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| Gustavo
Penna |
"Em todo o Brasil, as cidades
estão horrorosas; a dimensão
do arquiteto nunca foi tão necessária" |
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A busca de um
fazer arquitetônico genuinamente brasileiro tem
permeado a carreira do arquiteto mineiro Gustavo Penna.
Palavras, sons, poesia e prosa transmutam-se e reaparecem
como símbolos em suas obras. Penna é autor
de trabalhos singulares em programas de naturezas distintas.
Todos os seus projetos, cerca de 500, foram desenhados
em seu escritório, um sobrado no centro de Belo
Horizonte. É lá que Penna convive com os
"fantasmas" da casa - o sobrado pertenceu a
seu avô - e, aos 51 anos, divide com colaboradores
o prazer de gerar arquitetura.
Para conhecer mais sobre sua obra, pode-se acessar o site
www.gustavopenna.com.br.
Vale a viagem. |
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| É possível falar, hoje,
em uma arquitetura brasileira? |
A precisão do que é
arquitetura do Brasil tem de ser definida. Temos hoje
escritórios que são agências de
empresas internacionais, atuando de costas para toda
a produção arquitetônica histórica
- desde a colônia e até da indígena
- que forma a massa cultural do Brasil de hoje. Em
vez de interpretar nossas influências do passado,
interpretam as influências do contemporâneo.
Somos imprecisos nesse sentido. Falamos brasileiro,
temos música brasileira, dança brasileira,
muita coisa brasileira, mas ainda não sabemos
o que é arquitetura brasileira. No momento,
é importante precisar o que é a arquitetura
brasileira. Que pelo menos exista uma opinião
expressa com precisão e outra dita com igual
precisão, mesmo que divergente dessa primeira.
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| A arquitetura brasileira já
teve traço e produção consistentes.
Isso se perdeu? |
Acho que está se perdendo.
Se observarmos a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro,
parece que estamos em Miami; chegamos a algumas regiões
em São Paulo e acreditamos estar em Dallas,
na Coréia ou Bangcoc. Não se sente a
questão tropical do nosso país, da nossa
linguagem e do nosso jogo de cintura. Não está
ali impressa a característica do brasileiro,
esse sujeito que é cordial. Muitas vezes, vejo
que existe um Brasil de costas para o Brasil. Porque
ele interpreta ou avalia como de segunda categoria
tudo aquilo que é popular. Já ouvi professor
da USP afirmar que Adélia Prado e Manoel de
Barros são poetas de segunda categoria. É
muito triste ver esse Brasil recusar o que é
brasileiro, o que é interior, o que é
simples, o que é ainda em formação.
Temos que fazer um esforço, mesmo que seja
de despojamento, de retornar o olho para o fazer brasileiro,
para a mão do povo. Lina Bo Bardi já
dizia isso como provocação.
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| Em algum momento nossa arquitetura
teve esse olhar? |
Acho que sim. Por exemplo, quando
Lúcio Costa tentou criar as bases para os arquitetos
brasileiros. Ele falava para olhar o clima, a topografia,
as funções. Acho que o arquiteto brasileiro
tem que ser mais substantivo e menos adjetivo. Mais
substantivo em reconhecer o calor, o sol, o vento,
a vegetação, o jeito de viver do brasileiro.
E não é tanto adereço, e sim
a consistência do espaço. O que ele realmente
diz e simboliza, porque uma das funções
da arquitetura é a de construir símbolos.
Estamos simbolizando nosso viver. Ao longo do tempo,
estamos sempre interpretando os lugares. É
sempre o mesmo gesto, sempre o homem interpretando
o lugar e vivendo nesse lugar. Ele interpreta o lugar
para que ali caibam seus sonhos e seus símbolos.
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| Você afirma que a arquitetura
brasileira chegou a ter suas bases com Lúcio Costa.
Onde elas se perderam? |
A pesquisa do modernismo deveria
ter continuado. Ela se perdeu na invasão de
alguns modelos. Não sei se foi porque o modernismo
era um estilo associado ao governo de Getúlio
Vargas e ao Estado Novo. O fato é que se criou
um estilo que dominou a construção de
edifícios públicos naquela época.
Acho que, depois, quando houve rearranjos políticos,
entrou-se num momento de bolha - o estilo foi junto
com esse rodízio de poder. Entraram mil coisas:
em Minas, por exemplo, voltou o “colonioso” e o discurso
inicial se perdeu. Era um discurso colocado pelo Oscar
Niemeyer como atitude extremamente austera, no sentido
de não ser dispendiosa, porque realizada com
poucos recursos. Havia provocação no
concreto, mas não era a da arquitetura de vestimenta
riquíssima. A pele da arquitetura modernista
era muito simples. Porém, os movimentos internacionais
são muito sedutores e temos a mania, de nação
em formação, de copiar. O pós-modernismo
entrou e já foi embora; o deconstrutivismo
entrou e deu uma balançada. Acredito que continuamos
tendo que construir com o jeito brasileiro, porque
toda vez que se traduz uma arquitetura para o Brasil
trai-se a arquitetura de lá e de cá.
