EDUARDO MAY ZAIDAN

As obras de 2006/08 promoverão um crescimento no PIB da construção entre 3% e 3,5%, em 2009, afirma o diretor de economia do Sinduscon/SP

Impacto da crise ainda é avaliado pelo setor
Diretor de economia do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon/SP), Eduardo May Zaidan diz que é cedo para medir os efeitos da crise econômica mundial sobre o setor. Os investimentos já firmados devem segurar a queda acelerada em 2009, mas, se o olhar estiver voltado para o ano que vem, há motivos para cautela.
Qual o cenário em 2009 para a indústria da construção civil, diante dos efeitos da crise econômica mundial?
A construção civil processa mais ou menos metade dos investimentos feitos no país. Em 2007 e 2008 a taxa de investimentos na economia brasileira foi extraordinária, atingindo o recorde de quase 20%, no terceiro trimestre do ano passado. Em anos anteriores foram registrados índices de 12% a 14%. E investimento na economia brasileira significa investimento em infraestrutura, máquinas e equipamentos. Essa injeção de recursos já vinha acontecendo e segurou esse primeiro momento da crise, a partir do segundo semestre de 2008. Como o crescimento é algo que não se faz de hoje para amanhã, o volume de investimentos tomados em 2007 e 2008 continuará pelo menos até o fim do primeiro semestre de 2009 e a construção civil também seguirá trabalhando, para terminar os projetos já em andamento.
Dos investimentos globais, qual a parcela que passa pelas mãos da contrução civil?
Mais ou menos metade dos investimentos passa pelas mãos da construção civil, aplicados na implantação de fábricas, rodovias, escolas, postos de saúde, moradias. A economia cresce quando há investimentos e a construção civil se alimenta desse incremento, crescendo muito mais. Mas, em qualquer época que olharmos no passado, no presente e provavelmente no futuro, veremos que a construção civil tem um comportamento exagerado em relação à economia brasileira. Se a economia está crescendo, a construção civil cresce muito mais, e se está caindo, ela cai muito mais. É possível fazer a economia crescer via consumo, que é um crescimento que não vai longe, ou crescer via investimento. Nosso crescimento nos últimos anos foi um crescimento de qualidade porque grande parte das importações foram de máquinas, processos para melhorar a produtividade, investimentos em infraestrutura. Como estamos fazendo crescimento com investimento, teremos a construção civil trabalhando, porque ela processa metade do investimento.
Então o cenário atual não é dos piores?
Não, não é dos piores. Existem obras que serão concluídas em 2009 e outros contratos que irão até 2010. São obras contratadas, com apartamentos já vendidos e financiamentos aprovados. Esses edifícios serão construídos e consumirão aço, caixilho, cimento, vidro, tinta, mão-de-obra e outros insumos.
Qual o comportamento dos preços dos materiais dos últimos meses de 2008 até agora?
Só temos os índices de preços de dezembro. Mesmo assim é pouco tempo para a construção civil avaliar. Não somos fabricantes de bens de consumo, sendo, portanto, difícil dimensionar reflexos num primeiro momento. Se parou de vender, o que acontece se o consumidor não comprar o apartamento hoje e só fizer isso daqui a dois meses? Nada. O que acontece se o consumidor não comprar o carro hoje e fizer isso só depois de dois meses? O pátio da montadora fica lotado de veículos. Não colocamos no mercado produtos acabados, como ocorre com a indústria de transformação de modo geral. Na construção civil é tudo mais lento. Então esses números que vêm sendo colocados sobre a economia brasileira demoram para refletir no setor. O último dado que temos de nível de emprego, por exemplo, é de outubro.
E até outubro como estava?
Até esse mês foi um recorde, mais de dois milhões e duzentos mil empregados no Brasil inteiro, com crescimento excepcional a partir do fim de 2006. Houve aumento de 342 mil postos de trabalho, em 2008, em comparação com outubro de 2007. Foram cerca de 40 mil empregos criados todo mês, com carteira assinada. E os segmentos imobiliário e de infraestrutura lideraram as contratações.
Como foram os dois últimos meses de 2008?
