Carlos Motta
Famoso pelo design de móveis em madeira, o arquiteto paulistano conta como o surfe, a serra e a cidade influenciam sua bem-sucedida carreira
- Detalhes
- 19 de Novembro de 2010. Visitas: 6.355
“Eu continuo realizando um exercício sobre como habitar bem um lugar”, diz Carlos Motta, cuja arquitetura é uma extensão de sua obra como designer. Personagem único da cena arquitetônica nacional, ele é uma espécie de discípulo do escritor e crítico John Ruskin (1819-1900) que, ao longo do tempo, não perdeu a essência da contracultura. Para Motta, status e poder “levam a uma arquitetura tristíssima”.
Apesar de seu principal foco ser o desenho de móveis, o senhor tem uma produção arquitetônica que é uma extensão da produção de mobiliário. É isso mesmo?
Para mim as coisas são muito misturadas. Meu ateliê tem uma porta aberta para a rua, que acaba simbolizando que em minha vida não existe ruptura entre o trabalho, a família, o ócio, o prazer, o surfe, a contracultura etc. Minha arquitetura e meu design estão combinados de forma holística - para usar uma palavra que está um pouco desgastada.
Desde os primeiros projetos que fiz, quando estava no último ano da faculdade e antes de ir morar na Califórnia - uma fazenda na divisa do Brasil com o Paraguai, um lugar com topografia lindíssima, e um projeto em Ponta Porã, MS, que foi minha primeira proposta executada -, já aparecem claramente os meus conceitos, que se repetem ao longo de 35 anos.
Desde os primeiros projetos que fiz, quando estava no último ano da faculdade e antes de ir morar na Califórnia - uma fazenda na divisa do Brasil com o Paraguai, um lugar com topografia lindíssima, e um projeto em Ponta Porã, MS, que foi minha primeira proposta executada -, já aparecem claramente os meus conceitos, que se repetem ao longo de 35 anos.
Que conceitos são esses?
Algo que sempre me afligiu - principalmente nas áreas urbanas - é entrar na casa e o espaço acabar. Isso porque atrás tem um quarto, depois um banheiro e coisas assim. Eu sempre tive a vontade de entrar e ver o outro lado, de enxergar o fundo do lote, por exemplo. Eu quero que meu olho atravesse essa perspectiva por dentro da casa nos dois sentidos, longitudinal e transversal. Há isso em todos os meus projetos. É algo intuitivo, não é intelectualizado.
Outra coisa: eu não gosto de mexer na topografia. Faço tudo para não modificar um terreno que está geologicamente consolidado há bilhões de anos. A única coisa que faço é pegar uma enxada e, de leve, assentar a “bunda” da casa no lote. Tento me amoldar à situação porque, do contrário, vou criar um impacto negativo.
O ser humano é inteligente e transformador: em um minuto convertemos um pedaço de madeira em uma fruteira, uma árvore em uma canoa e até silício em computador. Nossa capacidade de transformação é, ao mesmo tempo, incrível e perigosa. Dois homens com dois D10 - que são aqueles tratores grandes - tiram um morro do lugar em menos de um dia. E, com o morro, vão embora a vegetação, insetos, nascentes e tudo o mais. Não se trata de uma posição xiita, romântica ou ecochata: é a descrição da realidade.
Pensar assim me entusiasma: vamos habitar um lugar causando o mínimo dano possível e oferecer a melhor qualidade de vida. Nós todos precisamos de conforto, segurança, silêncio, calor e ventilação. Com inteligência, dá para chegar muito perto disso e, quando não é possível, podemos usar o ar-condicionado, ventilações, isolamentos térmico e acústico. Então, para mim, a arquitetura sempre esteve muito perto de chegar na coisa mais pura.
Outra coisa: eu não gosto de mexer na topografia. Faço tudo para não modificar um terreno que está geologicamente consolidado há bilhões de anos. A única coisa que faço é pegar uma enxada e, de leve, assentar a “bunda” da casa no lote. Tento me amoldar à situação porque, do contrário, vou criar um impacto negativo.
O ser humano é inteligente e transformador: em um minuto convertemos um pedaço de madeira em uma fruteira, uma árvore em uma canoa e até silício em computador. Nossa capacidade de transformação é, ao mesmo tempo, incrível e perigosa. Dois homens com dois D10 - que são aqueles tratores grandes - tiram um morro do lugar em menos de um dia. E, com o morro, vão embora a vegetação, insetos, nascentes e tudo o mais. Não se trata de uma posição xiita, romântica ou ecochata: é a descrição da realidade.
