| |
| Ao longo de sua trajetória acadêmica, que tem importantes trabalhos desenvolvidos junto a instituições científicas ligadas às questões da construção, sustentabilidade e análise de impacto ambiental de edificações, Vanessa Gomes participou de inúmeros congressos mundiais. Entre eles, fez parte dos comitês regional e científico da Sustainable Building 2005, em Tóquio, e da Conference on Sustainable Building South-East Asia, na Malásia, também em 2005. Integra ainda o conselho deliberativo do recém-criado Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), sediado em São Paulo. Nesta entrevista, a arquiteta aborda questões como a responsabilidade dos projetos de arquitetura para o correto desempenho energético e ambiental dos edifícios, as diferenças entre sistemas de certificação e de formulação de declarações de desempenho, assim como a particularidade brasileira diante de programas elitistas de construção sustentável europeus e norte-americanos. |
| |
| Há quanto tempo a senhora se dedica à questão da sustentabilidade? |
Quando me formei, desenvolvia projetos arquitetônicos de alto padrão para clientes corporativos. Meu envolvimento com a sustentabilidade começou quando fiz o mestrado na Politécnica da USP, participando de projeto ligado ao reaproveitamento de resíduos da siderurgia. Era a responsável por estabelecer diretrizes para painéis de fachada que utilizassem matriz sem cimento. Tratava-se, na época, de analisar o comportamento do material em termos de conforto térmico, acústico, durabilidade e assim por diante. Quando entrei no doutorado, em 1999, meu objetivo era ampliar esse conceito para abordar especificamente a avaliação do desempenho ambiental do edifício.
|
| |
| Que critérios de sustentabilidade aprendeu nesse momento inicial? |
Deve-se começar a pensar na sustentabilidade ambiental já na etapa de pré-projeto. Nessa fase, o importante é a implantação, para privilegiar a escolha de terrenos já inseridos no tecido urbano, minimizando problemas de extensão da infra-estrutura, e evitar áreas com potencial de uso coletivo. Também se deve levar em conta a recuperação de áreas degradadas. Uma vez trabalhado o pré-projeto, cerca de 90% do êxito da sustentabilidade passa à mão dos projetistas.
|
| |
| De que forma? |
Principalmente com relação a energia, o melhor desempenho está ligado a orientação, forma e massa do edifício. Todas as regiões do país demandam cuidados relativos à entrada de radiação solar, pelas implicações diretas na carga térmica da edificação e, assim, no dimensionamento do sistema de ar condicionado e na especificação de vidros, por exemplo. Em alguns lugares os edifícios podem ser mais pesados, com divisórias de alvenaria em vez de sistemas leves, para haver absorção de calor ao longo do dia e devolução gradual ao meio externo durante a noite. Esse raciocínio é válido para escritórios, por exemplo, mas não para residências, que têm utilização noturna. Também se deve verificar se as aberturas e os vidros das fachadas são compatíveis com a orientação do prédio. Esse conjunto de elementos, aliado à especificação dos materiais do envelope da edificação, corresponde a cerca de 30% da probabilidade de redução da carga térmica. É muito, principalmente se comparado aos 19% obtidos pelos bem-sucedidos programas brasileiros de redução de energia. Deve-se considerar, finalmente, a especificação de materiais, em que se estuda não só a energia acumulada durante o uso, mas também aquela eventualmente absorvida em sua produção.
|
| |
| Qual a porcentagem de projetos arquitetônicos que começam errado, sob essa perspectiva? |
No Brasil, os erros iniciais são verificados em 99% dos projetos.
|
| |
| Mas essas questões básicas não são ensinadas nas escolas de arquitetura? |
Exatamente, e isso incomoda muito a nós, professores, porque todas escolas ensinam esses conceitos. Existem vários fatores que interagem nesse sentido, como o próprio mercado imobiliário, que relaciona alto padrão à predominância de vidro.
|
| |
| Como se comportam as edificações brasileiras em termos ambientais? |
A questão da ventilação é a menos grave no Brasil, porque tendemos a ter edifícios laminares. É uma diretriz de projeto mais próxima da européia e que nos dá grande potencial para utilizar a ventilação e a iluminação naturais. Isso é muito importante, já que cerca de 40% do consumo dos escritórios está ligado ao condicionamento do ar, mas é evidente que há regiões em que é impossível prescindir do ar-condicionado. O centro da questão, contudo, é não impedir que se faça uso da ventilação natural.
