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| Nuno
Portas |
"Nessa época de incertezas,
nossas decisões devem
ser flexíveis, passíveis
de aperfeiçoamento"
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NUNO PORTAS nasceu
em 1934, em Vila Viçosa, Portugal, e diplomou-se
em arquitetura pela Universidade Técnica de Lisboa,
em 1959. Nos últimos anos, tem aliado a atividade
de ensino no curso de pós-graduação
em urbanismo da Universidade Técnica de Lisboa
- na qual leciona questões urbanas, métodos
de planejamento e história da teoria urbanística
- à prática profissional em diversas cidades
da Europa, África e América do Sul, onde
atua como consultor dos programas financiados pela Organização
das Nações Unidas. Em Portugal, participou
dos governos posteriores à Revolução
de 25 de Abril, quando fez parte das equipes que definiram
as linhas políticas para habitação,
reabilitação urbana e atualização
da legislação sobre urbanismo |
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"Lúcio Costa
e Niemeyer, que pensavam saber como as pessoas do futuro
viveriam, projetaram Brasília sem enfrentar nenhum
tipo de condicionamento. E quando acusados de que as coisas
não estavam dando certo, houve uma frase famosa,
atribuída a Lúcio Costa: ´Não
fomos nós que não demos certo, foi a cidade
brasileira que não evoluiu como pensávamos".
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| O arquiteto português
Nuno Portas tem se destacado como professor, crítico
e teórico, em cursos, conferências, pesquisas,
artigos e livros. Foi responsável pelo projeto
urbanístico de diversos bairros da periferia de
Lisboa, onde mora. Portas tem atuado em várias
cidades brasileiras, não só elaborando projetos
a convite de administrações locais, como
prestando consultoria ao Monumenta BID, programa de recuperação
dos centros históricos de São Luís,
Ouro Preto, Recife e Olinda financiado pelo Banco Interamericano
de Desenvolvimento. Esta entrevista, concedida em Recife,
foi coordenada pela arquiteta Rosabelle Coelho. |
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| O que significa sustentabilidade
de uma cidade? |
Não gosto da palavra sustentabilidade,
que soa muito esquisita e é uma tradução
literal do inglês. É preciso arranjar
outra mais simpática e mais curta. Mas a base
da sustentabilidade da cidade é a idéia
de que as decisões tomadas hoje devem considerar
as repercussões para as gerações
futuras, não podem condicionar a vida delas.
Como vivemos numa época de grandes incertezas,
nossas decisões devem ser, de alguma forma,
flexíveis, passíveis de aperfeiçoamentos.
Não devemos tomar atitudes últimas em
todos os campos.
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| Como assim? |
Por exemplo, não sou nada
agradecido a Le Corbusier por ter determinado, no
início do século, como deveriam ser
as cidades modernas. Hoje, sabemos o suficiente para
dizer que as cidades imaginadas por ele não
eram boas. E a concretização da idéia
dele é Brasília. Lúcio Costa
e Niemeyer, que pensavam saber como as pessoas do
futuro viveriam, projetaram Brasília sem enfrentar
nenhum tipo de condicionamento. E quando acusados
de que as coisas não estavam dando certo, houve
uma frase famosa, atribuída a Lúcio
Costa: "Não fomos nós que não
demos certo, foi a cidade brasileira que não
evoluiu como pensávamos".
Donde se conclui que se criou a cidade esperando que
tudo acontecesse conforme o planejado, que toda a
população viesse a ter automóvel.
O correto teria sido projetá-la de maneira
a tornar o uso do automóvel prescindível,
estimulando as várias formas de transporte
coletivo, que é, atualmente, uma das maiores
dificuldades do planejamento urbano. A sustentabilidade
tem alguns problemas que não estão resolvidos
nem nunca estarão, mas nem por isso não
se devem fazer as coisas. É preciso ponderação,
não agir como se a atitude a ser tomada fosse
a última, a definitiva.
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| O grande desafio do planejador deste
século seria, então, a sustentabilidade?
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Sem dúvida. E é preciso
ter sempre em mente que planejamento é democracia,
e as questões de sustentabilidade nem sempre
são consenso entre a população.
A concepção do espaço da cidade,
em geral, difere de uma pessoa para outra. A questão
da segurança, por exemplo, não é
tão importante para o filho quanto para os
pais, porque os jovens já fazem parte da realidade
da insegurança. Também não há
consenso quanto à disseminação
de shopping centers. Digamos até que politicamente
é correto ser contra, mas socialmente se é
a favor, porque eles combinam várias coisas,
entre as quais lazer e ponto de encontro seguro. Provavelmente,
teremos de conviver durante muito tempo com os shoppings.
