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| Billie
Tsien |
“Um edifício deve ser
mais
do que uma imagem: deve ser construído com
integridade
e ter longevidade” |
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Billie Tsien formou-se
em em 1971 em Belas Artes pela Universidade Yale. Entre
1971 e 1975 dedicou-se ao ensino e à pintura. Formou-se
em arquitetura na Ucla em 1977, mesmo ano em que começou
a trabalhar com Tod Williams. Tornou-se sócia do
escritório em 1986. Foi professora em Parsons,
Harvard, Southern California Institute of Architecture,
Yale e na Universidade do Texas. |
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"Um trabalho comercial
oferece melhor pagamento, mas não é espontâneo.
E estamos mais felizes com uma atuação que
não resulte apenas em dinheiro, mas que nos permita
trabalhar de forma correta com esses valores"
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"Os governos europeus
dão melhor suporte a seus arquitetos. O apoio à
arquitetura local é evidente, por exemplo, no interior
da Espanha
e também na Holanda. Nosso governo nunca patrocinou
a arquitetura norte-americana.
E os empresários, pelo menos há algum tempo,
também não dão suporte a ela" |
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Maquetes do Museu do Folclore
Americano, 2000, Nova York |
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Johns Hopkins University
Student Art Center |
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O premiado
escritório Williams Tsien é um dos poucos
nos EUA onde se produz arquitetura sem pressa. Ali impera
a lentidão, proclamada nos textos
de Tod Williams e Billie Tsien. A ausência
de rapidez dá resultado: eles acabam de receber
dois prêmios nacionais conferidos pelo American
Institute of Architects - por uma residência em
Long Island e pela piscina
coberta da Universidade Cranbrook.
E tem mais: em dezembro de 2001 deve ser inaugurado o
Museu do Folclore, localizado na rua 53, na mesma quadra
do Moma, em Nova York.
Com a conhecida calma oriental herdada de sua ascendência
chinesa, Billie Tsien recebeu Fabienne Klotz e Fernando
Serapião para uma entrevista em seu estúdio
nova-iorquino, em frente ao Central Park. |
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Vocês pregam a sensibilidade,
a serenidade e o tempo como fundamentais para produzir
arquitetura. Como é dirigir um escritório
com essas premissas em um país como os Estados
Unidos, marcado pelo consumo e por grandes escritórios
de arquitetura?
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A maior parte de nossos projetos,
no que se refere ao programa, destinam-se a instituições,
como museus e universidades. Elas desejam edifícios
duradouros, que representem uma espécie de
inspiração e não sejam ligados
a uma única pessoa. Seguindo esse raciocínio,
os dirigentes dessas instituições possuem
uma espécie de mandato - quase um dever - para
fazer edifícios. Constrói-se um museu
com a idéia de que ele não dure apenas
cinco anos, para em seguida precisar ser reformado
inteiramente. Geralmente, essa é a idéia
de um trabalho comercial. Não estou menosprezando
esse tipo de trabalho: é apenas uma questão
de diferenciar valores. E quando se trabalha para
uma instituição os valores são
mais claros. Neste momento, consideramos isso importante.
Um trabalho comercial oferece melhor pagamento, mas
não é espontâneo. E estamos mais
felizes com uma atuação que não
resulte apenas em dinheiro, mas que nos permita trabalhar
de forma correta com esses valores.
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Outros escritórios de arquitetura
norte-americanos possuem esse pensamento? |
Acho melhor não comparar.
É muito fácil para quem observa de fora
dizer “Steven Holl ganhou aquele trabalho”, ou “Eles
não venceram o concurso”, ou, ainda, “Veja
quem ganhou este prêmio”, mas isso não
leva a nada. Acho mais positivo nos concentrarmos
em nosso próprio trabalho, sem comparações.
Temos de pensar que estamos em melhor situação,
qualquer um deveria achar isso. Mas, fora dos Estados
Unidos, nos identificamos com o trabalho do arquiteto
suíço Peter Zumthor, com quem mantemos
relação próxima.