|
| |
| A falta de energia, então, tornaria as edificações inabitáveis? |
Trata-se de uma situação extrema, é claro, mas é para se pensar. A iluminação demanda 40% da energia consumida pelo edifício, o ar-condicionado outros 40%. Então, dependendo das tipologias, é desses sistemas que se pode extrair maior economia. Desde 2002, após o apagão, a curva de consumo energético dos edifícios residenciais voltou a subir, porque a temperatura ambiente está esquentando, o poder aquisitivo das pessoas está aumentando e vendem-se, conseqüentemente, mais aparelhos de ar condicionado. Já as residências unifamiliares têm comportamento um pouco diverso, porque nelas o arquiteto ainda tem maior liberdade. Nos edifícios verticais, por exemplo, a maior fachada em geral está voltada para a pior orientação.
|
| |
| A orientação solar é o elemento mais importante para o bom desempenho energético? |
Sim, e na nossa latitude ainda temos alguma incidência solar até na fachada sul. Se não for observada a orientação do edifício, portanto, joga-se fora 30% de chance de minimizar seu consumo energético.
|
| |
| Houve, historicamente, um momento de regressão da arquitetura nesse sentido? |
Não sei se é correto falar sobre um momento ou um intervalo histórico, já que a arquitetura modernista de São Paulo tem exemplos muito bons de soluções de interação com o entorno. Todos falam sobre o estilo internacional, mas a realidade é que ele propiciou a existência de edifícios muito parecidos em climas totalmente diferentes. Isso é trágico em termos de sustentabilidade, exceto nos primeiros projetos modernistas, em que foram desenvolvidos o brise-soleil e os pilotis - estes, com o tempo, se transformaram em garagens, enquanto os brises deixaram de ser dimensionados corretamente.
|
| |
| Deve-se começar a pensar em sustentabilidade ambiental já na etapa de pré-projeto. Nessa fase, o importante é a implantação. Uma vez trabalhado o pré-projeto, cerca de 90% do êxito da sustentabilidade passa às mãos dos projetistas |
| |
| É aí que entra o mercado imobiliário? |
Sim, o direcionamento dado à arquitetura pelo mercado imobiliário passou a influir diretamente nos projetos. Os grandes edifícios, sobretudo os corporativos, tiveram que corresponder a determinada imagem e, o que é lamentável, tal demanda adquiriu importância maior do que a relação da construção com o entorno. Ao mesmo tempo, o inglês Willis Haviland Carrier, que inventou o ar-condicionado em 1902 para proteger papéis em gráfica, teve a idéia de estendê-lo ao uso ambiental. O ar-condicionado passou a resolver problemas que a arquitetura tradicionalmente tinha que solucionar sozinha. Surgiram distorções evidentes, como nas escolas de engenharia mecânica, que formam os projetistas de ar condicionado. Em vários países esses profissionais são remunerados pela tonelagem de refrigeração projetada, conceito que não induz à elaboração de um projeto mais eficiente.
|
| |
| O que acontece com a sustentabilidade em meio a tais questões econômicas? |
A qualidade do ambiente interno é um dos pontos-chaves da arquitetura, e é com ela que o mercado imobiliário de todo o mundo está acostumado a lidar, porque nela está o maior potencial de retorno rápido. Considera-se inviável um empreendimento que não tiver retorno entre três e cinco anos, mas a sustentabilidade é uma idéia de longo prazo. Os painéis fotovoltaicos, por exemplo, têm payback de 25 anos. Portanto, se os empresários continuarem a adotar a seleção de alternativas unicamente baseada na viabilidade em curto prazo, nunca serão incorporados os conflitos anteriormente apontados. Isso acontece não só no Brasil, mas em todo o mundo. Existem, contudo, bairros inteiros na Alemanha e na Holanda recobertos por superfícies fotovoltaicas, algo que só aconteceu porque houve subsídio do governo. Se não houver algum tipo de subsídio no Brasil, ficaremos sempre em algumas iniciativas isoladas.
|
| |
| Na área de construções especulativas, a construtora considera seu trabalho finalizado na entrega das chaves, ou seja, quem vai pagar a conta de operação será o usuário final. O problema ambiental é resolvido, então, na película dos vidros, por exemplo |
| |
| Mas o Brasil tem grande potencial para utilizar a tecnologia fotovoltaica. |
Sim, o potencial solar brasileiro é fantástico, mesmo nas latitudes mais baixas, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A idéia é boa, embora eu não ache que torná-la obrigatória seja a solução, porque demora um tempo para que todos consigam se ajustar a novos sistemas.
|
| |
| Como os países que já adotaram algum tipo de regulamentação energética analisam o desempenho dos projetos arquitetônicos? |
No Canadá, por exemplo, as municipalidades aceitam a simulação de tal desempenho já como parte da documentação necessária à concessão do alvará de construção. No Brasil, apenas parcialmente algo foi implantado nesse sentido, através do código de obras de Salvador, de Brasília e, menos ainda, em Minas Gerais.