Quanto mais se convencer a população
de que ela tem de pensar na geração
dos filhos, mais democrática pode ser a sustentabilidade.
Uma política de sustentabilidade não
pode ser feita acima do sistema democrático,
com todos seus defeitos. Muitos dos problemas urbanos
não são consensuais, porque o homem
contemporâneo está muito dividido.
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| Se as decisões não
são consensuais, como o planejador lida com essa
questão? |
Como técnico, ele precisa
orientar o político a selecionar os projetos
que devem ir para frente custe o que custar e os que
só devem ser tocados se tiverem apoio. Isso
muitas vezes é complicado. Um exemplo: é
cada vez maior o número de automóveis
nos centros das grandes cidades. Sob o argumento de
que não há transporte coletivo bom,
os motoristas aumentam o problema da poluição
ambiental; e, como faltam estacionamentos, deixam
os veículos em cima das calçadas. Os
governos investem em transporte coletivo, mas a experiência
européia mostra que esses investimentos não
têm dado os resultados esperados. Provavelmente,
há mais gente usando os transportes coletivos,
mas grande parte da população continua
a andar de carro e há cada vez mais automóveis
nas ruas.
À medida que o meio ambiente vai se deteriorando,
aparecem as sugestões para se alternar o uso
de carros com placas pares e ímpares, em determinados
dias da semana. Pode-se dizer às pessoas que
a única forma de melhorar o transporte coletivo
é dificultar o uso de automóveis, para
que os ônibus possam andar mais depressa. Mas
muitos questionarão se é legítimo
proibir carros no centro da cidade. E acaba se concluindo
que, enquanto os ônibus não melhorarem,
não há como impedir a circulação
de carros no centro. E se não se pode evitar
isso, os ônibus não andam a mais do que
10 km/hora, em média. O resultado é
essa situação que estamos vendo, pois
uma coisa impede a outra.
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| Fala-se que a reconquista da cidade
é o desafio do século 21, mas de que maneira
isso pode acontecer? Seria a retomada do centro, antes
degradado, a exemplo do que tem acontecido em algumas
cidades? |
Certo. Só não aceito
que a retomada do centro seja razão para se
deixar de tratar da periferia e dos outros lugares
da cidade. Ultimamente, fiz trabalhos para o Rio de
Janeiro e estudos para o programa Monumenta BID, em
São Luís, Ouro Preto, Recife e Olinda.
A equipe do BID queria uma opinião sobre essas
áreas e quem estudou as possibilidades foi
sobretudo Fernando Nunes da Silva (da equipe de Portas)
principalmente as formas de acesso, ônibus especiais,
estacionamentos próximos etc. Fizemos várias
recomendações. Estive em Recife e em
Brasília várias vezes, discutindo para
ver até que ponto se pode tomar precauções
para não acontecer com esses projetos o mesmo
que ocorreu com o Pelourinho, em Salvador.
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| O que aconteceu em Salvador?
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Uma parte da antiga população
do bairro foi realojada em outro lugar quando as obras
se iniciaram. Todos receberam dinheiro para ir embora
e aparentemente não houve revolta. Alguns passaram
a viver em favelas e até poderiam voltar. Só
que, como a obra foi muito cara e a renda dessas pessoas
era muito reduzida, a classe média terá
maiores chances de ocupação dos espaços.
Na minha opinião, se for feito apenas o restauro
dos edifícios, a morte dessas áreas
centrais será apressada. O bairro morre com
o último morador. E morre ainda mais depressa
se só ficarem os dealers lá instalados,
como na última fase do Pelourinho, quando ainda
havia a concentração do narcotráfico.
O bairro adquiriu condições de sustentação,
porque ganhou novas atividades econômicas, seus
acessos foram melhorados, os serviços de bares
e restaurantes foram dinamizados e, pouco a pouco,
a região passou a ter futuro. Não tenho
nada contra os centros históricos, só
acho que eles não podem ser as únicas
jóias da coroa, onde se gasta todo o dinheiro
disponível, porque são os mais cobrados
pela imprensa.