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| No Brasil de hoje persiste a figura
de Oscar Niemeyer como arquiteto-modelo. Como o senhor
avalia esse fato? |
Em minha opinião, Oscar Niemeyer
tem o mérito, no sentido cultural, de ter ligado
a palavra Brasil à arquitetura. Existia Brasil
e não existia arquitetura. A arquitetura nossa,
o que era? Era a do Império, da estrutura colonial
brasileira transposta dos portugueses, que depois
substituímos por um ideal francês. Não
tínhamos arquitetura como expressão
brasileira. Houve, em Minas, Aleijadinho, um arquiteto-escultor.
É inegável a arquitetura que ele fez.
Porém, é uma arquitetura que ficou confinada
ao interior de Minas Gerais. Porque ali não
podia vir o modelo importado, como eram todas as igrejas
do litoral brasileiro. Esse era um arquiteto brasileiro,
mas quem de fato fez a ligação entre
arquitetura e Brasil foi Oscar Niemeyer. E ele é
tão incrivelmente forte que é difícil
haver outras expressões de arquitetura brasileira
em torno dessa figura exponencial e brilhante.
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| A figura tão forte inibe o
surgimento de novos talentos? |
Não, mas deve inibir a visão,
o olhar dos outros sobre a produção
arquitetônica no Brasil. Fui a Brasília
com 12 anos de idade, numa excursão de colégio
- meu pai era construtor de Brasília e construiu
o Catetinho -, e vi a obra do Niemeyer. Já
conhecia a Pampulha, onde meu avô tinha casa,
aonde eu ia sempre, e conheci aquilo em que meu pai
tinha participado. Isso ficou marcado no seu coração
para o resto a vida. Daí para a frente, fui
arranjando outros professores, relacionei-me com muita
gente nessa caminhada, mas quem me despertou foi Oscar
Niemeyer.
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| Você integrava um movimento,
denominado pós-modernismo mineiro, surgido nos
anos 80, que fundou até uma revista para mostrar
o que estava sendo produzido. Que aconteceu com esse movimento? |
Nunca fiz nada pós-modernista.
Veja o prédio da TV Bandeirantes, que é
de 1981, 20 anos atrás: é limpinho,
nunca tive intenção decorativa no projeto.
Na época em que a revista Pampulha surgiu eu
também não fazia parte - entrei em reportagens
dela, mas não integrava seu corpo editorial.
Já ouvi falar em escola mineira e em pós-modernismo,
e que eu estava lá. Mas Minas, como já
disse Guimarães Rosa, são muitas. As
arquiteturas de Minas também são muitas,
e o fato de eu discordar do que outro faz não
quer dizer que esteja em antagonismo com ele. Devemos
ter apreço imenso pela pluralidade e pela diversidade,
pois o nivelamento cultural, o alinhamento são
terríveis. Mas o movimento proliferou. Veja
que, depois de Minas, surgiram vários outros
grupos que se manifestaram na cena nacional. São
Paulo e Rio, que eram os únicos que falavam,
passaram a ouvir também. Então, hoje
existe um debate mais ampliado. Se você está
aqui é porque está ouvindo o Brasil.
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| Qual sua avaliação
do crescimento das cidades brasileiras hoje? |
Em todo o Brasil, as cidades estão
horrorosas, não importa onde estejam. Estão
todas crescendo de forma completamente absurda, sem
nenhuma diretriz de planejamento. Raríssimas
cidades conseguiram configurar alguma coisa um pouco
no início, uma reação, mas que
não chega de forma nenhuma a se contrapor a
sua avassaladora transformação em espaços
desumanos. A dimensão do arquiteto nunca foi
tão necessária, porque cada vez o homem
vai ficar mais urbano. As dimensões do edifício
estão além da construção
do mercado. Ele tem de ser lugar de o homem viver,
de o homem se sentir bem. Sou contra os prédios
espelhados, porque eles separam os homens. São
prédios mudos, que às vezes refletem
outro prédio mudo. Esse modelo reflete o quê?
Reflete o dinheiro, a opulência, aquele ser
que olha de lado, que despreza. O prédio espelhado
me dá essa impressão. Estamos fazendo
esses prédios que são máquinas
terríveis. Devemos voltar a dar dimensão
humana às edificações.
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| Isso pode ser feito sem esses materiais? |
Prefiro não depender desses
materiais sedutores. Não quer dizer que seja
contra a pessoa que faça, sou contra o material.
Existem prédios espelhados que são proporcionalmente
lindíssimos. Mas Anne Louise Huxtable já
afirmou que está cansada de ver prédios
bonitos e de péssima arquitetura. É
interessante esse contraponto. Imagino a possibilidade
mínima de fazer uma arquitetura brasileira,
realizada com pouquíssimos recursos, barata,
durável e sem economia de expressão.
Mas o material não precisa necessariamente
ser requintado, sofisticado.
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| Você desenvolve programas variados:
casas, escolas, pavilhões, edifícios residenciais.
Existe um com o qual mais se identifique? |
Classifico-me como um clínico
geral na área de arquitetura.
