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| Jaime
Lerner |
“Uma visão estratégica
da cidade deve procurar
o equilíbrio de potencialidades
e necessidades” |
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O arquiteto e planejador
urbano Jaime Lerner nasceu em Curitiba, em 1937.
Engenheiro civil (1960) e arquiteto (1964) pela Universidade
Federal do Paraná, foi prefeito nomeado da capital
paranaense por duas vezes e eleito em 1989. Exerceu o
cargo de diretor da Escola de Arquitetura de Curitiba
e, em 1975, foi consultor de urbanismo da Organização
das Nações Unidas. É membro honorário
do Real Instituto de Arquitetos do Canadá e do
AIA-Instituto Americano de Arquitetos.
Foi eleito governador do Paraná em 1994
e reeleito em 1998 |
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"Os condutores de
política econômica, em nosso país,
não têm visão de cidade. Somos para
eles a externalidade de um problema econômico" |
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"As cidades não
são problemas, são soluções.
Pode-se resolver melhor os problemas das pessoas, de habitação,
de transporte, de educação, de saúde,
de meio ambiente,
por meio das cidades" |
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| À frente
do Ippuc-Instituto
de Pesquisas e Planejamento Urbano de Curitiba, Jaime
Lerner foi um dos principais artífices das mudanças
naquela capital. Há segredos nisso? Não
deixar de fazer as coisas simples por elas parecerem simples
é a recomendação de Lerner, que se
define como um arquiteto de transformações
e está em seu segundo mandato como governador do
Paraná, depois de ter sido prefeito de Curitiba
por três gestões. |
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| No final de junho, o Senado aprovou
o Estatuto da Cidade, projeto de lei que define diretrizes
gerais de política urbana. Qual avaliação
o senhor faz desse instrumento? |
Ele estava há muito tempo
em discussão [o projeto de lei é de
1989]. É um reforço de algumas coisas
que podem ser melhoradas, mas não é
a essência de uma política urbana.
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| Qual seria, então, a essência
de uma política urbana? |
Primeiro, é ter um país
mais generoso com as cidades. Há hoje uma visão
muito trágica em relação aos
problemas delas. Os condutores de política
econômica, em nosso país, não
têm visão de cidade. Somos para eles
a externalidade de um problema econômico, quando,
na verdade, as cidades são indutoras de um
processo de transformação. Os países
que não têm sido generosos com suas cidades
não o são com suas populações.
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| Como alterar essa visão trágica
das cidades? |
Trata-se de questão cultural.
Em todos os países que separaram as atividades
econômicas dos assentamentos humanos aconteceu
a tragédia, porque a cidade é uma estrutura
de vida e de trabalho juntos. Se a economia é
pensada separadamente do modo de vida das pessoas,
acontecerão coisas que não são
boas. Temos hoje, em nosso país, estruturas
muito sofisticadas responsáveis pelas cidades
e, às vezes, elas não são capazes
de dizer para onde a cidade vai e do que vivem as
pessoas que moram ali. E isso é essencial,
porque há maneiras de trabalhar na indução
do crescimento das cidades. Curitiba é exemplo
claro disso.
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| O que o arquiteto pode fazer para
mudar essa situação? |
O arquiteto é, na essência,
um profissional da proposta. Não somos constatadores.
Temos a possibilidade imensa de transformar e não
podemos perder essa oportunidade única. Por
isso, quando lecionava sempre destaquei a meus alunos
a importância do desenho, porque com ele se
pode fazer antes.
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| No Brasil, há exemplos de
cidades que estariam trilhando o caminho de Curitiba?
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Em todas as cidades que caminharam
no sentido de mudar, de avançar, há
resultados positivos, mas Curitiba é o lugar
onde aconteceu o maior número de transformações
significativas. Tenho afirmado continuamente que a
cidade não é tão complexa quanto
os vendedores de complexidades querem nos fazer acreditar.
Para a transformação há alguns
pontos que são essenciais: vontade de mudar,
visão solidária e, também, planejamento
estratégico, porque se ficarmos apenas atrás
das necessidades de uma cidade não alteramos
nada. Para mim, visão estratégica da
cidade é, ao mesmo tempo, trabalhar entre o
que é fundamental e o que é importante,
procurando o equilíbrio entre potencialidades
e necessidades.
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| Transforma-se uma cidade sem recursos?
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Mudar uma cidade exige recursos,
mas não é só isso, porque cada
problema demanda uma equação de co-responsabilidades.
Veja o caso do lixo, em Curitiba. Precisávamos
reduzir a quantidade. Fizemos uma análise e
concluímos que um terço dele poderia
ser reciclado, outro terço poderia ser transformado
em composto orgânico e o restante teria de ser
trabalhado em aterro sanitário. Era necessário
convencer a população de que não
se tratava de construir grandes usinas de tratamento
de lixo, mas de fazer com que cada moradia se transformasse
numa usina de separação. Então
montamos uma equação de co-responsabilidade,
em que cada pessoa implantou esse processo em sua
casa. Fazemos isso há 12 anos e, em Curitiba,
70% da população realiza essa separação.