Tradicionalmente, as pesquisas apontam que nos meses de novembro e dezembro sempre ocorre uma queda no número de empregos, mas isso é um fenômeno sazonal. Em geral, o crescimento do número de postos de trabalho é retomado já no primeiro trimestre do ano seguinte. Mas nesse momento a avaliação de mercado ainda não nos permite distinguir até que ponto o fechamento de vagas resulta da sazonalidade ou, na verdade, é um dos efeitos da crise econômica internacional.
É possível fazer previsões para o cenário nos próximos meses?
É muito difícil. Que vai cair nós sabemos. Mas há o efeito de carregamento. As obras que vieram de 2006 até 2008 promoverão um crescimento do PIB da construção civil que calculamos entre 3% e 3,5%, em 2009. Em 2008 esse índice foi de 10% em comparação com 2007. Nesse cenário, se não acontecer nada, cresceremos 3% em relação a 2008, que é o efeito do carregamento. Mas não há como prever quanto haverá de investimento, pois não se sabe, ainda, nem a profundidade, nem a extensão da crise no mundo. Mas é possível avaliar que vai começar a cair de modo suave, do final do primeiro trimestre até o término do primeiro semestre. Já o segundo semestre está em aberto, porque os agentes econômicos não estão tomando decisões de investimento nesse cenário conturbado desde o mês de setembro. O setor industrial está adiando, o governo também. Os prefeitos assumiram e começam a estudar como vão encaminhar suas administrações. Na verdade, está todo mundo em compasso de espera. Ainda não há condições de saber se as decisões de investimentos serão retomadas. Mas se forem retomadas até o fim do primeiro semestre, a construção civil começa a subir novamente. Haverá um pequeno movimento de queda e depois uma recuperação. Mas se as decisões de investimentos demorarem muito para voltar, ou se não voltarem, então será registrado movimento maior de queda.
“Na construção civil o processo é mais lento e os números sobre a economia brasileira demoram para refletir no setor”
Na área de edifícios residenciais estão ocorrendo mudanças de atitude do consumidor, na decisão de compra?
O empresário da construção civil é reativo ao estado da economia, pois o investimento vem dos empreendedores. E esse pessoal está em compasso de espera. Existem prédios lançados, projetos concluídos, e só ocorrerão lançamentos se houver certeza de que serão vendidos, comprovada por pesquisas.
Os lançamentos previstos para 2009 já estão em compasso de espera?
Sim. Todos estão adiando as decisões, porque lançar tem um custo elevado. Mas o lançamento de hoje vira obra dentro de seis, sete ou oito meses. Há um período de maturação. A construção trabalha com ciclos que podem atingir até 24 meses. E se vamos entrar em uma queda, para que isso se reverta, é preciso, quando chegar o final do primeiro semestre, já estar contratando as obras para 2010. A indústria da construção civil trabalha de um modo mais lento, diferenciado das outras atividades econômicas. O pessoal de caixilharia e fachadas, por exemplo, deve vender bem até agosto. Mas algumas fontes de recursos poderão estimular o crescimento - o FGTS e a poupança, para o mercado imobiliário residencial, além do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, para os investimentos em infraestrutura. Os efeitos da crise já preocupam os empresários, mas qualquer análise mais aprofundada nesse momento seria prematura. Vamos aguardar as medidas de combate à desaceleração econômica que vêm sendo anunciadas pelo governo.
“Em 2008 o PIB da construção civil cresceu 10% em comparação com 2007 e em 2009 calculamos aumento de 3,5% pelo efeito de carregamento”
De agora em diante, quais os cuidados que o setor deve ter diante da instabilidade da economia mundial?
Depende da distância no tempo para a qual o empresário volta o seu olhar. Se ele estiver olhando para 2010 deverá estar preocupado, pois para esse período o que tinha de entrar já entrou. Não comemoramos o que entrou, e sim o que está entrando. A construtora hoje é basicamente mão-de-obra qualificada, desde o engenheiro, o coordenador e o setor administrativo até as equipes de obra, terceirizadas. É necessário trabalhar com bons profissionais. E as terceirizadas só mantêm os bons profissionais se tiverem serviço. Caso contrário, não é possível continuar com eles. E as empresas precisam contratar hoje para daqui a 12 meses poder trabalhar na obra.