Porque detesto - é estrutural em mim - a rotina.
Acho que, se eu fosse um especialista em hospital,
acabaria viciando, criando fórmulas. Por exemplo,
fiz várias televisões. Mas nunca poderia
dizer que sou um especialista, porque nunca uma é
igual a outra. A atuação do especialista,
o diálogo com a mesma pessoa, o mesmo tipo
de cliente, tende a ser um pouco rotineira. O fato
de eu fazer algo ligado à arte, um monumento,
um centro de feiras é muito provocativo e instigante.
Ao arquiteto tudo interessa. Interessa um pouco da
política, do jogo de futebol, da última
tecnologia da impermeabilização, da
acústica, das questões antropológicas
e sociológicas do mundo contemporâneo;
da poesia, da filosofia, do fazer artístico.
Tudo isso está na mesma panela, na caçarola
do arquiteto.
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| O mercado imobiliário parece
não atraí-lo muito. Ele é um exemplo
dessa insipidez? |
É o mais bem-acabado exemplo.
Hoje em dia, o mercado imobiliário está
produzindo arquitetura de duas dimensões: planta
e fachada. As fachadas são idênticas.
Se você pegar um prédio da periferia
em qualquer cidade e um prédio produzido numa
área central, verá que são feitos
da mesma forma. Não se trabalha a base - então
não há nenhuma relação
com a rua. Os prédios mais sofisticados têm
guarita, que parece uma vitrine para porteiro. E a
portaria não tem vínculo com o prédio,
mas também não precisa. E, em cima,
termina sem coroamento. Isso é uma deselegância
para com a cidade. Então, nesse setor, o arquiteto
que trabalha caprichosamente - mesmo com certo vagar
- é até evitado, porque tira eficiência
do sistema. Eficiência entre aspas, porque esse
sistema está construindo cidades desumanas,
sem carinho de um prédio com o outro, sem diálogo.
Os prédios são todos narcisos e ninguém
conversa com ninguém. Na arquitetura, o prédio
precisa ter lealdade com o prédio ao lado,
com a rua. Mesmo que o edifício vizinho seja
feio, que a rua não seja das mais bonitas.
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| Como você trabalha espaços
internos e áreas externas? |
Procuro deixar que os espaços
internos e externos sejam equivalentes, contínuos,
porque somos um país centrífugo. Precisamos
tirar o calor de dentro de casa. Temos que expandir
nossos espaços num contínuo e dar ao
espaço externo o mesmo status de arquitetura.
Não quero que meu edifício seja um objeto
que possa ser colocado em qualquer lugar, e isso ficou
crítico porque trabalho na montanha. Então,
além do prédio, existe sempre um acréscimo
do baldrame, que vai fazer com que o edifício
encoste no terreno. Transformo esses espaços
como constitutivos da arquitetura. Na qualidade da
relação do edifício com o chão
é que está a boa arquitetura.
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O aço é um elemento
presente na arquitetura mineira.
O material lhe atrai? |
Pisamos em chão de ferro.
Na extração, Minas é espoliada.
O aço é tirado daqui e eu nem sei para
onde foram essas montanhas. Acho que foram refeitas
em outro país, porque sai muito mais de minério
do que volta de aço. Então, para os
mineiros, o aço é questão atávica.
Temos excelentes calculistas e a obrigação
de provocar esse pessoal para que tenhamos uma estética
brasileira do aço, assim como Niemeyer fez
com o concreto. Ter linguagem própria. Caso
contrário, vamos copiar os japoneses, os alemães
ou os holandeses. Ou então reproduzir Renzo
Piano e Richard Rogers. Aí, como não
temos a técnica para fazer as usinagens, fica
essa coisa risível, mal-realizada. As empresas
do aço deveriam promover um debate nacional
sobre isso.
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Gustavo, você já desenvolveu
cerca de 500 projetos.
Quais são suas metas hoje? |
Gostaria de estar fazendo uma arquitetura
para o lugar do terreno. Interpretar o lugar político,
cultural e social do Brasil e colocar tudo na arquitetura.
Tentar dizer que nossos valores devem ser incorporados
no discurso arquitetônico. Acredito numa frase
que escrevi: se a melhor relação entre
uma coisa e outra é o amor, e a arquitetura
é a relação entre o edifício
e o lugar, a arquitetura é o amor entre o edifício
e lugar onde ele está assentado. Esses dois
elementos constituem a percepção arquitetônica
e têm de estar em profundo entendimento. Isso
é dificílimo e é minha busca.
Aos 51 anos, acho que estou começando a poder
dizer isso para mim mesmo. A arquitetura é
fundamental para definir o perfil de um povo, seus
valores e seu caráter. Quero descobrir o que
existe de comum nessa gênese do fazer arquitetônico
no Brasil. Mesmo que a gente tenha que voltar para
trás, voltar a Aleijadinho, a Lina Bo Bardi,
revisitar nossos ritmos, nossos MM Roberto, Oswaldo
Bratke, Rafaelo Berti.
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Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 256 junho 2001
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