Gustavo Penna
"Em todo o Brasil, as cidades estão horrorosas; a dimensão
do arquiteto nunca foi tão necessária"
 
  Gustavo Penna é arquiteto formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1973, mesmo ano em que constituiu o escritório homônimo.
Recebeu diversos prêmios, entre eles o da 6ª premiação MG 97, com o projeto da Academia Mineira de Letras
   
 
  "Hoje em dia, o mercado imobiliário está produzindo arquitetura de duas dimensões: planta e fachada"
   
 
  "Se a melhor relação entre uma coisa e outra é o amor, e a arquitetura é a relação entre o edifício e o lugar, a arquitetura é o amor entre o edifício e lugar onde ele está assentado. Esses dois elementos constituem a percepção arquitetônica e têm de estar em profundo entendimento"
   
 
  "Uma das funções da arquitetura é construir símbolos. Estamos simbolizando nosso viver, interpretando os lugares"
(Monumento à Liberdade de Imprensa)
   
 
 

"Sou contra os prédios espelhados, porque eles separam os homens. São prédios mudos que às vezes refletem outro prédio mudo"
(Croquis do Edifício Santiago de Compostela)

 
A busca de um fazer arquitetônico genuinamente brasileiro tem permeado a carreira do arquiteto mineiro Gustavo Penna. Palavras, sons, poesia e prosa transmutam-se e reaparecem como símbolos em suas obras. Penna é autor de trabalhos singulares em programas de naturezas distintas. Todos os seus projetos, cerca de 500, foram desenhados em seu escritório, um sobrado no centro de Belo Horizonte. É lá que Penna convive com os "fantasmas" da casa - o sobrado pertenceu a seu avô - e, aos 51 anos, divide com colaboradores o prazer de gerar arquitetura.
Para conhecer mais sobre sua obra, pode-se acessar o site www.gustavopenna.com.br. Vale a viagem.
 
É possível falar, hoje, em uma arquitetura brasileira?

A precisão do que é arquitetura do Brasil tem de ser definida. Temos hoje escritórios que são agências de empresas internacionais, atuando de costas para toda a produção arquitetônica histórica - desde a colônia e até da indígena - que forma a massa cultural do Brasil de hoje. Em vez de interpretar nossas influências do passado, interpretam as influências do contemporâneo. Somos imprecisos nesse sentido. Falamos brasileiro, temos música brasileira, dança brasileira, muita coisa brasileira, mas ainda não sabemos o que é arquitetura brasileira. No momento, é importante precisar o que é a arquitetura brasileira. Que pelo menos exista uma opinião expressa com precisão e outra dita com igual precisão, mesmo que divergente dessa primeira.

 
A arquitetura brasileira já teve traço e produção consistentes. Isso se perdeu?

Acho que está se perdendo. Se observarmos a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, parece que estamos em Miami; chegamos a algumas regiões em São Paulo e acreditamos estar em Dallas, na Coréia ou Bangcoc. Não se sente a questão tropical do nosso país, da nossa linguagem e do nosso jogo de cintura. Não está ali impressa a característica do brasileiro, esse sujeito que é cordial. Muitas vezes, vejo que existe um Brasil de costas para o Brasil. Porque ele interpreta ou avalia como de segunda categoria tudo aquilo que é popular. Já ouvi professor da USP afirmar que Adélia Prado e Manoel de Barros são poetas de segunda categoria. É muito triste ver esse Brasil recusar o que é brasileiro, o que é interior, o que é simples, o que é ainda em formação. Temos que fazer um esforço, mesmo que seja de despojamento, de retornar o olho para o fazer brasileiro, para a mão do povo. Lina Bo Bardi já dizia isso como provocação.

 
Em algum momento nossa arquitetura teve esse olhar?

Acho que sim. Por exemplo, quando Lúcio Costa tentou criar as bases para os arquitetos brasileiros. Ele falava para olhar o clima, a topografia, as funções. Acho que o arquiteto brasileiro tem que ser mais substantivo e menos adjetivo. Mais substantivo em reconhecer o calor, o sol, o vento, a vegetação, o jeito de viver do brasileiro. E não é tanto adereço, e sim a consistência do espaço. O que ele realmente diz e simboliza, porque uma das funções da arquitetura é a de construir símbolos. Estamos simbolizando nosso viver. Ao longo do tempo, estamos sempre interpretando os lugares. É sempre o mesmo gesto, sempre o homem interpretando o lugar e vivendo nesse lugar. Ele interpreta o lugar para que ali caibam seus sonhos e seus símbolos.

 
Você afirma que a arquitetura brasileira chegou a ter suas bases com Lúcio Costa. Onde elas se perderam?