Pensar assim me entusiasma: vamos habitar um lugar causando o mínimo dano possível e oferecer a melhor qualidade de vida. Nós todos precisamos de conforto, segurança, silêncio, calor e ventilação. Com inteligência, dá para chegar muito perto disso e, quando não é possível, podemos usar o ar-condicionado, ventilações, isolamentos térmico e acústico. Então, para mim, a arquitetura sempre esteve muito perto de chegar na coisa mais pura.
Falando assim, o senhor não tem medo de ser rotulado de piegas ou romântico?
Não é isso: é intuição. Nos anos 1970, eu comprei um livro chamado Animal architecture, escrito por um alemão [o etologista Karl von Frisch, prêmio Nobel de medicina em 1973]. Ele mostra as pequenas casas, as habitações, os ninhos e cantos que cada bicho constrói para dar continuidade a sua raça. É das coisas mais geniais que eu já vi. É harmônico, respeitoso - dentro de uma cadeia alimentar cruel: um está comendo o outro, o animal faz um ninho bem bonito e depois leva um pedaço de perna de coelho para o filhote comer.
Falando exclusivamente da habitação, é muito bonito. E quando chega a hora de o homem criar seu espaço entram o status e o poder, e algo que poderia ser harmônico se deteriora. O resultado é muito feio e leva, por exemplo, à arquitetura produzida em São Paulo, que é tristíssima.
Falando exclusivamente da habitação, é muito bonito. E quando chega a hora de o homem criar seu espaço entram o status e o poder, e algo que poderia ser harmônico se deteriora. O resultado é muito feio e leva, por exemplo, à arquitetura produzida em São Paulo, que é tristíssima.
Como o senhor consegue conviver com a cidade?
Eu me sinto muito incomodado com a forma como ocupamos a cidade. Todo mundo vive mal: os ricos trancafiados atrás de seus muros e os pobres nas favelas. Isso resultou em uma arquitetura cruel, feia, antiestética, burra. Como eu sou um arquitetinho muito pequenininho nas coisas que venho fazendo, continuo realizando um exercício sobre como habitar bem um lugar.
Todos temos as mesmas exigências básicas dentro do habitar: todos fazemos necessidades, nos reproduzimos, dormimos, comemos, sofremos. Não importa onde, se na Mantiqueira, no Vietnã ou em Nova York. Tanto faz: o ser humano é totalmente idêntico no sentido de sua origem animal. Se eu beliscar você, você grita; se eu for agressivo com você, você revida. E o bacana é que, apesar de todo esse instinto animal, nós ainda tiramos proveito da estética, do belo.
A arquitetura e o design podem ser belos. Mas ignoraram isso tudo e partiram para o mercantilismo, para o que vende. Cria-se uma arquitetura boçalizada, completamente distante do que possa ser honesto, feliz, harmônico ou, mais do que tudo, generoso.
Todos temos as mesmas exigências básicas dentro do habitar: todos fazemos necessidades, nos reproduzimos, dormimos, comemos, sofremos. Não importa onde, se na Mantiqueira, no Vietnã ou em Nova York. Tanto faz: o ser humano é totalmente idêntico no sentido de sua origem animal. Se eu beliscar você, você grita; se eu for agressivo com você, você revida. E o bacana é que, apesar de todo esse instinto animal, nós ainda tiramos proveito da estética, do belo.
A arquitetura e o design podem ser belos. Mas ignoraram isso tudo e partiram para o mercantilismo, para o que vende. Cria-se uma arquitetura boçalizada, completamente distante do que possa ser honesto, feliz, harmônico ou, mais do que tudo, generoso.
E se o chamassem para fazer um prédio em São Paulo? O senhor aceitaria?
Acho que eu aceitaria, mas não sei se eu estou capacitado para isso. Não discordo da verticalização. Não tenho dúvida de que o ser humano gosta de viver apinhado, não é à toa que essa cidade não para de crescer. E não é só uma questão de oportunidades.
Eu, por exemplo, moro em São Paulo e sou surfista com tendências naturebas extremas. Já morei na Califórnia, e voltei; fui para o litoral de São Paulo, e voltei; fiquei durante vários períodos na Europa, rodei o mundo para surfar, fui para os lugares mais ermos, isolados e lindos, puros. Mas, de repente, me pegava pensando: “Que saudades de São Paulo!”. Quando eu voltava, passava pela marginal e observava aqueles cachorros atropelados e estufados na beira da via, os motoboys a todo vapor, e concluía: “Cheguei”. Gostamos de nos agrupar e verticalizar é muitas vezes uma solução. Mas o jeito como isso está sendo feito é equivocado e cruel.
