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| Formado em arquitetura no início dos anos 1980 pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), na ilha do Fundão,
Gringo Cardia foi um dos protagonistas do
design gráfico ligado ao apogeu da indústria
fonográfica brasileira, para a qual fez
capas de discos e de onde partiu para a
cenografia e a direção de shows. Estava
aberto o caminho que o levaria à criação
de cenários para o teatro - Fica comigo esta
noite, escrita por Flávio de Souza, foi um
dos primeiros trabalhos de Gringo na área
e acabou conquistando o Prêmio Shell na
categoria cenografia em 1992 - e à grande
diversidade que caracteriza sua atuação.
Boa parte dessa história foi apresentada
na mostra Gringo Cardia - De Todas as
Tribos, que esteve em cartaz no Centro
Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro,
entre outubro e dezembro de 2007. A exposição
agora se prepara para estrear em
Minas Gerais (no Palácio das Artes, de 28
de fevereiro a 6 de abril de 2008) e em 2009 provavelmente
poderá ser vista em São Paulo. |
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| Fale um pouco sobre o ambiente cultural e a convivência no Fundão. |
Quando entrei na faculdade minha
agenda era parecida com a de hoje, lotada.
Eu dava aulas particulares, reforço escolar,
mas aos poucos tive que parar porque o
curso de arquitetura era em período integral.
Ficávamos o dia todo lá, numa ilha no
Rio de Janeiro, quase como num internato.
O convívio entre as faculdades era intenso,
circulávamos de um prédio a outro. E
obviamente as pessoas não sabem com
exatidão o que querem quando entram na
universidade. Na arquitetura, por exemplo,
convivi com Chico Diaz [ator], Herbert
Vianna [músico], Lena Brito [atriz também
envolvida com dança], e conheci [a
coreógrafa] Deborah Colker através de
um amigo surfista. Ela cursava psicologia.
Minha primeira identificação profissional
foi com Luís Stein, também na arquitetura,
que foi meu sócio na Bela Arte durante
cerca de dez anos. Eu tinha acabado de
chegar do Rio Grande do Sul, onde nasci, e me sentia deslocado. Fui me integrando
ao Rio de Janeiro através dessas pessoas e
das festas na zona sul carioca. Morava em
Niterói e vivia procurando abrigo na casa
de amigos, com uma mochila nas costas
- até a apelidaram de âncora, porque ela
ficava onde caísse. Luís gostava de história
em quadrinhos, eu desenhava bem, e
as associações foram se formando. Atores,
músicos, dançarinos, todos conviviam na
faculdade de arquitetura - acho que esse
curso é o nosso segundo grau. |
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| O vínculo profissional com Deborah Colker
começou naquela época? |
De certa forma, sim. Ela estava ligada
ao grupo Coringa, da coreógrafa Graciela
Figueroa, para o qual criamos filipetas e
demos uma força no visual. Não ganhávamos
nada, simplesmente queríamos estar
próximos daquelas pessoas que considerávamos
celebridades. Graciela Figueroa era
como um guru dos dançarinos, do pessoal
de teatro, todos a idolatravam porque realmente é uma pessoa visionária. Eu fazia
trabalho de graça também para [a atriz]
Denise Stocklos, ajudava a passar slide
nos espetáculos simplesmente para estar
por perto, para participar do ambiente artístico
e do espetáculo.
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| Esse convívio mudou sua forma de ver a
faculdade de arquitetura? |
Não influenciou muito, a faculdade na
realidade era marcada pela politização em
torno do diretório acadêmico. Eu me envolvia
muito porque sempre fui de esquerda,
mas houve um momento em que o discurso
ficou chato e me afastei. Era também
a época em que eu gostava de rock progressivo,
o oposto da politização chata, e
as pessoas começaram a me rotular de
alienado. Tinha acabado de chegar no Rio,
numa idade péssima para adaptações, e
me sentia sempre deslocado.
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| Nesse ambiente é que surgiram seus primeiros
trabalhos, seguindo-se a fase em
que desenhou inúmeras capas de discos.