|
| |
| A sustentabilidade é compatível com áreas densamente urbanizadas? |
Teoricamente sim, ou seja, é desejável valer-se da infra-estrutura existente caso ela tenha ainda potencial de utilização. Quando a rede já está esgotada, contudo, é preferível ocupar
os vazios. Nesse sentido, atualmente apenas 1% da construção na Europa se refere a novos edifícios. No Brasil, esse valor deve ser da ordem de 70%. Muitas vezes nem sabemos se há real demanda para tantas novas construções. Em São Paulo, na avenida Paulista, muitos conjuntos ficam vazios porque, em decorrência da arquitetura de vidro, sai caro bancar as contas de ar-condicionado e iluminação artificial.
|
| |
| O raciocínio imediatista, portanto, é um dos cernes do problema de sustentabilidade das construções? |
Esse é um conceito-chave para a sustentabilidade, mas com o qual o mercado não está habituado a lidar. Na área de construções especulativas, por exemplo, a construtora ou o empreendedor considera seu trabalho finalizado no momento da entrega das chaves, ou seja, quem vai pagar a conta de operação será o usuário final. Há um livro muito interessante, chamado Capitalismo natural, de Paul Hawkens, Amory Lovins e Hunter Lovins, no qual se fala que os investidores imobiliários consideram a curva dos investimentos x tempo de retorno até o momento em que o custo sobe tanto que o negócio deixa de ser viável. O problema ambiental é resolvido, então, na película dos vidros, por exemplo. Mas se naquela curva forem incorporadas soluções de projeto, ocorre tamanha redução no dimensionamento do condicionamento do ar que o empreendimento torna-se até mais lucrativo.
|
| |
| A tipologia comercial é uma das vilãs, sob a ótica do consumo energético? |
Essa história de vilão é engraçada porque, em relação a outras atividades econômicas, a indústria da construção civil é de saída uma vilã. É conhecida como o setor dos 40%: consome 40% dos materiais, 40% da energia, contribui com 40% das emissões poluentes, representa 40% do mercado. De forma análoga, internamente à construção, o setor corporativo é também o grande vilão. Em seguida vem o setor residencial. Nessa tipologia, em especial, os erros normalmente decorrem de má orientação: se girássemos os edifícios alguns poucos graus teríamos muitas vezes cerca de 22% de redução do consumo energético ao longo do tempo.
|
| |
| Em quanto o tempo o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável poderá se tornar referência sobre esses temas? |
É urgente que isso aconteça até o próximo ano. Não podemos nos dar ao luxo de esperar mais, porque os impactos da construção estão sendo colecionados e potencializados rapidamente. Estamos trabalhando no CBCS em documentos e diretrizes para orientar toda a cadeia da construção, desde os projetistas, construtoras e empreendedores até os usuários.
|
| |
| Quais as orientações básicas para cada um desses setores? |
Para os projetistas e arquitetos, são questões de projeto, de orientação solar, entre outras; para os empreendedores, principalmente as relacionadas à seleção de área e à projeção do edifício no terreno. É necessário que se deixe alguma possibilidade de ventilação. Os projetos atuais abandonaram a ventilação cruzada, o que me choca muito. Deve-se prever também a instalação futura de sistemas como o fotovoltaico. As diretrizes para o construtor estão relacionadas à implantação do canteiro. A obra incomoda não só em termos de ruído, mas também de poluição, sujeira, tráfego de caminhões etc. Consideramos também os desafios da informalidade, da produtividade e do aproveitamento de resíduos dentro do próprio canteiro.
|
| |
| E em relação aos usuários? |
Os usuários já lidam com alternativas de consumo racional de água, por exemplo, mas é necessário que tenham grande familiaridade com a tecnologia para que os desperdícios não sejam ainda maiores do que nos sistemas convencionais. Por outro lado, têm que saber identificar se algo não está funcionando como deveria, ou seja, é necessário criar a cultura de monitoramento. A compra de um imóvel deveria ser similar à de uma geladeira ou automóvel: a partir de um manual e de índices de desempenho, escolhe-se o melhor.