É curioso, mas os jornais estão tão
preocupados com os centros históricos que medem
a qualidade das cidades por eles. Os políticos
são obrigados a pensar da mesma forma por causa
da opinião pública. E essas operações,
se não forem muito bem planejadas, podem ser
pratos envenenados, sem surtir o efeito esperado.
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| Como o senhor analisa as intervenções
urbanas que vêm sendo feitas no Brasil? |
De maneira geral, são ainda
insuficientes, mas melhoraram muitíssimo. Na
Europa também ainda são insuficientes.
Se levarmos em conta a projeção de municípios
com um milhão a um milhão e meio de
habitantes - Barcelona tem um milhão e meio,
não é o Rio, mas é a mais parecida
com as cidades médias daqui -, são poucas
as cidades européias que fizeram, nos últimos
20 anos, um esforço semelhante ao de algumas
da América Latina e particularmente do Brasil.
Não quero dar exemplos concretos.
Todos sabem que trabalho no Rio em projetos desse
tipo, que não são importados, porque
não os faço em Portugal, estão
sendo elaborados por gente brasileira, que vive no
Rio. Só faço trabalhos compatíveis
com minha função de professor em Portugal,
onde não tenho escritório, e portanto,
procuro torná-los o prolongamento da minha
vida de professor, que precisa experimentar soluções,
ter um laboratório permanente... A cidade hoje
é um laboratório urbano único.
E o que está sendo feito no Rio, para mim,
deve ser comparado ao que está sendo realizado
em Porto Alegre, por exemplo, e em Salvador, que é
uma cidade que melhorou muito.
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| As ações planejadas
nem sempre são executadas. Por que isso ocorre?
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Há sempre a dificuldade de
o planejamento tornar-se ativo, uma vez que está
estreitamente ligado a planos diretores muito rígidos.
Para tornar-se ativo, o planejamento precisa ser mais
estratégico. Um projeto é bom por sua
estratégia, por seus efeitos catalisadores
de contaminação positiva, como a chamou
Luiz Paulo Conde. Esta serviu de base para os trabalhos
no Rio: o projeto se estende por um pedaço
de rua, pula um quilômetro - porque se espera
que o local sofra a influência da primeira parte
-, passa-se a fazer mais um trecho, pula-se outro,
e segue-se assim até a periferia.
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| Como o senhor iniciou seus trabalhos
no Rio? |
Conversando sobre minhas idéias
com funcionários do município, eles
me perguntaram por que não experimentávamos
fazer aquilo. E eu respondi: porque ninguém
me convidou. Posteriormente, o então secretário
(de Urbanismo e Meio Ambiente) Luiz Paulo Conde, que
encontrei numa reunião do IAB, disse-me que
decidira fazer o projeto. Minha condição
era que a equipe fosse de profissionais do Rio, porque
eles tocariam o trabalho (Portas atuou apenas como
consultor nesse projeto).
Eu trago idéias, papéis, mando desenhos
por fax, mas minha atuação pára
aí. É um caso de projeto ativo porque
a cultura do município no Rio de Janeiro era
de projeto e não de plano. Plano era uma coisa
que existia, tinha que se ver o que ele dizia, mas
o mais importante era o projeto. E este, como eu o
entendo, não é do arquiteto, é
do programa, são as condições
financeiras, de terreno etc.
Conde propôs, na época, um terreno na
zona das docas, mas, como elas não pertenciam
ao município, afirmei então que o projeto
não teria viabilidade. Para ele, isso poderia
servir para pressionar o governo federal por uma colaboração
entre a empresa das docas e o município. Isto
é, ele usaria o projeto para um fim que não
é o normal, mas como instrumento de pressão.
No entanto, eu queria uma coisa que pudesse ser feita
imediatamente. Um jardim, traçar ruas, fazer
a base, o que chamo de projeto de chão. Todos
os projetos que fiz até hoje foram de chão,
nunca projetei edifícios. Isso é complicado,
porque projeto de chão é tudo o que
está abaixo do solo e tudo o que vai ter em
cima. Por exemplo, um sistema de transporte sobre
trilhos, ou preparar o local para o transporte de
ônibus, de maneira que estes impeçam
os carros particulares de circular por ali de qualquer
maneira, a iluminação pública,
a relação da rua com os edifícios.
No meu desenho não aparece dimensão
e a altura dos edifícios, porque acho que isso
é algo que só a sociedade deve interpretar;
dentro de 20 anos certamente haverá os que
não irão seguir os meus desenhos. O
que eles devem seguir é o meu chão.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 254 Abril 2001
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