Como eram esses projetos? |
Começamos com design gráfico para
teatro, criando filipetas e cartazes, por
exemplo, e, embora ainda não fôssemos
remunerados, já nos tornávamos conhecidos.
Nesse meio tempo a banda Blitz foi
formada e Fernanda Abreu, que namorava
Luís, foi chamada para o grupo. Havíamos
conhecido Fernanda durante uma apresentação
do Coringa em Salvador, depois
ela sugeriu que nós criássemos a capa do
primeiro disco, foi quase uma imposição
mesmo. Fizemos a capa e com o sucesso
conquistado pela banda abriu-se para nós
um grande mercado de trabalho, ou seja, o
da música. Todo mundo nos chamou para
fazer capas de discos naquela época.
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| Como era o design gráfico dessas capas? |
Tudo era feito com recorte e cola, não
havia computador. Trabalhávamos com
a tesoura mesmo, motivo pelo qual esse
instrumento compunha o símbolo da Bela
Arte. Vivíamos recortando coisas, era
quase uma psicose.
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| Chegamos, então, à fase em que seu trabalho
coincide com a época de apogeu da
indústria fonográfica brasileira. |
Sim. Realizamos o design gráfico de
uma porção de discos, principalmente nos
anos 1980. Em paralelo, contudo, eu já
sinalizava para o desejo de criar cenários
- tínhamos feito um para a Blitz, que não
era maravilhoso, mas era legal. Houve,
assim, a ruptura do escritório, o fim da
Bela Arte, e eu segui com os cenários e a
direção de arte. Já vinha dando palpites
na Blitz, sugerindo determinados efeitos, a
entrada de dublês, coisas desse tipo. Patrícia
Travassos, então, me chamou para
dirigir a banda com ela, a Blitz estava na
metade de sua existência. Comecei, assim,
a perceber que minhas idéias eram boas,
bem aceitas pelo público, faziam sucesso
nos shows. E isso me apontou outro rumo:
o da cenografia, da direção, do palco.
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| Muitas pessoas manifestaram, durante a
exposição sobre sua obra no Rio, apego às capas de discos, como representativas
de fases de vida. A que você credita essa
percepção? |
Somos um povo bastante musical, uma
espécie de novela ambulante. Vivemos às voltas com temas que se tornam representativos
de diferentes fases da vida.
Muitas pessoas comentaram comigo que
tinham feito uma viagem retrospectiva através
das capas expostas na mostra, e acho
que isso se deve ao fato de a música ser
a arte mais potente que temos no Brasil.
Tem a ver com pulsação interna, pertence
mais ao domínio da emoção do que
as artes visuais, por exemplo. Minha vida
também sempre foi marcada pela música:
ainda guardo todos os discos de meus
15 anos, que são referências para mim.
Eu me lembro de que guardava a mesada
para comprar um disco e depois ficava admirando
a capa durante todo o ano - como
Imagine, de John Lennon. Mas hoje quase
não há o contato físico com as capas de
discos, o fenômeno de trocas pela internet
fez com que a música perdesse um pouco
a cara. Acho que a música foi de certa
forma tomada pela publicidade, a imagem
está perdida. Sempre brigo com as gravadoras
para que não deixem a capa com
feição de publicidade.
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Somos um povo musical, uma
novela ambulante. Vivemos às
voltas com temas que se tornam
representativos das fases da
vida. Alguns visitantes da mostra
comentaram que tinham feito
uma viagem retrospectiva através
das capas que eu desenhei |
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| Voltando à cenografia, Maneco Quinderé
recentemente comentou, em tom de brincadeira,
que você jamais revelará qual foi
o seu primeiro projeto na área. É verdade? |
Sempre nos sacaneamos por causa
dessa primeira cenografia. Maneco trabalhou
comigo. Era um cenário muito cafona,
feito para peça infantil que tinha nome de
fadas tropicais, algo do gênero. Projetávamos
slides sobre um voile, uma coisa
horrorosa, mas que para nós era o máximo.
Só passam coisas pequenas quando
você começa a trabalhar, como peças
infantis. Um novato não pega uma peça
para adultos, grande, logo de início.