Para as empresas, o que é mais difícil: preparar-se para o crescimento, que requer, entre outras coisas, a busca por mão-de-obra especializada, ou enfrentar um período de recessão?
As duas coisas são difíceis. Só que com uma perdemos o sono e com a outra temos pesadelos. Não é fácil viver em um ambiente em que falta tudo. Mas é muito pior viver em um ambiente em que tudo está desmoronando. Trabalho há 36 anos na construção civil e já fiz esse movimento inúmeras vezes. Desmancham-se equipes, demite-se, enxuga-se. Sinceramente, eu prefiro as dores do crescimento. Fizemos um grande estudo no primeiro semestre de 2008 para ver quais eram as decisões de investimento dos fabricantes de insumos da construção civil. Foi um trabalho extenso, cuidadoso, com entrevistas, que incluiu desde extrusores de alumínio, produtores de vidro, fabricantes de esquadrias até o cimento e o aço - enfim, toda a cadeia produtiva. E a conclusão foi que de início poucos acreditavam que esse crescimento seria tão acelerado. Havia decisões de investimentos, mas elas se revelaram tímidas para as necessidades. Mesmo assim os investimentos foram feitos e quando a demanda aumentou fizeram novos investimentos. Chegamos à conclusão de que se pegássemos as retas de crescimento da demanda por materiais e projetássemos essa inclinação, que era razoavelmente grande até 2012, e todo esse investimento anunciado na cadeia produtiva, quando chegássemos em 2012 haveria mais capacidade de produção do que a oferta. E a capacidade produtiva deu acima, ainda. Isso significa que há algum tipo de problema que não é de todo incontornável porque sempre é possível se programar mais, encomendar antes, treinar gente, importar, se for o caso. Quando a economia está crescendo dá-se um jeito. Agora, quando está caindo não tem jeito, porque falta receita; e quando falta receita a empresa apenas sobrevive, mas é um organismo sem vitalidade, desestimulado. Por isso eu acredito que é bem melhor conviver com as dores do crescimento.
Essa crise pegou a construção civil num dos melhores momentos dos últimos 20 anos?
Dos últimos 28 anos. Ocorreu um bom crescimento em 1982. Depois, no Plano Cruzado teve um pico e no Plano Real, outro. Mas 2008 foi um ano excelente. Alguns resultados da sondagem divulgada pelo Sinduscon/SP no mês de dezembro mostram que o financiamento habitacional com recursos da poupança foi 80% superior ao volume concedido em 2007, considerando-se o mesmo período. Outro dado é que o faturamento da indústria de materiais registrou crescimento de 36,5%, para o mercado interno. Dois indicadores do setor tiveram aumentos recordes nas vendas para o mercado interno: o cimento, com 15%, e o aço, com 37%.
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 56 Março de 2009
No momento em que comemorava o crescimento histórico do nível de emprego, a indústria da construção civil foi colhida pela tempestade da recessão econômica mundial, nos últimos meses de 2008. Acostumado a acompanhar os altos e baixos da área em que atua, o diretor de economia do Sinduscon/SP, Eduardo May Zaidan, diz que as obras contratadas de 2006 até 2008 promoverão um crescimento de 3% a 3,5% do PIB da construção civil em 2009, contra 10% em 2008, num processo chamado de efeito carregamento. Esse seria o cenário mais pessimista. Mas o desempenho ainda está em aberto, pois, se os investimentos globais forem retomados até o fim do primeiro semestre de 2009, a construção civil vai recuperar seu nível de atividade. O setor ainda está em compasso de espera, pois investimentos feitos em anos anteriores criaram condições favoráveis para o crescimento em 2009, mesmo que abaixo do que se esperava. Ao contrário de outras áreas, como a indústria automobilística, que já acena com listas de demissões, a construção civil tem um tempo diferente para a maturação dos negócios, o que faz com que os desdobramentos da crise tenham reflexos mais lentos. Além disso, mesmo nesse cenário de desaceleração, o setor conta com importantes fontes de recursos para financiamento, principalmente de imóveis residenciais, como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, (FGTS) e a poupança. De qualquer forma, vale observar que a construção trabalha com ciclos longos, que podem atingir até 24 meses.