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| Qualquer cidade pode passar por essas
transformações? |
Temos uma imensa possibilidade de
fazê-lo, e não fazemos porque sempre
queremos a grande transformação. E a
mudança de uma cidade pode se iniciar de maneira
muito simples. Começamos o atual sistema de
transporte de Curitiba observando o que lhe era essencial.
Ele precisava ter rapidez, conforto e freqüência
razoável. Começamos com uma linha com
canaleta exclusiva, transportando 25 mil passageiros
por dia. Fizemos aperfeiçoamentos, aumentamos
o número de linhas, de alimentações,
integrações, terminais, criamos o Ligeirinho
e hoje transportamos 2 milhões de passageiros
por dia. Atualmente, esse sistema está sendo
analisado em 18 cidades norte-americanas e Los Angeles
já está começando a implantá-lo.
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| Por que as transformações
parecem ocorrer de forma mais rápida em Curitiba?
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Primeiro, porque sempre tivemos um
compromisso com a simplicidade. Se você tem
uma solução simples, não deixe
de adotá-la só porque ela é simples.
Segundo, não fomos prepotentes de querer ter
todas as respostas antes. Começar é
importante, porque só o começo dá
a oportunidade de corrigir. O planejamento da cidade
tem uma trajetória que a população
está sempre corrigindo. Apresenta-se uma proposta
para a comunidade, ela propõe outra coisa e
tudo isso vai sendo reciclado. Isso é que é
bonito em um processo de transformação.
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| Há alguma receita para mudar
o perfil de uma cidade? |
A cidade é um grande cenário
de encontro. Uma cidade humana é aquela em
que existe a integração de funções
- habitar, recrear e trabalhar, tudo junto. Quando
você mescla rendas, tem a cidade mais humana
porque um presta serviço para o outro. E, na
questão da segurança, também
é melhor: uma cidade com vizinhança
diversificada é menos violenta do que aquela
que cria guetos.
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O trabalho feito pelo senhor em Curitiba
e, agora,
no estado habilita-o como candidato à Presidência
da República? |
Quando estava no Ippuc, nunca pensei
que seria prefeito de cidade. Aconteceu. Quando prefeito,
nunca pensei em ser governador. Aconteceu. O importante
é fazer sua tarefa de transformação.
Ao longo da vida estamos num processo de qualificação,
de enxergar cada vez mais a sociedade. Então,
não é uma decisão minha. Pode
acontecer, se as pessoas entenderem que tenho a resposta
para algumas coisas. Há anos venho trabalhando
na vida das cidades e sempre defendi uma postura não-contemplativa.
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| Como as cidades se incluem nessa
situação? |
As cidades não são
problemas, são soluções. Pode-se
resolver melhor os problemas das pessoas - de habitação,
de transporte, de educação, de saúde,
de meio ambiente - através das cidades. Nunca
concordei com a visão que dissocia o planejamento
de um país da população. Se olharmos
o mapa de uma cidade, não notamos uma estrutura
de crescimento. Mas a cidade é orgânica;
encontrar essa estrutura é uma arqueologia
estranha onde se capta um desenho escondido. No estado,
é a mesma coisa. Num país, é
preciso saber qual o espaço geográfico
por onde a população vai se concentrar
e ter uma definição de como explorar
os recursos naturais, que tecnologia utilizar, como
estabelecer qualidade de vida para as pessoas na cidade
e no campo, como distribuir o que o país produz,
quais os princípios éticos dessa sociedade.
Tudo é uma questão clara de definição.
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| Hoje prevalece a visão que
separa o planejamento do país da vida das pessoas?
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Infelizmente. Não quer dizer
que não se pense nas pessoas, mas temos que
imaginar vida e trabalho juntos. Isso vale para uma
cidade, para um estado e para um país, que
podem ser encarados de duas maneiras: uma é
projetar a tragédia, manipular a miséria;
a outra é concentrar energia para mudar tendências
indesejáveis. Gosto de trabalhar com a segunda.
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| Curitiba teria sido considerada o
modelo de cidade sem a existência do Ippuc? |
Não. Antes do Ippuc, Curitiba
tinha uma visão de planejamento que, como em
muitas cidades daquela época, se restringia
ao zoneamento e ao sistema viário. O instituto
passou a ser o órgão de definição
da cidade, de planejamento contínuo e como
agente de transformação, e não
só um planejamento de constatação.