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| De que informações você dispunha sobre
cenografia nesse período? |
Para o cenário, incluindo aquele primeiro
infantil, de nada adiantavam meus
cinco anos de estudo na arquitetura. Um
arquiteto não sabe, de saída, projetar um
cenário. Primeiro ele precisa se informar
sobre carpintaria. Acho isso muito legal
porque retrata nossa necessidade de
aprender continuamente, adoro trabalhar
com o novo. Mas, por outro lado, o raciocínio
construtivo da arquitetura é de extremo
valor para a cenografia, porque nos dá a
noção do que é exeqüível. Cenografia é
complementar à arquitetura.
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| O que há de arquitetônico em seus projetos
cenográficos? |
Costumo dizer que a arquitetura me
deu mais dois braços na vida, é um instrumento
de trabalho que trata da dimensão
construtiva, dos pesos, resistência dos
materiais, enfim, que nos habilita a falar de igual para igual com os técnicos. Ela
aponta caminhos quando ainda não temos
muita noção de como resolver uma idéia.
Foi assim, por exemplo, no espetáculo
4 x 4, de Deborah Colker. Queria içar
aqueles vasos presentes no espetáculo,
mas não sabia como; a idéia veio do
inconsciente, ou seja, o consciente arquitetônico
sinalizou que era possível e eu segui
em frente. Mesmo assim, trabalhando em
conjunto com o engenheiro mecânico, demorei
seis meses para chegar à solução.
Mas acontece também de a arquitetura
barrar a intuição, a espontaneidade, que
considero fundamentais à arte, ditando
prematuramente o que pode e o que não
pode ser feito. Isso me irritava um pouco.
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| O raciocínio construtivo da arquitetura
é de extremo valor para a
cenografia, pois nos dá a noção
do que é exeqüível. A arquitetura
trata dos pesos, da resistência
dos materiais e aponta caminhos
quando ainda não temos muita
noção de como resolver uma idéia |
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| Como desenvolve os projetos cenográficos
com Deborah Colker? |
Considero esses trabalhos com Deborah
os de cenografia mais plena que
concebo, porque neles os dançarinos
usam o cenário como parte do corpo.
São feitos a longo prazo. Normalmente,
a equipe ensaia cerca de um ano antes
da estréia do espetáculo. É raro nos
tempos atuais termos esse timing à disposição,
mas, em se tratando de dança,
de movimento corporal, é necessário
tempo para que as pessoas se acostumem
com o espaço físico. Quando o
ambiente retrata uma casa, por exemplo, é preciso acostumar-se com a posição
da porta, com o pé-direito, ou seja, com
o espaço em si, de forma que a vivência
vai dando mais liberdade à coreografia,
melhora as condições de criação.
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| Você trabalha em diversas áreas. Qual seu
procedimento de criação? |
Penso bem no
conceito, ouço as
pessoas e desligo
daquilo por um
tempo. Deixo meu
entendimento e as
idéias caminharem
intuitivamente. O
principal, sobretudo
para o começo da
criação, é ter o conceito
bem embasado
intelectualmente, a idéia delineada, sem,
contudo, sentir-se preso, amarrado.
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| O que há de constante nesses projetos? |
Os elementos vão se misturando. Por
exemplo, há anos guardo exemplares de
revistas de moldes de roupas porque me
encantam o emaranhado de linhas e a
habilidade das pessoas em ler seqüências
misturadas. Sempre achei aquilo
interessante. Há muito tempo tive um restaurante
no Rio, chamado Torre de Babel,
e usei essa idéia de linhas emaranhadas
na comunicação visual. Anos mais tarde
a mesma imagem voltou em um cenário
para Deborah, no chão de Rota, e mais
recentemente ainda no espaço do Sebrae numa edição do Fashion Rio. Acho que
há coisas de que gostamos e, quando se
trabalha com o visual, acumulamos pensamentos
sobre essas preferências.