A pesquisa do modernismo deveria ter continuado. Ela se perdeu na invasão de alguns modelos. Não sei se foi porque o modernismo era um estilo associado ao governo de Getúlio Vargas e ao Estado Novo. O fato é que se criou um estilo que dominou a construção de edifícios públicos naquela época. Acho que, depois, quando houve rearranjos políticos, entrou-se num momento de bolha - o estilo foi junto com esse rodízio de poder. Entraram mil coisas: em Minas, por exemplo, voltou o “colonioso” e o discurso inicial se perdeu. Era um discurso colocado pelo Oscar Niemeyer como atitude extremamente austera, no sentido de não ser dispendiosa, porque realizada com poucos recursos. Havia provocação no concreto, mas não era a da arquitetura de vestimenta riquíssima. A pele da arquitetura modernista era muito simples. Porém, os movimentos internacionais são muito sedutores e temos a mania, de nação em formação, de copiar. O pós-modernismo entrou e já foi embora; o deconstrutivismo entrou e deu uma balançada. Acredito que continuamos tendo que construir com o jeito brasileiro, porque toda vez que se traduz uma arquitetura para o Brasil trai-se a arquitetura de lá e de cá.

 
No Brasil de hoje persiste a figura de Oscar Niemeyer como arquiteto-modelo. Como o senhor avalia esse fato?

Em minha opinião, Oscar Niemeyer tem o mérito, no sentido cultural, de ter ligado a palavra Brasil à arquitetura. Existia Brasil e não existia arquitetura. A arquitetura nossa, o que era? Era a do Império, da estrutura colonial brasileira transposta dos portugueses, que depois substituímos por um ideal francês. Não tínhamos arquitetura como expressão brasileira. Houve, em Minas, Aleijadinho, um arquiteto-escultor. É inegável a arquitetura que ele fez. Porém, é uma arquitetura que ficou confinada ao interior de Minas Gerais. Porque ali não podia vir o modelo importado, como eram todas as igrejas do litoral brasileiro. Esse era um arquiteto brasileiro, mas quem de fato fez a ligação entre arquitetura e Brasil foi Oscar Niemeyer. E ele é tão incrivelmente forte que é difícil haver outras expressões de arquitetura brasileira em torno dessa figura exponencial e brilhante.

 
A figura tão forte inibe o surgimento de novos talentos?

Não, mas deve inibir a visão, o olhar dos outros sobre a produção arquitetônica no Brasil. Fui a Brasília com 12 anos de idade, numa excursão de colégio - meu pai era construtor de Brasília e construiu o Catetinho -, e vi a obra do Niemeyer. Já conhecia a Pampulha, onde meu avô tinha casa, aonde eu ia sempre, e conheci aquilo em que meu pai tinha participado. Isso ficou marcado no seu coração para o resto a vida. Daí para a frente, fui arranjando outros professores, relacionei-me com muita gente nessa caminhada, mas quem me despertou foi Oscar Niemeyer.

 
Você integrava um movimento, denominado pós-modernismo mineiro, surgido nos anos 80, que fundou até uma revista para mostrar o que estava sendo produzido. Que aconteceu com esse movimento?

Nunca fiz nada pós-modernista. Veja o prédio da TV Bandeirantes, que é de 1981, 20 anos atrás: é limpinho, nunca tive intenção decorativa no projeto. Na época em que a revista Pampulha surgiu eu também não fazia parte - entrei em reportagens dela, mas não integrava seu corpo editorial. Já ouvi falar em escola mineira e em pós-modernismo, e que eu estava lá. Mas Minas, como já disse Guimarães Rosa, são muitas. As arquiteturas de Minas também são muitas, e o fato de eu discordar do que outro faz não quer dizer que esteja em antagonismo com ele. Devemos ter apreço imenso pela pluralidade e pela diversidade, pois o nivelamento cultural, o alinhamento são terríveis. Mas o movimento proliferou. Veja que, depois de Minas, surgiram vários outros grupos que se manifestaram na cena nacional. São Paulo e Rio, que eram os únicos que falavam, passaram a ouvir também. Então, hoje existe um debate mais ampliado. Se você está aqui é porque está ouvindo o Brasil.

 
Qual sua avaliação do crescimento das cidades brasileiras hoje?

Em todo o Brasil, as cidades estão horrorosas, não importa onde estejam. Estão todas crescendo de forma completamente absurda, sem nenhuma diretriz de planejamento. Raríssimas cidades conseguiram configurar alguma coisa um pouco no início, uma reação, mas que não chega de forma nenhuma a se contrapor a sua avassaladora transformação em espaços desumanos. A dimensão do arquiteto nunca foi tão necessária, porque cada vez o homem vai ficar mais urbano. As dimensões do edifício estão além da construção do mercado. Ele tem de ser lugar de o homem viver, de o homem se sentir bem. Sou contra os prédios espelhados, porque eles separam os homens. São prédios mudos, que às vezes refletem outro prédio mudo. Esse modelo reflete o quê? Reflete o dinheiro, a opulência, aquele ser que olha de lado, que despreza. O prédio espelhado me dá essa impressão. Estamos fazendo esses prédios que são máquinas terríveis. Devemos voltar a dar dimensão humana às edificações.

 
Isso pode ser feito sem esses materiais?

Prefiro não depender desses materiais sedutores. Não quer dizer que seja contra a pessoa que faça, sou contra o material. Existem prédios espelhados que são proporcionalmente lindíssimos. Mas Anne Louise Huxtable já afirmou que está cansada de ver prédios bonitos e de péssima arquitetura. É interessante esse contraponto. Imagino a possibilidade mínima de fazer uma arquitetura brasileira, realizada com pouquíssimos recursos, barata, durável e sem economia de expressão. Mas o material não precisa necessariamente ser requintado, sofisticado.