Eu, por exemplo, moro em São Paulo e sou surfista com tendências naturebas extremas. Já morei na Califórnia, e voltei; fui para o litoral de São Paulo, e voltei; fiquei durante vários períodos na Europa, rodei o mundo para surfar, fui para os lugares mais ermos, isolados e lindos, puros. Mas, de repente, me pegava pensando: “Que saudades de São Paulo!”. Quando eu voltava, passava pela marginal e observava aqueles cachorros atropelados e estufados na beira da via, os motoboys a todo vapor, e concluía: “Cheguei”. Gostamos de nos agrupar e verticalizar é muitas vezes uma solução. Mas o jeito como isso está sendo feito é equivocado e cruel.
Nossa capacidade de transformação é, ao mesmo tempo, incrível e perigosa. Dois homens com dois D10 tiram um morro do lugar em menos de um dia. E, com o morro, vão embora a vegetação, insetos, nascentes e tudo o mais.
Suas primeiras casas, antes do período na Califórnia, já eram de madeira?
Já usava bastante madeira. Eu sempre gostei da madeira pelo fato de ela ser orgânica, cheirosa, cheia de vida, bonita, aconchegante. Ela apresenta problemas de isolamento acústico e eu trabalhei alternativas para melhorar isso. Fui atrás das madeiras que teriam maior durabilidade, sabendo que o Brasil é um país que experimenta muitas agressões da natureza, como bastante sol, grande quantidade de chuva, secura e umidade. Passamos por tudo aqui e a madeira, como material orgânico, sofre com essas ocorrências.
Fui muito orientado por nossa língua nativa, o tupi, que é interessante porque sempre absorve a essência e o âmago para nominar as coisas. A itaúba, por exemplo: ita quer dizer pedra e uba é madeira. Ou seja, é uma madeira tão dura quanto a pedra. Eu também tenho um dicionário de topônimos, que trata dos nomes topográficos que foram dados em tupi. Com ele, eu entendi mais o Brasil.
Um exemplo que ilustra bem essa questão da língua - e que todo mundo conhece - é o filho de índio ser curumim, ou seja, uma criança que não tem nome. Ainda não apareceu uma identidade, uma essência a tal ponto clara que mereça um nome. Se um índio chegasse aqui agora e visse você, ele observaria suas características mais fortes - o cabelo moreno para trás, os óculos - e a partir dessa informações criaria o nome.
Fui muito orientado por nossa língua nativa, o tupi, que é interessante porque sempre absorve a essência e o âmago para nominar as coisas. A itaúba, por exemplo: ita quer dizer pedra e uba é madeira. Ou seja, é uma madeira tão dura quanto a pedra. Eu também tenho um dicionário de topônimos, que trata dos nomes topográficos que foram dados em tupi. Com ele, eu entendi mais o Brasil.
Um exemplo que ilustra bem essa questão da língua - e que todo mundo conhece - é o filho de índio ser curumim, ou seja, uma criança que não tem nome. Ainda não apareceu uma identidade, uma essência a tal ponto clara que mereça um nome. Se um índio chegasse aqui agora e visse você, ele observaria suas características mais fortes - o cabelo moreno para trás, os óculos - e a partir dessa informações criaria o nome.
Ele o batiza.
Sim, e isso é tão legal pois é o óbvio e tem ligação com o meu design e a minha arquitetura. Fiz meu primeiro móvel com gaveta quando meu filho ia nascer e nós estávamos na Califórnia. Eu estava fazendo um curso de marcenaria e aproveitei para desenhar um móvel que servisse para trocar meu filho e guardar as roupinhas dele. Quando chegou a hora de desenhar o puxador, fiquei imaginando como ele seria. Eu pensei: vou pegar com o dedo indicador e com o dedão e vou puxar.
Então, precisa ter um ângulo para que minha mão encaixe ali de forma adequada e na hora de puxar isso seja feito da maneira mais confortável. Desenhei um puxador como aquele [apontando um móvel exposto]. Já se passaram 32 anos e eu repito isso até hoje! Não consegui pensar num puxador que me dê melhor resultado do que esse em termos ergonômicos, de fabricação - a menor carga horária possível para produzir -, em termos estéticos, de funcionalidade. Então, se ele resolveu, não tenho necessidade de inventar uma coisa nova.
