval da Fifa, com enfoque na sustentabilidade. Devido ao fato de o Brasil não ter tradição na construção desse tipo de equipamento, os arquitetos não terem esse histórico, por não existir normatização nessa área, por não haver um órgão que aprove todos os estádios, o comitê, através de minha iniciativa, decidiu passar alguns parâmetros para as cidades. Até mesmo para haver certa uniformidade nos projetos. O espectador que comprar um ingresso em Manaus, pagando o mesmo preço que em Porto Alegre, quer usufruir do mesmo nível de conforto e do mesmo tipo de instalação. Então, é necessária uma parametrização dos estádios em termos de acabamentos, instalações, conforto, tecnologia. Até a identidade visual corporativa será exigida pelo comitê mais adiante. A Copa do Mundo precisa ter uma cara. E isso será feito através de algumas definições que estão sendo enviadas para as cidades, incluindo tipologia de assentos, iluminação, tecnologia dentro dos estádios, tipo de gramado etc.
Ainda falando do legado, em que aspectos podemos observar a preocupação da Fifa?
Em algumas flexibilizações, por exemplo, de elementos como camarotes, área vip e setor de imprensa. A Fifa não engessa o caderno de encargos nem afirma “tem de ser assim”. Existem recomendações e algumas restrições, mas trabalhamos com flexibilidade, com argumentação e contra-argumentação no diálogo com os arquitetos e a entidade. Há uma preocupação com a viabilidade financeira. Por exemplo: às vezes, o número de camarotes que a Fifa solicita não é o mesmo que a cidade propõe, e isso é discutível. Se, do ponto de vista financeiro, se justificar uma quantidade menor de camarotes, a cidade pode pleitear.
A Fifa prega a proximidade entre o espectador e o espetáculo. Mas atualmente, no Brasil, existe um campo de batalha entre o público e o gramado: grades, fossos, lanças etc. Como vão ficar os estádios depois da Copa: serão instaladas grades ou o público vai se civilizar?
Vamos supor que a Copa não existisse. Sem prazo definido, os estádios se qualificariam para melhorar a rentabilidade, a multiplicidade de uso, para ter uma equação financeira melhor. Isso poderia demorar 50 anos. Creio que a Copa vai acelerar esse processo, pois resultará em estádios diferenciados, mudando a referência do equipamento. O futebol está se modificando: discute-se o calendário, a questão de licenciamento, a modernização dos clubes. Estamos caminhando para a profissionalização do esporte, e os estádios fazem parte dessa equação. Não há como dissociar uma coisa da outra. Então, naturalmente, o público também vai mudar, para que o negócio seja sustentável.
O público muda porque haverá uma elitização ou aqueles que já frequentam os estádios é que vão estar em outro patamar?
Creio que as duas coisas. Vamos continuar tendo os hooligans brasileiros - tem preço de ingresso para isso. Talvez não todos, mas alguns clubes ainda necessitam dessa renda. E teremos a demanda das pessoas que hoje em dia estão no sofá, o pessoal do payper-view, que passará a ir aos estádios porque estes serão confortáveis e eles poderão pagar o valor dos ingressos.
Então as operadoras de TV a cabo precisam se preocupar com o futuro?
Mais ou menos. Guardadas as devidas proporções, é uma transformação semelhante àquela por que passaram os cinemas. Eu me lembro de ir a cinemas onde se sentava em cadeiras de madeira e o som era horrível. Atualmente, até nos shopping centers de periferia há salas de exibição com boa qualidade. O ingresso ali é mais barato que nos cinemas de áreas mais valorizadas, mas é mais caro se for comparado ao valor cobrado antigamente. A ideia é essa: trazer de volta a demanda que se afastou dos estádios não só pela falta de conforto, mas sobretudo pela questão da violência. O que acontece hoje é o aumento do preço do ingresso sem a contrapartida da melhoria no conforto.
Tem gente vendendo a geral com o nome de camarote?
É um fenômeno brasileiro, que tem relação com o produto: o efeito Ronaldo no Corinthians e Vagner Love no Palmeiras. A receita desses dois times aumentou muito por isso: paga-se 250 reais para sentar no concreto ou até mesmo de pé, sem banheiros adequados, sem lugar para comprar um lanche.
Mas o que os clubes e os administradores de estádios públicos vão fazer com um equipamento novo sem que o público mude rapidamente?