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| Suas cenografias já ocuparam diversas
casas de espetáculos. O que é um teatro
memorável para você? |
É aquele com boa técnica, bom equipamento
cenotécnico, muitas varas. É raríssimo isso. No Rio de Janeiro, por
exemplo, os locais mais bem equipados
estão decadentes, os teatros grandes
estão sempre localizados no centro e
as pessoas não os freqüentam porque
temem a violência. Então o cenógrafo é
obrigado a trabalhar com os teatros pequenos
e apertados da zona sul, que, na
realidade, são lojas. Memorável é entrar
no Teatro Municipal com tudo funcionando,
o fosso, as inúmeras varas, o fundo e
a coxia em ordem. Isso é um verdadeiro
luxo. Felizmente ele está sendo reformado.
Ao mesmo tempo, por exemplo, fiz certa
vez uma ópera dentro de uma balsa, que
era um palco flutuante. As arquibancadas
ficavam na margem do rio e através
de jangadas, barcos e avião cenográfico
os 600 atores entravam e saíam de cena.
Esse cenário também foi memorável porque
era um grande desafio. O espetáculo
para o Cirque du Soleil está sendo assim.
Nossa proposta é diferente e mais trabalhosa
do que eles estão habituados e claro
que há resistências. Mas se me chamaram é para fazer algo diferente. Aprendi isso
com meu pai; ele sempre disse que tudo
tem que ser fora de série.
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| Viagens são grande elemento de inspiração
para seu trabalho. Como procura
conhecer as cidades que visita pela primeira
vez? |
Primeiro vou à feira, para ver como
as pessoas convivem, o que comem, que
frutas são vendidas. Depois saio andando
pelas ruas. É legal visitar monumentos
históricos, mas, para mim, isso fica em terceiro
plano. Procuro inicialmente sentir o
lugar, entrar no ritmo daquelas vidas, que é diferente do meu, e acho que o olho do
arquiteto, do artista visual, é um scaner. Olhamos tudo, qualquer detalhe interessa
como possível indício de inventividade que,
certamente, servirá de inspiração um dia.
Também gosto de ir ao centro das cidades,
conhecer os lugares religiosos, porque,
concordemos ou não com suas especificidades,
a religião tem a ver com a dinâmica
coletiva.
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| O centro do Rio de Janeiro é local de inspiração
para você? |
Sempre que posso vou ao centro, é um
prazer enorme para mim. Nosso Saara é
uma maravilha, como a 25 de Março em
São Paulo: são locais onde se encontram
as coisas mais interessantes, surgem as
idéias através de outras idéias que vejo
na rua. Posso passar o dia todo dentro de
uma loja de tecidos na 25 de Março e até
aquelas que vendem as coisas mais vagabundas
são ótimas para inspiração. Essa
bagulhada chinesa é muito inventiva.
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| Você disse certa vez que gosta de
Brasília. Lá também há esse clima de inventividade
urbana? |
Brasília me agrada pela estética, é um
monumento. Mas não vejo o indivíduo lá,
não sei dizer como eles são. Acho que a
arquitetura tirou a personalidade das pessoas.
Sempre que fui a Brasília me senti
como se estivesse em uma cidade mais
fria do que qualquer outra na Europa.
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| A rua no Brasil - ou ao menos no Rio de
Janeiro, onde você mora - é lugar de expressão
de identidade cultural? |
Acho que a rua não é representativa da
cultura local. As pessoas poderiam tomar
muito mais o domínio público como espaço
de manifestação pessoal. Mesmo nas
favelas é tudo meio parecido, o espaço
urbano não tem identidade marcante, e
cada vez menos a rua serve como local
de encontro. No Bairro Peixoto, por exemplo,
em Copacabana, a praça é usada só
durante a manhã, mas poderia servir de
local para o escambo, para atividades que
trariam vida e afastariam a insegurança.
Tentaram criar no Rio a diferenciação de
favelas através de cores, achei até interessante.
A favela Santa Marta foi pintada de branco, o que eliminou visualmente a
predominância do tijolo, cor de terra e, na
favela, conotativa de sujeira. Já das coloridas
eu não gostei, porque poluem a
floresta, agridem a paisagem carioca.