Então, precisa ter um ângulo para que minha mão encaixe ali de forma adequada e na hora de puxar isso seja feito da maneira mais confortável. Desenhei um puxador como aquele [apontando um móvel exposto]. Já se passaram 32 anos e eu repito isso até hoje! Não consegui pensar num puxador que me dê melhor resultado do que esse em termos ergonômicos, de fabricação - a menor carga horária possível para produzir -, em termos estéticos, de funcionalidade. Então, se ele resolveu, não tenho necessidade de inventar uma coisa nova.
Eu não consigo sentar à frente de uma prancheta, fazer um projeto, mandá-lo para o cliente e considerar que encerrei meu trabalho. Eu me envolvo muito na execução, me apaixono pelo material e pela matéria-prima da obra, pela terra, pela cultura local.
Falemos um pouco do período em que morou na Califórnia, na década de 1970.
Com as primeiras casas que fiz, ganhei um dinheiro, casei e fui embora para a Califórnia. Lá, comprei um carrinho e aluguei uma casa. Minha mulher estava grávida. Eu queria aprender marcenaria, e no Brasil o único curso bom era o do Liceu de Artes e Ofícios, que tinha fechado. Eu tinha certeza de que, sendo meu desenho um pouco fraco em termos de grafismos, se eu tivesse conhecimento de marcenaria saberia quais seriam os encaixes.
Antes disso, eu me empreguei em algumas marcenarias na rua Piratininga, no Brás [bairro da região central de São Paulo], mas o processo era muito lento. E na Califórnia, além dos cursos, tinha o surfe. Também fiz cursos de técnicas construtivas, dados para o pessoal que vai para os estaleiros fazer navios. Para ganhar dinheiro, eu ia ao flea market [o mercado das pulgas, de venda de objetos usados], comprava cadeiras lindas, mas quebradas, gastava dois ou três dólares para arrumá-las e as vendia por 30 dólares.
Passaram pela minha mão diversas cadeiras interessantes, de Charles Eames e dos shakers [grupo religioso cuja origem remonta ao século 18, na Inglaterra, que tem um estilo peculiar de mobiliário]. Quando vi os móveis dos shakers, que eu nem sabia quem eram, pirei: era tudo o que eu queria fazer.
Antes disso, eu me empreguei em algumas marcenarias na rua Piratininga, no Brás [bairro da região central de São Paulo], mas o processo era muito lento. E na Califórnia, além dos cursos, tinha o surfe. Também fiz cursos de técnicas construtivas, dados para o pessoal que vai para os estaleiros fazer navios. Para ganhar dinheiro, eu ia ao flea market [o mercado das pulgas, de venda de objetos usados], comprava cadeiras lindas, mas quebradas, gastava dois ou três dólares para arrumá-las e as vendia por 30 dólares.
Passaram pela minha mão diversas cadeiras interessantes, de Charles Eames e dos shakers [grupo religioso cuja origem remonta ao século 18, na Inglaterra, que tem um estilo peculiar de mobiliário]. Quando vi os móveis dos shakers, que eu nem sabia quem eram, pirei: era tudo o que eu queria fazer.
De volta da Califórnia, o senhor fazia muitos projetos de arquitetura?
Fazia um ou dois projetos por ano, várias casas no litoral norte, mas eu não construía. Isso está relacionado a um problema gráfico: eu tenho muita dificuldade para desenhar, não sou habilidoso nessa área. Desenho minhas coisas mas não tenho um traço que no plano fique bem esclarecido. Nessa época eu trabalhava sozinho e era um esforço desenhar.
Em papel manteiga?
Manteiga e vegetal. Era um esforço grande, mas na hora em que eu via tudo se transformar no tridimensional, percebia que estava dando certo. Aqui, no meu ateliê, com os móveis, eu acabei tendo marcenaria, pois possuo mais habilidade no espaço tridimensional do que no plano. Em relação ao mobiliário, eu conheço os ângulos corretos, as alturas, o que é bom na hora de sentar para comer, sentar para descansar, para ler. Então, para mim, é fundamental acompanhar a experimentação em três dimensões.
Quem construía as casas?
Eram sempre construtores, mestres de obra que eu arrumava.
Nessa fase há muitas casas no litoral norte de São Paulo, não?