Isso não vai mudar rapidamente.
Então os estádios, depois da Copa, vão sofrer adaptações para poder receber jogos do Brasileirão?
Vão. Podem, eventualmente, ter assentos retirados em algumas áreas. Mas no resto do estádio não há como mexer: não dá para modificar a cobertura, por exemplo, ou os banheiros.
E em relação aos alambrados, grades e divisões?
Pode ser que em alguns estádios se coloque alambrado. Mesmo para a Copa, alguns terão fosso.
O senhor defende a importância da viabilidade financeira na gestão dos estádios. Nesse sentido, não é incongruente a existência de 12 sedes? As arenas das cidades com menos recursos cobrarão um tíquete médio barato, serão viáveis?
Essa é uma questão que cada cidade terá de resolver. Muitas não se candidataram a receber jogos porque não enxergaram benefícios futuros; e outras cidades viram a possibilidade de serem colocadas no mapa mundial.
Também em relação à sustentabilidade, e pensando nas arenas verdes, não é um contrassenso a demolição de estádios, resultando em desperdício e criação de entulho?
Não. Hoje há um trabalho de reaproveitamento do concreto de demolição na própria obra. Pode-se utilizar esse material para fazer concreto ou a pavimentação de uma nova arena.
Qual a porcentagem de eficiência a que um estádio adaptado pode chegar, em relação a um novo?
É difícil ter uma regra geral para isso, pois os estádios são muito diferentes. Alguns possuem uma tribuna, outros duas ou três; há estádios que contam com bom esquema de circulação, outros não. A adaptação não é inviável, mas às vezes é muito difícil. De qualquer forma, para o evento, a adaptação de um estádio exige um grande investimento.
Esse investimento é viável do ponto de vista econômico?
Depende. Há algumas cidades que nem têm clube com maior participação no cenário nacional, há outras em que a conta fecha e algumas em que a conta não fecha. Esse não é um problema da Fifa nem do comitê: é uma questão de viabilidade financeira de cada sede. Claro que, no caso das arenas públicas, quanto maior a utilização após a Copa, melhor para os contribuintes. Mas a cidade é que deve fazer essa conta: vale a pena reformar ou fazer um prédio novo? Não dá para fazer uma escolha preferencial por um ou por outro em função de resultados financeiros. Não fazemos um direcionamento em relação a isso.
A cobertura é sempre um dos itens mais caros nos projetos. Ela é necessária num país tropical?
A cobertura é uma recomendação, mas não uma exigência. A não ser nas áreas de imprensa, hospitalidade, vip e very vip. A análise em relação à cobertura é semelhante àquela que é feita para o setor destinado à imprensa: afinal de contas, qual será o destino dado ao estádio depois da Copa? Ele poderá cobrar um ingresso mais caro ou não?
Mas todas as arenas são cobertas.
Até o momento, todos os estádios são cobertos. Mas isso pode mudar.
Em maio, foram anunciadas as cidades escolhidas para os jogos; depois, a entrega de projetos legais, no final de agosto. Qual a próxima etapa no calendário?
As licitações são diferentes - algumas são PPP, outras usam a lei de licitação pública, e há os clubes privados. Além disso, elas ocorrerão em momentos diferentes. Mas há prazos em vista: o início das obras, que ocorrerá em março do ano que vem, e a conclusão delas, programada para dezembro de 2012.
Não há nenhum ícone, mas daremos um passo evolutivo nos projetos de estádios no Brasil. Em termos estéticos, funcionais e de acabamentos, vamos melhorar muito. Isso, claro, se eles forem construídos de acordo com os projetos.
A Fifa fará acompanhamento das obras?
Sim, há um acompanhamento mensal do cronograma da obra.
E se houver atraso?
Isso pode acarretar, no extremo, até a exclusão da sede. Nesse caso, temos que fazer um rearranjo.
O comitê ficou satisfeito com o nível dos projetos?
De forma geral, sim.
No sentido de contribuição arquitetônica, os estádios são relevantes?
Creio que sim. Não temos nenhum ícone arquitetônico, mas daremos um passo evolutivo nos projetos de estádios no Brasil. Em termos estéticos, funcionais e de acabamentos, vamos melhorar muito. Isso, claro, se eles forem construídos de acordo com os projetos.
Por Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 357 Novembro de 2009