 
Você desenvolve programas variados: casas, escolas, pavilhões, edifícios residenciais. Existe um com o qual mais se identifique?

Classifico-me como um clínico geral na área de arquitetura.
Porque detesto - é estrutural em mim - a rotina. Acho que, se eu fosse um especialista em hospital, acabaria viciando, criando fórmulas. Por exemplo, fiz várias televisões. Mas nunca poderia dizer que sou um especialista, porque nunca uma é igual a outra. A atuação do especialista, o diálogo com a mesma pessoa, o mesmo tipo de cliente, tende a ser um pouco rotineira. O fato de eu fazer algo ligado à arte, um monumento, um centro de feiras é muito provocativo e instigante. Ao arquiteto tudo interessa. Interessa um pouco da política, do jogo de futebol, da última tecnologia da impermeabilização, da acústica, das questões antropológicas e sociológicas do mundo contemporâneo; da poesia, da filosofia, do fazer artístico. Tudo isso está na mesma panela, na caçarola do arquiteto.

 
O mercado imobiliário parece não atraí-lo muito. Ele é um exemplo dessa insipidez?

É o mais bem-acabado exemplo. Hoje em dia, o mercado imobiliário está produzindo arquitetura de duas dimensões: planta e fachada. As fachadas são idênticas. Se você pegar um prédio da periferia em qualquer cidade e um prédio produzido numa área central, verá que são feitos da mesma forma. Não se trabalha a base - então não há nenhuma relação com a rua. Os prédios mais sofisticados têm guarita, que parece uma vitrine para porteiro. E a portaria não tem vínculo com o prédio, mas também não precisa. E, em cima, termina sem coroamento. Isso é uma deselegância para com a cidade. Então, nesse setor, o arquiteto que trabalha caprichosamente - mesmo com certo vagar - é até evitado, porque tira eficiência do sistema. Eficiência entre aspas, porque esse sistema está construindo cidades desumanas, sem carinho de um prédio com o outro, sem diálogo. Os prédios são todos narcisos e ninguém conversa com ninguém. Na arquitetura, o prédio precisa ter lealdade com o prédio ao lado, com a rua. Mesmo que o edifício vizinho seja feio, que a rua não seja das mais bonitas.

 
Como você trabalha espaços internos e áreas externas?

Procuro deixar que os espaços internos e externos sejam equivalentes, contínuos, porque somos um país centrífugo. Precisamos tirar o calor de dentro de casa. Temos que expandir nossos espaços num contínuo e dar ao espaço externo o mesmo status de arquitetura. Não quero que meu edifício seja um objeto que possa ser colocado em qualquer lugar, e isso ficou crítico porque trabalho na montanha. Então, além do prédio, existe sempre um acréscimo do baldrame, que vai fazer com que o edifício encoste no terreno. Transformo esses espaços como constitutivos da arquitetura. Na qualidade da relação do edifício com o chão é que está a boa arquitetura.

 
O aço é um elemento presente na arquitetura mineira.
O material lhe atrai?

Pisamos em chão de ferro. Na extração, Minas é espoliada. O aço é tirado daqui e eu nem sei para onde foram essas montanhas. Acho que foram refeitas em outro país, porque sai muito mais de minério do que volta de aço. Então, para os mineiros, o aço é questão atávica. Temos excelentes calculistas e a obrigação de provocar esse pessoal para que tenhamos uma estética brasileira do aço, assim como Niemeyer fez com o concreto. Ter linguagem própria. Caso contrário, vamos copiar os japoneses, os alemães ou os holandeses. Ou então reproduzir Renzo Piano e Richard Rogers. Aí, como não temos a técnica para fazer as usinagens, fica essa coisa risível, mal-realizada. As empresas do aço deveriam promover um debate nacional sobre isso.

 
Gustavo, você já desenvolveu cerca de 500 projetos.
Quais são suas metas hoje?

Gostaria de estar fazendo uma arquitetura para o lugar do terreno. Interpretar o lugar político, cultural e social do Brasil e colocar tudo na arquitetura. Tentar dizer que nossos valores devem ser incorporados no discurso arquitetônico. Acredito numa frase que escrevi: se a melhor relação entre uma coisa e outra é o amor, e a arquitetura é a relação entre o edifício e o lugar, a arquitetura é o amor entre o edifício e lugar onde ele está assentado. Esses dois elementos constituem a percepção arquitetônica e têm de estar em profundo entendimento. Isso é dificílimo e é minha busca. Aos 51 anos, acho que estou começando a poder dizer isso para mim mesmo. A arquitetura é fundamental para definir o perfil de um povo, seus valores e seu caráter. Quero descobrir o que existe de comum nessa gênese do fazer arquitetônico no Brasil. Mesmo que a gente tenha que voltar para trás, voltar a Aleijadinho, a Lina Bo Bardi, revisitar nossos ritmos, nossos MM Roberto, Oswaldo Bratke, Rafaelo Berti.

 

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 256 junho 2001


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