Carlos Ferrater

Com trabalhos de destaque na Europa, Carlos Ferrater fala de moradia, de sustentabilidade e da tradição arquitetônica da Catalunha

Com trabalhos de grande relevo na Espanha, o arquiteto catalão Carlos Ferrater vem se notabilizando também na França e na Itália, países com os quais mantém maior afinidade cultural. Sua experiência ancora-se na teoria acadêmica, na qual vem ajustando alguns conceitos segundo conhecimentos adquiridos na prancheta, criando, através de teoria e prática, um corpus que orienta a atuação de sua equipe.
Como o senhor vem desenvolvendo seu trabalho ao longo desses 38 anos de profissão?
Em 1971, quando me formei, a Espanha ainda estava sob a ditadura de Franco [general Francisco Franco, que, após golpe militar, governou a Espanha de 1938 a 1975], e um grupo de professores e jovens arquitetos criou a Escola de Arquitetura de Barcelona. Instalei-me em um pequeno escritório, com uma equipe diminuta; fiz projetos privados, alguns clubes esportivos, fui aprendendo a cultura mediterrânea e a arquitetura moderna. Consegui ganhar vários concursos e construir obras importantes para a Olimpíada de 1992, como as três quadras na Vila Olímpica. No projeto do jardim botânico, em Montjuic, que venceu um concurso internacional em 1989, está a chave para entender como se desenvolve minha arquitetura.
E como é esse processo?
À maneira de proceder através de teorias fractais e processos geométricos mais complexos como redes, malhas, dobras e formas, intercalamos elementos da herança cultural do lugar, extraindo da paisagem o essencial, fazendo aflorar as condições morfológicas e topográficas para as formas da nova paisagem. As questões que o traçado dessa obra em Montjuic levantou vão se converter em uma ferramenta de grande valor científico para os jardins botânicos do século 21. Em outros projetos mais dinâmicos, trabalhamos com um corpus teórico que advém da práxis; não é uma teoria a priori, a elaboração vem depois. Cada projeto nosso amplia a experiência, a teoria. Hoje a arquitetura não tem uma teoria, uma ideologia, as cidades foram abandonadas aos espetáculos de arquitetura, de marca, de grife.
Pode definir essa teoria?
São vários ensaios. A forma de conceber o espaço; para nós, o importante não é a expressão geométrica em si, mas o que acontece nas interseções e articulações e a luz natural que atua nelas. A tensão e a emoção de um edifício aparecem na relação entre seus espaços internos e o exterior. Fizemos diversos ensaios que nos permitiram confrontar teorias complexas com as heranças culturais, como o projeto para Lion, na confluência dos rios Ródano e Saône, que foi vencedor de um concurso internacional do qual participaram grandes arquitetos, como Rem Koolhaas. A partir daí elaboramos projetos, como o passeio marítimo, iniciado em 2000, e o jardim botânico em 2002.
Houve então mudanças em seu modo de trabalhar?
Sim. Há duas explicações para isso. A primeira se refere a uma sincronização na aplicação da teoria, da geometria, aos grandes modelos internacionais, como em Veneza e em Paris, onde estamos trabalhando. A segunda relaciona-se ao grupo de jovens arquitetos com quem trabalho: Xavier Marti, sócio principal, e meus filhos Lucia e Borja, que contribuem com ideias novas. A minha arquitetura é mais artesanal; agora predomina a tecnologia, a estrutura é muito importante, a preocupação com a arquitetura sustentável é maior. Há grande interação entre nós. Assim o estúdio foi evoluindo: de um escritório alicerçado na obra de um arquiteto para uma estrutura profissional de maiores dimensões, mais complexa, capaz de abarcar projetos de diferentes escalas e em distintas localizações geográficas. Essa nova proposta aparece em vários projetos recentes, como a torre em Veneza, no Lido, uma edificação de cem metros, de uso misto para escritórios e moradias, com espaço intermediário, cuja cobertura tem função estrutural. Ali, a luz natural é a matériaprima - aliás, a iluminação natural é um fator preponderante em meu trabalho. Procuramos aplicar o que chamo de “ código genético”, a preocupação com o entorno, com a tradição.
Quais as maiores transformações que Barcelona sofreu para sediar os Jogos Olímpicos?