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| Neste momento, arquitetos da Europa
têm bastante espaço nos Estados Unidos, projetando
museus, igrejas, centros culturais. Há uma disputa
por mercado entre europeus e norte-americanos? |
Acho que estão todos no mesmo
nível. Mas os governos europeus dão
melhor suporte a seus arquitetos. O apoio à
arquitetura local é evidente, por exemplo,
no interior da Espanha e, atualmente, também
na Holanda. Nosso governo nunca patrocinou a arquitetura
norte-americana.
E os empresários, pelo menos há algum
tempo, também não dão suporte
a ela. E agora, inesperadamente, os europeus estão
vindo para os Estados Unidos e conseguindo importantes
projetos institucionais. Esses arquitetos recebem
ajuda em seus países e também estão
recebendo suporte aqui. Mas isso tem acontecido há
pouco tempo, talvez menos de dez anos. E enfim, para
ser otimista, acho que quando um edifício é
projetado por um bom arquiteto todos ganham, pois
as pessoas sentem a diferença quando existe
boa arquitetura. Isso influencia positivamente o público
e os grupos que coordenam instituições.
Rem Koolhaas é um dos grandes nomes que estão
desenvolvendo trabalhos nos Estados Unidos.
E, no que diz respeito à arquitetura, isso
tem sido bom, pelo menos para os arquitetos sérios.
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| Você se refere à imagem
e o impacto dos edifícios, não? |
O interesse por determinados arquitetos
é uma nova espécie de atração,
pois essa disposição já existia,
sob outra forma, entre os norte-americanos. De qualquer
forma, este é um país muito atento.
A arquitetura não pode atrair somente pela
imagem. Um edifício precisa ter algo mais do
que isso, porque a imagem se esgota, pode ficar datada.
E as pessoas passaram a se sentir bem somente com
a imagem. Um edifício tem que ser construído
com integridade e ter longevidade. Essa posição
é muito difícil, mas, para nós,
fundamental, é um de nossos valores pessoais.
Quando viajo pelo exterior, porém, percebo
que isso está se tornando cada vez menos um
valor universal. Talvez estejamos fora de sintonia
com a época em que vivemos, mas, mesmo assim,
mantemos nossas idéias.
É, de certa forma e guardadas as devidas proporções,
o que imaginamos acontecer com Oscar Niemeyer. Ele
não está preocupado com a idade, pois
tem algo que o mantém vivo.
Trata-se de uma aventura muito pessoal.
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Quais as diferenças fundamentais
entre
os arquitetos europeus e norte-americanos? |
Muitos arquitetos europeus atuam
em parceria com empresas, com as quais dividem o trabalho.
Os grandes nomes da arquitetura na Europa comandam
a concepção do projeto, fazem o desenho
básico, e os parceiros desenvolvem aquilo que
chamam de engenharia, e que nada mais é senão
o projeto executivo. Além disso, os arquitetos
europeus são hábeis em lidar com escalas
reduzidas, uma vez que em seu dia-a-dia não
estão acostumados com a produção
em grande escala. Já os escritórios
norte-americanos, na maioria das vezes, desenham o
projeto em todas as suas fases. Embora nos Estados
Unidos o trabalho também seja dividido com
outros escritórios, estamos mais envolvidos
na feitura dos desenhos de concepção
do que os estúdios europeus, pois fazemos mais
do que desenhos básicos. Ainda nos sentimos
responsáveis por todo o processo, e estamos
muito avançados no que diz respeito à
totalidade dos desenhos construtivos. Isso diferencia
muito o produto final, pois depois de fazer o desenhar
da construção vamos supervisioná-lo,
e dessa forma temos maior controle sobre a obra.
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Como se reflete no trabalho de vocês
o fato de ambos serem professores? |
Existe uma diferença entre
pessoas que dedicam todo o seu tempo ao ensino e aquelas
que, como nós, dividem-se entre o escritório
e a universidade. Quem leciona em tempo integral é,
provavelmente, melhor professor. Nós ensinamos
muito esporadicamente. Estou terminando agora um período
no qual lecionei para uma turma reduzida na Ucla,
em Los Angeles.