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| Você participa do projeto Estética da Periferia,
que, primeiro no Rio e depois no
Recife, buscou apresentar traços criativos
retirados de regiões periféricas. Como
surgiu essa idéia? |
A idéia surgiu com Heloísa Buarque
de Holanda e Eva Doris, que me procuraram
para fazer algo relacionado à periferia.
Elas sabiam da minha experiência na área
[Cardia desenvolve projetos com grupos do
terceiro setor, como o Afroreggae, a Central Única de Favelas e a Spetáculo, ONG
que formou há sete anos com a atriz Marisa
Orth] e, então, criamos esse nome,
Estética da Periferia. Queríamos selecionar
coisas interessantes da visualidade
periférica, que atualmente é referência
inconsciente em nosso mundo, e torná-la
evidente através da descontextualização.
Nesse caso, o papel do artista e do curador é chamar a atenção para os trabalhos
retirando-os da poluição urbana, expondo
os contra a parede branca. Propus
um olhar jovem, não queria ser o editor
direto. Procuramos universitários quase
formados, com mais maturidade, e os colocamos
em contato com a comunidade.
Eles coletaram referências visuais, que
posteriormente foram editadas por nós nas áreas de arquitetura, design, artes visuais,
moda e comportamento. As exposições
revelam o quanto a necessidade de sobrevivência é condição criativa, muito mais do
que aquela criatividade que aprendemos e
tentamos copiar.
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| Quais as constatações desses trabalhos? |
É difícil definir o que há de interessante
na arquitetura da favela. A qualidade é ruim, o barraco não representa uma
situação ideal. Procuramos indícios da
criatividade da sobrevivência. Havia um
barraco, por exemplo, todo feito com portas,
desde as paredes até os tetos, que
evidenciava não só o aspecto de improvisação,
como também a expressividade pessoal. A casa tem muito de nós. É
na fronteira da moradia com a rua, na
arquitetura, que as pessoas se expressam.
Isso se estende às grades, que
existem em todo lugar, uma vez que vivemos
enjaulados. Só que uma jaula tem
flor, outra é reta, e assim por diante.
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| A rua não é representativa da
cultura local. As pessoas poderiam
tomar mais o domínio
público para manifestação pessoal.
Mesmo nas favelas é tudo
meio parecido, o espaço urbano
não tem identidade, e cada vez
menos a rua é local de encontro |
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| De que trata o espetáculo que você e Deborah
Colker estão concebendo para o
Cirque du Soleil? Pode adiantar algo? |
Não posso adiantar nada devido a
proibições contratuais, apenas que o espetáculo é sobre a natureza. É muito legal
para nós, brasileiros, trabalhar com esse
assunto porque estamos mais imersos
na natureza do que vários países. Minha
ligação com o tema vem desde a primeira
edição do Amazônia Brasil [no Sesc
Pompéia, em São Paulo, em 2002], exposição
que roda o mundo e que em abril
será inaugurada no Pier 17, em Nova York. Montarmos uma maquete enorme, retratando
a Amazônia. Pensar a natureza
reflete o momento crítico pelo qual passamos.
Contudo, no mato, eu pareço um
extraterrestre: adoro as fotos, mas viver no
tridimensional da mata é difícil. Fiquei apavorado
durante o mês que passei na
Amazônia para conceber a maquete.
No final deu certo, parti do curso d’água
de Lina Bo Bardi lá no Sesc para criar a
maquete com plantas naturais - foram 25
mil unidades. Também utilizamos o imaginário
infantil, representando a vida das
crianças através dos brinquedos que existem
por lá, e a imagem da grandiosidade e
vivacidade da floresta. A mostra já está na
oitava edição e emociona as pessoas em
todo o mundo.
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Por Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 337 Março de 2008 |
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A produção de Gringo Cardia
tem diversas facetas e em vários
campos: estende-se das artes
gráficas à cenografia, da arquitetura
e museologia à fotografia, direção
de arte de shows, teatro, desfiles
de moda e criação de videografias. |
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Entre os trabalhos em andamento
em seu escritório - a Mesosfera,
no Rio de Janeiro - destaca-se a
cenografia para o próximo espetáculo
do Cirque du Soleil, em concepção
pela coreógrafa Deborah Colker. |
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