Para Barcelona, isso representou recuperar o mar, efetuar intervenções pontuais em praças, avenidas, ruas e implantar as rondas circulares, vias rápidas que circundam a cidade. Barcelona era só o centro, a zona alta; os bairros eram a periferia distante e muitas vezes esquecida. As circulares permitiram as obras junto delas, principalmente aquelas relacionadas à Olimpíada. A cidade passou a ter diferentes polos de atração e todos estão interligados. Redistribuiu-se a riqueza e Barcelona tornou-se uma metrópole. Creio que agora há na cidade uma cultura que tem cuidado com o espaço público e com as pequenas obras arquitetônicas. Esse cuidado é uma questão de educação, que aconteceu em um determinado momento, nos anos 1960 e 1970, na escola de arquitetura, com um grupo de arquitetos e professores que acabou sendo chamado de escola de Barcelona. Destacamos as propostas de Oriol Bohigas para habitação, para equipamentos de bairros; Federico Correa propôs, como exercício, um banco público, ressaltando o valor da rua. A raiz profunda está aí, na valorização da condição social da arquitetura.
Na concepção do espaço, o importante não é a expressão geométrica, mas o que acontece nas interseções e articulações e a luz natural que atua nelas. A tensão e a emoção de um edifício aparecem na relação entre seus espaços internos e o exterior.
Existe então uma arquitetura catalã?
Um aspecto que pode diferenciar a arquitetura catalã contemporânea é o cuidado com o espaço público; é curioso que isso se verifique numa tradição meridional, já que é mais próprio de países anglo-saxões, nos quais a condição do bem público prevalece sobre o bem privado. Nos países meridionais há janelas e varandas para se olhar a rua, mas elas se fecham ao exterior. Em Amsterdã, por exemplo, as casas são como vitrines, que se veem a partir da rua. No nosso estúdio, o espaço interior é um prolongamento da cidade.
Existe uma preocupação em relação às habitações populares?
Tivemos a oportunidade de trabalhar, junto com o arquiteto Ignácio Paricio, no projeto da Casa Barcelona, para flexibilizar e otimizar a residência de pequenas dimensões, a partir de intervenções com empresas do setor da construção, buscando componentes construtivos que oferecessem maior liberdade de criação. A habitação social não deve ser copiada da moradia privada, com materiais mais pobres e espaços menores. Deve ser uma casa feita com a imaginação e com ambição igual ou superior àquela que se tem ao fazer um projeto para setores de renda mais elevada. Não se deve gerar guetos, mas promover uma mistura entre as casas privadas e as de interesse social. Concluímos há pouco tempo casas para realocação no sul de Madri, para a Empresa Municipal de Habitação, e foi uma experiência muito gratificante. Hoje, os estudos de arquitetura devem priorizar os projetos na área de habitação urbana pública.
A arquitetura não passa por um bom momento. Prevalece o star system, oito a dez arquitetos que deixam suas marcas, cada qual com uma linguagem, visando o espetáculo. É uma contradição: o espetáculo é rápido e a arquitetura é para permanecer.
Como é trabalhar com arquitetos jovens?
Sou professor há muito tempo e atualmente dou aulas na pós-graduação. Sempre estive vinculado à academia. Interessa-me muito a transmissão de conhecimento, a investigação, a cultura. Trabalhamos democraticamente no escritório; unimos a práxis à teoria. Esse grupo tem uma base teórica, já aplicada no edifíciosede da Marcel Roca, uma empresa de aparelhos sanitários, cuja fachada é de vidro compacto; estabeleceu também um planejamento sustentável, como no passeio marítimo de Benidorm.
Como o senhor avalia a arquitetura contemporânea?
A arquitetura não passa por um bom momento. Prevalece o star system, um grupo de oito a dez arquitetos que vão deixando suas marcas, cada qual com uma linguagem, visando o espetáculo. É uma contradição: o espetáculo é rápido e a arquitetura é para permanecer. Bilbao era uma cidade deteriorada quando se construiu o Museu Guggenheim, de Frank Gehry. É um caso à parte: aconteceu uma síntese entre a obsoleta área industrial e a arquitetura fresca de Gehry, cujo resultado foi um monumento. Aprecio mais a arquitetura silenciosa, como a de Peter Zumthor, de Paulo Mendes da Rocha, de Terunobu Fujimori. E o italiano Renzo Piano. E, entre os jovens, os de origem nórdica.
Na Espanha, em particular, quem está na vanguarda?
Na Espanha, a arquitetura é mais séria, tem mais lógica estrutural, é mais voltada para o social. Aprecio muito Enric Miralles, suas primeiras obras têm mais concepção teórica, mais emoção. Trabalham atualmente no país tanto arquitetos mais velhos quanto mais jovens, e os mais representativos, hoje, são Emilio Tuñón, Nieto y Sobejano, García de Paredes, Antonio Cruz e Antonio Ortiz, Carme Pinós, que vêm projetando museus, teatros e escolas, não grandes obras.
Essa moderação na arquitetura espanhola contemporânea se deve à tradição?