|
| |
| A criação de um selo de sustentabilidade entraria como elemento de orientação nessas escolhas? |
O CBCS pretende orientar a definição de metodologias mais abrangentes de avaliação, já que a questão dos selos pode trazer contribuição positiva apenas se pensada em itens específicos. Por exemplo, a ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas] e o Inmetro [Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial] estão elaborando o selo ambiental brasileiro, enfocando produtos isoladamente. Existem também as classificações ambientais, em que se julga como o edifício atende determinadas referências, que podem até estar atreladas a um tipo de certificação. Há ainda as declarações de desempenho, como o Sbtool [software que mede a performance de edifícios], uma ferramenta que costumo comparar às tabelas de alimentos que encontramos nos mercados. Esse tipo de sistema atrelado à construção faria o usuário estar atento aos consumos esperados de energia, de água, comparáveis à bases estabelecidas por declarações de desempenho.
|
| |
| Como são formuladas tais declarações? |
Parte-se, normalmente, da agenda ambiental de um país. Com ela, determinado setor, como o da construção, seleciona o que for mais importante e vital à sua lógica interna e parte para a formulação de uma agenda de sustentabilidade. Nela, estarão listadas prioridades e critérios, que devem ser compreensíveis e palatáveis para os agentes do mercado a que pertence. No CBCS, estamos elaborando uma metodologia para a tipologia residencial.
|
| |
| De que forma está sendo encaminhada essa metodologia? |
O que nos diferencia dos sistemas de certificação existentes é que eles miram os edifícios de alto padrão, que representam 25% do mercado. Não podemos esquecer os outros 75%, constituídos por habitações de interesse social e escolas públicas, entre outros. Além disso, em média, 60% da construção brasileira é informal, o que a torna imune a qualquer lei, mesmo aos incentivos para atendimento voluntário de determinados requisitos. Estamos procurando estratégias para lidar com esse expressivo setor informal e isso não passa necessariamente por legislações ou sistemas de certificação. Por fim, também se deve dar especial atenção às obras públicas, que são assunto do governo.
|
| |
| Como anda a interface da agenda ambiental brasileira com os indicativos de sustentabilidade para a construção? |
Vou citar outro exemplo. Alguns anos após a [conferência mundial sobre meio ambiente] Rio 92, a Inglaterra elaborou sua Agenda 21. Passados dois anos, o país já tinha sua agenda da construção civil, ao que se seguiu a definição dos indicadores de sustentabilidade para construtoras. No Brasil também foi feito estudo nesse sentido, ou seja, o país tem sua Agenda 21. Em 2001 integrei um grupo da Politécnica que começou a trabalhar no contexto de preparação para uma agenda brasileira do setor da construção e o próximo passo seria traçarmos os indicadores para os edifícios, construtoras etc. Dentro do CBCS, contudo, temos clara a noção de que construção sustentável não é aquela que termina custando o que custar. Isso pode ser realidade para a Suíça, mas aqui temos que considerar também critérios econômicos e sociais. Trabalhamos com outras agendas, além da ambiental.
|
| |
| O CBCS não será certificadora, não dará selo para ninguém. Também não somos uma ONG acadêmica, queremos contar com a participação forte do mercado para que nossas propostas possam ser absorvidas em curto, médio e longo prazos |
| |
| Qual é a função prioritária do CBCS? |
O CBCS não será uma certificadora, não dará selo para ninguém. O que pretendemos é funcionar como um pára-raios. Existem conhecimentos fragmentados e queremos concentrá-los em um espaço integrado de consultas. Estamos formando comitês técnicos, grupos de trabalho, para avaliar a aplicabilidade e o estado de conhecimento de temas específicos, como a mudança climática. Não se fala mais em combater o aquecimento global, e sim em reduzi-lo, porque ele já é uma realidade. Mas mesmo que façamos rapidamente tudo o que estiver ao nosso alcance, ainda precisaremos de uns 150 anos para desfrutar dos efeitos positivos. Enquanto isso, teremos que lidar com mais chuva, mais ventos, que se tornarão mais freqüentes e fortes. Será que os edifícios e as cidades vão tolerar tais condições? O fato é que sabemos muito pouco a respeito. Então, os especialistas que formam os comitês técnicos do CBCS devem permear transversalmente todos os grupos para disseminar e integrar os conhecimentos. Por outro lado, não somos uma ONG acadêmica, queremos contar com a participação forte do mercado para que tais idéias possam ser absorvidas e transferidas para aplicação em curto, médio e longo prazos.
|
| |
| |
Por Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 332 Outubro de 2007 |
|
 |
 |
| |
Arquiteta formada pela Universidade Federal do Espírito Santo em 1993, Vanessa Gomes cursou mestrado e doutorado em engenharia civil na Escola Politécnica da USP, concluídos em 1998 e 2003, respectivamente, e é professora na Unicamp. |
 |
 |
| |
 |
| |
Atua como orientadora em programas de pós-graduação da Universidade Federal de São Carlos e da UFES, além de participar de projetos de pesquisa em diversas instituições de ensino. |
|