Também ensino na Parson. Mas, quando ensinamos,
provocamos a ligação com a arte, uma
vez que, por não estarmos na escola o tempo
todo, temos uma percepção de mundo bastante
diferente.
Ensinar e estar presente nas universidades é
muito interessante, pois vemos o que outras pessoas
estão fazendo e mantemos contato com os estudantes,
o que sempre provoca boas conexões, estimula
novas idéias.
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| O trabalho em dupla não é
muito comum em arquitetura, que em diversos casos é
definida como ofício autoral. Como é criar
a dois? Existe uma divisão de tarefas? |
Temos interesses diferentes, mas
na mesma direção, com as mesmas metas.
Estamos próximos um do outro e, ao mesmo tempo,
separados; nossas “raízes”, porém, estão
entrelaçadas.
Isso pode não parecer claro para algumas pessoas
que trabalham com criação, mas também
não é tão incomum. Em alguns
casos, temos algumas divergências. Interesso-me
muito por materiais e pelo sentido de um lugar. As
coisas que interessam a Tod eu acho um pouco chatas,
mas ele diz que isso é ótimo, pois podemos
caminhar juntos na mesma direção e trabalhar
nos mesmos projetos.
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| A unidade entre diversas escalas
é um aspecto marcante do trabalho do escritório.
A que fatores atribui esse fato? |
Essa é, de fato, uma característica
de nosso trabalho. Com duas vozes e quatro olhos,
o resultado é mais compacto e tem tudo para
ser mais rico. Uma quantidade maior de pontos podem
ser abordados nos projetos: o entorno, os detalhes,
a construção.
Nosso trabalho não consiste em uma simples
figura, uma imagem de traços gestuais.
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| Em alguns textos vocês explicam
o aprendizado que os jovens arquitetos adquirem ao trabalhar
com interiores. Poderia falar um pouco sobre isso? |
Isso é particularmente uma
verdade local, da Costa Leste dos Estados Unidos,
sobretudo Nova York. Na Califórnia, os arquitetos
desenham edifícios para serem construídos.
Os profissionais que trabalham em Nova York passam
muito tempo fazendo somente interiores, e isso marca
de forma muito intensa a carreira deles, pois não
aprendem somente a técnica de desenhar cozinhas
e banheiros, uma vez que esta é a grande dificuldade
quando se faz o projeto de um loft. Depois do loft,
o grande trabalho é ser contratado para fazer
uma reforma ou um anexo. Nessa espécie de treinamento
real, no qual você tem de combinar tudo em espaços
pequenos, os detalhes tornam-se muito importantes
e há grande expectativa em relação
a eles. Isso gera uma forma de trabalhar, de colocar
as coisas juntas, de conectar um espaço ao
outro. Além disso, conhecemos a expectativa
dos clientes, pois são projetos pequenos em
escala, mas caros.
Num grande projeto não há tempo para
ver todos esses detalhes, principalmente quando se
é jovem. Ao trabalhar com pequenos projetos,
os detalhes passam a ter grande importância,
e aprendemos a transmitir beleza a essas coisas. Passando
por isso, a continuidade de seu trabalho terá
essa marca.
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| Em Work
Life, vocês escrevem sobre a relação
entre a arte e o uso nos mobiliários. Como funciona
essa relação? |
Tod e eu temos uma trajetória
ligada à arte. Formei-me em Belas Artes em
Yale e passei alguns anos pintando. Tod lecionava
matérias estreitamente ligadas à arte.
Temos um grande e profundo compromisso com ela. Sempre
tivemos percepção para a conexão
que faz da arte uma transformação do
normal. Ao mesmo tempo, temos um tipo de convite à
prática, uma predisposição, e
isso talvez por eu ser imigrante - sou da primeira
geração sino-americana, meus pais vieram
da China e possuem uma inclinação à
praticidade.
O pai de Tod e o meu eram engenheiros; eles tinham
a idéia de fazer coisas muito úteis,
que exatamente por isso seriam bonitas. É um
desafio fazer coisas bonitas e úteis, e tentamos
imprimir esses valores nos móveis que desenhamos.
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Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 261 Novembro 2001 |
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