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| O Ippuc foi constituído na
época do governo militar. Ele teria a mesma eficiência
se nascido em outra situação? |
O Ippuc nasceu com uma visão
que combatia o autoritarismo e abria mais espaço
para a discussão da cidade. Ele sempre foi
um fórum de debates, sem impor nada, mesmo
porque a visão estratégica da cidade
é um jogo em que o início ora cabe à
população, ora ao próprio planejamento.
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| Antes de ser governador, o senhor
foi prefeito de Curitiba. Qual a diferença essencial
entre os dois cargos? |
O prefeito está mais perto
da população, suas transformações
estão mais no dia-a-dia. Em Curitiba, chegamos
a fazer uma mudança do centro em 48 horas e
construímos a Ópera de Arame em dois
meses, dentro da lei. São processos e decisões
mais rápidos. No estado, porém, eles
dependem de cada município. Criamos o programa
Paraná Urbano, que auxilia os municípios
a desenvolver seus projetos e estabelecer prioridades.
Com ele, colocamos à disposição
de 399 municípios cerca de 1 bilhão
de reais, para obras que melhoraram a qualidade de
vida.
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| Em qual das duas funções
o senhor se sente mais à vontade? |
Gostei mais de ser prefeito, mas
como governador encontrei uma maneira de, ao mesmo
tempo, ser parceiro ou auxiliar de prefeito de 399
cidades, de ser um indutor de mudanças urbanas.
Hoje temos cerca de 80 municípios que, com
nossa orientação, transformaram seus
fundos de vales, antes poluídos, em parques.
Atualmente, 202 municípios fazem a separação
do lixo. Há uma série de coisas que
aconteceram porque procuramos trabalhar em parcerias,
oferecer financiamentos. Mas as decisões são
dos municípios..
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| A reciclagem do lixo em outros municípios
do estado, além da capital, não era um programa
já antigo? |
O programa não existia, bem
como a transformação dos fundos de vales
em parques. Foi uma mentalidade que implantamos. Na
área do meio ambiente, um dos trabalhos mais
bonitos que temos feito é o da limpeza das
baías. Em muitos lugares gasta-se muito para
limpá-las - na baía da Guanabara estão
sendo investidos mais de 800 milhões de dólares.
Mais importante do que a obra em si é a mudança
da mentalidade no sentido de não continuar
a poluir. Estamos limpando nossas baías por
meio de um acordo com os pescadores: se ele pescar
peixe, é dele; se pescar lixo, compramos. Se
o dia não está bom para peixe, ele pesca
o lixo - em geral, latas, garrafas e coisas recicláveis.
E quanto antes a baía ficar limpa, mas peixe
ele vai ter. É uma maneira de trabalhar com
a co-responsabilidade, de transformar um problema
em solução.
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| O senhor citou exemplos de obras
feitas com a realidade local que deram certo. Sob esse
aspecto, Curitiba precisaria de um museu como o Guggenheim?
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Não estamos esperando um Guggenheim.
Temos um espaço extraordinário - um
prédio de Oscar Niemeyer, projetado como instituto
de educação e ocupado, há alguns
governos, por órgãos públicos
estaduais. Estamos desocupando a área para
transformá-la num museu com grande ênfase
para a arquitetura. O problema não é
o espaço, mas o acervo. Se entidades como o
Guggenheim, o Pompidou e a Tate Gallery quiserem fazer
acordo de acervos conosco, por que não?
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| Que acordos podem ser feitos? |
No mundo inteiro, os grandes museus
expõem no máximo 8% do seus acervos,
e está ficando caro para as instituições
manter essas obras em condições ideais.
A lógica manda que o acervo circule mais. Então,
com o prédio de Niemeyer com mais de 30 mil
m2, num local maravilhoso, integrado a um parque,
poderemos ter um dos grandes museus do país.
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| O arquiteto-governador continua projetando?
Com que trabalhos o senhor está envolvido atualmente?
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Não projeto sozinho, mas com
uma equipe. A Vila Rural - há hoje cerca de
400 delas - é desenho meu. O tubo do expresso
é também desenho meu, mas participo
em equipe. Sento-me à prancheta com ela, e
muitas vezes as idéias são discutidas
e mudadas. No momento estamos reciclando um parque
de exposições agropecuárias,
para transformá-lo num parque da ciência.
Será o La Villette caboclo.
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| Como o governador-arquiteto avalia
o desejo da maior parte dos profissionais de criar o Colégio
Brasileiro de Arquitetos? |
Acho fundamental. A classe está
madura para isso, como já aconteceu em outros
países. É um caminho político
trabalhar o Congresso nessa definição,
e me disponho a trabalhar nesse sentido. Quero ouvir,
dialogar e eventualmente ajudar a encaminhar essa
proposta.
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O senhor se define como arquiteto, urbanista ou
político?
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Diria que continuo sendo arquiteto.
E acrescentaria: um arquiteto de transformações.
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Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez e Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 258 Agosto 2001 |
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