Sim. Entre elas a primeira casa que fiz para mim e minha primeira mulher, na Barra do Sahy [na cidade de São Sebastião], em 1983 ou 1984. Eu não consigo sentar à frente de uma prancheta, fazer um projeto, mandá-lo para o cliente e considerar que encerrei meu trabalho. Eu me envolvo muito na execução, me apaixono pelo material e pela matéria-prima da obra em si, pela terra, pela vegetação, pela cultura local. Por isso, minha produção de arquitetura mudou quando fui para a serra da Mantiqueira e comecei a capacitar as pessoas para a construção civil.
Quando foi isso?
Isso aconteceu há uns 15 anos. Estou tão acostumado a desenhar e executar os móveis que, antes da Mantiqueira, havia um momento frustrante nos projetos que eu realizava: passar do desenho e do plano para o tridimensional, porque é exatamente essa a hora em que eu me expresso muito, em que improviso bastante.
Como o senhor faz isso? Construindo maquetes?
Não, é a própria construção em si.
Sim, na cadeira é possível testar um protótipo 1:1. Mas e na arquitetura?
Existe um projeto de arquitetura convencional e, ao longo da execução, detalhamentos e pequenas soluções que são feitos na obra. E com isso eu me descobri muito mais um construtor do que um projetista. Assim como eu não me considero um designer completo - Sergio Rodrigues me classificou como um projetista de móveis -, não me considero um arquiteto completo: acho que sou um projetista e construtor de casas confortáveis.
Como o senhor escolheu a serra da Mantiqueira?
Entre 1994 e 1995, eu tirei um ano para surfar e pensar, para ver se estavam certos os rumos que eu estava seguindo. Fomos eu, minha mulher e meus quatro filhos para a Califórnia.
O ateliê foi fechado?
Não, ficou tudo funcionando. Nessa época inventaram o fax e eu pude mandar desenhos. Quando voltei, foi um baque. Pensei: “Não estou a fim de morar nesta cidade de novo”. Logo me veio à mente o litoral, pois é o lugar de que mais gosto, sou surfista e pescador. Mas a vida caiçara do litoral de São Paulo acabou, foi destruída pelo grande número de condomínios, por uma ocupação completamente equivocada. Tudo muito favelizado.
E, apesar de continuar a ser lindíssimo, o litoral se descaracterizou e se degradou. Eu continuo frequentando, mas para mim não seria um lugar bom para morar: não tem escola e nada de cultura. Ou seja, não tem qualidade de vida. Tem muito assalto, não tem água boa. É a cota mais baixa: tudo que vem descendo - de esgoto a bandido - vai parar lá.
Então pensei que teria de procurar um lugar alto, onde nascem as águas. Peguei uns mapas do IBGE e comecei a pesquisar; fiquei seis meses com a barraca e o facão no carro. Fui para o sul de Minas, naquela região próxima de Campos do Jordão, até achar um local que tinha os pré-requisitos que eu queria.
E, apesar de continuar a ser lindíssimo, o litoral se descaracterizou e se degradou. Eu continuo frequentando, mas para mim não seria um lugar bom para morar: não tem escola e nada de cultura. Ou seja, não tem qualidade de vida. Tem muito assalto, não tem água boa. É a cota mais baixa: tudo que vem descendo - de esgoto a bandido - vai parar lá.
Então pensei que teria de procurar um lugar alto, onde nascem as águas. Peguei uns mapas do IBGE e comecei a pesquisar; fiquei seis meses com a barraca e o facão no carro. Fui para o sul de Minas, naquela região próxima de Campos do Jordão, até achar um local que tinha os pré-requisitos que eu queria.
Quais eram?
Altitude, terra boa, bastante água, vista, fim de linha, local preservado. Achei um lugar lindíssimo, uma área enorme, e comecei a desenvolvê-lo. Não tinha nada, nem estrada. E fiz uma primeira casinha, utilizando as pedras que estavam ali no terreno, afloradas no pasto, e madeiras de qualidade. Não havia luz, usávamos lampião e vela. Depois eu trouxe da Califórnia uma turbina eólica, instalei uma placa fotovoltaica e passamos a ter luz elétrica com uso muito mais pontual. Quando ficou pronta, alguns amigos disseram: “Nossa, eu também quero uma cabana como essa!”.
Quem foi o construtor?
Era um construtor local, que já havia trabalhado com blocos e tijolos, mas eu fiz alguns pedaços dos muros de pedras para ele perceber como eu queria, fiz os encaixes de madeira. E assim começou um processo de capacitação. Hoje são 48 pessoas que trabalham em três times. Também há um time só de marcenaria, que executa os meus desenhos.
Todos baseados na Mantiqueira?