Na Espanha não existe uma tradição, como na Finlândia ou na Holanda. Aqui se rompeu essa linha; alguns arquitetos, como Coderch e Alejandro de la Sota, recorreram à arquitetura contemporânea e a converteram em arquitetura espanhola. Na Espanha, especialmente na Catalunha, existe uma forte influência italiana, da escola de Milão, de Franco Albini, Ignazio Gardella, Vico Magistretti, além dos teóricos de Veneza.
Em que medida a globalização da cultura vem interferindo na produção arquitetônica europeia?
Na Europa convergem diferentes fatores. Em primeiro lugar, existe um espaço raro de educação superior e ensino de arquitetura em Bolonha, onde se realizam reuniões de intercâmbio entre universidades europeias. Isso significa um processo novo do ponto de vista acadêmico. Em segundo lugar, equipes de arquitetura, em média com cerca de 30 profissionais, podem colaborar em diferentes lugares que tenham ambições semelhantes. Em terceiro, espera-se que a arquitetura europeia se caracterize por um meio ambiente impecável, sustentável, para aproveitar melhor os recursos naturais.
A Europa está mais consciente dessas questões ligadas à sustentabilidade?
Na Europa há mais consciência disso do que nos Estados Unidos, na China e na América Latina. Não temos matéria-prima nem petróleo. Temos cidades não consolidadas e precisamos pensar em recuperálas, em vez de construir novas cidades. Nossas periferias são malcuidadas, embora haja diferenças grandes entre as do Leste europeu e as da Europa meridional. É necessário maior conscientização, maior nível de sustentabilidade e os escritórios devem ter tamanho médio; os pequenos, com equipes de cinco, seis pessoas, não vão conseguir se manter.
E com relação ao Brasil, como avalia nossa arquitetura?
Ela me fascina. Gosto da arquitetura do Brasil porque não é acorrentada. São Paulo é uma cidade muito viva, muito importante. É diferente do Rio de Janeiro, que, por sua vez, tem uma topografia excepcional. São Paulo tem Lina Bo Bardi, com o museu sobre a esplanada; o Museu da Escultura e a Pinacoteca do Estado, de Paulo Mendes; Artigas - a FAU é extraordinária, eu me comovi ao visitá-la. Projetei uma casa pensando em Lina. No Rio tem Niemeyer, Lucio Costa e também a tradição de paisagismo com Burle Marx. No projeto do passeio marítimo de Benidorm fiz uma alusão às calçadas de Copacabana, às linhas sinuosas de Niemeyer, às cores.
Por Haifa Yazigi Sabbag
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 365 Julho de 2010
Carlos Ferrater
Professor catedrático de projeto da Universidade Politécnica da Catalunha (UPC), doutor honoris causa pela Universidade de Trieste, diretor da Cátedra Blanca de Barcelona (Cátedra Blanca é uma escola cujo objetivo é aprofundar o estudo, a aplicação e a difusão do concreto na arquitetura e o uso do cimento branco nos projetos arquitetônico), membro da Real Academia de Belas Artes de Sant Jordi, Carlos Ferrater vem acumulando várias láureas. Entre elas estão o Prêmio Nacional de Arquitetura Espanhola de 2001 e o Prêmio Barcelona de 1999 e de 2008, bem como outras premiações internacionais recebidas por seu projeto para a estação intermodal Saragoça-Delicias, situada naquela cidade. O arquiteto é detentor ainda do Prêmio Internacional do Riba 2008, pela monografia publicada no livro Carlos Ferrater: Office of Architecture in Barcelona, da editora Manel Padura. Em sua longa lista de obras, podem ser destacadas as três quadras na Vila Olímpica de Barcelona (no bairro alto de Cerdá), o Instituto Científico e Jardim Botânico de Barcelona, vários edifícios-sede de grandes empresas, como a Gisa e a FGC, todos em Barcelona, assim como a ampliação do aeroporto da cidade. Ainda na Espanha, acrescentam-se a esse rol um quarteirão residencial com centro social no seu interior em Fort Pienc e o passeio marítimo da praia de Poniente de Benidorm, entre outras. No exterior, alguns de seus trabalhos mais conhecidos são a Torre Aquileia, em Veneza; o complexo de escritórios junto ao rio Sena, em Paris; o Centro Cultural Jacobins, em Le Mans; e o Museu das Confluências, em Lion. Em 2006, Ferrater inaugurou seu atual escritório - Office of Architecture in Barcelona (OAB) -, com o arquiteto Xavier Marti e os filhos Lucia e Borja Ferrater, além de cerca de 30 colaboradores. Foi nesse espaço amplo e luminoso, uma pequena amostra de seu trabalho, que ele nos recebeu para esta entrevista.