Sim, e só construíamos lá. Até que apareceu o primeiro projeto fora, em Taguaíba, uma praia muito bonita no Guarujá [litoral sul paulista]. Levei um dos times e deu certo. Eles nunca tinham visto o mar. Terminamos essa e fomos para São Manuel fazer a sede de uma fazenda. E não paramos mais.
Como é sua relação profissional com essa equipe?
A construtora é deles e eu tenho uma porcentagem - entre 10% e 15% do valor -, que é informada claramente para todos os clientes. Além de fazer os projetos e trazer os clientes, eu administro a obra e capacito todos. Em alguns casos, estamos mexendo com tecnologia na iluminação, ar condicionado, aquecimento de água etc.
No começo eles se deslumbraram quando começaram a ganhar dinheiro e quase abandonaram a cultura local: não acordavam mais às cinco da manhã para subir o morro, tirar leite para fazer queijo; compraram caminhonetes caras, construíram sítios. Eu avisei: “Se vocês abandonarem isso, vão bater com a cara no muro, porque não conseguirão absorver a cultura nova por inteiro e vão perder a antiga, que corre em suas veias”. Agora, eles continuam tirando leite e fazendo queijo, mas estão aprendendo a mexer no computador e entendendo que não é preciso trabalhar 18 horas por dia, o ideal é de seis a oito. O resto do tempo é para o ócio, a pesquisa, para ficar com a família.
No começo eles se deslumbraram quando começaram a ganhar dinheiro e quase abandonaram a cultura local: não acordavam mais às cinco da manhã para subir o morro, tirar leite para fazer queijo; compraram caminhonetes caras, construíram sítios. Eu avisei: “Se vocês abandonarem isso, vão bater com a cara no muro, porque não conseguirão absorver a cultura nova por inteiro e vão perder a antiga, que corre em suas veias”. Agora, eles continuam tirando leite e fazendo queijo, mas estão aprendendo a mexer no computador e entendendo que não é preciso trabalhar 18 horas por dia, o ideal é de seis a oito. O resto do tempo é para o ócio, a pesquisa, para ficar com a família.
Na entrevista que está no livro que acaba de lançar, o senhor fala de coisas que aprendeu com Paulo Mendes da Rocha, de quem foi estagiário. Ele dava à equipe espaço para opinar nos projetos, é isso?
Ele é tão tranquilo e seguro de seus conceitos e ideias sobre arquitetura e urbanismo, sobre a maneira de construir e edificar, que pode, de forma aberta, generosa e tranquila, abrir essas questões com quem trabalha lá. Ele falava o seguinte: “Estou fazendo este projeto - o que vocês acham disso aqui?”. Quando faz arquitetura, ele deixa isso muito bem exposto e gosta de ouvir o outro. Nessa hora ele abria para os estagiários e para quem estivesse por perto para dar um palpite.
Existe um projeto de arquitetura convencional e, ao longo da execução, detalhamentos e soluções que são feitos na obra. E com isso eu me descobri muito mais um construtor do que um projetista. Não me considero um arquiteto completo.
O senhor ficou quanto tempo lá?
Um ano e pouco. Mas dar esses palpites para mim foi muito importante pois eu me senti gente.
E o que o senhor lembra de ter feito?
Eu era estagiário, ficava fazendo carimbos e desenhos simples. Coisas singelas de estudante. Mas o convívio foi muito rico. Na época, ele estava fazendo o [conjunto habitacional] Cecap, em Guarulhos.
Por Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 367 Setembro de 2010
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 367 Setembro de 2010
Carlos Motta é um dos mais consagrados designers brasileiros de sua geração. Suas peças contam mais uma etapa da história das cadeiras brasileiras de madeira, integrando um rol onde estão, entre outros, Sergio Rodrigues e Joaquim Tenreiro. Contudo, além dos móveis, Motta também projeta espaços, sobretudo casas de veraneio e edificações comerciais
Formado em 1976 pela Faculdade de Arquitetura Brás Cubas, de Mogi das Cruzes, ele é integrante de um grupo de arquitetos ligados à contracultura - do qual fazem parte, entre outros, Eduardo Longo, Alfredo Pimenta, Vitor Lotufo e Walter Ono -, cuja produção ainda possui muitos capítulos por serem escritos. Ele acaba de lançar um livro - Carlos Motta e a vida -, pela editora Beĩ, no qual fica evidente o entrelaçamento entre a trajetória pessoal e a profissional. Com seu uniforme - camiseta de gola cortada e calças alargadas -, ele recebeu PROJETO DESIGN para uma entrevista sobre sua produção arquitetônica


